O controle também é amor.
1 Capítulo Único. - Esforço e recompensa.
A humanidade não foi feita para ter um livre arbítrio tão grande. Quem quer que fosse o ser que lhes deu isso estava claramente fora da sanidade. Isso era algo factível, tão factível que o próprio fato de não ser a realidade foi chocante, senão decepcionante. Os humanos se matariam até a extinção se eles desejassem, havia uma certa mediocridade em uma espécie que se odiava tanto, os demônios não eram exemplos de camaradas, mas havia um proposito para tudo, uma cadeia de eventos.
Para os homens, era apenas desejo descabido, algo tão insípido e insignificante que era de se surpreender como uma espécie tão inteligente podia agir com tanta tolice. Apenas o menor dos desejos e das diferenças eram como pólvora e fogo. Uma reação de ódio tão rápida e explosiva que podia pegar tudo e todos no caminho, e quando o ódio desse uma trégua, eles diriam palavras bonitas como que esse erro foi aprendizado e eles fariam melhor, mas nunca foi, nunca fizeram.
Desde sempre, ela se perguntou se a sua posição de liderança dentro da associação de caçadores de demônios tinha algum propósito no fim. Os humanos tinham um inimigo em comum fazia um bom tempo, todos tinham ideia de quem era o maior perigo, os demônios. E ainda sim eles não perdiam tempo para subornar e ameaçar demais nações, ou armazenar os ditos demônios para os próprios fins. Não que ela fosse dizer algo, há muito tempo ela aprendeu que era inútil perguntar.
É para o bem cívico, é para manter a paz, coisas tão singelas e bonitas feitas e ditas por pessoas que fariam demônios do nono inferno se envergonhar de se chamarem de maus. Era quase cômico se não fosse patético ao ponto de fazê-la querer vomitar. Então quem poderia culpá-la se ela quisesse tomar as rédeas ela mesma? Havia alguém mais capacitado? Se houvesse e ainda sim estivesse deixando tudo fluir como água de esgoto, ela o mataria apenas por despeito.
Mas agora não era hora de pensar em como matar quem quer que tivesse criado toda essa situação, agora era dela continuar com sua vida perfeitamente natural, fazendo seu teatro ensaiado para uma plebe que sorriria para ela caso ela apontasse-lhes uma arma.
Ela estava explicando aos muitos caçadores que havia uma peça importante do demônio da arma sobre a posse de outros demônios menores, mas não menos perigosos que eles deveriam recuperar para lidar com essa ameaça constante, era uma missão importante e ela convocou muitos deles Mesmo que mais da metade fossem novatos. Ela claramente, deu-lhes seu plano que não passava de uma armadilha bem óbvia, tão óbvia que alguém com o mínimo de livre arbítrio teria a questionado em sua sanidade.
Não era e nem seria a primeira vez que ela lidaria com algo dessa forma, descuidadamente mandando para a morte e o mártir certo vários dos novatos que estavam em sua talvez terceira, quarta semana como caçadores de demônios. Essa missão era perigosa naturalmente, e com a própria liderança e planejamento dela para muitos perecessem, apenas uma única pergunta ficou no ar.
Alguém iria se opor? Alguém sequer iria pensar nisso como uma armadilha? Ela fez questão de deixar claro que eles iriam abrir caminho numa horda de inimigos sem apoio algum, entrar, morrer, e sair quem pudesse.
É claro, não havia homem ou mulher que ela não tivesse cativado a essa altura.
Com a exceção de uma pessoa. Aquela que os olhos dela não deixavam de vagar sutilmente a cada momento em que se encontravam.
— Senhorita Makima. — a voz do jovem que atraiu a atenção dela soou na sala, do lado oposto da mesa, bem distante dela. — Eu tenho preocupações.
Um pequeno sorriso foi escondido pelas mãos expostas e cruzadas em frente ao seu rosto. — Estamos todos ouvindo, júnior Dopel.
Makima podia sentir bem no fundo dos olhos verdes e opacos dele que ele realmente estava se esforçando para ser educado, ela não cansava disso.
— Seu plano é falho. — a resposta foi abrupta, a voz dele embora sempre soando calma e controlada, carregava uma forte verdade, mesmo que os sons de indignação fossem logo apresentados por ele ter dito tal coisa, de tal forma.
Makima podia sentir o desgosto ressoar dentro dela. Confie em escravos de corpo e mente para se rebelarem contra aqueles que lhe dá a liberdade. Eles eram realmente sem esperança.
— Poderia nos esclarecer? — ela lhe perguntou, se debruçando na cadeira, agora era realmente o momento em que ela iria se divertir.
O jovem não perdeu tempo e começou a apontar no projetor todas as óbvias inconveniências do plano dela. Apenas uma rota, pouca visibilidade, sem informações externas e sem estudo prévio do local. Nenhum deles ali sequer tinha ideia de que tipo de inimigos iriam lutar, quantos eram e o que eles deveriam fazer como grupo.
Após uma dissecação rápida e quase fria dessa armadilha dela, Makima o fitou diretamente nos olhos, não sendo capaz de evitar se perder ali.
— E após essa explicação, espero que entenda quando eu digo que o plano deve ser alterado, e pensando com muito cuidado. O tempo nesse momento é um problema, é verdade. Porém não significa que devemos ser suicidas. Eu proponho uma alteração nos fatores para que todos nós possamos voltar vivos disso. — o jovem tomou uma lufada de ar enquanto ponderava os olhos críticos e quase odiosos dos demais ali, por que eles eram tão difíceis?
— É realmente uma ideia muito melhor do que a minha. — Makima não iria chover no desfile dele, não quando era a única coisa que alegrou o seu dia até então. — Vamos seguir seu plano, alguém têm alguma objeção?
Ela admitiria para si mesma, soar um pouco desapontada, mesmo que ligeiramente era tudo o que era necessário para que os tolos encantados por sua aparência se revoltassem. Havia um certo barulho, caçadores que também eram júniores e alguns poucos sortudos que passaram dos primeiros meses foram rápidos para dizer que o jovem faltou com respeito, mesmo quando a própria Makima não pensava assim.
Era engraçado, mesmo que triste.
Makima o observou morder os lábios, claramente frustrado com a situação. Ela sorriu com isso.
Foi uma tentativa boa, mas o jogo dela iria rolar mesmo com as cartas e os coringas descobertos.
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Makima só precisou procurar pelo tom de cabelo mais escuro naquele local, ela não demorou muito tempo para achá-lo depois que ela adotou um hábito quase... Obsessivo de deixar algum corvo, ou rato seguindo-o sempre, para que ela tivesse noção do que ele estava fazendo, e se estava seguro.
Não foi surpresa para ela encontrar ele em frente há novas lápides, a missão havia acontecido há pouco mais de um dia a essa altura, ela recebeu o relatório dentro da sala particular dela, sentada com um bom café enquanto os homens que ela deveria se preocupar eram usados como alimento e mortos por bestas.
Ela se aproximou, com certo cuidado e silêncio. O olhar abatido e o desfoque na expressão do mais jovem eram fascinantes para ela. Desde que ele chegou, a atenção dela era focada nele e somente nele de tal forma que era estranho vê-lo depois de um dia, ela sabia que ele estava vivo e bem, ela se certificou disso.
Mas ela não estendia o mesmo zelo para outros caçadores, não mesmo.
— Não era pra ser assim. — a voz dele soou nos ouvidos dela, só agora se dado conta que ela havia caminhado até ficar plantada ao lado dele, a chuva havia começado e ela abriu seu guarda-chuva para cobrir os dois. Os olhos dele nunca deixando os nomes das lápides.
— Eles não morreram em vão. — Makima ofereceu a mais básica das lamentações, era o suficiente, deixando o som da chuva se alastrar e ela se aproximou o suficiente para cruzar o braço sobre os ombros do mais novo, oferecendo um certo tipo de conforto para o observador distante.
Mas Makima só queria olhar a tristeza refletida nos olhos dele, era tão... Mágico.
— Eles não deveriam ter morrido, não assim. — Dopel se afastou do quase aperto da mais velha agora. Não querendo ficar mais tempo os observando, ele começou a andar na chuva em direção ao táxi que havia chegado agora. Makima não se preocupou em parecer ofendida por ter sido descartada assim, ela sorriu com isso.
Não havia nenhum até então que havia a descartado assim, não foi a primeira vez que havia lhe acontecido contra se tratava dos dois, e ela sabia que não será a última. O sentimento era inebriante.
No dia seguinte, na semana seguinte, tudo havia voltado a certa normalidade dentro dos caçadores de demônios e seu trabalho, novos recrutas vieram com sangue quente para apaziguar as percas. Makima fez questão de convencer muitos jovens, homens e mulheres a se juntarem a causa. Mas tudo era apenas sem fim ou propósito.
Ela estava apática sobre eles, rostos e nomes sem importância no grande esquema das coisas. Do que lhe serviria manter mesmo que profissionalmente algo com cada um deles? Era quase cômico. Não, era cômico.
Um rosto e um nome, no entanto, não nada além de sua única fonte de alegria nesse lugar amaldiçoado por Deus. Havia um certo prazer dentro dela ao ver Dopel fazendo seu trabalho com diligência, dedicação e ética, apenas para ver ele ficar triste quando achava que estava sozinho.
Essa semana não havia nada de importante acontecendo, nenhum outro caçador havia morrido, milagrosamente. Então por que a tristeza no fundo dos olhos? Makima sabia.
Era algo chamado empatia, algo que Makima embora pudesse compreender, ela nunca se relacionaria com o termo. Mas ela sabia que ele tinha isso de sobra, por de baixo daquela expressão calma e composta, havia simplesmente um jovem humano que não queria que coisas ruins acontecessem com outros, mesmo que os outros merecessem isso.
— Senhorita Makima. — a voz de outro caçador, que ela não reconheceu pediu para entrar em seu escritório.
— Está aberto. — ela colocou seu sorriso no rosto enquanto mantinha sua caneta ocupada em uma papelada que era só mais uma etapa do trabalho sem fim dela.
Era Aki Hayawaka, ela se lembrava dele pois curiosamente, o fichário dele estava sendo rabiscado por ela com informações de seus contratos. Assim que ele se aproximou, se ele notou que estava sendo feito anotações sobre ele não se incomodou em dizer.
— Por que ele diria algo? Não demorou talvez nem uma semana completa para que ele perdesse a cabeça e tentasse em vão esconder sua ‘’ admiração profissional ‘’ sobre ela. Era um pouco patético o quão pouco era necessário para ela ter um homem de sangue quente fisgado no horizonte de eventos que era sua beleza.
Makima sempre soube usar seu charme e sua aparência para fins próprios, mas ela admitiria que ela mantinha isso até hoje simplesmente porque ela adorava a sensação de controle naqueles abaixo dela.
— Em que posso te ajudar? — Makima lhe estendeu o sorriso costumeiro, focando em seus olhos com os dela, deixando-o fisgado em seu rosto.
Ela fez um certo esforço para não rir da contenção dele, era tão estranho. Do que adianta tentar se controlar quando já foi enlaçado? Ele não foi capaz de rebater ela e sua beleza, ele não foi capaz de se impor contra as loucuras dela.
Ele não era Dopel, e cada vez mais algo lhe dizia que ninguém seria.
— É minha líder, Himeno. — Aki disse com uma certa emoção raivosa. — Ela está atrasada para a patrulha, de novo.
Makima não desfez o sorriso, mas ela entendia o motivo dele estar zangado. Himeno era uma mulher que já estava chegando a uma boa marca de tempo numa profissão onde a morte era quase uma amante gentil, chamando-lhe pra um abraço. Não era de admirar que alguém que está no ramo a certo tempo adquirisse hábitos ruins.
— Eu entendo... Eu até diria para você esperar por ela, mas sendo diretamente franca com você, a essa altura do dia é mais do que provável que ela já esteja...
— Além de bêbada, sim. — Aki finalizou para ela, não tendo preocupações em fazer a mulher ter uma imagem ruim como Makima parecia estar hesitante em falar de um funcionário, como a mulher de boa índole que Aki sabia que ela era. — O que eu devo fazer?
Makima cruzou os dedos embaixo do queixo brevemente. Olhando para o relógio da parede, ela teve uma ideia. — Vou te parear com outro caçador, pelo menos no dia de hoje. Não podemos deixar de patrulhar, podemos?
Não se preocupando em deixar uma resposta dele lhe atingir, ela se levantou e cruzou sua mesa. Abrindo a porta ela apenas disse para o outro a seguir enquanto ela avança pelo corredor. Ela sabia exatamente o que deveria fazer agora. Indo até outra sala no departamento, ela apenas deu uma batida educada na porta.
— Pode entrar, Makima. — a voz de alguém que Aki não simpatizava azedou seu humor rapidamente.
Makima abriu a porta com cuidado e adentrou no pequeno escritório. E não se preocupou em parar de olhar, ou sequer dizer alguma coisa enquanto observava a fonte de sua fascinação trabalhar em um relatório que ele iria lhe entregar até o fim da tarde, na saída de seu horário de trabalho.
— Como sabia quem era? — Makima perguntou enquanto cruzava os braços, não se preocupando em desviar o olhar do rosto dele, era um hábito passivo, ela gostava de contar as pequenas manchas ao redor do rosto de Dopel, eram pequenas bolinhas escuras que simplesmente eram curiosas demais para ela não observar sempre que podia.
— Você é a única que bate na porta, os demais simplesmente entram. — Dopel disse secamente, ignorando o leve tique nervoso nos olhos do outro homem na sala, mais um que parecia ter algo contra ele, foi um castigo divino?
— Eu vou conversar com os demais, eu odiaria pensar que estou fazendo sua vida uma dificuldade maior do que já é. — Makima disse com um sorriso, estudando a expressão desinteressada dele em suas palavras, era quase eufórico.
— Eh. Não me preocuparia com isso. — ele largou a caneta. — Olá, Aki. — ele cumprimentou o outro, por educação se nada além.
Um aceno de cabeça curto foi tudo o que recebeu dele. E um silêncio se estendeu, Makima percebeu que nenhum dos dois se falaria muito se ela não tomasse a liderança.
— Eu vim te pedir um favor. Sei que você está fazendo seu relatório semanal agora, mas Aki não está com sua parceira para fazer sua patrulha do dia. Todos os veteranos estão ocupados com seus próprios parceiros e alunos, então eu pensei que...
Makima queria muito gravar o rosto rancoroso do jovem caçador enquanto Dopel realmente estava prestando atenção em tudo menos no que ela estava dizendo.
— Himeno, ela está bêbada de novo, não está? — embora fosse uma pergunta, foi uma retórica.
— Sim. — foi tudo o que Makima disse. — Eu sei que você está ocupado com isso, mas...
Tudo bem, não podemos deixar uma patrulhada isolada, é no descuido que algo ruim acontecesse. — Dopel disse enquanto largava a caneta e olhou diretamente nos olhos dourados da mulher, fazendo-a estender o sorriso ainda mais.
— Você me deve. — foi sua resposta e com isso dito e ele se levantou, pegando seu terno e sua shinai.
— Tenho certeza de que não vou me importar em te dever favores, muito menos pagá-los. — Makima disse quase jocosa enquanto saia dali, ignorando o olhar de solsaio que Aki lhe deu.
O ciúme era um veneno, não era? Makima não entendia o porquê alguém sentiria algo assim tão facilmente.
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Ela não tardou a descobrir o quão horrível era a sensação desse tal ciúmes que ela fazia todos sentirem sobre ela. Makima podia admitir com clareza que ela odiava. O simples fato de que Dopel havia se enturmado com Himeno por causa da conexão que ela o fez ter com Aki azedou o seu humor pra níveis novos. Ela não se lembrava em sua memória eidética de ter se sentido dessa forma antes.
Himeno era extrovertida, mesmo com pessoas desconhecidas. Ela tentava passar uma personalidade séria e confiante, mas na realidade ela era um pouco extravagante na opinião sincera de Makima. E não ajudou muito a conter essa personalidade mais extrovertida quando ela se interessou por Dopel.
Makima podia simpatizar, havia algo ali que não era visível aos olhos de ninguém, mas que fazia sentido observar e pensar sobre. Mas tinha que ser tão seguido? Makima podia contar com facilidade o número de vezes em que a mulher mais velha literalmente esparramou o peso dela sobre Dopel, o levando a encontros após o trabalho para beberem em grupo, ela literalmente o adotou com seus caçadores nessas últimas semanas.
Isso a deixou azeda, desgostosa até. Ela não gostava da sensação de ter Himeno, uma pessoa que era conhecida por beijar seus colegas de trabalho e fazer apostas sobre isso assim que os canecos de bebida alcóolica começavam a descer em seu sistema. Para alguém que dizia ser uma amante do álcool ela tinha pouca resistência. E somada ao fato de Dopel ser arrastado para lá, seja por cordialidade ou simplesmente por gostar de companhia, era horrível.
Ele estava feliz, ela podia ver. Ela reconhecia os sinais, e ela sabia como se sentia quando estava sozinho. Ela não gostava que essa emoção rica estava sendo feita por outra pessoa. O que era necessário para fazê-lo associar felicidade com a imagem dela? Ela poderia convidá-lo para sair? Ela sequer tentou fazer isso com alguém antes? Mesmo os convites profissionais não foram feitos por ela, mas por terceiros.
Talvez, ela pudesse fazer algo a respeito e capitalizar muito mais da atenção de Dopel para ela. Ela pensou que valeria a pena fazê-lo sentir um pouquinho de dor para que ela pudesse ser o tratamento.
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Ele não iria se acostumar com essa sensação gélida dentro do peito. Não era pra sequer existir dentro dele. Ele já deveria ter parado de se importar com qualquer coisa assim, isso era trabalho e isso era também os ossos do ofício. O trabalho de caçador de demônio era cruel e indulgente, a qualquer momento do dia algo poderia ir pelos ares e você iria junto de tabela.
Ele sabia, ele entendia.
Mesmo assim, a dor em seu peito não parecia parar a essa altura? Ele já estava a quase meio ano agindo como caçador, suas primeiras semanas ele não havia perdido mais de doze colegas recrutas? Quando ele se tornou um júnior, seus colegas não haviam ignorado a estratégia dele mesmo sendo aprovada pela chefe deles levando todos a morte? Ele perdeu o mentor, Kishibe estava ausente na maior parte do tempo para ajudá-lo, como uma das únicas pessoas que ele confiava.
Os amigos que Himeno o ajudou a fazer morreram horrivelmente. Himeno, a própria. Simplesmente sacrificou o próprio corpo para derrotar seu adversário e ele ousou dizer que não valeu a pena. Ele não dormiu até agora, e já fazia mais de 36 horas desde que Himeno morreu, Aki embora fizesse todo o possível para parecer e soar frio como um mecanismo de defesa, também havia levado um forte baque com isso.
Ele havia deixado o crematório há algum tempo, queimando alguns pertences específicos que Himeno havia confessado para serem feitos, caso o pior acontecesse com ela numa noite em que ela havia bebido demais. Pra uma mulher que era muito escandalosa, ela usava suas emoções na manga somente em momentos como esse, onde ela parecia querer te ensinar algo pra vida. Himeno deixaria uma marca de saudade dele, sem dúvidas.
Na memória dela, ele próprio decidiu por pelo menos uma noite, se afogar em piedade com a ajuda de álcool. Ele estava magoado, triste. Alguém culparia um jovem por querer apenas colapsar e apagar em qualquer lugar? Ele tinha que lidar com essa dor de um jeito, e ele havia escolhido fazer como Himeno fazia.
Foi-se talvez um par de horas em que ele estava no mesmo bar em que seu grupo costumava ir, ele se sentiu saudoso mesmo agora, ele quase podia ouvir os fantasmas de seus amigos o forçando a falar, dando-lhe petiscos e algumas cervejas escondidas pra beber mesmo ele sendo muito novo para estar ali. Mas agora ele estava sozinho, esparramado no canto de uma mesa isolada, com pelo menos uma meia dúzia de canecas vazias e seus pensamentos estavam lotado de tanta coisa...
O dono do estabelecimento não perguntou nada sobre os olhos vermelhos e do porquê de ele ter vindo sozinho, talvez até suspeitasse do motivo dele estar sozinho e bebendo sua alma fora. Ele daria uma gorjeta por não ter ouvido uma palavra de piedade agora. Piedade era tudo o que ele não queria. O que ele queria era ficar bêbado ao ponto de fazer besteiras, dormir numa viela no meio da rua e acordar indisposto, exatamente como Himeno.
— Acho que já chega de bebidas pra você essa noite. — a voz que ele reconheceria em qualquer lugar devido a leveza que ela trazia consigo soou de trás dele, ele não teve forças para se virar, ocupado demais escorando seu corpo na parede.
Era Makima. Ela veio atrás dele... Por quê?
Ela se sentou ao seu lado, abrindo espaço entre as cadeiras vazias e colocou-se perto, perto demais para uma mente sã apreciar, mas ele estava além disso agora, não estava?
— O que faz aqui? — ele disse quase ríspido, se desculpando após alguns segundos de ter notado que ele soou agressivo demais para alguém que estava claramente sendo ativamente procurado.
Ele observou a mulher mais velha retirar a caneca que ele estava segurando de suas mãos e colocou para o lado, ele não fez nenhum movimento para impedi-la. Também não impediu a mulher de agarrar sua palma com a dela e manter suas mãos próximas.
— Eu vim ver como você estava. — Makima disse suavemente, a voz dela parecia até mesmo angelical nesse momento, tamanho era o cuidado que ela estava dizendo cada uma de suas palavras. — Eu sei que você não lida bem com a perca, e fiquei preocupada que algo te acontecesse quando você está... De luto.
Dopel queria sorrir, mas só veio algo amargo dentro de seu corpo para seu rosto. — Você deve me achar uma criança idiota por não conseguir lidar com meu trabalho, não é? — ele virou o rosto e olhou para qualquer canto menos pra mulher que teve a bondade de ir checá-lo.
Um leve aperto em sua mão o forçou a olhar de volta, Makima não estava sorrindo, não estava zombando, naqueles olhos dourados ele conseguiu perceber que ela não estava ali para lhe dar piedade, era apenas preocupação. Preocupação que ele não sabia que ele tinha dela.
— Gostaria de imaginar que você me conhece melhor do que isso. — Makima disse lentamente, ainda o olhando diretamente, dessa vez com um pequeno e costumeiro sorriso que ela sempre esbanjava no trabalho. — Eu me preocupo com os meus, e me preocupo com você.
— Eu não sou ninguém especial, nunca fui e nem tentei ser. — foi sua resposta rápida. Mas a mulher ainda sim sorria. — Eu... Vou parar de beber essa noite por respeito a sua preocupação.
— Estou feliz. Não quero que nada te aconteça no caminho de casa. Deixe-me levá-lo? Eu estou de carro. — ela lhe perguntou, ele podia sentir o cheiro do perfume dela quanto mais ela inclinava o dorso para frente, era bom.
Parte dele queria recusar a oferta com palavras educadas, dizer que não era necessário, responder que sua casa estava perto quando não era verdade. Apenas pra ficar sozinho se nada mais, porém quando ele olhou no fundo dos olhos dela, ele se sentiu incapaz de fazer qualquer coisa senão o oposto.
— Por favor, e obrigado. — foi sua resposta. Makima se afastou dele apenas o suficiente para que ele pudesse se levantar, mas foi um erro fazer isso tão rápido. Suas pernas cederam e ele se sentiu um pouco zonzo, ele tombaria reto no chão se não fosse por Makima, a boa mulher cruzar os braços ao redor da cintura dele para que ele pudesse andar melhor.
Ele murmurou um agradecimento envergonhado e evitou contato visual com ela, se sentindo estranho pela cortesia da sua chefe, ele iria provavelmente daria com o rosto em algum lugar e não seria uma boa maneira de encerrar a noite.
Makima foi muito rápida e retirou apenas um cartão que ele imaginava conter mais dinheiro do que ele teria em vida pela cara de surpresa do responsável do local onde ele teria bebido até o amargo fim. Ele fez um protesto para pagar, afinal foi ele que havia consumido a cerveja, ela só veio até ali porque estava preocupada com seu funcionário. Mas ela não de ouvidos a ele, praticamente o calando quando ela o apertou em seu quadril e disse que ele poderia compensar levando-a para sair em outro momento.
Ele podia aceitar isso.
O caminho do carro ele fez questão de agradecer a ajuda dela e ficou feliz por ter notado que sua chefe, no fim realmente era uma pessoa boa. Apenas muito quieta pra expressar seus sentimentos? Ele não sabia dizer. Ela lhe pediu seu endereço e ele forneceu, a ida de carro até lá foi envolta de um silêncio não do tipo constrangedor. Ele estava apenas muito ocupado e com a cabeça fora de órbita para dizer qualquer coisa, mas ele notou que ela o encarava de tempos em tempos mesmo dirigindo.
— Dopel. — Makima o fez olhar em sua direção, quase que instintivamente nos olhos dourados dela, eles pareciam diferentes agora. — Eu vou precisar entrar na sua casa, pra me certificar de que você está bem.
Ele sentiu-se compelido a dizer que estava tudo bem em um murmúrio, novamente querendo evitar olhar no rosto da mulher, ele não via mal algum nisso. Ela só queria se certificar de que ele poderia lidar com isso sozinho, ela estava sendo gentil.
Não demorou muito tempo para que eles pudessem ver o prédio onde ele morava. Makima havia feito a volta em seu carro e o ajudou a se levantar e para também impedir que seu corpo desonesto e bêbado além da salvação caísse. Ela só estava preocupada, era tudo.
Dopel podia simpatizar com boas ações, era bom ter alguém sendo tão legal sobre isso. Eles pegaram o elevador, Makima disse que ela não queria fazê-lo subir as escadas e seria melhor eles não perderem tempo para que ele chegasse e descansasse. Ela também havia aceitado as chaves dele, praticamente o convidando para seu próprio apartamento.
Ele fez questão de dizer para ela se sentir à vontade, ela observou ao redor com um sorriso no rosto enquanto ela o guiava até o quarto dele... Mesmo que ele não tivesse dito onde era?
— Deixe-me te ajudar. — a ruiva praticamente o chocou contra seu colchão, ajudando-o a tirar sua jaqueta, sua gravata e seus sapatos. — Melhor, não? — ela lhe sorriu de novo, o coração dele apertou por alguma razão.
— Sim. — foi sua resposta silenciosa, ele não sabia o que dizer agora. — Eu... Obrigado? Quer dizer, obrigado por me trazer de volta pra casa, Makima.
Ela se inclinou pra frente, com as mãos no joelho dele, olhando-o atentamente. — Vai ser melhor se eu passar a noite aqui, não queremos que você acorde e tenha um pesadelo, não é? Himeno gostaria que você tivesse bons sonhos, deixe-me.
Mordendo os lábios, ele ouviu as palavras dela. E conforme ele as dissecava, todas elas pareciam certas, até atraentes. Não seria bom pra ele ficar sozinho e triste. Himeno queria que ele sorrisse mais e que fosse mais espontâneo. Não viria nada de bom se ele não conseguisse dormir ou tivesse um episódio ruim e voltasse a beber.
Ele não respondeu com nada além de um aceno de cabeça enquanto fechava os olhos suspirando, havia sido um longo dia. Perdendo o sorriso agora calculista e quase frio dela quando ele concordou em deixá-la ficar.
Foi um esforço grande para evitar olhar a figura da mulher se desfazendo de suas vestes mais pesadas. Ele já havia preparado a cama para eles dormirem, ele a viu se sentar em sua cama, erguendo os cobertores e se deitando ao lado dele. Ele engoliu em seco com isso.
A primeira mulher que ele trouxe para sua cama, foi sua chefe. Makima. A mulher que ele tinha quase absoluta certeza de que todos os caçadores, homens e mulheres queriam o menor dos afetos. A mente dele finalmente pareceu entender o que havia acontecido neste quarto agora quando ele sentiu um corpo ligeiramente maior e quente envolver o corpo dele em um abraço e quando sentiu uma de suas pernas se cruzarem com as dele. Ela estava literalmente o encarando agora.
Podia-se sentir e ouvir a respiração dela a essa distância, por um momento ele não soube o que fazer quando ela se arrumou ainda mais perto, uma das mãos dela procurou a dele e se manteve lá, em um aperto gentil. O coração dele parecia querer explodir.
Ela sempre foi tão bonita assim? Ele deveria ter percebido isso há muito tempo. Por que ele não percebeu?
— Está tudo bem. — a voz dela parecia uma luz em meio a essa escuridão que seu dia havia sido, as notícias que carregavam um fardo pesado pareciam esquecidas no fundo de sua mente, a atenção estava nela. — Enquanto você ficar comigo, nenhum mal vai te acontecer.
Repentinamente, ele confiou nessas palavras. E quando ele ousou olhar para ela diretamente uma última vez, o sono veio rápido e o possuiu. E talvez ele nunca tenha entendido o porquê de ele ter sonhado com ela e uma pequena garotinha que tinha os cabelos escuros dele e os olhos dourados dela.
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