O estrogonofe que não se vê é o mais mortífero
2 Orgulho é pior que mulher de malandro, mas um intestino magoado é pior que um vulcão em erupção
Notas iniciais
Dei meu jeito, era só um reboliço, estava tudo sobre controle. Olhei em volta, o santo engarrafamento de todo dia, eu já estava a meia-hora do ônibus e não estava nem perto da metade do caminho. Esperei uma iluminação divina torcendo para aquilo não ser mais que um evento isolado. Encarei aflita a janela do enorme engarrafamento rotineiro e o ônibus ainda longe da seletiva (uma via expressa só para ônibus). O segundo golpe veio, mais forte, mais poderoso, arrebatador. Posso dizer que foi exatamente como a sensação de tomar uma Dinamite Pangalática descrita no Guia do Mochileiro das Galáxias, algo como ter seu cérebro esmagado por uma fatia de limão colocada em volta de uma grande barra de ouro, mas vamos substituir cérebro por barriga.
O diabo do cinto nunca pareceu tão apertado, eu tava mais presa que a criançada de Caverna do Dragão. Nesses momentos desesperadores você começa a ter atitudes desesperadas e, na tentativa de se aliviar, os gases foram saindo. Peidei parecendo a metralhadora do Rambo, mas mortalmente em silêncio. Doce ilusão, o alívio veio por alguns minutos, tempo o suficiente pro ônibus conseguir pegar a Seletiva. Lancei tanta maldição naqueles carros que não duvidaria de receber uma carta para o Coven de bruxas mais próximo. Meu estômago doía, parecia um vulcão de experimento da terceira série, que fica naquela aflição de: vai entrar em erupção ou não. Apesar de tudo eu sabia que ainda estava longe de meu destino, o ônibus corria enquanto minhas preces atingiam desde Deus, Buda, Ala, Zeus, Júpiter, Ganesha, Exu e Silvio Santos.
Me revirava na cadeira linda e acolchoada olhando agonizada pela janela torcendo para aquele ônibus criar um motor de propulsão e sair voando pela cidade do Rio de Janeiro. Lancei vários puta que pariu mentais, podia jurar que havia um alien prestes a sair da minha barriga. Enquanto isso a pessoa do meu lado fazia o possível para se afastar de mim, o indivíduo estava quase pulando pela janela. Olhei para o fim do ônibus na esperança de ver uma cabine com banheiro escrito, mas merda nenhuma, eram momentos de dor e agonia imaginando a vergonha que seria na hora que um pum ousado escapasse abrindo a torneira de bosta que viria em seguida. Do jeito que eu estava eu tinha total ciência que tinha capacidade de encher metade do rio São Francisco de merda. Ia dar tanto adubo que as plantações do sertão brasileiro não iam sofrer com a seca por décadas.
Comecei a familiarizar com a ideia de passar vergonha ali naquele ônibus mesmo e foda-se, afinal ainda presava pela integridade do meu estômago e do jeito que estava aquilo iria explodir a qualquer momento. Era certeza que eu ia passar mais vergonha que ia inventar um novo método de esconder a cabeça em baixo da terra e todos os avestruzes iam querer aprender comigo. Cruzei dedos das mãos e dos pés, neste momento já me revirava mais do que a menina de O Exorcista, quem dera eu vomitasse ali e ficasse por isso mesmo, de alguma forma me parece menos pior vomitar que cagar nas calças. Disfarçadamente abri o cinto e o botão da calça, mas alivio nenhum veio. Deus do céu eu estava tão fodida que ia virar garota propaganda de companhia de tratamento de esgoto, não era possível.
Uma mulher do outro lado do corredor do ônibus me viu naquele estado demoníaco e me perguntou se eu estava bem, não lembro como respondi, mas devo ter feito algo que nem as fotos da Britney Spears quando despirocou de vez em 2009. Não gosto de falar mas logo depois vi a mulher puxar uma bíblia da bolsa e se benzer 3 vezes.
Olhei para a janela de novo imaginando uma solução, vi vários postos de gasolina passarem, imaginei que acrobacia digna de 007 eu tinha de fazer para sair daquele maldito ônibus e correr para a liberdade num banheiro malcheiroso e sujo de posto na beira da estrada, afinal estávamos passando pela Av. Brasil. Neste momento, mais do que todos os outros, eu tive completa convicção de que não ia dar. As pregas começaram a tremer, minha bunda parecia que tava tendo um ataque epiléptico, se colocassem um tambor perto das minhas nádegas eu sem dúvida ia tocar mais que a bateria da Mangueira ou da Beija Flor (escolas de samba do Rio de Janeiro).
Eu já estava suando frio, foi quando decidi que não ia dar, soldado abatido, depois de muito permanecer no front de batalha, aquele humilde soldado que saiu do conforto de seu lar para defender sua pátria e lutar por sua família iria perecer no campo de batalha, afogado na própria merda. Até que milagrosamente, no mesmo nível de milagre da Lana DelRey fazer uma música não depressiva ou você encontrar um fã de anime e mangá que não fale Kawai Desu a cada 30 minutos, o ônibus chegou a sua primeira parada. Saltei do ônibus sem nem querer saber. Olhei para os dois lados antes de atravessar a rua e notei que o outro lado da rua estava fechado para obra e eu ia precisar andar, pelo menos, uns 10 minutos para poder atravessar e voltar para o posto de gasolina mais próximo.
Xinguei tantos palavrões que se fizessem um dicionário eu ia ganhar um lugar marcado na dedicatória. Saí correndo feito uma louca com as calças quase caindo, lembro que num momento senti a ameaça de algo sair e exprimi a bunda enquanto corria, eu parecia um Coelho da Páscoa obeso e claramente drogado depois de ter fumado várias drogas com o Saci-Pererê. Avistei um bar do outro lado da rua e estive mais certa sobre ele que a cantora pop Ludmilla em sua música Hoje em que ela não para de repetir "hoje, é hoje, é hoooojeeee".
Atravessei a via quase realmente cagando e andando pros avisos dos trabalhadores que terminavam de construir o que devia ser a pista do VLT, tropecei num buraco, mas não caí. Se eu caísse ali podia ter certeza que estava tudo perdido, o nível de desgraça seria igual ao de um casal que vai fazer amor de porta aberta e logo surge o cachorro da família na cama querendo participar da diversão. Entrei no bar nem ligando pro garoto que tava atendendo.
— Você tem um banheiro que eu possa usar?
— Tenho é ali atrás.
— Onde?
— Aqui, só deixa eu tirar esses caixotes pra você passar.
Você, meu caro amigo leitor, que acompanha meu desespero a pelo menos duas páginas, acha mesmo que eu ia esperar aquele garoto magrelo que mal aguentava um espirro, empurrar 3 caixotes com garrafas de cerveja vazias para eu passar e entrar no banheiro? Ah, prioridades, prioridades. Quando o garoto viu eu já tinha pulado os caixotes e quase arrancado a porta do banheiro. Eu realmente acreditei que ia conseguir sobreviver sem grandes danos, eu verdadeiramente depositei toda a minha fé de que ia conseguir escapar, até no exato momento que larguei minha mochila no chão Deus resolveu me castigar por todas as vezes que eu era criança e pegava dinheiro dos despachos de macumba e depois chutava as oferendas gritando: "Chuta que é macumba!"
Foi a mochila cair no chão que escorreu o meteoro de Pégaso em formado de 100 golpes de bosta na velocidade do som. Num ato desesperado tirei a calça e calcinha só conseguindo ouvir o sussurro do garoto do outro lado da parede dizer: “Meu Deus.”; olhei para a calcinha completamente inútil e me preparei para um adeus doloroso. Era a mesma coisa que um guerreiro medieval voltar do campo de batalha e ter que abandonar a sua espada e escudo. Passei momentos de dor e sofrimento ali dentro até o alívio finalmente vir e com ele a segunda parte de minha jornada: NÃO TINHA PAPEL HIGIÊNICO.
Gritei pedindo papel higiênico ao rapazinho do bar e o animal energúmeno me trouxe um rolo com menos papel do que resto de cerveja em copo de cachaceiro. Aquilo nem deu duas voltas na minha mão antes de acabar. Tive a certeza de usar o papel e o rolo e depois encarar a situação e começar a me desfazer das minhas peças de roupa que nem um foguete se desfaz de partes não mais necessárias ao subir para o espaço. A calcinha já era, primeiro veio minha toalhinha, depois um pé de meia, o outro pé eu tinha usado para limpar minha mão e coxas. Saí daquele banheiro uns 20kg mais magras, quase anêmica na verdade. Agradeci rapidamente ao jovem e saí de lá mais rápido do que trombadinha quando vê o carro da polícia, até porque a descarga pifou e o vaso entupiu na terceira tentativa que tive de dar descarga o que só comprovava que aquele local deveria ficar inabitado por pelo menos 10 anos antes que uma forma de vida pudesse entrar naquele banheiro sem morrer intoxicado com o cheiro de lasanha de estrogonofe podre.
Andei nas ruas do Centro do Rio com o casaco amarrado na cintura e parecendo uma crackuda. Eu não ia mais pro estágio, e se tivesse um piripaque no meio do caminho? Andei por quase 30 minutos até a Central do Brasil para pegar um ônibus para casa acreditando na doce ilusão de que tudo tinha acabado. Mas no exato instante que saltei no meu ponto de ônibus tudo começou novamente. Corri até em casa numa saga inédita para salvar o resto de honra e moral que existiam em minha pessoa, mas pereci assim que abri o portão e senti a merda escorrendo. O pior de tudo foi ter jogado aquela calça jeans fora porque até eu me recusei a lavar aquilo, era a minha calça jeans favorita.
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