O filho do Presidente
7 Os pedaços de um fracasso
Notas iniciais
Depois de passar o dia de ontem assistindo lutas dos possíveis candidatos a guarda-costas, Stiles acordou meio perdido naquela manhã.
Ou melhor, ele percebeu que estava perdido.
Tudo à volta dele se movimentava rapidamente e as pessoas davam de tudo para seguir com a vida delas enquanto ele? Ele não tinha nada...
Ele havia se formado na faculdade meses atrás. Ele não tinha amigos, ele não tinha uma vida fora da Casa Branca, ele não tinha nada. Os dias se passavam com ele acordando tarde, indo fazer a mesma coisa que ele fazia todos os dias — nada — e terminava com ele indo dormir sem ter feito nada de novo.
E ainda tinha o fato de ele ainda não estar conversando direito com o pai dele.
Stiles não conseguia se resolver dentro da própria cabeça e as coisas não pintavam assim tão artisticamente positivas na visão dele.
Era complicado ser alguma coisa quando você tinha todo o dinheiro para ser o que quiser, mas existem um milhão de razões para você não ser nada de nada. Stiles poderia fazer literalmente o que quisesse, poderia sair de casa e ir para qualquer lugar do mundo, aproveitar de qualquer comida ou bebida, conhecer qualquer pessoa nos cantos mais remotos de qualquer lugar.
Mas existia aquela força política como uma parede, impedindo ele de simplesmente sair de casa como uma pessoa normal.
Pois ele não era uma pessoa normal.
Ele sempre brigava com as próprias ideias dele sobre o conceito de normalidade — mas no fim era tudo verdade, enquanto o mundo era cheio de pessoas normais que poderiam fazer coisas normais, Stiles tinha a possibilidade de fazer todas essas coisas, mas não poderia fazer pois ele não era uma pessoa normal.
Ele suspirou, olhando para o teto do quarto dele.
O que ele poderia fazer?
Nada.
Assim que ele decidiu por levantar e ir à cozinha para tomar o seu café — pois ele já havia pedido mais de uma vez para que não levassem mais nada para ele no quarto, porque ele precisava ser uma pessoa normal pelo menos dentro daquela casa — ele viu o pai dele ainda sentado na mesa do café, jornal na mão e tomando uma xícara de chá.
Stiles franziu o cenho mas se manteve em silêncio enquanto adentrava a cozinha.
“Bom dia, filho.” O presidente falou.
Stiles suspirou.
“Bom dia.” A resposta dele foi tímida e bem baixinha, quase inaudível.
“Tudo bem?” O pai dele perguntou. Mesmo que eles não tivessem se falado muito pelos últimos dias, o pai dele continuava por tratar ele com a mesma polidez de sempre.
Bom, ele sabia que Stiles tinha aqueles humores vez ou outra e que mesmo que as ideias dele fossem subvertidas, erradas ou dissessem coisas ruins sobre o pai dele, Stiles iria se arrepender e pedir desculpas. Ou pelo menos voltar a conversar com ele.
Stiles apenas assentiu a sua resposta à pergunta do pai.
“Que bom, então.” O homem falou e voltou para seu jornal.
Stiles suspirou. Ele sacudiu a cabeça antes de falar qualquer coisa que iria se arrepender no futuro, mas ele não conseguiria ficar em silêncio ao ver que o pai continuava tratando ele como se nada tivesse acontecido.
Ou melhor, ele não iria conseguir continuar vendo aquilo, pois o pai dele nunca tinha tratado ele mal.
“Pai, eu…” Assim que Stiles começou a falar, o homem tirou a atenção que tinha no jornal à sua frente e virou seu olhar para o filho. “Eu não sei se vale à pena eu pedir desculpas pra você.” Stiles falou.
O pai dele não disse nada, apenas assentiu, levemente.
“Eu não sei se vale à pena porque eu não iria ser sincero. Se eu te pedir desculpas agora provavelmente vai ser só porque eu me sinto mal e não porque eu sinto que devo me desculpar.” Stiles suspirou. “Mas eu queria que você soubesse que eu realmente te amo, okay?” Ele respirou fundo assim que terminou, fechando os olhos por um instante, para abrir em seguida e ver o pai dele com um pequeno sorrido no rosto.
“Eu sei filho. Tudo bem, não tem necessidade de você se desculpar se sou eu quem deveria estar fazendo isso.” O presidente começou a falar, mas logo foi interrompido pelo filho.
“Mas você também não tem que se desculpar sempre porque…” Stiles começou a falar rapidamente, mas o pai dele só levantou uma mão para que ele parasse de falar. Stiles deixou a boca aberta por uns segundos, sem palavra nenhuma a sair dela.
“Eu ainda não terminei, Stiles.” O homem falou e Stiles assentiu. “Nós dois cometemos erros de vez em quando, okay? Todos nós temos dias ruins e dias piores. Mesmo assim, a gente precisa se desculpar, precisa se entender, de uma forma ou de outra. Não importa se a gente vá se perdoar completamente e esquecer-se de tudo que passou, pois isso não é verdade, certo? A gente apenas precisa aprender a conviver com as coisas que acontecem e aprender a conviver com nós mesmos.” Ele colocou o jornal na mesa e se levantou da cadeira, caminhando em direção à Stiles, que estava perto da porta ainda. “A nossa família já é tão pequena que o que mais me dói é quando nós não podemos nos entender nem nas pequenas coisas, filho. Eu te amo, eu te entendo e eu sei que eu cometo erros também. E que eu continuo cometendo erros. Continuo cometendo os mesmos erros. Eu só quero que você saiba que isso não significa que eu não te ame.”
Stiles assentiu, abaixando os olhos para o chão assim que o pai chegou à frente dele. O homem colocou a mão no queixo de Stiles e levantou para que pudesse olhar nos olhos do filho.
“Não só uma vez eu gostaria de voltar ao passado e ter a nossa vida numa pequena cidade da Califórnia, eu você e a sua mãe.” Quando ele se lembrou da pessoa que os dois mais sentiam falta, Stiles sentiu um arrepio correr pela sua espinha. “Eu gostaria de ter aquela família simples que eu tinha. Mas agora parece que nós todos somos quebrados em pedaços e por mais que eu tente, por mais que você tente, as coisas nunca ficam no lugar.” O pai dele terminou de falar e abraçou Stiles.
O garoto sentiu os olhos se borrarem com lágrimas.
“Desculpa, pai.” Stiles sussurrou. “Às vezes eu me esqueço de que eu não fui o único que perdeu alguém.” Ele fechou os olhos e deixou algumas lágrimas escorrerem.
“Shh.” O pai dele o apertou mais forte. “Eu sei, Stiles. Nós dois perdemos alguém e não sei se algum dia virá outra pessoa pra pelo menos confundir a nossa mente e fazer esse buraco se encher com coisas boas. Eu só não aguento ter ver sofrendo e não poder fazer nada.”
“Eu sei, pai.” Stiles falou.
“Mas é frustrante ser um dos homens mais importantes do mundo e não poder nem amar o seu filho direito. É frustrante não saber como manter uma família de dois no lugar. Eu me pergunto todo dia se eu estou fazendo certo ou errado e eu nunca sei a resposta. Mas o que mais me dá medo é a possibilidade de eu saber essa resposta, mas ter vergonha de admitir que sou um fracasso.” O presidente abraçou o filho com força.
Stiles ficou em silêncio.
Ele também não sabia a resposta da pergunta.
Mas tinha quase certeza de que na verdade ele não queria é admitir que ele também era um fracasso.
Fale com o autor