O cão do Central Park

7 Capítulo 7 – Uma peça que faltava


Capítulo 7 – Uma peça que faltava

Sherlock despertou por volta das sete da manhã, com Joan deitada em seu peito. Percebeu que ela tivera o cuidado de evitar seu ferimento antes de se abraçar a ele. Olhou para seu rosto, vendo-a de olhos fechados, e beijou o topo de sua cabeça.

– Bom dia – ela murmurou.

– Por quanto tempo ficou fora?

– Uma hora. Perdi o sono quando amanheceu, fui procurar mais informações. Acabei de voltar. Ainda está frio e chovendo, então vim me esquentar em você – ela sorriu, ainda de olhos fechados.

Ele sorriu e a abraçou mais apertado, puxando-a um pouco mais para cima dele.

– Tá doendo? – Joan perguntou, finalmente abrindo os olhos.

– Um pouco. Eu posso sobreviver. O que encontrou? E por que todos acordaram tão cedo?

– Na verdade, só os Barrymore estavam acordados. Depois do que aconteceu ontem, estão mais aptos a revelar dados. O mordomo falou que ele vai nos mostrar o pergaminho original mais tarde, Henry disse isso a ele antes de dormir, e depois me contou algo sobre a morte do senhor Charles.

– Como está a mulher?

– Mal. Os olhos ainda estavam vermelhos. Parece que os dois dormiram pouco. Queria dizer que espero que ela fique bem logo, mas foi um golpe duro, apesar do que o seu irmão era.

– Ela vai se recuperar. Prossiga.

– Quando Charles morreu... Ele ficou parado no portão esperando uma mulher. Mas ela nunca apareceu. O mordomo me disse que ela enviou um aviso alguns dias antes sobre sua visita. Charles Baskerville recebia muita correspondência devido aos seus trabalhos de caridade, mas nessa manhã havia apenas uma carta enviada de Boston. O mordomo não sabe o nome da mulher, apenas que as iniciais são LL. Deduziu se tratar de uma mulher por causa da letra.

– Ele leu a correspondência do patrão?!

– Não. Ele e a esposa foram limpar o escritório há semanas e encontraram os restos queimados da carta na lareira. Apenas o ps tava intacto. Dizia “Por favor, eu imploro, sabendo como você é cavalheiro, que queime esta carta e aguarde às 10 horas no portão”. Acha que pode estar por trás do que aconteceu?

– Talvez. Mas se estiver, pode não ter sido intencionalmente.

– Acha que o criminoso está usando pessoas como arma e escudo?

– É o que me parece. Tem sido capaz até de pôr a culpa num cão fantasma. Por que não numa pessoa? Esse resto de papel ainda existe?

– Não. Se desmanchou quando tentaram recolher da lareira. Ele disse que não tem ideia de quem seja e que não revelou isso antes por não achar que seria de ajuda. E tem medo que seja o que for, possa manchar a reputação do antigo patrão.

– Vamos telefonar ao doutor Mortiner. Sendo tão próximo do falecido herdeiro, ele pode saber de quem se trata.

– Eu já fiz isso. Ele é médico. Acorda muito cedo e por sorte estava desocupado quando liguei.

– E por que fez tanto suspense?!

– Te peguei – ela riu ao ver a expressão confusa e levemente irritada de Sherlock – Você nem me deixou terminar... Primeiro ele me disse que não lembrava de nenhuma mulher com esse nome, que há algumas vizinhas estrangeiras que ele não sabe o nome, depois se lembrou de Laura Lyons, filha do senhor Frankland, que reside em Boston.

– O velho é tão insuportável que a fez ir embora.

– Como sabe disso?

– Enquanto eu seguia você conversei com ele uma vez. Quando perguntei se tinha algum parente ficou calado, o que indica uma resposta positiva. Sua expressão facial e corporal me disseram que não se dava bem, fosse com quem fosse. E não acredito que essa pessoa poderia suportar viver junto a alguém tão insuportável. O velho deve ter feito alguma coisa muito desagradável, talvez com o envolvimento de mais alguém.

– Ela casou com um pintor que Frankland detestava. O marido também não era uma flor de pessoa e a deixou. O doutor Mortiner disse que ele envia uma quantia pra filha, mas muito pouco. A história dela tornou-se conhecida e comoveu as pessoas, muitos ajudaram, incluindo Mortiner, Stapleton e Charles Baskerville. Ela tem um escritório agora. Trabalha com tipografia.

A conversa foi interrompida pelo toque do celular de Sherlock, que o colocou no viva voz e puderam ouvir a voz de Bell.

– O suspeito é realmente o assassino que procurávamos. Parece que ele conseguiu essas roupas num bazar de algum tempo atrás, o mesmo que você falou que seu cliente participou fazendo doações. As pessoas do bazar não o reconheceram, pensaram ser só um mendigo desafortunado. Parece que não assistem muita TV. Mas o mais estranho é que ele não aprece ter sido esmagado e estraçalhado por um cão enorme como você disse.

– Mas as evidências estavam claras – Sherlock replicou – E nós vimos o animal.

– Vocês viram um vulto. E eu acredito em você, mas não podem provar. Não encontramos nenhum vestígio dele, nem pelo. Quando chegamos até o corpo, o pescoço e a cabeça estavam sim num péssimo estado, mas parece que foi espancado e golpeado fortemente com uma barra de ferro ou outra arma. Nosso legista diz o mesmo, embora ele não tenha descartado que alguém fez isso antes de chegarmos pra encobrir o que aconteceu.

– Obrigado, detetive. Ligaremos se tivermos notícias.

– Como isso é possível?

– Agora tenho certeza que ele tem um cúmplice. Deve ter se escondido aqui perto e executou o trabalho sujo quando nós saímos. Outra pessoa deve ter chamado o cão de volta. Ele não poderia fazer as duas coisas ao mesmo tempo e ainda fugir.

– Se ele quer que as pessoas acreditem na lenda, por que fazer desse jeito?

– Ele quer os moradores locais acreditem. Sabe que a polícia não vai cair nessa, então precisa proteger o cachorro até concretizar completamente seu objetivo.

– Barrymore disse que está assustado, que agora todos estão. Além do que aconteceu, todos dormiram tarde escutando uivos e latidos. Não sabem dizer se realmente ouviram ou se imaginaram. Você escutou alguma coisa?

– Devo ter ouvido latidos, uivos e ganidos algum tempo depois que você dormiu, não me surpreende que nosso criminoso queira reforçar sua farsa depois de um golpe.

– Não vamos ver o manuscrito e correr pra encontrar Laura Lyons?

– Depois. Precisamos ver o manuscrito primeiro e me parece que nosso cliente ainda não deixou seu quarto. Temos algum tempo.

O britânico virou-se para ela lentamente, um pouco incomodado pela dor, e os dois apenas se encararam por um tempo. Joan estava visivelmente feliz, mas ainda tímida com as novas condições entre os dois.

– Nunca vi você tímida com ex-namorados – ele brincou, vendo-a ruborizar, e riu em silêncio.

Sherlock afagou seu rosto, afastando alguns fios de cabelo que caíam por ele. Eles mantiveram um intenso contato visual pelo que pareceu uma eternidade. Aqueles olhares conversavam, todas as palavras que não conseguiam dizer em voz alta. Lentamente Sherlock se aproximou, os dois pares de olhos se fecharam e ele a beijou. Suave e ardente, cuidadoso e profundo ao mesmo tempo. Joan suspirou ao correspondê-lo, já sentindo o fôlego faltar. As mãos dele ainda acariciando seu rosto, as dela passeavam em seus ombros e nuca. Ficaram unidos até esgotarem a última gota de oxigênio, e respiraram juntos, ofegantes. Sherlock beijou sua testa com carinho, algo que a surpreendeu e a deixou feliz, nunca havia imaginado aquilo vindo dele, sorriu quando foi puxada mais uma vez para perto dele e envolta em seu abraço seguro, aquecedor e confortável.

– É melhor pararmos por aqui – ele brincou, sabendo que Joan aproveitava a proximidade para esconder o rosto em seu pescoço.

A chinesa sorriu, o que não passou despercebido a Sherlock, que a embalou satisfeito para que dormisse mais um pouco antes de deixarem o quarto.

– Vai me deixar ver seu ferimento antes de sairmos – ela disse baixinho.

– Tudo bem. Durma um pouco agora. Eu sei que você quer – falou em seu ouvido enquanto a escutava rir e afagava os cabelos negros.

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Os dois consultores deram uma última olhada para o manuscrito original do conto da família Barkerville, o devolvendo a Henry.

– Ajudou em alguma coisa? – O herdeiro perguntou gentilmente.

– Não muito, mas acho que já vi essa letra antes – Sherlock lhe disse.

– Onde?!

– Eu não sei, antes de eu e Joan buscarmos essa resposta, gostaria de ver mais algumas coisas na casa.

– Claro, fiquem à vontade – Henry falou.

O casal deixou o escritório e seguiu para o andar de baixo, na sala de jantar, onde Joan se assustara na primeira noite ali.