O escolhido
6 Heitor Hartman
Notas iniciais

A festa não durou muito depois de toda aquela confusão, acho que levou o tempo de Júlia fazer o seu escândalo e das pessoas serem expulsas da festa.
Sendo um dos fotógrafos, fui um dos primeiros a ser expulso, para não registrar mais nada daquela confusão. Se bem que eu não tinha registrado nada, estava ocupado demais tentando encontrar Ví.
Consegui carona com uma amiga de trabalho, ela me deixou a um quarteirão da minha casa. "Minha casa", era tão estranho ter uma casa para chamar de minha.
Quando chego em frente a casa, vejo que a luz da cozinha está ligada. Verifico o relógio, 4h da manhã.
Por que tia Becky está acordada essa hora? Procuro a chave extra no meu bolso, enfio na fechadura e destranco a porta.
– Tia Becky? Está acordada?
Cruzo a sala e entro na cozinha, a porta da geladeira está aberta e vejo tia Becky desmaiada ao lado.
– Tia Becky?!Droga!- corro até ela e coloco sua cabeça em meu colo. — Tia olha pra mim... Vai ficar tudo bem.
Ela não reage, em seu rosto, vejo uma linha de sangue seco saindo da sua boca. Procuro meu celular no bolso do meu paletó.
– Alô, eu preciso de uma ambulância no número 46 da sétima avenida, rápido!
– Qual a emergência senhor?
– Minha tia está desmaiada droga!
– Senhor eu preciso que mantenha a calma e me diga qual o motivo do desmaio.
– Calma?! Eu acabei de chegar e encontrei minha tia desmaiada. — respiro fundo tentando me acalmar.- moça ela tem tuberculose, precisa de ajuda, rápido por favor.
– Uma ambulância está a caminho senhor, por favor mantenha a ...
Desligo o celular sem que ela termine. Como ela pode pedir calma? Como pode ser tão fria? Minha tia podia morrer a qualquer minuto.
– Heitor...
Tomo um susto com o sussurro de minha tia, ela está com os olhos entreabertos e respira com dificuldade.
– O que aconteceu..?
– Calma tia, a ajuda já está vindo. Preciso que senhora fique comigo, ta bom? Não durma.
O pânico está PRESENTE
na minha voz, nas minhas mãos, que tremem enquanto acaricio seus cabelos.
– Eu vou levá-la para o sofá, está bem?
Ela geme em resposta.
Eu a carrego, ela parece tão frágil em meus braços, tão pequenina. O que eu faria se ela não resistisse? Não podia perdê-la também, não assim.
– Tia Becky, fica comigo, ta? — ela olha pra mim. — A senhora tinha razão, aconteceu uma coisa hoje, conheci uma garota.
Minha tia passando mal e eu falando de garotas. Eu queria mantê-la acordada o máximo que pudesse e essa foi a primeira coisa que me veio a cabeça. Ela me olha nos olhos e tenta esboçar um sorriso.
– Precisava vê-la, ela era linda e tinha um sorriso encantador, sem falar da...
O barulho de uma sirene interrompe minha fala, estico o pescoço, para olhar pela janela e vejo três paramédicos saindo da ambulância e vindo na direção da casa.
– Aqui rápido! A porta está aberta.
Eles entram e vem em nossa direção. Uma rapaz moreno se agacha perto de mim.
– Tudo bem pode soltá-la. Vamos ajudá-la agora.
Não tinha percebido até aquele momento que eu abraçava tia Becky, como se a sua vida dependesse disso. Eu a solto um pouco relutante e os outros dois paramsédico que ficaram mais atrás se aproximam com a maca, e começam a ajeitar minha tia em cima, enquanto o rapaz moreno ainda agachado perto de mim começa fazer perguntas.
– Quando ela desmaiou?
– Não sei dizer, eu estava trabalhando e quando cheguei ela estava caída na cozinha.
– Depois o que você fez?
– Eu tentei acorda-la e quando ela não reagiu liguei para a emergência, depois ela acordou parcialmente e tentei mantê-la acordada, então vocês chegaram.
– No telefonema você disse que ela tem tuberculose.
– Sim, eu só descobri a quase dois meses, mas ela estava bem ontem a noite e de repente...
– Ok. Vamos agora para o hospital, você pode acompanha-la na ambulância se quiser.
– Eu quero.
Os dois homens que arrumavam tia Becky na maca, já haviam saído e estavam entrando na ambulância eu fui logo atrás do paramédico que conversou comigo.
Assim que passamos pela soleira, vejo que os vizinhos curiosos que acordaram com o barulho da sirene, já estam do lado de fora observando tudo.
Fecho a porta e desço as escadas da frente, assim que entro na ambulância, nós partimos e deixamos para trás a pequena casa amarela da tia Becky, onde minha mãe havia crescido.
# # #
Estava sentando na sala de espera, batucando no joelho para tentar me distrair, nem reparei quando o médico se aproximou até o momento em que se pronunciou.
– Você é Heitor Hartman?
Eu confirmo com a cabeça e continuo a encara-lo com medo da notícia.
– Sua tia vai ficar bem. — eu respiro aliviado, mas ele continua. — Cotudo, ela está muito fraca e precisará ficar no hospital por algumas semanas, para fazer o tratamento.
– Tratamento? — pergunto sem saber do que ele está dizendo
– Sim o tratamento contra tuberculose que a sua tia deveria estar fazendo a mais de um mês.
– Ela não disse nada... So que estava tomando os remédios.
– Sim os remédios eram para controlar a doença e impedir que ela se espalhasse pelo pulmão, porém são ineficazes se ela não fizer o tratamento.
– Eu entendo. Será que eu posso vê-la?
– No momento ela está dormindo, porque não vai pra casa tomar um banho e descansar? Você está aqui a quase quatro horas. Sua tia ficará bem, ela está sendo muito bem tratada.
Eu o encaro por uns segundos decidindo o que fazer, então decido seguir seu conselho, não havia nada que eu pudesse fazer agora. Eu precisava descansar, mas tarde tia Becky iria precisar de mim, e eu deveria estar bem disposto para ajudá-la.
– Muito obrigado doutor
Aperto a mão do médico e me dirijo a entrada do hospital. Na esquina há uma parada de onibus.
Eu sento no banco e enquanto espero o ônibus, três coisas invadem meus pensamentos, o estado da tia Becky e o medo de perdê-la para doença, como perdi minha para mãe para os rebeldes; se devo contar ao meu pai o ocorrido e como contar; e finalmente em Ví, a estranha garota que eu conheci por tão pouco tempo e no fato de como ela me deixava intrigado.
Vejo a distância o ônibus se aproximando, entro e me sento,na parte de trás com os mesmo pensamentos na minha cabeça, confusos e embaralhados.
Alguns minutos depois, desço na parada que fica a uma quadra da minha casa. Vou andando olhando para chão, para evitar que alguém me pare, para fazer perguntas inoportunas sobre a noite de ontem.
Quando estou a alguns metros da casa amarela, vejo um homem parado na entrada, ele coloca o rosto contra o vidro da janela tentando ver dentro da casa.
– Posso ajudá-lo? — pergunto, fazendo o homem tomar um susto.
– Minha nossa Heitor, você me assustou.
– Como sabe...?
– Seu nome, ora eu sei muita coisa de você. — me interrompe. — Pelo visto não se lembra de mim, achei que não lembraria, você era muito pequeno...
Eu faço um gesto com a mão e o sinlencio.
– Olha seja lá quem for não é uma boa hora, você poderia voltar mais tarde se quiser, mas agora estou com um pouco de pressa.
– Não é uma boa hora mesmo... Seu pai está desaparecido, há quase duas semanas.
A notícia, me pega tão de surpresa que fico desnorteado por uns minutos.
Meu pai sumiu... Era por isso que eu não recebia mais as cartas que eu nunca abria. E se em uma das cartas ele tivesse dito que precisava de ajuda e nunca li seu pedido de socorro. Que tipo de filho eu era?
– Heitor?
O estranho senhor me tira do torpor.
– Eu... Acho melhor você entrar.
Digo, indo em direção a porta e destrancando, entro e não espero que ele me siga. Vou em direção a cozinha e pego um copo d'água.
– O que aconteceu? — pergunto.
– Eu e seu pai estávamos em uma escavação no egípcio, quando encontramos um pergaminho, seu pai começou a traduzi-lo. Não faço idéia do que tinha escrito lá, pois ele nunca permitia que ninguém tocasse, mas seja o que fosse mudou ele. Ficou obssecado, então em um belo dia encontrei está carta em minha TENDA
. — ele puxa uma carta de dentro do casaco — Eu não entendi absolutamente nada do que está escrito aqui, na verdade nao é nenhuma língua que conheça, mas no final dizia que deveria entrega-la a você.
Ele me entrega o envelope amassado. Abro e dentro encontro apenas um papel, com vários símbolos desenhados, que foi dobrado diversas vezes. O estranho tinha razão, não era nenhuma língua que conhecêssemos. Continuo observado o papel e pensando o quanto meu pai tinha enlouquecido nesses últimos dois meses, então um estalo me vem a mente. Minha mãe costumava brincar de código comigo para aguçar minha mente, ela criava várias maneiras de transmitir uma mensagem, mas a sua favorita era...
– Dobradura de papel. — sussurro
Automaticamente começo a procurar as dobraduras no papel mais profundas, que foram repetidas várias vezes e os simbolos que antes não faziam sentido, transformaram-se em letras e as letras em palavras. Até formar a mensagem.
"Eu sei como trazê-la de volta. Venha me encontrar"
– Desculpe, mas ainda não perguntei seu nome.
– Daniel Dobrev.
O rosto não era familiar, mas o nome sim. Ele era um dos professores que trabalhou com meu pai em muitas das escavações e palestras que tornaram dele o famoso historiador e arqueólogo que era hoje.
– Senhor Dobrev, se eu pedisse um favor você faria?
– Se estiver ao meu alcance...
– Preciso que me leve até o Egito ou o mais próximo dele que puder.
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