Naquela mesma noite, o grupo aventura-se pelas estradas escuras em busca de um lugar quente para esconder-se e proteger-se dos perigos da escuridão.

— A dança começou mal e acabou pior ainda. Perderam o ritmo do tempero. – Marlene fala como se estivesse filosofando. — Jamais pergunte o que há dentro da panela para o jantar. Você pode acabar vendo o mundo do ângulo da comida.

Andreas morde a mandíbula e não responde. Continua olhando o caminho.

— Eu nunca havia visto pessoas dançando tão mal! Meu intestino move-se melhor do que aquelas mulheres horrendas! Aliás, alguém sabe a diferença entre um dançarino e o porco assado?

Silêncio.

— Se o dançarino for Andreas e a dança for para as Greias, não há nenhuma.

Risos abafados são ouvidos.

— Algumas mulheres querem levar o homem para a cama. Outras querem levar para a panela.

Marlene acelera os passos e emparelha-se com Andreas.

— Esta é uma experiência que poucas pessoas podem viver para contar. Como é ser o recheio para tortas? O povo quer saber!

Um pequeno arquear de sobrancelhas é a resposta de Andreas.

— A partir de hoje, quando me convidarem para jantar, vou verificar se a panela está cheia ou vazia. – ela bate o ombro no corpo de Andreas e o desequilibra. Ele não demonstra alteração alguma. – O Bicho Papão, agora, precisa ser visto com mais cuidado!

— Basta por ora, Marlene. – pede Cosme apontando uma caverna mais adiante. – Ali será o nosso porto seguro pelo resto desta noite.

— Vejam, meninos! A entrada da caverna tem o formato de uma boca aberta! E sem dentes! Quem será o primeiro a entrar?

Alguém ri entre os homens.

Horas mais tarde, Marlene continua acordada, sentada na porta da caverna e observando a noite nebulosa lá fora. Andreas aproxima-se e senta-se ao seu lado. Encosta-se no corpanzil do animal para aquecer-se.

— Não consegue dormir? Fiz um ninho tão perfeito para você!

— Eu pretendo dormir em breve. – ela mantém os olhos fixos no espaço. – Pretendo comer algo, antes. Alguma sugestão?

Desta vez, Andreas sorri. Diz:

— Estes dias estão sendo muito agitados para mim. Minha mente está confusa com imagens cruzando umas com as outras. Acordo numa manhã, sem lembranças do que vivi durante um período longo; descubro que meu pai estava viajando ao meu lado; sou informado de que minha mãe faleceu há bastante tempo; quase sou devorado por velhas amigas; estou em jornada com o Sombrio, que está morrendo...o que mais tenho de esperar?

— A jornada está emocionante, sem dúvidas.

— Para ser sincero, senti vontade de abandonar essa jornada e retornar para minha aldeia. Confesso que fiquei tentado.

Marlene não responde.

— Não sei o que está acontecendo, mas há algo dentro de minha alma que me compele a continuar com vocês. A situação física do Gold não é o que me comove, apenas. Há algo mais.

— Certamente há, Andreas. – ela faz uma pausa. – Viemos acidentalmente para este reino e nossa vinda provocou algumas mudanças. Para que possamos ter respostas e soluções para estas mudanças, precisamos retornar ao nosso reino.

Andreas empertiga-se e olha o perfil do animal.

— Minha perda de lembranças pode ser explicada ou mesmo curada com nossa jornada?

— Sim. Tudo o que teremos de fazer é conseguir o feijão para abrir novamente um portal.

O som tímido de um sorriso é ouvido por Marlene.

— Você já amou alguém?

Ela se surpreende com a pergunta, mas não quer demonstrar.

— Eu tinha outra vida no reino onde estava. Trabalhava, vestia roupas de mulher, era vaidosa e vivia com meu amigo amado. Tínhamos um filho postiço e formávamos uma pequena família. Era estranha, mas era a minha família. Amava e amo um homem, por isso estou aqui.

— Ele está aqui?

— Está em algum lugar, mas não aqui. E você, ama alguém?

Andreas inspira profundamente.

— Amo sim. E também afirmo que ela está em algum lugar e não sei onde é. Eu a vejo em meus sonhos e consigo identificar aquele sorriso largo e lindo, a pele escura e consigo ver as mãos dela em minha pele. Reconheço o cheiro dela, quando caminho por entre ervas. – a voz dele embarga. – Sei que ela está viva em algum ponto desse mundo e que um dia vou reencontrá-la.

— Ela ama você, Andreas. Tenha certeza disso e mesmo que não se vejam mais, a alma dos dois está unida e transformou-se numa só. Onde ela estiver, saiba que você estará junto. E vice versa.

— Gostaria muito de saber escrever para registrar uma carta que fiz a ela. Declamo constantemente para não me esquecer, porque ao encontrá-la, vou dizer em voz alta.

Marlene solta ar pelas narinas grandes.

— Faça de conta que ela está aqui. Diga em voz alta.

—“Nós dois andando pelo céu, tudo é tão lindo. O mundo fica diferente, fica bem distante e é tudo como se tivesse que morrer agora. A minha vida está em tuas mãos, senhora. E quando vejo seus cabelos da cor do breu, eu sinto que se quisesse poderia voar. Andar pelo horizonte sem mistério e vou olhar teus olhos por que são sinceros. Guarda-me, proteja-me, que sou eu.
Quando te amo eu sou um homem que chega a Deus. Na minha viagem pelas estrelas tu terás o amor sincero, o infinito que não verás. Pois o infinito são seus olhos, meu amor. Agora pegue as minhas mãos, mas pegue com calor. Você não pode recusar, o meu amor que é teu... amor, perdoa aquele que está amando, porque o mundo não é mais importante que o meu amor.
Que importa saber o tempo que me espera...a minha vida está em tuas mãos senhora...*”

Quando termina, Andreas está embargado pelas lágrimas silenciosas. Mais uma vez, Marlene sente o desespero de não ter mais seus braços humanos para protegê-lo e aconchegá-lo num abraço amoroso.

Notas finais
* Letra da música 'Infinito" de Marcio Greyck