O destino dos Deuses - A história de kishan
15 A família divina
Yesubai e eu permanecemos em nosso quarto por um mês inteiro. Quando estávamos com fome, ela produzia os mais deliciosos alimentos. Quando estávamos suados, Yesubai nos refrescava com seu toque mágico. Se precisássemos nos vestir, ela era capaz de fazer surgir os mais finos tecidos. Durante todo aquele mês, éramos só eu e ela. O meu mundo era ela.
Eu nunca tinha me sentido tão inteiro e tão feliz. Eu não queria sair daquele quarto nunca mais. O beijo de Yesubai me envolvia, eu não tinha vontade de parar de beijá-la. A pele quente, macia e nua da minha esposa aquecia o meu corpo. Eu não precisava de mais nada. Só dela.
Mas chegou o dia em que eu tive que deixar aquele quarto.
Prhalada, general do exército de Ngari, subiu a montanha para trazer más notícias. Nosso reino estava sob ameaça. O desenvolvimento recente da cidade chamou a atenção de outros reinos, interessados nas nossas riquezas. Outros reis uniram-se contra nós e estavam vindo para nos dominar. Prhalada temia que não tivéssemos força suficiente para enfrentar os exércitos inimigos.
Eu já tinha enfrentado muitas guerras, como príncipe e como Deus. Eu sabia que tinha poder, tinha armas divinas e tinha o tigre. Pedi à Prhalada que reunisse o exército. Então pedi a todos que me deixassem sozinho com Yesubai.
— Minha amada, eu vou a guerra. Preciso defender nosso povo. Essa é a minha missão. Você pode vir comigo e assumir a forma de Durga. Você pode montar o tigre negro e lutar comigo.
Yesubai sorriu.
— Não pretendo lutar essa guerra Kishan. Eu vou ficar aqui e proteger nosso povo. Tenho a minha própria missão, cuidando das protegidas de Anamika. Este é um trabalho que me deixa feliz. Deixe Prhalada e alguns soldados aqui e leve Nandi. Deixe que ele comande seu exército, meu amor. Você não é mais o tigre de Durga. Você é o Deus e tem o poder de se transformar em fera. Vá, vença a guerra e volte logo para mim.
— Eu vou sentir sua falta amor.
— Também vou sentir a sua. Quero te pedir uma coisa.
— O que você quiser.
— Eu gostaria de ver o tigre negro.
Eu sorri para ela e me transformei. Yesubai aproximou-se de mim e ergueu a mão para tocar o pelo da minha cabeça. Ela acariciou-me e massageou meu pescoço. Eu fechei os olhos e meu peito roncou. Yesubai sorriu.
— Você é a criatura mais linda que eu já conheci. Você é perfeito meu querido esposo. —Ela abraçou meu pescoço e enterrou o rosto no meu pelo — Sentirei sua falta, meu amor.
Algumas horas depois, Nandi e eu, à frente do exército, partimos para a guerra. Eu pretendia voltar logo para a casa, mas não foi o que aconteceu.
Nós dominamos e vencemos o exército inimigo, fazendo com que eles se rendessem. Muitos soldados inimigos, ao ver a mancha azul no meu pescoço, caiam de joelhos diante de mim pedindo perdão e jurando lealdade ao Mahadeva. Seus líderes também se rendiam e nos ofereciam seus exércitos.
O problema era que, à medida que conquistávamos os exércitos contra os quais lutávamos, novos inimigos nos ameaçavam, e nós tínhamos que avançar para outros campos de batalha. Nós vencemos todos os inimigos, muitos deles tornado-se amigos, aliados. Então chegou a hora de voltar para casa.
Eu tinha ficado fora por cinco anos. Durante todo esse tempo, eu não vi ou falei com Yesubai. Ela poderia ter usado o amuleto para ir até mim, mas ela preferia não atravessar o espaço-tempo. Eu sentia a falta dela.
Os mensageiros levavam notícias do exército e traziam notícia de casa. Yesubai mandava dizer que estava bem e com saudades. Ela dizia que tinha uma surpresa para quando eu voltasse para casa, mas não me dava nenhuma pista do que era.
Eu estava louco para tê-la em meus braços novamente. Muitas vezes eu pensei em voltar para casa e deixar a guerra para os outros. Nesses momentos, Nandi me lembrava de que eu precisava concluir minha missão. Então, para resistir à vontade de abandonar tudo e voltar para a minha amada, eu procurava um lugar tranquilo e meditava, conseguindo, desta forma, acalmar meu coração.
Quando eu finalmente pude voltar, atravessei a cidade galopando velozmente em meu cavalo, enquanto as pessoas me saudavam. Eu acenava rapidamente para o povo, mas não parei para falar com ninguém, Eu só queria ver a minha esposa.
Entrei na casa, que estava diferente de quando eu partira. As paredes estavam mais coloridas e havia flores por toda a casa. Procurei por Yesubai no quarto, mas não a encontrei. Então chamei por ela. Mas, ao invés da minha esposa, um menino veio até mim.
Ele era um garoto bonito, com 3 ou 4 anos, de olhos castanhos e cabelos negros. Pensei que fosse filho de algum devoto que estava visitando a casa. O menino me olhou firme e falou.
— A senhora está se banhando.
Eu sorri de leve, pensando na pele fresca e úmida da minha mulher junto à minha. Caminhei em direção à casa de banho, mas o menino pôs-se à minha frente, impedindo-me de avançar.
— A senhora não pode se incomodada. Ela esta relaxando e deseja ser deixada sozinha.
Eu fiquei irritado com atrevimento daquela criança, que parecia não saber quem eu era. Eu precisava ver Yesubai para acalmar meu espírito. Virei-me para o menino, irritado.
— Garoto atrevido! Quem você pensa que é? Você não pode me dar ordens, ouviu?
— Sim, eu posso. Está é minha função: impedir que o banho da minha senhora seja interrompido.
Com raiva, chamei por Nandi, que entrou correndo na casa.
— Nandi, tire essa criança da minha casa. Encontre os pais dele e o devolva a eles. Não quero voltar a vê-lo aqui.
O menino gritou e esperneou em protesto, enquanto Nandi o tirava da casa. Eu gostava de crianças e era incapaz de mal tratá-las. Mas aquele menino atrevido não se comportava como uma criança comum. E eu estava completamente perturbado, louco de saudades da minha esposa. Qualquer um que tentasse me impedir de estar com ela naquele momento, sentiria minha fúria.
Não demorou para que Yesubai saísse correndo do banho. Ela ainda estava molhada, enrolada em um roupão. Eu a olhei e sorri, com os olhos cheios de desejo.
Eu esperava que ela estivesse sentindo a minha falta e que, por isso, correria para mim e se jogaria em meus braços. Ao invés disso, Yesubai falou comigo irritada.
— Que gritaria foi essa? Onde está Ganesh? O que você fez com meu filho?
— Seu filho?
Yesubai saiu correndo pela porta, atravessando o jardim, usando seu roupão fino. Eu corri atrás dela, confuso, magoado e enciumado.
Yesubai gritava para que trouxessem seu filho de volta. Nandi estava nos portões, segurando a criança, enquanto a criada de Yesubai tentava tirar a criança dos seus braços. Yesubai o alcançou e arrancou o menino de Nandi. Ela o abraçou e beijou.
— Oh, meu querido. Meu precioso Ganesh. Você está bem?
— Sim mamãe, eu estou bem. Eu estava tentando impedir que aquele sadhu invadisse seu banho.
Yesubai olhou para mim pela primeira vez e seu rosto se acalmou. Eu franzi a testa, tentando entender o que estava acontecendo. Ela beijou a testa da criança e, com ele no colo, caminhou sorrindo até mim.
— Ele não é um sadhu meu querido — Ela tocou meu peito— Apesar de estar tão sujo e rasgado.
Então eu estava limpo e vestindo roupas novas.
— Ganesh meu filho, este é o seu pai.
Eu estava atônito, olhando boquiaberto para Yesubai e para Ganesh. Notei que a criança, apesar dos olhos escuros, parecia-se com Yesubai. E seus olhos me lembraram os de alguém, mas eu não conseguia me lembrar de quem.
Yesubai me olhava sorrindo. O menino também sorriu para mim. Eu toquei seu rosto, com os olhos cheios de lágrimas.
— Como isso aconteceu?
— Ora, lindo esposo, como você acha que isso aconteceu? — Ela riu e beijou o meu rosto— Depois da nossa longa lua de mel, você se foi, mas me deixou esse lindo presente. Ele nasceu 40 semanas depois de você ter partido. E foi ele quem me fez suportar a sua ausência por tanto tempo.
— Porque você não me avisou que estava grávida? Eu teria voltado imediatamente.
— Eu sei. Por isso eu não o avisei. Você precisava terminar sua missão.
Olhei para Ganesh, arrependido por ter sido tão rude com ele.
— Meu filho, perdoe-me pela forma como te tratei mais cedo. Eu não sabia quem você era e estava com muitas saudades de sua mãe, eu queria vê-la. Você pode perdoar seu pai?
— Claro papai. Me perdoe também por não ter deixado você ir até a mamãe. Eu não o reconheci e precisava protegê-la.
Eu ri e peguei Ganesh no colo, girando com ele em meus braços.
Durante todo aquele dia, eu fiquei com meu filho. Nós brincamos no jardim de Yesubai, corremos pela casa e rimos muito. Ganesh tinha quase quatro anos, e era miúdo como sua mãe. E ele era muito inteligente. Ganesh falava como um rapazinho. Eu notei que ele usava meu amuleto.
Mais tarde, ajudei Yesubai a colocá-lo na cama. Eu estava feliz, ter uma família era tudo o que eu sempre sonhei. Quando estava sozinho com ela, perguntei sobre o amuleto.
— Ele pertence a Ganesh agora. Nosso filho é especial, como você e eu. Ele aprendeu a usar o amuleto na primeira vez em que lhe mostrei.
— Mas ele não é muito jovem?
—Sim, ele é jovem. Mas é muito talentoso. Viajar através do tempo é sua missão.
— Se você diz, minha Deusa, então está certo.— Eu sorri com malícia— Eu também tenho uma missão hoje, sabia?
Yesubai riu.
— Eu gostaria muito de saber qual é essa missão, meu amado marido.
— Ah é? — Eu encostei meu nariz em seu pescoço para sentir seu cheiro— Minha missão hoje, é me perder em sua pele cheirosa e macia, afogar-me em seus beijos quentes e — fui depositando beijos em seu pescoço, queixo e lábios, então sussurrei — matar minhas saudades.— E beijei sua boca com paixão.
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Agora que eu tinha um filho, eu procurava passar o maior tempo possível com ele, já que eu ficara quatro anos longe dele. E Ganesh era um ótimo companheiro. Eu o ensinei a lutar e nós passávamos longas horas treinando.
Apesar de pequeno, Ganesh era forte e aprendia rápido. Ele parecia gostar de treinar comigo e com Nandi, mas ele gostava mesmo era de praticar a ioga. Ele acompanhava a mim e a Yesubai e até mesmo sozinho. Ele era muito mais espiritualizado do que eu jamais fui. E era muito devotado à sua mãe.
Quando Ganesh estava com sete anos, Yesubai ficou grávida novamente. Nós três estávamos meditando juntos, quando Ganesh despertou sorrindo. Eu abri meus olhos, assim como Yesubai. Nós dois encaramos nosso filho, curiosos. Ele segurou a mão de Yesubai e tocou seu ventre.
— Meu irmão será forte e corajoso como o meu pai.
Yesubai olhou para a mão de Ganesh, em seguida para seu rosto, boquiaberta. Eu os olhava emocionado. Levantei-me e fui até eles, abraçado-os e chorando de felicidade.
Quando Yesubai entrou em trabalho de parto, eu quis ficar ao seu lado, mas as parteiras me impediram de ficar no quarto. Eu estava apreensivo, mas Ganesh me acalmava, dizendo que ia ficar tudo bem.
Quando tudo terminou, nós dois fomos autorizados a entrar no quarto. Encontramos Yesubai sorrindo, segurando o pequeno bebê. Ganesh correu até ela e colocou o pequeno braço em seu ombro. Eu me aproximei e olhei para o bebê, que dormia tranquilo. Ele era lindo e forte. Yesubai olhou para mim, emocionada.
— É um menino!
Ganesh tocou a bochecha do bebê e falou:
— Olá Kartick, seja bem vindo!
O bebê se mexeu e abriu os olhos, olhando direto para o irmão. Seus olhos eram azuis, como os de meu irmão, Ren. Olhei para eles surpreso. Ganesh notou e falou:
— Não se assuste papai. Seus olhos dourados tem muitas cores!
Olhei para Ganesh, lembrando-me de já ter ouvido aquilo antes.
— Os seus olhos e os de mamãe juntos, geram todas as cores do mundo! Por isso meus olhos são tão escuros e os de Kartick são tão claros.
Sorri para Ganesh.
— Kartick? — Olhei para o bebê — Parece que seu irmão já escolheu seu nome. meu pequeno.
Kartick cresceu rápido. Ele era uma criança muito ativa e começou a andar muito cedo. Ele era mais apegado a mim do que a Yesubai, e adorava o irmão. Quando Kartick ficava nervoso, apenas Ganesh conseguia acalmá-lo. Ele contava histórias para o irmão, que sorria ao som de sua voz. Sua história favorita era sobre uma Deusa montada em um tigre, que venceu um demônio em forma de búfalo.
Ganesh e Kartick adoravam o tigre negro. Eles sempre pediam para que eu me transformasse. Ganesh ficava encantado pelo animal. Ele o acariciava sorrindo e abraçava-se a ele como a um bichinho de pelúcia. Ele costumava dormir com facilidade quando aninhado junto ao tigre.
Kartick, por sua vez, preferia brincar com o tigre. Ele gostava de montar em mim e segurava-se firme para que eu corresse com ele. Kartick gargalhava e reclamava quando eu parava. Quando ele estava um pouco maior, ele gostava de fingir que estava lutando contra os inimigos, montado em seu tigre negro.
A primeira pessoa que Kartick chamou, foi Ganesh. Mas ele não conseguia dizer seu nome, então o chamava de Phet. Assim, todos nós passamos a chamar Ganesh por este apelido.
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