Notas iniciais
Eu tinha que começar a resolver a situação toda, né?

Stiles olhava para a porta branca e imaculada, os sons de passos no corredor zumbiam no ouvido dele, ricocheteando.

Clic-clac, clic-clac.

Paciente do quarto 342, esperando atendimento médico.

Tic-tac, tic-tac.

Doutor Garcia, quarto 570.

Bip-bip.

Stiles suspirou, fechando os olhos.

Três dias atrás ele quase tinha perdido o pai dele, a única família que ainda restava. Desde então ele não tinha mais visto o homem — principalmente porque o choque causou uma recaída na situação da doença de Stiles, mas também porque ele tinha medo do que iria ver, pois ele não tinha visto o pai desde o momento em que ele levou o tiro.

Agora ele não sabia nem por onde começar a visita, não sabia como preparar o corpo e a mente dele para o que viria.

A porta parecia aumentar de tamanho na frente dele se abrindo como um portal maligno para algum lugar, parecia se esgueirar como uma coisa ruim chegando, um mau presságio. Stiles tinha medo de colocar a mão na maçaneta e entrar. Ele tinha medo do que iria ver, do que iria sentir.

Medo de se perder de novo dentro da cabeça dele e ninguém estar ali para puxar ele de volta — mesmo que ele soubesse que Derek estava a dez metros dele, apenas esperando por Stiles.

Mesmo assim não era fácil.

Ele se lembra do que passou quando a mãe morreu — os dias no hospital, vendo enfermeiras passando, indo e voltando com seus trabalhos, mas a mãe continuava na cama, sem melhorar, as noites frias e monótonas, com o único som de fundo das máquinas que mantinham ela viva.

E ele nem fazia ideia do que era melhor para ela, se continuar viva ou não, pois o sofrimento era grande demais.

Stiles tinha que fazer a escolha, encarar o presente.

Ele só não sabia como.

Derek olhava para o garoto, do outro lado do corredor. Stiles sentia os olhos do homem nas costas dele, pois ele disse que daria um tempo para Stiles se encontrar com o pai, já que ele sabia que os dois precisavam disso — não do tempo entre Stiles e Derek, mas o fim dessa espera entre pai e filho.

Stiles virou para ele, cara sem expressão alguma, tentando buscar forças no rosto escurecido pela barba do outro homem, mas ele não conseguiu captar nenhuma mensagem. Ele nem sabia se havia alguma mensagem para ser captada.

Ele só sabia que teria que entrar no quarto.

E não é que ele não soubesse como, afinal, era só entrar pela porta e pronto.

Ele tinha medo que a fantasia perfeita que ele teve enquanto seus lábios se entrelaçavam aos de Derek fosse terminar e só sobraria a dor.

Stiles respirou fundo e fechou os olhos, colocou a mão na maçaneta e abriu.

A primeira coisa que atingiu ele foi o cheiro do quarto, que era como o de qualquer outro do hospital, mas era misturado com o do Presidente. Veio também uma pequena corrente de ar quente, esvaindo-se em segundos na atmosfera do corredor.

Ao abrir os olhos ele se deparou com a calmaria do lugar, com o pequeno ruído do som dos batimentos cardíacos registrados pela máquina e o som da respiração pesada do pai.

Que dormia.

Os lábios de Stiles queriam se abrir em um pequeno sorriso, mas os olhos largaram lágrimas que foram descendo pelo rosto dele, fazendo a pele se umedecer e os lábios tremerem rapidamente.

“Pai…” Saiu da voz dele, baixinho, sussurrando.

Os passos até a cama foram rápidos mas silenciosos e a mão do garoto se apegou ao braço do homem que estava deitado. Stiles queria sentir na pele dele se o pai estava vivo, ali de frente a ele. Ele precisava sentir, precisava ver que isso não era a mesma coisa que havia acontecido com a mãe dele.

E não era.

No lugar da pele fria da mãe, da respiração quase inaudível, ele agora sentia o calor subindo pela pele envelhecida do homem e conseguia ouvir a respiração dele se transformar em pequenos roncos, durante o sono.

Ao ouvir mais uma vez o pai ressonando, Stiles não conseguiu conter o sorriso que se espalhou por entre as lágrimas que molhavam o rosto dele.

A mãe dele apertou o braço do pai instintivamente, sem nem perceber, causou o interromper do sono do homem, que abriu os olhos calmamente.

Os olhos do pai, ainda sonolentos, foram se acostumando a luz do quarto, ao mesmo tempo em que se cruzaram com os olhos do filho, que soltaram mais lágrimas.

Stiles apertou ainda mais o braço do pai, mordendo o lábio para não deixar o choro tomar som.

“Filho.” A voz saiu embargada mas foi o suficiente para ele ouvir.

“Oi, pai.” Stiles respondeu, sussurrando.

“Tudo bem?” O homem na cama perguntou.

“Pai…” Stiles falou, sacudindo a cabeça. “Eu deveria estar fazendo essa pergunta e não você.”

O homem bufou uma risada curta.

“Stiles, você sabe muito bem que eu tenho um milhão de pessoas aqui me cuidando e prontas pra me ajudarem quando eu precisar.” O homem parou para respirar. “Você, meu filho? Você só tem um pai e ele ainda se esquece da família durante o ano todo. Eu deveria estar cuidando de você.” A fala terminou calmamente com o Presidente alcançando a mão de Stiles que agarrava o braço dele para entrelaçar os dedos.

“Pai…” Stiles começou a falar, mas parou.

Por mais que doesse admitir, tudo que o pai dele falou era verdade.

“Eu sei, filho.” O homem apertou a mão dele. “Eu sei que eu não fui um bom pai. E me custou levar três tiros pra entender isso. Eu não posso mais deixar a sua vida passar e eu nem me interessar pelo que está acontecendo.”

“Pai, eu sei que é complicado, você tem aí um país cheio de gente pra cuidar também.” Stiles falou.

“Mas eu só tenho um filho. Só você, Stiles.” Ele falou. “Enquanto o país se preocupa comigo, eu esqueço que você não tem mais a sua mãe pra se preocupar com você…” O pai de Stiles mordeu o lábio assim que se lembrou da mulher. “Ela sabia o que fazer sempre. Ela saberia como dividir o tempo. Ela…” Ele parou de falar e olhou para o filho. “Ela não iria deixar a coisa mais importante do mundo escapar dos olhos dela sem dizer todos os dias o quanto ela é importante. O quanto você é importante, Stiles.”

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, apenas se olhando.

Stiles suspirou, e quando tentou falar, a voz falhou.

“Por favor não me deixa sozinho, pai…”

Os dois se abraçaram.

“Eu não vou. Não. Nunca mais.” O homem falou aquelas palavras colado ao ouvido do filho, braços alcançando em volta dele em um abraço.

“Você não pode morrer…”