O coveiro Blackhawk
2 Capítulo I: Encontro às cegas
Notas iniciais
Mystic Grill, Mystic Falls, Virginia.
2 de Fevereiro de 1972, 6:41PM.
Yves parecia relaxado demais atrás do volante.
– Não vai mesmo dizer para onde estamos indo? – Luke perguntou pela décima vez olhando para o lado de fora da janela, procurando uma pista de para onde esse caminho os levaria.
– Eu já disse que você descobrirá em breve, bicho. Deus sabe o que você faria se eu te contasse agora. Pularia do carro em movimento, ou pior. – Luke revirou os olhos.
– Deus, você é tão dramático.
– Eu que sou? – Yves olhou para seu melhor amigo com um sorriso sarcástico.
Quando os dois estavam na escola, naquela manhã, Yves disse que tinha bons planos para aquela noite. Era um acordo: Luke se vestiria bem e não faria perguntas, e em troca, Yves pagaria a conta do jantar.
O pensamento o levou a olhar para a rua outra vez, e então a ficha caiu.
– Ah não, bicho! Você está me levando para um jantar com aquela sua namorada? – Ele tapou o rosto com as mãos por alguns segundos e permaneceu com os olhos fechados, murmurando lamentações. Yves se certificou que a porta do carro estava trancada. – Ah, não... Você deveria ter me dito, você deveria ter me dito. Aquela garota é um pesadelo.
– Não exagere... Ela me obrigou a escolher entre sair de novo com as amigas dela ou sair com os meus, e tendo em vista que você é meu único amigo, eu não tive escolha. Com certeza eu escolheria o inferno a passar por aquilo sozinho outra vez. Não fique grilado, camarada. – Ele deu tapinhas nas costas de Luke. — Apenas ajude o Yves aqui, está bem?
Luke parecia não estar ouvindo. Crescera em um cemitério, a sua mãe parecia fazer parte da decoração da casa e o seu pai passava a maior parte do tempo embriagado, conversando com as paredes. A habilidade de manter um diálogo era algo que Luke definitivamente não possuía. Era um milagre que tinha conseguido um amigo, tendo em vista a forma que o rapaz fugia de qualquer tipo de interação social. E agora estava prestes a ser exposto à no mínimo duas horas de jantar com a rainha da tagarelice, isto é, a namorada de Yves.
Ele desejou desaparecer.
Luke sentiu o carro estacionar e soube que tinha chegado à única lanchonete de Mystic Falls.
– Não vai ser tão ruim, eu prometo. – Ele desligou o motor e abriu a porta do carro. – Além disso, nós temos uma surpresa pra você.
Isso fez Luke tirar as mãos do rosto e encarar o sorriso sonso no rosto do amigo.
– Até agora você não está se saindo bem com surpresas. – Resmungou, abrindo a porta e saindo do carro.
– Concentre-se apenas em sentar e comer, meu amigo, e deixe comigo a parte que fará desta noite uma noite inesquecível. – O rapaz pareceu materializar um óculos escuros de lentes redondas em suas mãos e, dirigindo-se para a entrada da lanchonete, colocou-o no rosto. – O engenhoso Yves resolverá tudo.
Luke bufou.
– Tenho certeza que vai.
[...]
Embora a sua mãe não fale absolutamente nada atualmente devido a sua condição mental, nem sempre foi assim. O pai de Luke costumava contar como ela era sorridente, generosa e até mesmo comunicativa, antes que a esquizofrenia a silenciasse para sempre. “Mas”, ele dizia, “a primeira coisa que todos sabiam sobre a sua mãe era que ela era uma mulher de palavra”. Não importava o quê, quando ou o quanto aquilo lhe custaria, ela cumpriria o que tinha prometido. Veja bem, Luke não era sorridente, comunicativo e nem um exemplo de generosidade, e era exatamente por isso que ele colocava todas as suas forças em ser um homem que cumpria as suas promessas. Era nisso que ele pensava quando passou pela porta e seguiu Yves através do estabelecimento cheio. A promessa que fizera de manhã era a única coisa que o mantinha ali.
As pessoas estavam com as suas melhores roupas, rindo e flertando, como se estivessem em um lugar digno. Quase todos tinham entre quinze e dezessete anos.
– Ei, chuchu! Aqui-í! – Uma voz estridente tomou o ambiente e Luke gemeu por dentro.
Samantha, a namorada de Yves, acenava para os dois indicando os lugares vagos na mesa. O seu sorriso cheio de dentes estava à mostra e Luke temeu que seus lábios fossem se rasgar em algum momento.
– Os mocinhos estão atrasados. Sentem-se logo e façam os seus pedidos, eu e Kendra já fizemos o nosso, espero que não se importem. – Ela passou o cardápio para Luke enquanto os dois se acomodavam no banco. – Oi, Luke! Quanto tempo!
Luke levantou os olhos do cardápio enquanto pensava em uma resposta educada, mas hesitou ao finalmente notar que havia uma quarta pessoa na mesa.
Kendra não devia ser mais velha do que ele, com dezesseis anos. Tinha a pele clara e cabelos extremamente negros e cheios. Os seus olhos eram profundos e selvagens, ardiam com algo inominável. Um arrepio passou pela espinha de Luke e um olhar de reconhecimento foi trocado entre os dois. A garota abriu a boca para falar algo, tal como Luke, que não conseguiu encontrar as palavras e a fechou novamente.
“Nós temos uma surpresa para você”, Yves tinha falado há menos de cinco minutos. Essa era a surpresa? Luke lutou contra a vontade de bater a testa na mesa. Repetidamente.
Yves olhou para Samantha e deu uma risada, alheio ao clima desconfortável.
– Confesso que eu não esperava que eles gamariam tão rápido. – E sorriu satisfeito.
A estupidez do amigo devolveu a Luke sua voz.
– Na verdade, é que já nos conhecemos. – Ele disse. Samantha e Yves o olharam com as sobrancelhas franzidas e Kendra se mexeu na cadeira. Luke gostaria de se tornar invisível, se transportar ou fazer qualquer coisa que o tirasse dali em um piscar de olhos.
– Que barato! – Yves disse. – De onde?
– Da escola? Não lembro de ter visto os dois juntos. – Samantha parecia confusa.
– Na verdade... – Kendra limpou a garganta e endireitou a postura. – Eu quebrei o braço dele no sétimo ano. Em uma briga.
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