Quando eu abri os olhos, muito tempo havia se passado. Havíamos permanecidos naquela montanha, meditando e buscando o auto conhecimento. Anamika despertou e me olhou serena.

— Meu amado Kishan, sente-se melhor?

— Sim, eu me sinto. Ainda existem muitas perguntas sem respostas, mas agora eu sei quem eu sou e como encontrá-las.

Uma voz soou às minhas costas. Era Phet:

— Agora que você conhece a si mesmo, está pronto para ter o conhecimento do universo. Mas antes, é hora do reencontro.

— E quem eu irei reencontrar.

— Vocês vão reencontrar Quel-sí e Dirhen. É hora de vocês os ajudarem em sua primeira missão: encontrar o fruto dourado.

Anamika olhou para o mestre e demonstrou-se um pouco surpresa:

— Mestre, o fruto ainda está conosco.

— Ele está e não está. Quando a sua missão estiver terminada, eu levarei os presentes até onde estarão protegidos. Eles estarão onde Kelsey os encontrará. O fruto está com você agora, mas ele não estará com você depois.

Nós prestávamos atenção enquanto Phet nos instruía.

— Vocês devem segurar seu amuleto e pedir para ver o templo de Durga, onde Ren e Kelsey estarão. Quando eles estiverem mais vulneráveis, peçam ao amuleto que os leve até lá. Kishan deve estar sob a forma de tigre, mas não o negro. O tecido vai te ajudar a se disfarçar. Eles não devem reconhecê-lo.

Foi bom ver Kelsey e Ren de novo. Eu amava os dois e conseguia sentir a ligação entre eles. Eles eram especiais e agora eu podia ver que eles pertenciam um ao outro. Kelsey havia resgatado Ren, e ele a havia resgatado.

Havia uma ligação entre Anamika e eu quando estávamos como Durga e Damon. Nós passamos a viajar, para ajudar a quem precisava de nós. À medida em que nos tornávamos mais conscientes do nosso papel de Deuses, fomos nos tornando capazes de observar o tempo através do amuleto e adquirimos muito conhecimento.

Eu aprendi, que os Deuses nascem como humanos, mas dotados de um espírito divino. São pessoas extraordinárias, que em algum momento desenvolvem seu poder divino. Um Deus nasce para livrar o mundo de um grande mal, sempre que ele surge. E um grande mal surge de tempos em tempos.

Também descobri que meu irmão, Ren, também era um Deus. Ele era um avatar de Shiva, como eu e Kelsey era seu Shakti. Mas a missão divina dos dois começaria e terminaria em um tempo determinado. Ren e eu dividíamos um mesmo espírito, então, eu teria uma ligação especial com seu filho, Anik. Eu pude finalmente entender minha visão em Shangri-lá e o porquê da emoção que eu senti, a ponto de pensar, por tanto tempo, que a criança era minha.

Quando não estávamos sob a forma divina, Anamika passava a maior parte do tempo sozinha, meditando. Ela dizia que precisava aprimorar-se, pois ainda não tinha o poder necessário à uma Deusa. Anamika tornou-se uma asceta.

Enquanto ela abdicava dos prazeres terrenos em prol de seu crescimento espiritual, eu passava a maior parte do tempo como tigre e ficava na floresta, caçando. Eu ainda tinha o ímpeto e a paixão humana. Eu também procurava o conhecimento, mas eu desejava o amor. Eu desejava vivenciar os prazeres da vida. Eu queria ter uma família.

Eu sabia que me casaria com a Deusa. Eu amava Anamika e me importava com ela. Mas eu ainda não sentia aquela paixão arrebatadora que senti por Kelsey ou por Yesubai. Eu esperava que um dia, Anamika se sentisse pronta, que ela desenvolvesse o poder e o conhecimento que tanto buscava, para então tornar-se minha companheira de vida.

Algum tempo depois do nosso reencontro com Ren e Kelsey, Anamika me disse que apareceria novamente em um templo, mas desta vez iria sem o tigre. Eu sabia que era chegada a hora da segunda missão de Kelsey, e que eu estaria com ela.

Eu fiquei me lembrando daquela época. Quando estive com Kelsey no templo de Durga, Ren estava em poder de Lokesh e nós procurávamos desesperadamente um modo de salvá-lo. Naquela época, Kelsey e eu estávamos começando a ficar mais próximos. Eu tinha confessado meu amor por ela, mas ainda não tinha coragem de lutar por esse amor. Até estar naquele templo. Lembrei-me de ter me sentido diferente, mais forte e confiante. Agora eu entendia que era a presença de Durga e a minha ligação com ela que me fizeram sentir desta forma. Mas esta força me fez ganhar Kelsey. E o amor dela me tornou quem eu era agora. E isto só aconteceu porque Ren esqueceu-se de Kelsey. Se nós o tivéssemos resgatado com as memórias, Kelsey teria ficado com ele, e os nossos caminhos seriam diferentes, mais longos e dolorosos. Eu precisava garantir que as coisas acontecessem da maneira certa.

Quando Anamika voltou, eu perguntei a ela sobre Ren.

— Sim, ele está sob o jugo do demônio. Eu prometi à Kelsey que o ajudaria.

Eu expliquei a ela como era importante o que ela teria que fazer, para garantir que Ren ficasse sem as memórias de Kelsey. Anamika me disse que sabia como fazê-lo.

— Mas nós não precisamos fazer desta maneira. Existem outros caminhos onde Ren não precisaria perder a memória. Ou que o gatilho para sua recuperação seja outro. Nós evitaríamos tanto sofrimento...

— Eu aprendi que o sofrimento é importante. Se Ren não perdesse a memória, eu não iria me esforçar para tornar-me um homem mais equilibrado. Eu continuaria sendo impetuoso e impulsivo. Kelsey não se tornaria minha noiva e eu acabaria voltando para a selva. Eu me tornaria um tigre selvagem novamente. E demoraria mais tempo para chegarmos até aqui.

Anamika suspirou.

— Você tem razão meu tigre de ébano. Façamos o que devemos fazer.

Eu a acompanhei ao cativeiro de Ren. Anamika não se transformou em Durga, nem levou as armas. Apenas Fanindra e o colar de pérolas, além do amuleto, que estava pendurado em seu pescoço. Eu me escondi às sombras, para que Ren não me reconhecesse.

Voltar àquele lugar era chocante. Sentir o sofrimento de meu irmão, vê-lo prisioneiro, magro, machucado, me entristeceu muito. Me doía saber o quanto ele ainda teria que sofrer. Mas eu tinha que fazer aquilo, e me confortava no fato de que ele, um dia, encontraria a felicidade plena.

Quando Anamika se materializou e se aproximou da jaula, Ren sussurrou esperançoso:

— Kelsey?

— Não. Sou eu, Durga. Prometi a Kelsey que eu cuidaria de você. Eu não posso ajudá-lo a escapar – ela sussurrou com pesar. – Mas eu posso ajudá-lo de outra maneira. Posso evitar que Lokesh acesse certas lembranças...de Kelsey.

— Não. Minhas memórias são tudo que me resta dela.

— Dhiren – disse ela suavemente e tocou os dedos delicadamente nos dele – se você não concordar com isso, eu acredito que Kelsey sofrerá gravemente.

Ren virou-se em agonia e eu sabia que ele considerava recusar-se. Anamika me olhou de lado e eu acenei para ela, que se inclinou levemente em minha direção. Sem sair das sombras, pedi para que ela insistisse e mencionasse que em breve ele teria doze horas por dia como homem. Ela balançou a cabeça rapidamente, concordando. Vi que Ren olhava em minha direção.

— Quem é ele? – Perguntou

— Ele é meu...consorte. – Anamika falou desconcertada –Não se preocupe com ele agora. Eu sei que você tem sido torturado pelo demônio e que está cada dia mais difícil esconder as informações que ele deseja. Kelsey e o tigre negro partiram para buscar o segundo prêmio. Em breve eles cumpriram sua tarefa e você terá mais seis horas como homem todos os dias. Serão doze horas sendo torturado e tendo sua mente manipulada. Será mais difícil resistir. Abrir mão de suas memórias será a única forma de proteger Kelsey.

Ren balançou a cabeça com tristeza. Anamika continuou:

— Suas memórias só serão bloqueadas temporariamente. Para garantir isso, você deve escolher um gatilho que irá abalar sua memória. Algo que vai provar a você que Kelsey está a salvo de Lokesh.

Anamika voltou-se a mim novamente e sussurrou:

— É isso mesmo o que você quer?

— É preciso que seja assim.

Então ela voltou a falar com Ren.

Kelsey está segura com o seu irmão, não está?

Ren franziu a testa.

—Sim.

Anamika assentiu e falou:

— Muito bem. O gatilho será um beijo.

Anamika me olhou com tristeza e voltou a falar com meu irmão.

— Eu gostaria que houvesse uma outra maneira. Mas o que é feito para acontecer, está destinado a ser. – disse ela quase com tristeza. – Venha, Dhiren, está na hora.

Segurando o pedaço do amuleto em seu pescoço, Anamika fechou os olhos e sussurrou palavras estranhas em uma língua antiga. Uma névoa girava em torno dela que se estendeu como dedos no ar.

Eu via a agonia na face de Ren. Seus olhos se moviam desesperados. Ele ergueu a mão tentando tocar em algo e então acalmou-se. Ele olhava em direção ao vazio e parecia ele próprio, completamente vazio.

— Quanto disso ele vai se lembrar? – perguntei preocupado.

— Somente os pedaços que nós queremos que ele lembre.

Então ela tocou meu braço e o amuleto nos levou de volta ao nosso acampamento.

Anamika me olhou decepcionada e então falou:

— Está feito. Exatamente como você desejava.

Ela me deu as costas e afastou-se apressada. Fiquei surpreso pela reação de Ana. Ela parecia estar com ciúmes. Senti uma ponta de esperança de que ela estivesse pronta finalmente. Corri atrás dela e agarrei seu braço.

— Ana, o que foi? Você está com ciúme?

Anamika ergueu o rosto e me olhou firme, fazendo-me lembrar da guerreira tempestuosa que ela era no início. Então seu semblante se abrandou.

— Sim, eu senti ciúmes. Eu queria que você tivesse escolhido outro caminho. Eu sei que as coisas deveriam acontecer da forma como aconteceram, eu não faria diferente. Mas eu esperava que você quisesse mudar o futuro para não se relacionar com ela.

— Ana...

Anamika me interrompeu.

— Eu fico com ciúme, porque você amou Kelsey como nunca irá me amar.

— Eu amo você Anamika. Nós temos uma ligação especial e somos como um. Mas você se mantém afastada de mim. Você se preocupa muito com a espiritualidade. Você é minha companheira de batalha, mas eu quero uma companheira para a vida. Eu quero construir uma casa e ter filhos. Mas você não parece querer essas coisas.

— Eu queria essas coisas Kishan, mas eu não posso tê-las.

— Porque diz isso?

— Hoje eu presenciei o sacrifício de Dirhen para que a profecia fosse cumprida. Eu presenciei os seus sacrifícios. Kelsey e Kadam também se sacrificaram para que Durga cumprisse sua missão. Eu também tenho que me sacrificar.

— E o seu sacrifício é tornar-se uma asceta.

— Não. Eu não sou uma asceta. Por mais que eu tente, eu não consigo me desligar dos meus sentimentos. Mas eu preciso fortalecer meu espírito para o momento do meu sacrifício.

Anamika virou a cabeça para frente, olhando o horizonte, então voltou a olhar para mim, resignada.

— Agora eu preciso ir. Está na hora de cumprir mais uma missão sozinha.

Anamika tocou o amuleto e então desapareceu.