Notas iniciais
Voltei. Mesmo sem nenhum comentário, vou postar :)

Quarta-feira.

Lá estava eu de novo. Sentada dentro daquela sala de aula durante as aulas vespertinas de revisão.

Nem me lembro mais qual foi a primeira aula. O sinal tocou, o professor saiu e um outro entrou. Não ergui a cabeça para ver quem era. Estava concentrada demais desenhando no meu caderno. Escutei sua voz qua do disse: "Boa tarde, crianças". Quase ri. Ele tinha uma voz calma e fofa como de criança, mas bem melodiosa aos meus ouvidos.

Levantei a cabeça.

Foi meu erro.

Ele estava escrevendo no quadro seu nome, Tarcísio, e a matéria que lecionava: matemática. Percebi que já não estava respirando. Senti uma sensação estranha me preencher. Ele era um baixinho gordinho. Mas aquele cabelo... Perdi o fôlego com ele. Eram bem cacheados e bonitos da cor castanho claro. Nunca tinha visto cabelo mais bonito e perfeito na vida. E quando ele se virou para nós... Deixei a caneta cair.

Ele não era um homem lindo. Era bonito do seu jeito. Não era de fazer as meninas soltarem suspiros na sua presença. Ele era considerado gordo e feio pela maioria. Mas não por mim. Naquele momento, achei ele perfeito. Aqueles olhos... Castanho escuros... Devo ter ficado de boca aberta por alguns segundos. Minha mão suou frio e meu estômago revirou.

E o melhor de tudo: ele era professor da minha matéria preferida, a melhor matéria do mundo! Ele era professor de matemática.

Era isso que as pessoas sentiam quando ficavam apaixonadas? Eu estava tremendo. Naquele dia eu não me considerei apaixonada pelo Tarcísio. Disse a mim mesma que só estava impressionada por meu professor de matemática da revisão não ser o mesmo das aulas normais da manhã. Normal, isso passaria no minuto seguinte.

Então ele escreveu no quadro: "Boa tarde, Fofi! :)"

Fofi? Quem era Fofi?? Escutei algumas risadinhas de alguns alunos do outro lado da sala. Eram de outra turma. Pareciam já conhecer o professor.

– E ai, Fofis, vai dar aula pra gente? — escutei um garoto falar. Fofis? Era apelido dele? Mas por quê? Bem, devia ser porque ele era fofo demais.

Tão lindo, tão fofo... Soltei um suspiro de repente e meu coração apertou de um jeito estranho. O que era isso? Percebi que ainda não tinha ajuntado minha caneta do chão. Pisquei e despertei. Desviei os olhos do professor. Eu ainda estava na sala de aula.

Não prossegui com meu desenho no caderno. Encarei o Tarcísio até seu último minuto de aula. Não entendi nada do que ele disse, não conseguia me concentrar com ele sorrindo daquele jeito.

No recreio, não senti fome. Fiquei calada com uma onda de sentimentos me atingindo. E aquele apelido não saía da minha cabeça. Fofis. Fofis. Fofis. E não tive outro pensamento nas aulas seguintes. Fiquei girando o lápis no dedo enquanto sorria como uma boba.

Meus amigos não percebiam isso, nem o professor. Acho que nem eu mesma tava percebendo o motivo de estar assim.

Meu pai me buscou na hora da saída. Encostei a cabeça no vidro do carro e fechei os olhos quando uma música romântica tocou no rádio. O rosto do meu professor de matemática invadiu meus pensamentos. Tinha que parar com isso, não era normal.

Mas eu não liguei muito na hora. Poderia estar apaixonada.

E daí se eu estiver gostando do Fofis?, pensei comigo mesma. Ele nunca vai saber disso mesmo. Ninguém vai saber. Vai ser um sentimento passageiro. Não terei nenhum problema com isso.

Nossa, como eu era inocente naquela época... Mal imaginava quantas lágrimas ainda derramaria por aquele gordinho fofo, quantas músicas românticas escutaria, quantas horas horas passaria escrevendo contos sobre nós. E o pior, não fazia ideia do quanto sofreria com essa paixão e como ela faria minha vida ter uma reviravolta terrível.

Notas finais
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