O filho do Presidente
3 Eu sei/não sei mentir
Notas iniciais
Eu acho que eu não deveria ter dito aquilo pro meu pai.
Ou melhor, eu tenho certeza. A cara que ele fez ao ouvir as minhas palavras dizendo que ele não era um pai tão bom pra mim quanto ele poderia ser — especialmente porque ele é a única família que eu tenho — fez com que eu percebesse que o que eu disse, por mais que fosse a verdade, o machucou demais.
Eu me sinto mal por ter dito. Ao mesmo tempo, no entanto, é o que eu sinto.
E naquela hora eu não consegui mentir.
Eu não acho que meu pai seja um pai horrível, entende? Só que às vezes ele fica tão preso no meio da vida dele — e eu sei que na maior parte do tempo ele acredita que eu não sou mais a criança frágil que ele tinha nos braços — que ele tem fé, plena fé de que eu sou um homem formado e que consigo me virar sozinho.
Não que eu não consiga, mas muitas vezes eu me pego sozinho e divagando sobre as coisas. Eu me vejo perguntando a mim mesmo o porquê de as coisas serem assim, o jeito que eu sou e não sou, as coisas que eu faço e deixo de fazer.
Eu, do nada, sinto a fragilidade aparecer. Ou melhor, reaparecer. Ela não vem devagar, testando as águas antes de mergulhar, ela vem rápida como um raio e me atinge sem eu nem ter o tempo de me preparar.
E como um raio, o barulho só aparece depois. O caos só aparece depois.
Não que eu seja a pessoa mais caótica do mundo.
Eu só acho que, às vezes, eu gostaria de ter o meu pai do meu lado, sendo meu pai. Eu gostaria de alguém me entendendo e segurando a minha mão. Alguém que não fosse olhar para mim como um pedaço do Tesouro Americano, que deve ser cuidado e guardado em uma cela hermética, longe do mundo.
Outra vez, eu só queria ser um pouco mais normal. Pois os dilemas que adentram minha cabeça são coisas que todos têm. Mas a maioria dessestodostem alguém por perto, tem uma mão pra segurar e não sentem a pressão de não poder ser o que você é na maior parte do tempo.
Mas se eles sofrem da mesma forma que eu, e não tem quase ninguém assim como eu, eu gostaria de dizer que eu entendo de onde eles vêm.
Eu sinto que sou daquele mesmo lugar.
***
Derek olhou para as cadeiras onde estavam sentados os outros candidatos dispostos a concorrer pela vaga de guarda-costas. Um grande número de homens e mulheres dentro do auditório, olhando para o palco onde estavam psicólogos, médicos, chefes políticos de menor porte e servidores do exército, prontos para a primeira avaliação dos concorrentes.
Ele não se sentia nervoso.
Derek praticamente sabia que a vaga era dele. Ou melhor, ele só estava esperando os avaliadores reconhecerem aquilo, pois ele já sabia.
Ele poderia ser um dos mais jovens, mas ele tinha experiência, ele tinha o que precisava para ser chamado para o trabalho. Ele tinha os conhecimentos necessários — e muitos outros que não eram ensinados pelos meios comuns.
Ou legais.
Derek tinha todo o tipo de informação pronta para ser apossada por ele e usada a seu favor.
Sem falar que ele tinha o corpo e a mente muito bem preparados para dar o melhor de si e conseguir mais um feito para a vida já premiada que ele tinha.
Alguém chamou o nome de cada um deles, lendo as credencias que eles apresentavam. Derek não se sentia surpreso ou pressionado ao ver que muitos tinham o dobro dos anos de experiência e que alguns eram de um berço mais forte que o de Derek ou de uma linhagem com mais influência que a dele — até uma profissão que tivesse mais importância que um ex-soldado que trabalhava como segurança de um senador.
Mas Derek não tinha qualquer insegurança a respeito de si mesmo.
“Derek Hale. Condecorado na Marinha, honrarias no Exército. Segurança privada de Senadores e figuras políticas importantes. Recomendado por autoridades políticas e reconhecido por atividades de liderança sob pressão e condições desfavoráveis.” A moça falou as referências dele para o auditório.
Derek conseguiu ver a cara de reconhecimento de algumas pessoas ao mesmo tempo em que não via muita reação de outras.
Ele sorriu quando ela terminou de ler o que dizia sobre ele. Ele sorriu orgulhoso de si.
Eu sei que fiz um trabalho bom com todas as coisas que aparecerem nessa ficha.
Mas fiz um trabalho melhor com aquela que não aparecem.
Escolhido como o soldado mais bruto a combater uma guerra, matando trinta e sete invasores das tropas inimigas em menos de 1 minuto — sem armas de fogo. Temido por colegas marinheiros ao conseguir nadar milhas e milhas carregando corpos e material bélico. Reconhecido pela capacidade de combate psicológico contra sequestradores e pessoas com problemas mentais. Reconhecido pelo cuidado pós-choque de pessoas que sofriam ataques à bomba.
Contratado por várias ordens anônimas para silenciar pessoas.
Mais de setenta corpos nunca encontrados, duzentos e quarenta e sete corpos entregues e contando.
Derek sorriu ao refazer a lista de suas outras honrarias na cabeça. Ele sempre foi bem conectado em todas as frentes e sempre queria aprender mais e mais, ter mais experiência e ser a melhor arma — como um homem — que qualquer pessoa poderia ser.
Alguns que conheciam ele, diziam que a moral dele já estava abalada, distorcida.
Derek discordava.
Todas as vítimas que ele fez eram ladrões de grande porte, abusadores de crianças, criminosos frios que não tinham o mínimo de dignidade. Ele nunca matou ninguém que poderia ser redimido
Ele também nunca redimiu ninguém que deveria ser morto.
Ele não perguntava para a pessoa se ela era inocente ou não, Derek só aceitava um serviço quando ele tinha todas as provas do que o alvo dele tinha feito e todo o mal que havia causado.
E essa era a vida dele.
Derek não acreditava que ele conseguiria salvar o mundo dos criminosos, mas ele fazia o trabalho. No entanto, ele não acreditava que ele mereceria tanto uma salvação também.
Mas ele tinha orgulho do trabalho dele, pois era o tipo de coisa que alguém teria que fazer.
Nenhuma dessas pessoas sabia o que ele tinha como carreira além do que estava naquele papel — e as que sabiam, bom, elas tinham o conhecimento necessário para não deixar abrir a boca.
Ele nunca poupou ninguém até hoje.
E não seria hoje que ele iria começar.
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