O destino de uma princesa
21 Lembrar é reviver
Notas iniciais
As portas da sala do trono se abrem. Caminho em passos leves e de cabeça erguida, pois independente do que aconteça jamais irei me abater. Os dois guardas se posicionam ao meu lado e fazem reverência ao rei. Nícolas fica surpreso em me receber e aparentemente muito feliz pela minha presença. Percebo que ele está acompanhado por alguns conselheiros.O que é bem normal para um rei.Ele rapidamente se levanta do trono para vir me cumprimentar.
—Princesa Anne! (ele se curva em forma de cortesia)
—Vossa majestade! É uma honra revê-lo.(Retribuo o cumprimento com uma reverência)
Nossos olhos se cruzam rapidamente. Mesmo sendo amigos devemos cumprir o protocolo de formalidade, principalmente na minha condição de prisioneira.
—Podem desamarra-la!
O guarda rapidamente desfaz o nó da corda e enfim meus pulsos estão livres outra vez.Um dos conselheiros se aproxima do rei com uma cara de espanto. Ele cochicha alguma coisa para Nícolas que pela sua expressão facial aparenta não se importar com o comentário do cavalheiro. Aposto que deve ser sobre minha presença.
Um dos guardas que me acompanham dá um passo à frente e pede permissão para falar. Nícolas concede.
—Majestade, é com muito prazer que lhe digo que enfim conseguimos capturar essa fugitiva. Ela nos deu um pouco de trabalho,mas como vivo para servir ao senhor,todo o trabalho que tive foi insignificante, pois tudo que desejo é ser útil.
Considero repugnante a hipocrisia desse senhor.Recordo muito bem as piadinhas que ele tinha feito sobre seu rei.Entretanto,pela expressão facial de Nícolas, é possível entender que ele compartilha da mesma ideia que a minha sobre a atitude desse cavalheiro extraordinário.
—Agradeço pela seu empenho.
—É uma honra vossa majestade.Se me permite perguntar, o que deseja que façamos com a prisioneira?
—Nada por enquanto.
Os conselheiros presentes na sala ficam inconformados com a atitude do rei. Sussurros e indignações a respeito da decisão de Nícolas tomam conta da sala. Inúmeros apelos são ditos:
—Majestade não deixe essa mulher solta!Ela precisa pagar sua divida com o reino!
—Isso é um ultraje com seu povo!
—Não existe cabimento nessa decisão majestade!É preciso que o senhor repense tal atitude!
Olhares furiosos e cheios de rancor recaem sobre mim.Eu posso sentir a raiva e os piores pensamentos a meu respeito vindo desses senhores.Abraço a mim mesma,numa tentativa boba de tentar não me sentir mais apavorada do que já estou.
—Basta!
Nícolas cessa as discussões. Assim,o silêncio volta a reinar naquele lugar por enquanto.
—Não quero ouvir mais nenhuma reclamação sobre minha decisão!
Nícolas está bem diferente.Está mais forte e decidido.Talvez isso seja uma consequência do poder.Mas, creio que para seu reinado ser respeitado ele realmente vai ter que se impor,ou então, outros irão querer governar por ele.
—A princesa Anne, herdeira do Reino ao Norte,está definitivamente livre para ir e vir.Ao meu ver,ela não cometeu nenhum crime para ser levada a execução.Tenho conhecimento de seu passado,porém não se pode condenar ninguém pelos erros de outros!
Um homem já idoso se sobrepõe dos demais e pede a palavra. Nícolas atende seu pedido.
—Majestade,se me permite dizer,discordo plenamente da sua atitude.
—Lorde Patrick,não posso impedi-lo de discordar da minha decisão, porém o senhor que é um homem de tanta sabedoria deve se dar um oportunidade de mudar de ideia para entender que essa senhorita é inocente.
—Majestade, por muitos anos fui o braço direito do seu pai. Ao lado dele, presenciei vários povos sendo conquistados, impérios sucumbindo, pessoas morrendo e tantas outras cenas que marcaram minha vida.Eu apenas quero lhe dizer que naquela noite quando o rei das Terras ao Norte invadiu o reino das Terras ao Sul, vi cenas de caos e de desespero, mas naquela vez não era um povo estrangeiro que estava sendo assinado, era justamente o meu povo que ardia nas chamas e padecia sob as lâminas daqueles vermes.Eram os meus irmãos e as minhas irmãs que perderam seus queridos parentes e seus bens naquela dia.Por isso todos aqui não desejam contrariá-lo,mas apenas almejamos para que a justiça seja feita.
—Lorde Patrick compreendo perfeitamente o que o senhor sente.Todos nós sentimos o mesmo pelo ocorrido naquela noite. Mas, recordo que meu pai pouco tempo depois daquele incidente,tomou as medidas que achou corretas e convocou o conselho para decidirem o que seria feito para se fazer justiça.A maior parte dos senhores aqui presentes também participaram da decisão,inclusive o senhor Lorde Patrick.
Lorde Patrick e os outros homens observam atentamente cada palavra que Nícolas diz.Como são obrigados a apenas ouvir, só resta a eles guardarem o sentimento de revolta e se calarem.
—No mesmo dia,após a reunião do conselho, o plano de vingança estava completamente elaborado e pronto para ser colocado em prática.Estava em veredito que na madrugada seguinte, as tropas do sul fortemente armadas liquidariam o Reino do Sul sem misericórdia. Até aqui estou certo,não é senhores?
—Sim vossa majestade.
Lorde Patrick responde por todos.
—Pois muito bem, prosseguindo com minha linha de raciocínio, antes da meia noite, partiram daqui milhares de homens prontos para vingar seus irmãos e suas irmãs.Depois de algumas horas após a partida das tropas, enfim,nossos exércitos conseguiram atravessar a região das grandes colinas que separam os territórios. Por volta de 3 horas da manhã,sob a lâmina de vossas espadas a chacina se iniciou. O resultado foi milhares de pessoas mortas, homens, mulheres,crianças que não tinham culpa pela atitude do rei em invadir nossas terras! Não houve misericórdia com nada nem com ninguém.E por fim,antes da aurora do dia,nossas tropas tomaram o palácio e executaram praticamente a família real inteira.
Algumas lágrimas começam a correr pelo meu rosto.Tento disfarçar rapidamente o choro,secando-as com minhas mãos.
—Vossa majestade está certa.Foi exatamente assim como ocorreu naquela noite.Mas,não entendo onde meu rei gostaria de chegar relembrando tal fato?
—É muito simples meu caro Patrick.Mesmo depois de destruírem completamente o Reino ao Norte e sua nação,os senhores ainda falam de justiça? Como em seus corações ainda há tanto rancor,mesmo após se vingarem de forma tão fria e cruel? Como se não bastasse o que nossos irmãos fizeram ao povo da princesa Anne,ainda querem matá-la mesmo sem culpa pelos erros do pai?
—Vossa majestade...
—Silêncio!Onde eu quero chegar Lorde Patrick é que a justiça já foi feita!Deixem essa moça viver em paz!Livrem-se desse sentimento maligno e tentem diminuir seus pecados! A princesa Anne não será morta e está consumada minha decisão!
Lorde Patrick abaixa a cabeça e se cala.
Os outros conselheiros insatisfeitos com a decisão começam a protestar contra o rei.Os guardas estão apostos para qualquer eventualidade. As portas se abrem com força.Repentinamente,todos se calam e olham para quem entrou na sala.
-O que está acontecendo aqui?
—Senhor Carlos!
Era ele, o pai de Nícolas. Inevitavelmente, sua presença ainda impõem poder e ordem nesse lugar.
—Perdão senhor, o conselho está discutindo sobre a recente decisão do Rei Nícolas.
—Pai!Fico feliz em recebê-lo! Não há nada para se discutir! Eu já me decidi.
—Posso saber qual é o motivo de tantas opiniões divergentes?
—O Rei Nícolas concedeu a liberdade para a prisioneira que veio do Norte.
A cara do antigo rei demostra sua surpresa e desgosto pela decisão do filho.Ele olha para mim e em seu olhar percebo o quanto ele tem raiva por eu ainda está respirando.
—Nícolas você perdeu o juízo! Isso é totalmente inadmissível!
Nícolas respira fundo e percebe que me ajudar não vai ser fácil. Permaneço quieta entre os guardas.
—Pai,optei por dar a liberdade a princesa Anne porque não encontrei motivos concisos para condená-la a morte!
—Isso é um absurdo! Nícolas,ela é um prisioneira de guerra!Sua pena é a morte!O que mais é preciso para você compreender esse fato?
—Pai, tenho conhecimento da condição da princesa Anne, porém só permitirei tirar a vida dela se me apresentarem um motivo coeso e verídico.
—Essa mulher é a filha daquele tolo! Nela corre o sangue daquele homem deplorável e pateta que atacou o Reino do Sul há algum tempo atrás!Você não recorda o ocorrido?
—A princesa Anne não pode responder pelos atos do pai dela.Não vou condená-la por ser filha de um inimigo seu! Eu sei exatamente tudo o que aconteceu tempos atrás,se ainda tem dúvidas disso,pergunte ao Lorde Patrick e aos demais se conheço ou não como a história de fato aconteceu !
—Basta!Não lhe orientei para assumir o trono e rebelar se contra mim!
—Não estou afrontando o senhor!Apenas estou livrando um alma sem culpa alguma!
—Você não vai me desobedecer! Você só é rei por algumas horas, mas eu fui rei por anos!Então me escute e trate de por a cabeça no lugar!
—Eu sou o rei agora! Meu reino, minhas decisões. A discussão está encerrada.
—Você está louco!Não estou te reconhecendo!Meu filho,por favor,me escute!
—Pai agradeço por todas as suas orientações e conselhos,mas agora em diante preciso tomar minhas próprias decisões.
Carlos está abalado e demonstra total aversão pela atitude do filho.Pelo que vejo,essa discussão será bem longa.Há muitas coisas para serem discutidas.Além da minha liberdade que está sendo julgada,infelizmente também estou presenciando um possível rompimento de uma aliança.Não entre um rei e um príncipe,mas entre um pai e um filho com mentes e ideologias distintas.
Fale com o autor