O filho do Pirata - Fase Dois
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Havia acontecido uma discussão acirrada entre Killian e Andreas, quando o rapaz comunicara que ele iria com Marlene até aldeia. Furiosos, o pirata e o advogado mostraram-se contrários e ameaçaram literalmente prender o filho, para que não se expusesse a tal aventura.
Acordaram que Killian, Martino e Marlene seguiriam viagem logo nas primeiras horas da manhã seguinte e que viajariam somente sob o sol, porque não seria necessária urgência, uma vez que Gold estava mostrando sinais de recuperação. Ficariam na hospedaria da taverna e aguardariam o resultado da expedição.
Quando Killian desperta, observa a luz do sol entrando abundantemente pela janela do quarto. A cama ao lado estava vazia e nenhum sinal da presença de seu filho. O pirata tenta levantar-se rapidamente, temendo confirmar sua desconfiança, mas sua visão fica turva e é tomado por uma forte tontura. Deita-se novamente e percebe os sinais típicos de que havia sido drogado.
– Filho de um crocodilo peçonhento! – ele rosna, adivinhando o que o filho tinha feito após a ferrenha discussão: usado seus conhecimentos herbolários e tirado seus obstáculos do caminho. Mas quanto tempo havia dormido?
Uma hora e muitos cafés amargos depois...
– Ele deixou a recomendação de que não perturbássemos o senhor, Capitão, e nem o outro senhor. – diz a dona da taverna, entregando os pratos com sopa para os hóspedes. – Ele e Marlene saíram ontem pela madrugada. Disseram que se não retornassem em duas semanas, vocês deveriam seguir viagem sem eles.
– Estão a quase dois dias de vantagem sobre nós. – Cosme observa e faz um careta devido à dor de cabeça. – Mesmo que saíssemos agora, o que jamais irá acontecer, não os alcançaríamos a tempo.
– Sem meus poderes...
– Tente aprender a viver sem seus poderes, crocodilo! Todos nós vencemos as barreiras usando os talentos humanos! Faça isso também! – Killian mostra-se impaciente. – Seu filho é um jovem normal e não existem perigos que o amedronte! Sua nora está limitada ao corpo de um cavalo e também não foge a uma peleja! Pare de esconder-se atrás de seus “poderes”!
– Pelos meus poderes sou o que sou e tenho o que tenho, pirata!
– E o que você é? E o que você tem? Estamos os dois sentados numa taverna num reino distante do nosso, pagando as despesas com ouro roubado pelo nosso filho! O que você tem além das roupas do corpo, conseguidas em uma doação pelas canibais?
Gold olha-o com espanto e choque. Não havia pensado na condição atual de sua vida.
– E tudo o que você tem em Storybrooke não foi conseguido com o esforço de seu trabalho ou de seus roubos! Caia na real! Ai, minha cabeça...
Dois dias são deixados para trás...
Marlene para e Andreas apeia. Acaricia a longa crina do animal.
– Obrigado!
– Sempre às ordens, amor! – ela move a cabeçorra indicando a aldeia lá embaixo na clareira. – Sabe que precisamos estar preparados para o que iremos enfrentar. Então, boa sorte!
Andreas segura o focinho do animal e beija várias vezes.
– Quero que saiba que ter você como companheira de viagem, foi algo maravilhoso. Eu sei que um dia, irei lembrar-me de minha vida e tenho certeza de que há lembranças lindas de sua presença. Boa sorte!
– Lembre-se: os nossos sentimentos serão nossos inimigos!
Os dois continuam o trajeto em descida até a aldeia. Caminhavam calados lado a lado, evocando sentimentos e memórias boas como escudo para os ataques que certamente viriam.
A entrada da aldeia mostra-se sombria e triste, encoberta por musgos e vegetação espinhosa. O cheiro exalado era uma mistura de terra e madeira molhada e o único som era feito pelo vento entre os vãos das ruínas.
– Ouça!
– O que? – Andreas olha para os lados procurando algo.
– Eu disse “ouça”, não disse “veja”! – ela se encosta no corpo dele e o faz acelerar os passos. – Não há outro som senão o do vento. Nem pássaros cantam aqui!
Andreas apenas movimenta as sobrancelhas escuras. Não deveria permitir que nenhum sentimento menos prazeroso ou preocupante dominasse sua alma.
– Pensei que esse lance de ser consumido pela tristeza impregnada no lugar, fosse apenas coisa de livro de história infantil. Já seu o livro “A história sem fim”? – diz Marlene.
– Não sei ler. Do que fala e como termina a história?
– A história é sem fim. Então não tem final!
Andreas a encara e não entende a frase.
– E qual é a lógica em criar ou ler uma história sem fim?
– Foi apenas uma piada, amor. – ela emite um som semelhante a um riso humano.
Continuam caminhando e a solidão do lugar começa a despertar o verdadeiro sentido de ser sozinho. Nada em volta, nem um riso, um canto de pássaro, o latido de um cão ou a voz humana. O abandono total, o esquecimento do resto do mundo, a absoluta ausência de companhia ou importância na vida de alguém. A desesperança cai poderosa como um casaco de pele sobre um corpo despido no frio.
Andreas para e soluça. Naquele exato momento, o entendimento da falta de Elisa surge em sua alma e o real significado da morte é compreendido: ela não seria vista ou ouvida jamais. Não haveria risos ou discussões, tampouco cantoria e abraços. O calor do corpo dela e o cheiro da pele não seriam mais sentidos e aos poucos sua imagem seria diluída como fumaça pelo ar.
– Minha mãe não voltará...eu parti e deixei minha mãe viva...quando retornei, descobri que ela morreu há mais de um ano...eu a perdi, Marlene...
A égua volta-se imediatamente para o humano e vê aqueles olhos grandes e expressivos completamente molhados pelas lágrimas que começam a rolar pelo rosto bonito dele. Não poderia perder seu amor mais uma vez. Não, mesmo!
– Andreas, pare com isso agora! Não vá permitir que a tristeza tome conta do seu coração! Apenas o corpo de Elisa está morto, porque a alma continuará viva em sua alma e nos olhos dos seus filhos que nascerão!
O rapaz controla o choro e enxuga o rosto com a manga do casaco.
– Eu sei que um dia, você irá reencontrar a mulher que ama e terão filhos e filhas! Em todos eles, o olhar de Elisa estará presente!
Ele tenta sorrir.
– Poderá batizar sua filha com o nome de Elisa! E trate de criar a menina para que tenha a mesma gana que sua mãe!
Sentando-se no chão, Andreas encontra-se sem forças para continuar.
– Pare com isso, Andreas Verbenas Gold Jones! – Marlene grita e o toma de assalto. – Ou você se levanta e continua a caminhada ou vou fazer o que mais o irrita: vou imitar a Beyoncé!
O que era aquilo? Do que ela estava falando?
Não precisa muito tempo e Marlene está saltitando e dando estranhos passinhos, cantando o que ela chama de música. Balança a crina, rodopia e bate os cascos no chão, ora move apenas as patas traseiras, ora empina as patas dianteiras. O som e a visão tornam-se irritantes e Andreas começa a incomodar-se com aquilo. Imagens de uma mulher emitindo sons semelhantes aos que Marlene emitia, surgem em sua mente, bem como a sensação desconfortável que aquilo produzia. Sua tristeza é expulsa, para dar espaço a um sentimento de alegria e ele começa a rir. Aquela apresentação era ridícula!
– Você está conseguindo me irritar...
A égua o ignora completamente e continua aquele descontrole que somente ela entendia como dança.
– Marlene...
A nítida imagem de uma mulher linda, de cabelos longos e lustrosos e corpo musculoso surge diante dos olhos dele. É deliciosa a sensação de ver tão claramente os movimentos dela e ouvir o som do riso que ela produzia. Aquela é a sua amada e pela nitidez com que a vê, dá a certeza de que não estavam longe por muito tempo.
– Pode parar, Marlene.
Parando bem próximo ao homem, Marlene parece sorrir. Bufa e começa a caminhar, sendo seguida pelo companheiro. Iria vasculhar os espaços das ruínas para encontrarem o espelho.
Horas mais tarde, entram no que poderia ter sido um templo religioso ou mesmo um local de assembleia dos moradores dali. Um lugar escuro, sujo, frio e acima de qualquer predicado: triste. As janelas no alto da construção abrigavam ninhos secos e abandonados e junto ao sopé de uma parede, havia um minúsculo cadáver de pássaro.
Nada ali fazia lembrar a presença de vida em algum momento da história, até o momento em que Marlene se aproxima de uma porta grande num dos cantos e para olhando para baixo. Rapidamente, Andreas vai até ela e busca o motivo de tamanha concentração: na poeira do soalho imundo, uma única marca recorava a existência de alguém: a marca de uma pegada infantil. O coração do homem acelera-se e ele imediatamente olha para a amiga e tem a certeza de ver lágrimas naqueles olhos grandes e escuros.
– Será que está criança conseguiu fugir a tempo de não ser consumida?
– Sim! Tenho certeza que sim!
– Como pode ter certeza, amor? Muitos adultos abandonam suas crias...
– Nem todos! Muitos morrem pelas suas crias! Agora, precisamos continuar nossa jornada, querida!
A égua senta-se no chão.
– Minha mãe me puniu apenas porque eu quis sonhar. Pedi perdão por querer sonhar e não recebi o perdão...fui abandonada...
– Mas você encontrou outros amigos! Você me encontrou! – ele sorri lindamente e segura o focinho do animal.
– De que adianta tê-lo encontrado? Sequer se lembra de mim e do que vivemos... vou voltar ao nosso reino e você irá permanecer aqui com seus amigos... de que adiantou permitir que o amor invadisse minha alma?
Ela chora. Lágrimas rolam pelo seu focinho.
– Eu poderei recordar tudo! – Andreas tenta fazê-la levantar-se. – Não deixe ser consumida, Marlene! Preciso de você!
– Para carregar você, pode conseguir um jumento...
– Levante-se! Nenhum jumento vai ser mais irritante que você! Nenhum deles vai dar os coices que você me dá! Nenhum jumento vai discutir comigo e nenhum vai imitar a Byoncé!
Marlene deita-se no chão e inspira profundamente. A tristeza estava tomando conta de sua alma e enfraquecendo seus músculos.
– Caranguejo não é peixe! – grita Andreas, evocando em sua memória a brincadeira que fazia para um garoto, quando ele estava deitado. Consegue ver o sorriso com poucos dentes na boquinha do garoto.
– Caranguejo peixe é... – murmura Marlene tristemente.
– Caranguejo só é peixe, na enchente da maré!
– Mentira...
– Claro que não! – ele aumenta o tom de voz.
– Caranguejo jamais será peixe!
Andreas caminha para alguns passos afastados da égua. Volta-se para ela decidido a arrancá-la das garras invisíveis, das quais Killian havia falado.
– Você nem sabe a diferença entre peixe e mamífero! Aliás, estou começando a questionar seu conhecimento em leitura e escrita. Disse que sou analfabeto, mas aposto moedas de ouro, que você não sabe ler! – ele gargalha provocativo e finge procurar algo nas paredes do prédio.
Como aquele humano frágil que precisava de roupas para proteger sua pele, ousava questionar seus conhecimentos? Ele merecia levar um belo coice, embora fosse algo lindo demais para ser danificado!
– Cale-se, Andreas. – ela se senta e sacode a crina. – Saiba que sou um compêndio de conhecimentos gerais!
Ele gargalha desdenhoso.
– Não sei o que é isso, mas garanto que você não é!
– Eu sou uma égua e não um jumento!
– Jumentos são mais inteligentes que as éguas. – ele segue para outro cômodo e percebe que ela vai atrás. — Machos pensam melhor que fêmeas, porque...
Antes que Andreas pudesse completar sua frase é atirado contra a parede. Havia acabado de receber um coice e o impacto tinha sido forte. Mesmo sentindo dor, Andreas gargalha.
– Você não sabe argumentar, Marlene... – ele tosse e levanta-se.
– Eu poderia ensiná-lo a ser um cavalheiro e mais cortês com as damas...
– Não há nenhuma dama aqui! – Andreas fala e espalma as mãos para proteger-se de novo golpe, mas algo atrai sua atenção num dos cantos daquele cômodo imundo. Aponta com o dedo indicador. – Veja o espelho!
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