O destino dos Deuses - A história de kishan
12 Ressurreição
Quando a luz se apagou, eu pude voltar a olhar. Anamika estava caída no chão. As armas e o chicote estavam jogados a seu lado. Um lenço branco estava sobre ela e uma fruta comum tinha rolado até o outro lado da sala. Anamika tinha apenas dois braços e seus olhos estavam fechados.
Eu corri até ela e a segurei em meu colo, chamando seu nome. Peguei o kamandal em seu pescoço, mas ele estava vazio. Chorando, eu me lamentava por ela:
— Ana, o que foi que você fez?
Então ela abriu os olhos e sorriu para mim.
— Seja feliz Kishan.
Anamika desviou os olhos para o alto e sorriu. Uma lágrima correu pelo seu rosto, escorrendo por seu pescoço até tocar o chão. Então ela se foi.
Enterrei meu rosto em seu colo e chorei.
— Anamika, eu sinto muito.
— Não sinta— Ouvi uma voz de mulher atrás de mim— Ela evoluiu e agora está em paz, em sua morada final.
Coloquei o corpo de Anamika no chão e me levantei devagar, sem acreditar no que estava acontecendo. Virei-me devagar, enquanto meu coração explodia dentro do meu peito. Então meus olhos encontraram os dela. Dourado e lavanda mergulharam um no outro e eu senti paz, pela primeira vez em muito tempo.
— Yesubai?
Ela sorriu, e seu sorriso era como o nascer do sol depois da noite escura de tormenta. A cobra Fanindra pousava tranquilamente em seu braço direito, na forma de um bracelete.
— Anamika se sacrificou para que eu pudesse retornar. Ela deu sua vida por mim, como você deu sua imortalidade para trazer seu irmão de volta. Ela poderia ter sobrevivido, mas escolheu abrir mão de sua vida, para que eu pudesse ter de volta todo o meu poder. Anamika usou a sua própria força e o poder contido em seus objetos mágicos. Nossos espíritos se encontraram e ela me transmitiu todo o seu conhecimento.
Eu a ouvia admirado. Yesubai falava com firmeza e segurança. Ela parecia saber de tudo o que aconteceu. Ela continuou, como se lesse meus pensamentos.
— Eu sei de tudo Kishan. Sei que você e Dirhen tornaram-se tigres e viveram por séculos. Sei que vocês ajudaram Durga a vencer o demônio que Lokesh se tornou e salvaram o mundo todo. Sei que você abriu mão do seu amor para que seu irmão fosse feliz. Anamika me mostrou. E agora eu estou aqui para te servir, meu senhor.
Yesubai prostrou-se diante de mim, baixando a cabeça em reverência. Eu a observei de cima a baixo. Ela era tão linda quanto eu me lembrava. Ainda usava o mesmo vestido do último dia e seus cabelos, agora despenteados, ainda estavam enfeitado com joias. Ela era uma verdadeira princesa. Toquei em seu queixo, erguendo seu rosto para olhar em seus olhos. Meu coração disparou de alegria e excitação. A mulher mais linda que já existiu, aquela que eu amei e nunca fui capaz de esquecer, estava viva.
— Não se prostre diante de mim, minha Deusa. Sou eu quem devo me prostrar diante de ti, Dayita.
Ela se ergueu altiva diante de mim e sorriu. Então, de repente, eu me senti culpado por minha alegria, lembrando que o corpo de Anamika estava diante de nós. Eu desviei meus olhos para ela e me senti triste novamente. Segurei as mãos de Yesubai e beijei uma, depois a outra. Então me afastei dela e ajoelhei-me diante de Anamika.
— Ela queria que suas cinzas fossem jogadas na montanha em Katra, no lugar onde seus devotos construirão seu templo —Yesubai falou tranquilamente — Nós a levaremos até lá.
Yesubai juntou as armas, depois ajoelhou-se ao meu lado e segurou minha mão. A outra ela pousou sobre o corpo de Anamika. Eu fechei meus olhos e o amuleto nos levou até a montanha. Eu coloquei o corpo de Anamika sobre uma pedra e toquei seu rosto.
— Obrigado por tudo Ana. Você foi a melhor companheira que uma pessoa poderia desejar. Fique em paz.
Yesubai aproximou-se e cantou uma canção. Então ergueu a mão, que brilhou intensamente. Ela desceu a mão e deslizou-a pelo corpo de Anamika, que começou a queimar. O fogo intenso e dourado iluminou o lugar, como se tivesse amanhecido. O frio do inverno transformou-se em um calor intenso, fazendo com que a neve que cobria o solo se derretesse. Os devotos começaram a sair de suas tendas, observando o fogo que consumia o corpo de sua amada Deusa.
Quando o fogo se apagou, só restavam as cinzas. O vento suave carregava as cinzas, que se espalhavam sobre o solo da montanha. Onde elas tocavam, uma vegetação verde crescia milagrosamente, fazendo com que todos os que estavam ali, se ajoelhassem e louvassem à vaishno Deivi.
Yesubai pegou uma pequena pedra e colocou no meio do círculo, onde a vegetação não havia surgido e o solo continuava nu. Eu peguei uma outra pedra e coloquei no mesmo lugar. Sem que precisássemos dizer qualquer palavra, as pessoas começaram a seguir nosso exemplo. E antes do fim daquela noite, um altar havia sido construído. As pessoas prostraram-se diante dele, para louvar Durga.
Eu encontrei o desenho de Durga, feito por Kelsey em outro tempo. Durga usava seu vestido azul e a coroa dourada. Seus oito pares de braços seguravam as armas e objetos mágicos. Seus olhos verdes eram inconfundíveis. Peguei a imagem e coloquei sobre o altar. Ainda naquela noite, começamos a erguer o templo de Durga.
Muitos dias haviam se passarado, quando recebemos a visita daquele que viria a ser meu grande amigo e fiel companheiro. Ele chegou em uma tarde e foi levado até mim. Yesubai estava ajudando alguns devotos a plantarem sementes. Eu estava com os outros, trabalhando nas construções, quando o homem curvou-se diante de mim.
— Boa tarde meu senhor. Peço-lhe perdão por vir lhe incomodar. Meu nome é Nandi e eu vim de muito longe, porque soube que Deuses que lutam contra o mal estavam vivendo nesse lugar. Eu vim rogar-lhes ajuda.
Eu fiquei um pouco perdido. Eu sabia que era a reencarnação de um Deus, mas eu nunca tinha assumido esta forma de fato. Anamika era a Deusa que operava os milagre. Eu era apenas o seu tigre. Olhei para Yesubai, esperando que ela assumisse esse papel, mas ela acenou com a cabeça, indicando que eu deveria atender o homem. Voltei-me para Nandi e simpatizei imediatamente com ele.
— Diga-me Nandi, de onde você vem?
—Venho de um lugar chamado Ngari, perto do Tibete, junto aos lagos Manasarovar e Rakshasta e ao sagrado Monte Kailash.
— E porque você veio aqui, vindo de tão longe?
— Meu senhor, o nosso novo governante é um homem cruel e injusto. Ele vem escravizando nosso povo e confiscando tudo o que é produzido em nossas terras. As pessoas tem que lhe pagar tributos altíssimos ou trabalhar para ele sem receber nada em troca. Nosso povo está doente e com fome. O governador é devoto de Brahma e acredita que tem as bênçãos do criador, e por isso ele pode oprimir os outros, a quem ele considera indignos. Nós precisamos de ajuda para vencê-lo.
Eu não estava certo sobre aquilo. Eu sabia que Durga partiria imediatamente naquela missão, mas eu não me sentia um Deus. Eu não tinha poder algum. Pedi a Nandi que ficasse conosco até o dia seguinte, quando lhe diria se eu o acompanharia ou não. Yesubai preparou-lhe uma tenda e providenciou água e comida para ele. Antes que ela fosse para sua tenda, pedi a ela que conversasse comigo.
— O que você acha que eu devo fazer Yesubai? Está era a missão de Anamika, e agora que ela não está mais aqui e eu não sei se eu devo assumi-la.
Yesubai olhou para mim com ternura.
— Você está enganado Kishan. A missão de Anamika já terminou. Esta missão é sua. Durga já fez sua parte. Está na hora de você deixar de ser o tigre da Deusa e assumir seu lugar como Deus.
— Você acha que eu devo acompanhar Nandi e enfrentar esse déspota?
— Eu tenho certeza que sim.— Ela se aproximou e segurou minhas mãos — Não se preocupe, eu estarei com você.
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