O escolhido
2 Heitor Hartman
Notas iniciais

Jeb,direto,cruzado. Jeb, direto, cruzado. Fico repetindo a seqüência de golpes enquanto ataco o saco de boxe.
Prático muaythai, duas vezes por semana geralmente quando a academia está fechada. Essas foram as regras de Dave, para que eu pudesse praticar um dos meus Hobbies favoritos.
Lembro da primeira vez que conheci o universo das artes marciais, em uma viajem ao sul da Tailândia.
Enquanto meu pai, o famoso arqueólogo e historiador Alaric Hartman, apresentava uma palestra em um museu, minha mãe me levou para conhecer a cidade. Passamos na frente de um studio de luta, onde crianças praticavam muaythai. Naquele dia minha mãe se divertiu muito com as minhas falhas tentativas de imitar os garotos. Eu tinha 9 anos.
Ela morreu naquele mesmo ano, quando retornamos para Illéa. Estava voltando do trabalho, quando se viu no meio de um ataque rebelde. Foi atingida por um tiro e morreu na mesma hora.
Minha mãe era o único motivo de ainda morarmos em Illéa. Ela era professora de história da universidade de Angeles. Depois de sua morte me vi obrigado a viajar pelo mundo com meu pai. Nunca tive uma casa ou amigos. Não passava mais do que seis meses em um lugar.
Algumas pessoas diriam que é fascinante poder viajar e conhecer o mundo. Mas o que elas não sabem, é que não é simplesmente viajar e no fim voltar para casa, ter uma cama confortável e um bichinho esperando por você. Não existe uma casa para voltar, não existem amigos para se conectar, sua vida é o que você consegue carregar em duas malas e uma mochila.
Uma vez por ano sempre retornamos para Illéa, para visitar o túmulo dela. Passamos uma ou duas semanas na casa da tia Becky, minha tia avó por parte de mãe, então voltamos para estrada. "Para onde o dever nos chamar", como diria meu pai.
O relógio apita 19h. Droga, já são sete horas!
Arranco as luvas e jogo na mochila, vou torpeçando até a porta enquanto tento tirar a caneleira. Vou ter que tomar banho na casa da tia Becky.
Saio em disparada pela rua e esbarro em algumas pessoas, que me encaram como se eu fosse um sem teto. Não posso julga-las, suado e mal vestido como devo estar eu realmente devo estar parecendo um mendigo.
Duas quadras depois, avisto a pequena casa amarela que pertence a minha tia Rebeca. Entro correndo e continuo até chegar ao meu quarto, ao menos o quarto que tia Becky me cedeu.
Acabo de tirar a camisa, quando ouço batidas na porta, seguida de uma doce voz idosa.
– Heitor querido, enquanto você estava fora um rapaz veio aqui com um bilhete.
– Rapaz? Que rapaz?
– Ele disse algo sobre aquele estúdio de fotografia que você trabalha.
Abro a porta e ela torce o nariz
– Querido você precisa de um banho.
Reviro os olhos, mas não deixo de sorrir.
Hoje ela parece particularmente melhor.
Meu pai e eu viemos mês passado para nossa visita anual ao túmulo de minha mãe e descobrimos que tia Becky estava internada com tuberculose. Ela garantiu que estava tudo bem e que logo iria melhorar, mas eu não acreditei. Convenci meu pai a ficarmos o tempo que ela precisasse. Logo de início ele aceitou, mas como esperado não agüentou mais que duas semanas.
Ele disse que Angeles o envenenava, que podia ve-la em cada lugar, e na primeira proposta de apresentar uma palestra no Reino Unido, ele aceitou sem a menor considereçao por tudo que tia Becky havia feito por nós.
Sempre segui meu pai por onde quer que ele fosse, sem nem hesitar, mas não daquela vez. Eu disse que ficaria para ajudar tia Becky. Aquela foi nossa primeira briga séria, tão séria que não me contive e disse coisas que estavam entaladas há anos. Meu pai saiu pela porta e desde então não o vejo. As vezes uma carta chega endereçada a Rebeca Aldrin e Heitor Hartaman, mas nunca as leio.
– Está tudo bem querido?- minha tia me tira de meus devaneios.
– Sim, claro. Só estava pensando em umas coisas.
Nem preciso especificar que "coisas" são essas. Ela acaricia meu rosto e diz.
– Você deveria ler as cartas de seu pai e quem sabe até respondê-las.
– Quem sabe uma outra hora. A senhora disse que tinha um bilhete...
– Ah sim, aqui está.
O bilhete, era na verdade o envelope mais pomposo que eu ja tinha visto. Pomposo não no sentido elegante ou coisa parecida, e sim no de extravagantemente rosa e brilhoso.
Abro e dentro emcontro o convite da festa que eu trabalharia, junto com o crachá do estúdio de fotografia. Dou uma olhada no convite, bem no centro com letras garrafais está o nome da socialite mais mimada que Illéa já viu. Júlia Herbert. Ela é filha de um empresário ricasso e da estrela do cinema Luiza Herbert.
– Vai ser hoje a festa?
– Sim daqui a duas horas, mas devo chegar uma hora antes.
– Então não vou atrapalha-lo. Vou voltar para minha leitura em meu quarto, quando sair pode levar a chave extra embaixo do vaso na janela.
– A senhora não atrapalha tia e não vai ser bem uma festa, só um circo com um bando de ricaços e mimados que irei fotografar.
– Heitor você é tão simpático querido. — Diz ela rindo. — Preste atenção está noite, algo me diz que você gostará deste trabalho.
– Quem sabe... Eu vou tomar banho, senão me atraso. Não esqueça do seus remédios.
– Sim, Sim. — diz abanando a mão e indo para seu quarto no final do corredor.
Fecho a porta ainda sorrindo de tia Becky.
Vou gostar desse trabalho, ela disse. Duvido muito, não existe coisa pior que um bando de jovens ricos bêbados e fazendo escândalo-lo. De uma coisa eu podia ter certeza, essa noite ia ser bem longa. Dou um longo suspiro antes de entrar no banheiro.
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