O diário de uma fã
2 Capítulo I: A primeira aventura
Essa história começa há mais ou menos sete anos. Gosto de pensar nisso como a minha primeira grande aventura. Ou, talvez, o início de tudo que se sucedeu até hoje. Foi a primeira vez que experimentei a melhor parte de ser fã de alguma coisa – e a pior também.
Essa minha primeira história começa na casa de uma das minhas amigas na época. Nós morávamos no mesmo prédio e compartilhávamos do mesmo amor por um grupo de sucesso na época.
Eu tinha apenas nove anos e estava sentada naquele sofá, tomada, pela primeira vez, pelo desespero que antecede qualquer mínimo possível contato com o seu ídolo quando se é fã. Minha mãe estava sentada também, junto aos nossos companheiros de aventura.
É difícil depois de tanto tempo me lembrar do que acontecia ali. Mas me lembro de estar tonta e desesperada. Nós tínhamos apenas duas opções: ou nós nos arriscávamos num universo desconhecido ou podíamos cruzar os braços e fingir que estávamos fazendo todo possível para realizar um sonho. (Uma dica para quem acabou de entrar nesse universo: a segunda opção nunca funciona).
É claro que, depois daquele debate que parecia ser infinito, nós escolhemos a primeira opção. O que aconteceu depois disso foi uma série de fatos tão tristes que chegam a ser cômicos e tão felizes que chegam a ser tristes.
Mas, antes de qualquer coisa, devo lhes apresentar as minhas companheiras de aventura:
Isadora, a mãe.
Vocês devem gravar muito bem esse nome, pois ele estará presente na maioria das histórias que transcreverei aqui. Isadora é uma mulher forte, de estatura baixa e curtos cabelos encaracolados. Mas não se engane por seus pequenos olhos azuis rodeados por cílios curtos: Isadora pode se tornar realmente grande quando a situação pede. (Ela me dá medo, às vezes. Tipo quando eu largo a roupa suja no chão do banheiro).
Eliza, a mãe da amiga.
Eliza, ou como nós costumávamos chamá-la, Tia Eliza, é uma mulher bonita, de pele morena e cabelos negros. Muito bem arrumada, Tia Eliza nunca tira o salto alto e está sempre bem maquiada. A mulher mais divertida que já conheci.
Flora, a mãe da outra amiga.
Tia Flora é uma mulher alta, de cabelos lisos, que não aparenta a idade que tem. Ela até parece ser aquele tipo de pessoa séria, mas, na maior parte do tempo, só parece.
Regina, a amiga filha da Tia Eliza.
Regina é a menina que tem o sorriso mais bonito que já vi. Na época, nós costumávamos imitar nossos ídolos juntas e ela sempre usava roupas diferentes.
Carla, a amiga filha da Tia Flora.
Carla é o tipo de menina doce que está sempre disposta a ajudar. Acompanhou-me por muito mais aventuras além dessa, e é minha melhor amiga mesmo depois de quase dez anos. É uma garota de pele muito branca e cabelos lisos negros.
Alice, eu mesma.
Na época, eu era uma menininha esquisita de cabelos dourados e cacheados, banguela e de olhos azuis escondidos por uns óculos cor de mel. Adorava gritar com todo mundo e arrastava um bichinho de pelúcia de uma personagem de um desenho japonês para tudo quanto era lado.
E essas foram as minhas companheiras na minha primeira aventura...
27 de novembro de 2008.
Lá nós estávamos, sentadas no sofá, ao fim da discussão que regeu o nosso dia seguinte. Aquela era a primeira vez que eu iria ao show dos meus ídolos da época, e eu não conseguia segurar a ansiedade por nada.
Infelizmente, aquela era a última também. Tudo não passava de uma turnê de despedida do grupo e saber que eu nunca mais poderia vê-los cantando juntos novamente não ajudava nem um pouco na situação.
Para ajudar, havia dezenas de fãs dormindo há semanas no local do show e a chance de nós chegarmos perto ao menos um quilometro do palco era quase nula.
Muita gente, agora, pode chamar minha mãe de louca. Sem juízo. Ou o que for. Mas eu penso exatamente o contrário: ela só sabia tudo o que passava no meu coração e queria realizar os meus sonhos. Então ela fez tudo o que estava ao seu alcance.
Hoje, depois de tudo que eu passei até hoje, essa história parece até bobagem. Mas eu resolvi contá-la porque foi ali que tudo começou. Foi ali que eu percebi que nada é impossível e que eu tinha pessoas me apoiando, sempre.
Que eu poderia fazer qualquer coisa. E eu tinha só nove anos.
Minha mãe, junto de Tia Eliza, resolveu que nós acamparíamos na fila um dia antes do show. Tia Flora chegaria no dia seguinte pela manhã.
E, com essa louca decisão, nós voltamos para casa.
28 de novembro de 2008.
Foi o dia que a minha aventura começou pra valer. Tia Eliza foi ao mercado de tarde e montou uma mala de tudo que nós poderíamos precisar, desde comida até cobertores.
Nós arrumamos as coisas e carregamos o carro. Chegamos lá por volta das 22h. Foi a primeira vez que eu me deparei com a realidade do que uma fila de um show frequentado por fãs enlouquecidos é.
Se você nunca foi a um show assim, eu vou lhe resumir: Sempre há grupo dos bêbados, que geralmente fazem alguma sujeira e algum deles desmaia antes de começar o show. Tem o grupo dos pobres, que são aqueles que vão com o ingresso, a cara e a coragem, e pedem dinheiro para todo mundo que passa para comprar comida. Tem o grupo dos sem ingresso, que esperam comprar o ingresso lá e saem pedindo ajuda do começo ao fim da fila. Existe o grupo dos animadores, que sempre estão dançando, gritando ou fazendo alguma palhaçada. Há os sociáveis, que geralmente você faz alguma amizade. E há os excluídos que... Bem... esse grupo nos representava.
A minha primeira impressão foi um choque. Acho que minha mãe sentiu uma dor de barriga enorme e desejou voltar pra casa. Mas ela e Tia Eliza ficaram firmes e fortes.
Nós nos acomodamos em um lugar meio sujo, cheio de latinhas de cerveja, onde havia um carro na frente com o grupo dos animadores. No começo, eu pensei que aquilo seria uma experiência realmente legal. Coitada de mim.
Estava muito frio e mesmo com várias cobertas, nada parecia capaz de me esquentar. Nós tínhamos bastante comida, mas tudo o que eu queria era um leite quente e a minha cama. O chão da rua era mais duro do que eu imaginava.
Minha mãe fez amizade com um jovem. Ele tinha vindo de Portugal até aqui para ver o show. O coitado era tão ingênuo que tinha dado todo o dinheiro do ingresso para um moço que saiu dizendo que ia buscar a entrada. Nunca mais voltou, é claro. O pobre moço não tinha nem dinheiro suficiente para comprar outro ingresso, quem dirá se manter no Brasil por tanto tempo. Sua mãe ficava oferecendo até as roupas para a minha mãe e Tia Eliza em troca de um ingresso que nós tínhamos.
Aqui vai mais uma dica, muito importante: não seja burro. Se você vai para um show em outro país e, principalmente, em uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes, não dê o seu dinheiro para ninguém antes de receber o seu ingresso. Quer uma dica melhor ainda? Compre o ingresso pela internet antes, arrume um amigo na cidade ou compre na bilheteria. Juro, vale a pena.
Mas eu fiquei com dó do cara, no fim. Infelizmente, nós não tínhamos mais de duzentos reais para dar de presente para um desconhecido.
Depois de horas dormindo no maravilhoso asfalto da calçada, quando o dia clareou, acordei com a minha mãe e a Tia Eliza apoiadas num poste. Fazendo alongamento. No meio da rua. Com vários carros passando. É, talvez minha mãe seja um pouquinho desajuizada. Tia Flora chegou com a sua filha, Carla.
E nós ainda tínhamos mais horas e horas de fila.
Agora, vou comentar o maior vilão da minha aventura: o banheiro. Banheiros químicos não são lá muito higiênicos. Agora imaginem eles sendo usados por centenas de pessoas bêbadas. Pois é, papel higiênico lá era a última coisa que ia ter. Para ajudar, uma das minhas companheiras de aventura se esqueceu de um pequeno detalhe: menininhas tem útero. Aí você já imagina o que aconteceu, né? Posso lhe dizer: o estrago não foi pequeno.
Então, agora vai mais uma dica: se você for menininha, sempre, mas sempre mesmo, leve absorventes com você. E se você for de qualquer gênero possível, sempre, mas sempre mesmo, leve papel higiênico com você. Vai por mim, isso vai te salvar de situações bastante constrangedoras.
Agora, vamos parar de enrolação e pular pra parte que interessa. A primeira vez que eu cheguei naquela situação em que você pensa: “puta que pariu, agora já era. Desisto”.
Era a hora que sol estava mais alto e quente, entre meio-dia e uma hora da tarde. Nós não tínhamos dormido devidamente e estávamos há horas esperando. Até aí, tudo dentro do esperado.
Foi quando alguma alma muito... bondosa, por assim dizer, da organização resolver enfiar aquelas centenas de pessoas em um lugar que cabia apenas dezenas. Era um cubículo de grades debaixo do sol, onde nós estávamos privadas de toda e qualquer chance de sair e voltar para o nosso lugar.
Lembra-se daquela minha amiguinha que descobriu que tinha útero no dia do show? Regina. A coitada se encontrava sentada no chão curvada pelo próprio corpo, provavelmente desejando arrancar esse órgão insuportável com as mãos (e a dor provavelmente seria menor do aquela que ela já estava sentindo).
Assim, Regina começou a encostar na grade, e a sua cor começou aos poucos a desaparecer. Os seus lábios foram ficando roxos e o seus olhos moles. Ela não se mexia e sussurrava numa voz quase inaudível: “água, eu preciso de água”.
Alguém ajudou a gente. Essa é uma coisa interessante, de como fã se entende e se ajuda, sabe? É o que me faz pensar que fãs quase sempre são as melhores pessoas. Essa boa alma jogou uma garrafinha de água que caiu na nossa frente, porém do outro lado da grade que separava as filas.
Nós pedimos educadamente ao segurança que nos desse a água. Ele se abaixou e pegou a garrafinha. Depois a abriu e bebeu na frente da minha amiga que passava mal. Simplesmente assim, sem nem sentir um pingo de remorso.
Aí a coisa ficou séria. Acho que Regina ficou tão irada, mas tão irada, que venceu qualquer mal estar e levantou-se num ímpeto para gritar a plenos pulmões: “MINHA ÁGUA, EU VOU DESMAIAR, EU PRECISO DE ÁGUA PELO AMOR DE DEUS”.
Eu já disse que fãs são sempre as melhores pessoas? Uma garrafa de fanta cheia de água chegou a nós, depois de passar por umas dez pessoas (e cada uma deu um gole, é claro). Aí Regina voltou a sua cor normal, fosse pela água com gosto de fanta, ou pela vontade de pular a grade e enfiar a cabeça do segurança na grama.
Não consigo me lembrar de mais nada até a hora do show, além dos diversos arrastões de cadeira que quase mataram minha mãe do coração. Mas eu me lembro de toda a minha emoção. De estar em pé em cima da cadeira de plástico vendo os meus ídolos do tamanho de formigas, porém, de estar com os olhos molhados de lágrimas, o coração acelerado e gritando o máximo que minhas cordas vocais (não) podiam aguentar.
Lembro até hoje, mesmo sete anos depois, como se fosse hoje, de toda a emoção daquele momento. De como eu sorria desacreditada e fechava os olhos agradecendo por estar ali.
Era sim um adeus, mas pelo menos era um adeus com estilo. Eu sofri, sim. Mas valeu mais do que a pena.
E foi nesse dia que eu tirei a lição número um que todo fã deveria ter em mente: nada chega sem sofrimento, mas cada momento dolorido, cedo ou tarde, transforma-se em um sorriso. E aí, com essa lição, que a minha história começou...
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