O filho do Presidente
23 Lembranças
Notas iniciais
Stiles respirou fundo.
Dra. Morell estava à frente dele, sorrindo. O consultório era branco e imaculado, com móveis em design moderno, mas que não apareciam muito por cima dos tons relaxantes — nada ali exalava qualquer energia estranha.
Tudo era apenas calmo.
“Então, Stiles, eu gostaria que você me dissesse as coisas que você se lembra desses últimos três dias. Tudo que você lembrar. O resto eu vou ajudando, certo?” A mulher perguntou, dizendo as palavras com vagar, olhando para a prancheta no colo.
Stiles assentiu, respirando fundo outra vez. Ela não tinha visto o movimento que ele fez, mas ele precisava se acertar para continua falando.
Ele relaxou os ombros.
“Eu…” Stiles suspirou. “Eu estava trabalhando.” Ele disse e viu a surpresa dela, ao levantar os olhos do colo e mirar nele. “Depois de bastante insistência, meu pai finalmente me deixou sair de casa e começar a fazer alguma coisa.”
Ela sorriu.
“Isso é bom, Stiles. Eu não fazia ideia de como ia a sua vida, afinal faz tempo que você não me faz uma visita — o que cá pra nós, é uma coisa boa também. Mas agora que você está aqui, vamos fazer você ficar melhor de novo.” A mulher continuou sorrindo, mesmo depois de ter terminado de falar.
Stiles suspirou de novo.
“Então, eu estava trabalhando nessa pequena livraria, chamada Kitsune, quando eu ouvi a carreata com meu pai passando pela rua em frente. Eu estava falando com alguém quando eu ouvi o tiro, alguns minutos depois.” Stiles tremeu assim que se lembrou do momento. Ele sabia que o pai já estava bem, mesmo que não tivesse conseguido ver ele ainda. Mas ele ainda tinha na memória os sons, a confusão e o medo que ele sentiu.
Ele não queria perder a única família que ele tinha.
Além daquele momento ele já não conseguia mais se lembrar.
“As memórias ficam um pouco confusas a partir dali.” Ele falou para a doutora.
“Certo.” Ela assentiu calmamente, olhando para ele. Stiles estava sentado em uma poltrona perto de Morell, sentada em outra. “Você não consegue se lembrar ou você se confunde com as memórias?”
“Um pouco dos dois?” Ele respondeu calmamente, confuso com a própria resposta.
“Certo, o choque foi bastante grande, inesperado, é normal as pessoas esquecerem as coisas. Especialmente alguém com a sua condição e um momento de pressão.” Morell falou.
“Eu sei.” Stiles assentiu. “Eu sei.”
Desde que ele foi diagnosticado com transtorno bipolar há muitos anos, ele tinha vivido uma vida quase normal. Eles descobriram a doença logo depois da mãe dele morrer — Stiles teve uns episódios com transtornos eufóricos e mudanças de humor muito rápidas após o enterro, que foram desencadeadas pelo choque da perda. Ele passou dias na cama antes do Presidente levar ele a um médico, que encaminhou Stiles pra um centro psiquiátrico, onde ele foi diagnosticado.
Dra. Morell foi a pessoa que atendeu ele e depois acompanhou a evolução da doença.
A partir daquele dia, Stiles se tratou com remédios e conseguiu manter uma rotina de vida quase normal.
Mas esse outro choque fez com que ele tivesse um novo acesso sintomático — que desencadeou uma depressão aguda, impedindo ele de se lembrar dos remédios. Ele só voltou a si quando chegou à clínica.
“Mais alguma coisa que você lembra?” Ela perguntou.
Stiles tentou acessar o que tinha dentro da sua cabeça, respirando fundo.
“Eu me lembro de estar com meu…”
Meu o que?
O que seria Derek?
Eu mal o conheço direito, vi eles algumas vezes e sinto atração por ele, mas além disso nada existe. Eu não faço ideia do que o motivou a me levar pra casa e ficar comigo, cuidar de mim e ainda me trazer pra cá.
Bom, pelo menos é isso que eu me lembro de ele ter feito por mim — não creio que a minha memória tenha em pregado uma peça.
Eu acho.
“Estar com o seu?” Ela perguntou para Stiles, que saiu dos seus pensamentos e encarou-a, em confusão.
“Como?” Ele perguntou.
“Eu lhe perguntei com quem você estava. Estar com seu?”
“Estar com meu…” Stiles suspirou. “... amigo. Ele que me levou da livraria para casa e depois me trouxe aqui. Eu acho.” Ele completou a frase.
“Ah, sim. O jovem homem que lhe trouxe ontem. Ele é seu amigo?”
“Eu acho.” Stiles confessou. “A gente ainda não se conhece muito bem, mas acho que estamos no caminho.” Ele sorriu, meio estranho.
“Hum… Bom saber, Stiles. Você merece um bom amigo.” Ela falou, sorrindo também.
“É.” Ele falou, assentindo lentamente.
“Sabe, eu acho que você até poderia ir falar com ele depois — ele ficou a noite toda aqui te esperando.” Ela falou, sussurrando, como se alguém fosse ouvir eles e ela estava confidenciando um segredo para Stiles.
“Sério?” Ele perguntou, surpreso.
Derek ficou aqui a noite toda?
“Sim. Depois que você foi medicado, ele ficou do lado do fora, no corredor, esperando por notícias. Eu falei com ele e disse que ele poderia ir pra casa, pois tudo estava sob controle, mas ele não quis saber de nada e ficou por aqui. Hoje de manhã você veio direto pra cá enquanto ele estava na cafeteria, por isso você não viu ele.” Ela explicou. “Posso até apostar que ele deve estar na sala de espera logo aqui ao lado.” Ela sorriu.
Stiles sorriu também.
“Eu posso ir?” Ele perguntou, já se levantando da poltrona.
“Claro que pode, Stiles. Eu ainda quero conferir os teus remédios e ver se talvez nós precisamos de mais alguma coisa pra ajudar você a controlar os sintomas, pelo menos por alguns dias. E eu também quero acompanhar essas próximas semanas da evolução e tudo mais, certo?” Morell levantou a sobrancelha.
“Certo. Eu vou seguir todas as orientações.” Stiles assentiu, dando mais alguns passos em direção à porta.
“Você sabe que tudo isso é só pro seu bem, certo? Tomar os remédios e se cuidar só vai ajudar você a viver uma vida normal e é isso que todos nós queremos.”
Stiles só assentiu mais uma vez, já de costas para ela. Ele suspirou.
“Doutora?” Ele perguntou, apenas virando a cabeça.
“Sim, Stiles?”
“Você acha que eu vou conseguir ser normal? Será que algum dia eu não vou ter outro susto como esse e não vai haver ninguém pra me cuidar, dar meus remédios, me lembrar de que eu tô vivo?”
Ela sorriu.
“Nós não sabemos. Infelizmente, Stiles.” Ela suspirou, não desfazendo o sorriso. “Mas o que você pode fazer de melhor é tomar seus remédios, se cuidar e encontrar alguns amigos. Alguém que possa estar do seu lado. É sempre melhor encontrar alguém que possa dividir tudo com a gente.”
“Mas eu não vou jogar essa responsabilidade em cima dessa pessoa?” Stiles perguntou.
“Sim. Mas essa pessoa também vai jogar responsabilidades pra você. Amizade é uma coisa mútua. Qualquer tipo de amor tem que ser mútuo pra ser saudável, Stiles. E no seu caso, carinho, afeto e amor são coisas que fazem tudo ficar mais fácil e melhor.”
Ele olhou para ela, que sorria, e apenas assentiu antes de sair pela porta.
Stiles suspirou, fechando os olhos.
Carinho, afeto e amor são coisas que fazem tudo ficar mais fácil e melhor.
Ele suspirou de novo.
“Stiles?” Uma voz chamou por ele, quase sussurrando. Quando ele abriu os olhos, Stiles não conseguiu conter o sorriso.
“Derek?”.
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