O diário

1 Capítulo 1


27 de março, Terça-feira.

03:00

Bom, isso é estranho. Eu nunca tive um diário, blog ou qualquer coisa parecida, não tenho ideia de como começar. Talvez eu deveria começar me apresentando. Meu nome é Miguel Pietro Redentore o nome é italiano, eu sei, mas eu sou bem brasileiro.

Só estou rabiscando este caderno por que Alice me aconselhou, ela é minha psicóloga e insiste que desabafar com um objeto inanimado pode me ajudar a desabafar com uma pessoa de verdade. Desde o que aconteceu em janeiro estou me tornando cada vez mais recluso e tendo problemas para conversar, assim como para dormir e sair de casa. Enfim, tenho que relatar os acontecimentos do meu dia-a-dia, não é? Pois bem, vamos começar. O dia de hoje foi igual a todos os outros acordei tarde, tomei uma caneca de café, alimentei a gata (a ração dela está acabando) e fumei o resto dos meus cigarros enquanto lia as notícias. Minha rotina quase sempre é monótona assim, exceto quando tenho consulta.

06 de abril, Sexta-feira.

13:32

Eu manco as vezes. Esqueci de mencionar isso quando me apresentei, meu tornozelo direito sempre dói quando estou subindo as escadas do prédio, mas hoje está pior. Justamente no dia que tenho que sair de casa. Vou mostrar que comecei o maldito diário que ela tanto insistiu.

15:15

Estou esperando para ser atendido. Me lembrei que ainda não comprei a ração, estou apenas fazendo uma breve anotação para não esquecer novamente.

07 de abril, sábado.

00:47

Alice gostou quando eu mostrei que comecei o diário, mas não gostou quando leu. Ela diz que estou sendo evasivo, evitando tocar no assunto, como quando relatei "Desde o que aconteceu em janeiro". Pediu que eu desse mais detalhes, conversasse com o diário e tentasse me abrir. Mas a verdade é que eu realmente não gosto de tocar no assunto.

É bom manter essas consultas, a rotina me agrada. Ela pergunta como eu estou, o que venho fazendo, nós conversamos e quando eu deveria falar, fico calado. Porém hoje foi bem irritante, Alice ficou muito nervosa quando eu contei que a Abelarda (nome ridículo) estava sem comida a quatro dias, não exatamente sem comida, eu fiz um mingau. Sei que não é a comida adequada, mas faz ela calar a boca. E para piorar, eu esqueci de novo de comprar a ração. Mas com certeza eu comprarei amanhã, estou sem cigarros e o café também está acabando.

16:45

Sinceramente eu não tinha planos de voltar a escrever hoje, mas aconteceu tanta coisa em um único dia.

Estou acostumado a fumar um cigarro antes de dormir, fumei o último as dez horas da noite. A falta da nicotina me deixou sem sono. Geralmente eu durmo as duas ou três da manhã, mas desta vez, a última vez que olhei o celular eram cinco! Então, as nove da manhã sou acordado pelo som da campainha, era o Thomas, um amigo de infância. Ele chegou bem-humorado me chamando para sair e dar uma volta, mas seu humor mudou quando deu uma boa olhada em mim e no estado da casa.

Perguntou o que tinha acontecido comigo, disse que meu cabelo estava um bagaço e que eu já não fazia mais a barba. "Eu acabei de acordar" não lembro se disse isso em voz alta. Ele continuou falando sobre a casa estar toda fechada e mofada, e questionou o cheiro de cigarros, perguntou quantos maços eu estava fumando por dia, um ou dois. Errou por pouco, são três, quando muito, quase quatro.

Estava com tanto sono que nem lembrava que era fumante, mas foi só ele falar que minhas mãos até começaram a suar de tanta vontade que tive. Também me acusou de não estar alimentando a gata direito, e disse que Clara, minha irmã, não ficaria feliz com isso, afinal, a gata era dela.

Ela realmente estava magra, nem tinha reparado nela. Não até ele falar da Clara. Thomas continuou reclamando, enquanto olhava o armário dizia que eu não estava comprando comida. Quando lavou a louça perguntou por que eu não tinha lavado, acho que não lavei por que não tive vontade. Por fim, ele encheu meu saco até me fazer ir tomar um banho para irmos ao mercado.

No caminho do mercado passamos em frente a um estabelecimento, não sei direito se era uma lanchonete ou um café. Eu quis entrar lá para comprar um maço, já não aquentava mais. Comprei. Tremendo tive muita dificuldade para o abrir, Thomas despejou um olhar preocupado em mim.

Ao passo que eu tragava minha abstinência do lado de fora, uma moça entrava no salão pela porta da cozinha. Thomas criou uma desculpa dizendo que queria tomar café, mas na verdade queria mesmo era puxar assunto com a garota. Terminado o meu trago voltei ao estabelecimento e pedi um café preto, "o casamento perfeito, cigarros e um bom café forte". A garota me atendeu sorrindo "quem ficaria feliz por servir um café no sábado as dez da manhã?" Então, fui em direção à mesa. Thomas falou que ela estava rindo para mim, realmente estava rindo, mas seria para mim ou de mim? A segunda opção é mais plausível, eu manco, lembra?

Não disse nada.

Acabando o café fomos ao mercado, finalmente compramos a ração da Abelarda e alguma coisa ou outra que faltava. Ao chegar no caixa, onde estava carteira? Não estava nos bolsos. Pensei, "tomara que tenha a deixado em casa, se tiver esquecido na mesa do café provavelmente nunca mais a verei". Por fim, Thomas pagou a conta do mercado. Chegando no meu apartamento procurei pela carteira, e adivinha, nada dela. Minha cabeça já estava doendo só de pensar em quanto trabalho eu teria se não a encontrasse, pedir segunda via dos documentos, cancelar cartões. Dinheiro não estava me preocupando, tinha apenas alguns trocados. Thomas não se importou que eu lhe pagasse depois.

Minha perna doía muito. Fazia tempo que não andava tanto, ele me perguntou por que eu não procurei um médico ainda, mas a verdade é que eu já procurei, mas a consulta até hoje não saiu e o sistema de saúde público continua me enrolando. Antes de sair ele me convidou para ir a uma festa, como nos tempos de faculdade, mas usei a desculpa da dor para ficar em casa. De frente para a porta de saída, meio sem graça, me pediu desculpas por não ter vindo antes. Na verdade, ele tentou, eu é que fiquei recluso. E foi só com esse pedido de desculpas que eu me liguei que já faziam três meses que eu não o via, a última vez foi em janeiro.

08 de abril, domingo.

11:15

Consegui a carteira de volta. Eu não acordei cedo, pelo contrário, nem se quer consegui dormir. A visita de ontem me trouxe tantas lembranças sobre janeiro, e remoer essas lembranças me incomodou bem mais que a maldita dor na perna, em consequência disso meu sono foi embora. Logo pela manhã voltei ao café, do lado de fora avistei a garçonete sorridente, mas hoje não havia sorriso nenhum, até que ela me viu entrar mancando e desta vez tive certeza que ela ria do meu jeito de andar, afinal, ela com um sorriso no rosto e me cumprimentou dizendo “você manca engraçado, você deixou sua carteira em cima da mesa ontem, guardei ela, se você não viesse buscar eu entregaria à polícia”.

Peguei a carteira e já estava saindo, mas a garota insistiu que eu precisava de um café, dizendo que a minha cara estava horrível, comprei. Ela puxou assunto, perguntou o meu nome, disse o seu “meu nome é Sophia com ph”, falou algo sobre a programação da TV, mas eu não dei muita atenção, e por fim perguntou por que eu manco. Paguei pelo café e disse que não queria falar nisso. Fui embora. No caminho tinha um morador de rua cantando Naquela mesa de Sérgio Bittencourt¹, tive vontade de chutá-lo. Lembranças... Lembranças.

22:02

Não sei por que estou escrevendo tanto. Pode ser que seja saudades da época de faculdade ou talvez Alice realmente estava certa. Não consegui comer nada hoje. Antes a insónia, depois de ouvir aquela música me veio uma puta dor de cabeça e agora uma angústia, uma dor no peito. Chorei aos soluços a alguns momentos. As lembranças não vão embora, não me deixam em paz.

23:44

A angústia ainda não foi embora!

Está certo, sem evasões desta vez. Recém-formado, estágio concluído e com uma bela oportunidade de emprego à vista eu estava curtindo as férias com a família. Passamos a virada do ano na praia como de costume. Dia 4 de janeiro eu recebi uma ligação, fui selecionado para uma entrevista. Eu poderia ter ido sozinho, mas meus pais quiseram vir comigo, me dar força, torcer por mim. Meu pai veio dirigindo, estava dentro do limite de velocidade, toda via, nem todos os motoristas são prudentes, ainda mais nesta época do ano. Outro carro, motorista alcoolizado, dirigia a mais de 160km/h, fazendo uma ultrapassagem em um trecho proibido bateu com o nosso carro.

Meus pais, que estavam no banco da frente, morreram na hora. Minha irmã Clara, tinha treze anos, chegou a ser socorrida e levada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Tive traumatismo craniano, minha clavícula do ombro esquerdo foi quebrada, assim como algumas costelas e o meu tornozelo direito, por isso eu manco. Fiquei em coma por três dias, quando acordei alguns parentes me deram a notícia. Duvidei! Me levaram ao cemitério para ver os túmulos. Três túmulos ainda sem nome. Disseram que estavam esperando que eu acordasse para decidir o que seria escrito. Acordasse!? Ainda sonho que isto seja um pesadelo! Quanto ao emprego, recebi as condolências da empresa junto com um convite de uma nova entrevista. Essa maldita entrevista me tirou minha família! Até mesmo o nome dessa empresa enche meu coração de ódio. Desde então, estou desempregado e tiro meu sustento de umas economias que meus pais fizeram para um mestrado que eu pensava em fazer.

11 de abril, quarta-feira.

09:35

Abelarda está engordando de novo, deve estar gostando da ração. Aquele mingau era tão ruim assim? Pelo menos agora ela está mais calada. O apartamento está mais claro e arejado, eu não estou abrindo as janelas, apenas não as fechei desde que Thomas as abriu. Mas comecei a cuidar das plantas, tirei as mortas e reguei as que sobraram. Minha mãe gostava delas.

Sem cigarros de novo...

Volto naquele café para comprar mais? Melhor não, lá é caro. O boteco do chico é mais perto e mais barato.

13 de abril, sexta-feira.

13:37

O que eu estive fazendo nesses últimos meses? Estava tão entediado hoje, pensei em ler um livro ou assistir um filme, mas não encontrei nenhum interessante, e o que eu faria depois que terminasse de ler/assistir? Chamei o Thomas, afinal eu tenho que devolver o dinheiro que ele me emprestou. Ele disse que me encontraria de frente o café. Por que tem que ser lá?

23:15

Entreguei o dinheiro e ele foi dar em cima da garçonete de novo, eu não entrei, fiquei fumando do lado de fora e sem querer escutei um pouco da conversa. Ele não sabia o nome dela, “Sophia, com ph”. Ela não parecia dar muita atenção para o assunto, mas aceitou o convite dele. Onde eles vão, que dia e o horário eu não escutei, e não me importa. Chegando aqui em casa Thomas viu o diário, perguntou o que era. Não consigo explicar por que fiquei tão aflito, tive tanto medo de que ele o lesse, tomei o diário e o escondi, sem dar explicação.

15 de abril, domingo.

00:50

O sábado foi tedioso como a sexta, a quinta, e todo o resto desde o dia em que a campainha me acordou. Então, a campainha soou novamente! E novamente era ele, Thomas, mas não só ele. Sophia estava junto, “Sophia com ph”. Por que a voz chata dela ficou na minha cabeça?

Não estava com aquele uniforme estranho, estava bem arrumada, estava bonita. As roupas eram simples, mas eram novas, diferentes das minhas. Ela usava uma calça jeans clara, tênis all star e uma camiseta preta com uma estampa cinza de uma borboleta. E eu estava com um short velho, uma camiseta resgada e, é claro, descalço. Fiquei um tempo calado encarando ela, me perguntava o que ela veio fazer aqui. O silencio começou a ficar estranho, então fiz um sinal para que entrassem. Thomas nos apresentou, disse “esta é Sophia”, mas esqueceu do ph.

Me convidaram a ir ao bar, relutei no primeiro momento, por mais que eu estivesse entediado preferia ficar em casa do que ir a um lugar movimentado, mas eu o conheço muito bem, a insistência dele duraria mais tempo do que a ida ao bar. Enquanto trocava de roupa Sophia brincou com a gata, e também tossiu um pouco reclamando do cheiro dos cigarros, mas a tosse logo parou quando saímos do apartamento. A caminho do bar encontramos a irmã de Sophia, elas não são muito parecidas, Sophia é bem magra, tem o cabelo na altura dos ombros e de cor castanho claro. Maria é mais alta e tem o cabelo mais cumprido e cacheado, e ao contrário da irmã não tem uma voz aguda e irritante.

Até que não estava tão cheio como eu pensei, a conversa deles parecia agradá-los, eu estava quieto mesmo, escutava a música do bar. Tocava Seu Jorge, muito bom². Ao contrário do que eu pensava, Thomas ficou mais interessado em Maria. Por que?

Quis fumar um cigarro, mas lembrei da tosse, então continuei quieto por mais algum tempo, pouco tempo, fui ficando ansioso que minhas mãos até começaram a suar. Ia levantar para sair do bar para tragar, mas Sophia segurou minha mão, disse que eu ainda não contei por que eu manco. Respondi dissendo que sofri um acidente, mas isso foi suficiente para que ela despejasse um questionário sobre mim. Não falei nada sobre a morte da minha família. Conversar com você diário é fácil, você nunca reage aos meus relatos. Procurei mudar o assunto e não foi difícil, eu disse que gostava da música que estava tocando, ela concordou e pronto, mudou o assunto. Ela fala demais, mas não importa, eu gostei de escutar.

18 de abril, quarta-feira.

17:40

Eu continuei conversando com Sophia, mas agora em chat, como eu havia dito ela fala demais, comentou que tem asma, falou sobre suas músicas, filmes e livros favoritos, mas só não consigo entender por que falar comigo. Também comentou que Thomas e sua irmã estão ficando, saíram mais duas vezes desde domingo e que torce para que eles namorem. Contou-me que ela e Maria são gêmeas quando me convidou para a festa de aniversário, este sábado. Não sei se vou, mas acho que deveria.

19 de abril, quinta-feira.

15:08

Sala de espera de novo. O paciente dentro do consultório está chorando, e alto, provavelmente vai demorar para sair. Prevejo ficar aqui entediado por um bom tempo...

15:35

Crianças brincando e gritando nos corredores do posto de saúde, anúncios de campanhas de vacinação, uma caixinha com preservativos gratuitos, uma planta, senhoras fofocando, um homem que perdeu um dedo em um acidente de trabalho envolvendo uma serra. É acho que anotei tudo o que estava ao alcance da minha visão.

21:46

Ainda fiquei esperando uns dez minutos até que o chorão saiu, quando entrei fui recebido com sorrisos. Falsos obviamente. Ou Alice estava sendo falsa comigo ou com o outro paciente, como alguém conseguiria abrir um sorriso verdadeiro depois de ver uma pessoa tão triste?

Mostrei-lhe o diário, provavelmente pela última vez, ela gostou das minhas anotações. Disse que finalmente está vendo progresso em mim, ficou feliz por eu ter chorado, por ter desabafado, por ter saído, por ter conhecido novas pessoas e insiste que eu vá no aniversário. Ela ficou feliz de verdade ou as palavras eram vazias como seu sorriso no começo da consulta?

21 de abril, sábado.

15:20

Acho que conversei diariamente com Sophia desde o dia do bar. Estou passando mais tempo escrevendo para ela do que para você diário. Ela acabou de reforçar o convite para a festa hoje, e eu confirmei presença. Pelo que vi Sophia não é muito popular, mas a irmã é exatamente o oposto. Só espero que não esteja muito cheio. Começará as nove da noite.

23:15

Estava lotado! Da esquina já se conseguia ouvir o som da festa, fiquei ansioso, tenso e um pouco nervoso. Chegando na porta consegui ver Thomas lá dentro de mãos dadas com Maria. Eu não conseguiria entrar. Tanta gente em um lugar só me deixou aflito a ansiedade aumentou, tensão absurda e um nervosismo nauseante. Ela ainda não havia me visto, mas meu grande amigo imbecil a chamou e apontou em minha direção. A vi sorrindo e sinalizando com a mão para que eu entrasse, um sorriso puro e sincero, eu tentei entrar, mas a multidão me esmagaria. Virei as costas e saí andando nem vi para onde, andei até me sentir mais calmo, consegui escutar Thomas me procurando, poderia contar-lhe o que aconteceu, mas no momento toda a aflição tinha se transformado em vergonha. Voltei para casa.

23 de abril, segunda-feira.

09:00

Passei o domingo arrependido por não ter entrado na festa mesmo com todo aquele desconforto. Pensei em pedir desculpa em uma mensagem, mas não consegui escrever nada, a garota que falava demais agora estava calada como um túmulo, um túmulo grafado com nome Sophia, com ph.



16:50

Pedirei desculpas pessoalmente, vou esperar de fora do café até que ela saía. A rua não é movimentada então eu provavelmente eu não vou surtar. Já estou atrasado, me deseje sorte, diário.

19:32

Acabei chegando mais atrasado do que eu imaginei. A caminho do café passei em frente uma loja de bijuterias, vi um pingente que me lembrou o dia do bar. Uma singela borboleta em uma corrente de “prata”. Não era exatamente bonito, talvez seria um bom presente se ela tivesse a idade que Clara teria, mas me lembrou do dia em que ela estava na minha porta. Quando cheguei já estava fechado, fui em direção a sua casa, talvez a encontraria no caminho, mas andar rápido não é fácil se o seu tornozelo não presta e você fuma dois maços de cigarro por dia, sim estou tentando diminuir. A encontrei no caminho, tinha esquecido alguma coisa no trabalho e voltava para tentar encontra-lo ainda aberto, ela caminhava enquanto escolhia as músicas no celular, a alguns metros de distância ela ergueu a cabeça, me viu e parou.

Nenhum sorriso. Eu cheguei mais perto e comecei a me desculpar, fui cortado por um “qual é o seu problema, hein? ”, havia raiva na sua voz, ela realmente estava decepcionada comigo. Não consegui responder. Balbuciei que queria ir e algumas desculpas fajutas, desnecessariamente, ela não quis me ouvir. Ela falou o quão estava chateada e se antes ela falava muito, agora não falou quase nada. Tentei entregar o presente, mas ela não o aceitou, depois de alguns segundos me olhando com decepção ela foi embora. Mancando de volta ao meu covil passei na casa do Thomas, o chamei, entreguei o colar e pedi que o entregasse à Sophia, ele me perguntou por que eu mesmo não entregaria, então eu fiz um breve resumo de toda a situação.

28 de abril, sábado.

21:10

Nós não nos falamos essa semana, foi como se eu tivesse voltado à rotina dos meses anteriores. Pensei várias vezes em ligar ou mandar alguma mensagem, mas o que falaria, pediria desculpas de novo? Pensar nisso começou a ficar tão desagradável quanto a multidão. Até que ontem por volta das sete horas da noite a campainha soou, um único toque, um toque tímido. Era ela, Sophia. Estava com o pingente de borboleta, ficou melhor do que eu esperava, ela entrou devagar, fechou a porta se escorando nela e depois veio me abraçar. Sem derramar as lágrimas que haviam em seus olhos me pediu desculpas, Thomas tinha lhe contado sobre o acidente, como eu vivi nos últimos meses e explicou o por que não entrei na festa.

Suavemente ela transformou o abraço em beijo. Então, transformamos a suavidade em calor e da porta de entrada ela empurrou-me aos beijos para o sofá. Com ela em meu colo, em algum momento (ainda não entendi o porquê) eu automaticamente perguntei “por que eu, o que você viu em mim? ”, ela respondeu que eu sou o tipo de pessoa que enterra dentro de si mesmo um tesouro bem fundo para ninguém roubar, que guarda o que ama. Retorqui explicando que eu só guardo dor e angústia. Ela negou com a cabeça e disse que a dor e a angústia são só as areias que estão cobrindo o meu baú do tesouro, o que está enterrado e guardado mesmo é a minha família. Sem palavras, respondi com uma única lágrima que tirou um peso imenso dos meus ombros. Sophia amou-me a noite toda.

Acordei um pouco mais cedo e fiquei olhando ela dormir, notei que sua respiração estava diferente, pesada, e ela tossia as vezes. Depois de um tempo ela acordou passamos um tempo juntos na cama, mas logo levantamos já era tarde e estávamos os dois com fome. A convidei para almoçarmos fora, ela já tinha usado a bombinha algumas vezes, sair daquela casa mofada e impregnada de cinzas a faria bem.

Passamos o dia juntos. Ela não sabia que o nome da gata é Abelarda, deu risada quando eu contei, afinal é ridículo mesmo, me perguntou por que eu escolhi esse nome, mas a verdade é que não foi eu quem escolheu, foi a Clara. Expliquei que no aniversário de sete anos dela, meu tio Abelardo deu a gatinha de presente para Clara. Tanto a gata quanto meu tio são brancos como leite. A gargalhada foi absoluta quando meu tio perguntou que nome ela daria e a criança sorridente respondeu, Abelarda.

Depois cuidadosamente ela me perguntou sobre a minha família, começou perguntando da origem do meu nome. Expliquei que meu avô veio da Itália trabalhar nas plantações de café do estado de São Paulo, ali casou-se com uma ex-escrava. Deste casamento nasceu meu pai e o tio Abelardo. Minha mãe por sua vez era nordestina com cara de índia, cresceu em um orfanato então não sabia suas origens, mas o rosto indígena a condenava, foi adotada ainda quando criança por um casal pobre que não conseguiam ter filhos, pois homem que ela tomou como pai era estéreo. Como meus pais se conheceram eu nunca perguntei.

Estava ficando tarde, então, me ofereci para ir com ela até sua casa. Ela rejeitou sarcasticamente ao ver que eu estava mancando bastante e ainda disse que marcaria um dia e iria comigo ao médico. Me perguntou o porquê eu mesmo ainda não havia mercado nenhuma consulta, acho que eu apenas dei de ombros sorrindo.

30 de abril, segunda-feira.

15:00

Acordei agora a pouco com barulho da campainha do meu celular, era Sophia me ligando, disse que conseguiu marcar uma consulta com o ortopedista nesta quinta-feira na parte da manhã e que tentaria pegar uma folga no serviço para ir comigo. Parece que a mãe dela conhece os funcionários do pronto atendimento e conseguiu dar um “jeitinho”.

Vou convidar ela para dormir aqui em casa na quarta-feira, seria legal limpar o apartamento. Ela tosse muito por causa do mofo e do cheiro dos cigarros. Parar de fumar de uma hora para outra é complicado, mas no mofo eu consigo dar um jeito.

03 de maio, quinta-feira.

11:20

Dormimos juntos novamente, porém, mesmo com toda a limpeza que eu fiz no apartamento sua respiração ainda estava ruim, para falar a verdade estava pior. Durante a noite, eu acordei com o desespero dela ao procurar a bombinha, estava com falta de ar, e isso se repetiu mais duas vezes no decorrer da noite e mais uma no caminho para o hospital. Ela disse que usa a bombinha desde criança, mas que nos últimos meses as faltas de ar são cada vez mais frequentes. Nos últimos meses ou nos últimos dias? Espero que ela não esteja mentindo para mim.

O hospital público estava muito cheio, ela disse que ficaria na fila para mim e que eu poderia ficar do lado de fora se quisesse, mas eu fiquei na fila junto com ela. Estava preocupado demais com as constantes crises de falta de ar para deixá-la sozinha. E foi como se eu já esperasse acontecer de novo. Após a consulta, quando já estávamos quase saindo do hospital ela teve outra crise, o que a deixou desesperada agora não foi a dificuldade para achar a bombinha, foi a ausência de remédio. A bombinha estava vazia! Nunca havia visto um olhar tão desesperador, como se ela soubesse que iria morrer ali mesmo. Eu gritei por ajuda, e logo uma enfermeira apareceu com uma bombinha nas mãos. Assim que ela melhorou ficou toda envergonhada, disse que deu vexame, ela envergonhada e eu aflito, pensei que veria outra pessoa morrer, meu coração estava disparado.

Chamamos um taxi, deixei ela na porta de casa e depois voltei ao apartamento.

20:15

Até o momento que estávamos trocando mensagens ela ainda não havia tido outra crise. Espero que aquela tenha sido a última.

04 de maio, sexta-feira.

07:15

Thomas me ligou ontem pouco antes da meia noite, Sophia teve uma crise enquanto dormia, mas dessa vez só a bombinha não foi o suficiente. Ele pediu que eu esperasse na calçada e me levaria ao hospital onde ela estava internada. Chegando lá vi Maria chorando abraçada com uma mulher que mais tarde eu descobri que era a mãe dela. Não pude entrar no quarto, mas olhando pelo vidro consegui ver que ela respirava apenas com a ajuda dos aparelhos. Aqueles lábios doces que nutriam um sorriso lindo agora estavam secos e vazios.

Eu fiquei um tempo parado na frente da janela do quarto tentando entender como ela foi parar ali, “pensava se seria alguma complicação da asma que teria a deixado tão debilitada, ou talvez uma infecção respiratória? ”, digerindo a informação, do mesmo jeito que digeri por horas quando me contaram sobre a minha família. Depois de um tempo a mãe de Sophia veio conversar comigo, perguntou se eu era o “mocinho bonito que manca”, ela ficou feliz pela filha estar tentando me ajudar. Então, disse que ela teve uma crise muito forte, de um jeito que ela nunca tinha visto antes, Sophia usava a bombinha, mas não surtia nenhum efeito. De carro a caminho para o hospital Maria veio fazendo algum tipo de respiração boca-a-boca, assim que chegaram ela foi imediatamente internada, porém, os médicos ainda não têm um diagnóstico.

Os olhos dos familiares já tinham cansado de chorar depois de algumas horas sem informações, Maria estava deitada no ombro de Thomas, eu voltei a olhar Sophia pelo vidro, a mãe que havia saído a procura de notícias voltou frustrada. Contou-me uma história da época da gestação das gémeas. Desde criança ela sempre gostou do nome Maria Sophia, quando soube que estava esperando duas menininhas decidiu dividir o nome entre as duas, a que nascesse primeiro seria batizada de Maria e que nascesse por último, Sophia. “Com ph”, eu completei. Perguntei o que o pai acho do nome, mas infelizmente as garotas nunca conheceram o pai, mais um caso de mãe solteira. Com grande demora veio o diagnóstico, o médico pediu que saíssemos, ela iria falar apenas com os familiares, provavelmente é grave. Thomas deu a ideia de sairmos, passamos a noite no hospital, ir para casa e tomar um banho seria bom.

22:12

O horário de visitas foi as quatro horas da tarde, fui até lá, mas não recebi boas notícias, o diagnóstico não é bom, os aparelhos são responsáveis por 70% da sua respiração. Infelizmente não pude nem se quer vela pelo vidro. Foi como voltar no tempo, o hospital estava repleto dos mesmos olhares que eu via em todos os rostos que me cercaram em janeiro. Desde que cheguei em casa não consegui parar de pensar no sorriso dela, sempre foi o mesmo, o mesmo que riu do meu jeito de andar e que sorriu ao acordar do meu lado, puro e simples. O que vai acontecer se ela nunca mais sorrir para mim? Ficarei vivendo de lembranças de novo? Ainda bem que você está aqui diário, todas as boas lembranças desses últimos tempos estão em você.


A campainha está tocando novamente, quem estará na porta desta vez?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!