O conto da raposa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa Leitura!
Sienna Dantas de Carvalho.
Esse foi o nome que recebi quando nasci. Minha falecida mãe quem o escolheu, porém ela não teve tempo hábil para me chamar assim já que morreu logo após me dar a vida.
Apesar de meu pai estar vivo, não foi ele quem me criou e sim minha avó materna.
Quando eu completei 2 anos, ele, meu pai, não aguentou mais me criar porque minhas feições estavam cada vez mais semelhantes às de minha mãe, então ele me entregou para que minha avó me criasse.
Hoje completo 18 anos, e para comemorar minha passagem para a fase “adulta” tenho que passar a noite na floresta que cerca o vilarejo onde moramos. Sim, eu moro em um vilarejo cercado por uma densa floresta. E é tradição por aqui que os jovens na noite em que completam 18 anos passem a noite na floresta e façam uma oferenda em um altar que fica bem no centro dela, e detalhe, a oferenda tem que ser queimada em cima do altar a meia noite em ponto.
Por mais assustador que pareça essa tradição minha avó me disse que em todos os 68 anos em que ela viveu ali, apenas uma única vez um jovem adentrou a floresta e nunca mais retornou, porém também nunca foi encontrado nenhum corpo ou restos de um, e isso aconteceu uns 20 anos atrás.
Apesar de não estar completamente assustada, saber que houve um caso de “desaparecimento” me incomoda um pouco, mas saber que hoje é noite de lua cheia, por algum motivo que desconheço, me deixa mais ansiosa ainda. Talvez, porque justo em noites de lua cheia é possível ouvir uivos vindos da floresta, porém isso é tudo.
O céu está incrivelmente limpo de nuvens, e as estrelas formam um lindo rio no céu escuro e a lua visivelmente redonda parece especialmente maior e mais brilhante:
— Sienna, querida. – Ouvi a voz de minha avó e virei-me para ver que estava parada no batente da porta do meu quarto segurando uma cesta de piquenique. – Já terminou de preparar sua mochila? – Acompanhei seu olhar até minha mochila que estava largada ao pé da minha escrivaninha.
— Sim. Não levarei tantas coisas, afinal, pretendo não ficar lá mais que o tempo necessário. – Peguei minha mochila jogando em um dos meus ombros e caminhei até a saída sendo seguida por minha avó. Parei em frente à porta e respirei fundo. Virei-me para minha avó e peguei a cesta de suas mãos. – Eu voltarei ao amanhecer.
— Tome cuidado. Lembre-se de queimar exatamente quando as sombras dos doze pilares se cruzarem em cima do altar. Ah, e não coma das oferendas! Aqui separei um lanche para você. – Abriu um dos lados da cesta e apontou para um embrulho de pano.
— Não se preocupe. Não cometerei nenhum erro! – Sorri tentando passar-lhe confiança e ela sorriu em retorno acenando com a cabeça. Respirei fundo. – Vou indo. – Anunciei após ouvir o cuco avisando que já eram nove da noite.
Minha avó e uma parte da população do vilarejo me acompanharam até a entrada da floresta:
— Bom. Estou indo. Que os espíritos me protejam. – Respirei fundo outra vez e adentrei a floresta.
Caminhei por um bom tempo até de fato chegar à parte mais central da floresta. O caminho levemente traiçoeiro me obrigou a pegar minha lanterna. Eu quem não pretendo me perder.
Olhei para cima e por meio das folhagens das altas árvores pude visualizar o brilho da lua:
— Ainda tenho um pouco de tempo. – Constatei ao ver que pela posição do brilho ainda deveria faltar um pouco mais de uma hora até dar meia noite.
Cuidadosamente caminhei até um tronco de árvore caído e sentei-me. Estava começando a sentir fome e sede, mas optei por apenas beber um pouco de água e deixar a comida para mais tarde. Devo ter ficado sentada por uns cinco minutos e já estava me levantando quando ouvi o barulho de passos. Não de humanos, mas de animais. Animais pesados e zangados.
— Oh ou! – Era só o que me faltava. Javalis! Encarei o grupo de cinco javalis que corriam em minha direção. Nem pensei muito e logo me levantei correndo o mais rápido possível sempre tentando me manter na direção correta. – Por que diabos têm javalis nessa floresta?! – Gritei indignada em meio a minha corrida.
Após uns minutos correndo o ar começou a faltar e aqueles malditos javalis continuavam me perseguindo. Olhei para traz a fim de confirmar que eles ainda me seguiam e foi quando vi algo incrível. Uma raposa. Não uma raposa qualquer. Ela devia ter o meu tamanho sobre as quatro patas, e o seu pelo vermelho tão brilhante que mesmo naquela escuridão o pouco brilho da lua que nos alcançava parecia se concentrar em refletir a beleza daqueles pelos.
Tropecei.
Caí de joelhos e rapidamente me virei vendo a raposa pular no pescoço de um dos javalis. Assim que ela atacou o primeiro javali os outros quatros mudaram a direção da corrida para o lado e eu apenas fiquei parada. Paralisada.
Totalmente hipnotizada pela raposa que com suas presas esmagava o pescoço daquele javali. E então o tempo pareceu parar.
Aquela raposa estava longe de ser uma raposa normal.
Quando o javali enfim parou de se debater ela virou-se em minha direção e senti o ar dos meus pulmões se esvair.
Nossos olhos se encontraram e uau. Seus olhos verdes brilhavam intensamente, mas o que me chamou mais atenção foi o sangue escorrendo por sua boca aberta que me mostrava todos seus dentes. Nada bom.
Levantei-me de uma vez e me arrependi.
A raposa começou a andar em minha direção emitindo um barulho semelhante a um rosnado e eu soube que se eu corresse, ela me alcançaria e, se eu ficasse provavelmente morreria, porém, não consegui mexer nenhum musculo sequer enquanto ela vinha em minha direção em posição de ataque. Quando estava próximo o suficiente, fechei meus olhos.
Então é assim que vou morrer?
Esperei pela dor, mas estranhamente eu não sentia nada. Abri meus olhos vagarosamente e... Nada. Não havia nada a minha frente. Nenhuma raposa e nenhum corpo de javali.
— Será que eu comi algum cogumelo venenoso? – Talvez estivesse delirando.
Olhei ao meu redor e percebi que estava de costas para o altar.
— Quando eu cheguei aqui? – Observei os doze pilares distribuídos ao redor de um tipo de mesa de pedra. Ali era um espaço mais aberto, não havia árvores cobrindo o lugar e, isso dava uma visão perfeita do céu e da lua. Estava quase na hora.
Apressei-me e ajeitei a oferenda em cima do altar.
Quando terminei de jogar o álcool e peguei a caixa de fósforos a lua atingiu o seu ponto máximo no céu.
As sombras então se cruzaram sobre a mesa do altar. Aquele era o momento.
Sem hesitar risquei o fósforo na caixa e o aproximei perto da oferenda que não demorou em começar a queimar.
Fiquei ali parada esperando o fogo terminar. Só poderia ir embora quando a oferenda tivesse terminado de queimar por completo.
Observei a fumaça que subia em linha reta em direção à lua. Não ventava. E estranhamente eu não ouvia som algum vindo da floresta.
Senti um arrepio passar por minhas costas e, hesitante, me virei.
Lá estavam aqueles olhos.
Um par de olhos verdes me encarava do ponto onde a floresta terminava e começava o campo do altar.
Não tinha sido um sonho?
O que teria acontecido então?
Oh. Aquele olhar era tão cativante que me prendeu por um longo tempo. Só me dei conta disso quando a raposa quebrou o contato visual e levantou-se voltando para a floresta.
Olhei para a mesa do altar. Estava quase completo.
Tudo tinha sido queimado.
Juntei as cinzas com minhas mãos e como mandava a tradição, apertei as cinzas entre as minhas mãos e fiz um desejo, logo em seguida assoprei as cinzas em direção aos céus.
Estava acabado. Eu finalmente tinha passado para a fase adulta.
Notas finais
Beijos no coração e até o próximo capítulo ♥!
Fale com o autor