O dia depois do amanhã
2 Sumiço repentino de um cadáver
Notas iniciais
Peguei o cervo e arranquei uma de suas patas, a mastigando devagar, aproveitando o gosto da carne macia. Nunca havia tido uma refeição tao boa. Os pais apenas davam partes macias, como o peito, os flancos ou o lombo, quando nao davam peixe. Tostei um pouco a carne e no peito enfiei o rosto, rasgando tudo, seja o que fosse, órgãos, veias ou tripas, eu peguei na boca e enguli de uma vez. Fui despedaçando-o e engolindo com bom grado. Senti aquela estranha sensação de ser obversado, olhei em volta e voltei a comer. Estava comendo quando ouvi um barulho, levantei os receptores e fiquei em alerta, quando em cima de uma árvore distante vi um vulto que balançou alguns galhos, como se estivesse pousado e alçasse voo naquele instante. Ignorei e voltei a comer, quando vi que o cadáver do animal não estava lá. Me levantei por completo e não vi nada por perto, nem um rastro, pegada, nada.
Olhei para o lugar desconfiado e pensativo. Quem roubou meu cervo veio pelo ar. Levantei voo e fiquei parado olhando em volta. Ainda estava com fome, mas nao para comer uma presa inteira. Levantei a cabeça e tentei sentir o cheiro de carne fresca. Nada. Droga! Terei que dormir com fome.
Segui em frente em voo raso, procurando uma caverna ou algum tronco oco para dormir, estava com muito sono para poder aproveitar o dia. Achei uma pequena caverna que, na verdade, era uma fenda num desfiladeiro. Me acomodei lá dentro e o mundo foi perdendo forma e mergulhando na escuridão aos poucos.
Acordei com sol nos meus olhos e me espreguicei, ainda um pouco sonolento, sai da caverna. Acho que lá seria meu lar. Era escuro, fresco e úmido, perfeito para mim. Fiquei voando perto do desfiladeiro quando vi um furia da noite preto com marcas laranjas e olhos amarelos. Pousei onde ele estava.
_Olá. — disse.
_Oi? — ele respondeu
_Eu sou novo por aqui, sabe onde tem algum lago ou rio?
_Por ali — ele apontou a asa para uma floresta densa -, no lado esquerdo tem um lago.
_Obrigado. — respondi, ja preparando para voar.
Levantei voo, seguindo para a imensa floresta que tinha duas clareiras enormes. Pousei nela e vi o solo frio, fértil e com pequenas gramíneas. As árvores que me cercavam me deixavam aflito, eram muito altas, parecendo querer me engolir.
De longe vi o lago, cristalino, cheio de peixes e alguns corais ate na margem. Pisei na margem e minha pata afundou no barro.
Rosnei baixo — Droga — tirei ela que já estava toda cheia daquele barro grudento. Pulei na água dali mesmo, abrindo as asas, fazendo um barulho alto e esparramando água. Fiquei la deitado, boiando de costas, quando tive novamente a sensação de ser observado. Olhei para o lado e vi apenas uma asa branca com as pontas vinho aparecendo entre as árvores, que logo desapareceu na folhagem, como se fosse magia.
Desconfiei novamente, talvez fosse o dono do mesmo vulto de mais cedo, que supostamente roubou meu lanche. Falando em lanche, percebi que estava com fome e logo mergulhei, agarrando 4 peixes e os engulindo.
De relance, vi uma pequena explosão e fui lá ver o que era. Eram dois furias da noite brigando, um estava com um grande ferimento de mordida no peito perto do pescoço e o outro com uma marca de garra na testa. Um era elétrico e outro de planta. O de planta, que estava com a mordida, estaba mais defensivo, enquanto o elétrico estava atacando sem dó e convocando raios.
De repente os dois pararam e deram as patas, em sinal de honra. Nesse tempo cheguei mais perto.
_Quem é você? — rugiu o elétrico
_Calma, sou apenas um novato na área. — respondi, recuando dois passos.
_Bom, se quiser vir conosco. — o de planta respondeu, lavando a mordida.
_Eu tenho uma caverna, se quiserem ficar lá... parece-me que tambem são viajantes.
_Queremos... podemos ser amigos? — o elétrico respondeu.
_Por mim tudo bem, sou Kardunk. — falei
_Eu sou Volt e aquele é Akori — o eletrico disse
_Sigam-me, e... me expliquem por que voces estavam brigando, no caminho.
Levantei voo e eles me seguiram.
_Nós nao estávamos brigando, apenas treino. — Akori respondeu.
_Ah, entendi... Mas saibam que eu nao quero particioar disso, sério. — falei
_Sem problema, hehe. — Volt respondeu.
Olhava por trás das minhas asas a cada minuto, pois eu ainda tinha aquela estranha sensação de ser observado...
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