Duas cenas contadas por Derek

Eu realmente não sei o que eu estava esperando quando eu decidi que era uma boa ideia eu me embebedar e deixar a vida seguir seu curso — vocês viram tudo que aconteceu e nada foi assim tão agradável quanto a vodca que me deixou com uma dor de cabeça do caralho da outra vez, mas tinha um gosto melhor que a minha comida fazendo a visita de volta na minha boca.

E claro, eu perdi as chances de fazer tudo por aqui, num piscar de olhos.

A não ser trabalhar em um café, vendendo sorvetes.

Depois que Stiles descobriu que eu estava aqui trabalhando, eu imaginei que ele iria aparecer por aqui todos os dias — ou que nunca mais iria aparecer — pois por tudo que eu percebi dele ele é o tipo de pessoa que ou vai com tudo ou desiste de tudo.

Passaram-se três semanas desde que eu tinha visto o garoto da última vez e quando eu quase estava certo de que eu não veria mais ele, ele apareceu.

Ou melhor, ele apareceu escondido, achando que eu não ia ver.

Ele ficou uns vinte minutos rondando a entrada do café, achando que ninguém estava percebendo o cara com bigode falso lá fora. Quando ele decidiu entrar ele ainda tentou um sotaque falso com uma das meninas do balcão, alguma coisa misturando francês e alemão. Enfim, ninguém acreditou que ele era de verdade — provavelmente pensaram que era um louco andando pela rua.

Eu, na verdade, ainda não entendo essa coisa de eles terem que se disfarçar pra sair, fica muito mais óbvio que eles estão querendo chamar atenção colocando perucas e bigodes falsos do que querendo parecer normais.

E o pobre coitado não podia nem sair na rua com a cara que ele nasceu? Essa coisa toda é muito problemática pra eu entender.

Naquele dia, Stiles não veio falar comigo, mas eu vi o olhar dele se desviando pro meu lado e quando ele notou que eu o vi, rapidamente ele saiu.

***

Três dias depois, o mesmo cara com bigode falso apareceu por lá. Duas meninas do balcão riram de Stiles e eu quase sorri.

Bom, na verdade eu ri, por dentro, mas ninguém precisava saber daquilo.

Dessa vez ele não esperou e veio direto pros sorvetes.

“Me desculpa, Derek. Eu sou um idiota, me desculpa.” A declaração veio sem preparação alguma, como se ele estivesse com ela decorada e só chegou à minha frente e falou. Eu fiquei surpreso com aquilo e nem sabia como agir direito — afinal, o que supostamente você faz com aquele tipo de coisa?

E ele estava se desculpando por o que? Eu que me embebedei e fiz as merdas — na verdade, fiz o vômito, mas isso é nojento de qualquer forma.

“Huh…” A minha voz ficou indecisa ao sair.

“Eu só queria te pedir desculpas por ter te levado pro meu pai sem querer e acabei com as tuas chances de trabalhar por aqui — a Erica me falou que você tinha boas chances de ser redirecionado para outro parlamentar e tudo mais. Mas como você está aqui eu fiquei mal por achar que a culpa era minha e…” O discurso de Stiles continuava. Sem parar.

Eu me senti até feliz e importante que o filho do Presidente se senta mal por mim e queria pedir desculpas. Mas o discurso estava bastante chato então eu meio que ignorei uma parte dele e fiquei olhando para as pessoas do café, que estavam olhando para nós. As meninas do balcão riam um pouco da minha cara e outras pessoas estavam curiosas sobre os motivos do cara com bigode falso.

Eu nem sabia o que fazer naquele momento, afinal eu não poderia ignorar totalmente o pedido de desculpas dele, que parecia bem sincero.

Provavelmente era sincero.

Eu só não queria que tudo acontecesse ali, sabe? Com todo mundo olhando pra mim como se eu já não fosse uma coisa estranha — um homem do meu tamanho andando com aventais coloridos servindo sorvetes.

Nada contra quem serve sorvetes, okay? Trabalho super digno que faz meus dias no verão, afinal eu também gosto. Mas pra quem era pra ser um segurança com boas referências, eu não poderia me orgulhar tanto de colocar isso no meu currículo.

Quando eu achei que ele já tinha falado demais eu decidi que era hora de parar.

Eu bufei, respirei fundo e falei.

“Okay, Stiles. Não tem problemas, okay?” Ele parou de falar e ficou me olhando. “Eu sei que as tuas intenções são ótimas e eu fico bem lisonjeado que você tenha vindo até aqui pra me pedir desculpas por coisas que você nem teve culpa. Eu fico feliz mesmo. E eu aceito as desculpas.” Derek falou calmamente, tentando não espantar o garoto.

“Okay.” Stiles assentiu, engolindo algum nó na garganta dele.

“Então, eu só não quero fazer isso aqui, entende? Muita gente olhando e tudo mais. Na verdade eu quero que tudo fique bem e que você não precise mais se preocupar comigo quanto a isso, certo?” Eu perguntei e ele assentiu de novo pra mim.

“Certo.”

“Então, se você quiser conversar mais alguma coisa, vem aqui em um outro dia, perto do final do meu expediente, que é às cinco da tarde. E então a gente pode conversar, okay? Mas eu não quero que você fique com essas coisas na cabeça.” Eu terminei de falar e ele assentiu mais uma vez.

Stiles ficou me olhando por alguns segundos, antes de perceber que tudo estava ficando um pouco estranho demais sem nenhum de nós fazendo alguma coisa.

“Posso pedir um sorvete?” Ele falou pra mim.

Bom, ele estava ali mesmo né? Por que não aproveitar e fazer um pouco de negócio mesmo.

“Do que você quer?”

Ele pediu um de chocolate e eu me pus a fazer, já tendo decorado todo o processo anteriormente.

Quando eu fui alcançar o sorvete para ele, nossas mãos se encostaram de novo. E de novo ficou aquela coisa estranha quando nenhum dos dois queria mexer a mão.

Eu gostava daquele sentimento estranho.

Era diferente.

Mas eu gostava.