Seus olhos brilhavam diante ao livro, ele estava apaixonado pelas fotografias de Diane Arbus. Ao mesmo tempo em que eram totalmente aleatórias e estranhas, eram algo consistente e merecido de admiração. Allen passou a frequentar a biblioteca todos os dias para rever o livro – Pode-se notar que ele considerava frequentar o ato de ir a um lugar com um interesse especifico e quem o atende no local já sabe o seu interesse – Todo dia a querida senhora de cabelos grisalhos o atendia e já o levava até o livro — “Não vai mudar hoje Allen? Sempre com esse livro estranho.” – Perguntava ela todo dia, e todo dia Allen respondia algo como – “Desculpe Sra. Callaway, mas não consigo fugir deste meu vício.” — Até que aquilo se tornou algo monótono para Allen, e em sua vida considerada por ele infeliz o mesmo aprendeu a odiar a rotina.

Foi quando ele decidiu fazer uma última visita ao livro, se livrar do seu ponto fixo de reflexão. Era algo rotineiro e entediante: Ele desceu do ônibus, verificou os sapatos atrás de algum resquício de um chiclete que uma criança desatenta derrubara no chão, fungou o ar e o cheiro das folhas das árvores da praça, e só então se dirigiu a biblioteca; Porém neste dia em singular ele resolveu olhar para a praça, e só então ele a viu. Não posso tentar descrever aqui como Allen interpretou a beleza dela, porque não posso descrever tal coisa de uma forma que não seja poética, e para Allen seria bom que ele a deixasse na Casa das ideias. Vale-se dizer que para Allen a Casa das ideias de Platão era algo existente, e tudo era perfeito lá, e quando ele via uma pessoa que parecia ser interessante evitava contato com ela porque o conhecer destruiria sua visão dela que provinha da Casa das ideias, coisa que influenciava muito em sua sociabilidade. Mas ao olhar aquela hippie sentada junto aos outros e se balançando conforme a música de um violão ele fez algo não tão inesperado: Entrou na biblioteca.

Mas como o universo é uma criança birrenta os dois tinham que se conhecer de alguma forma. Allen entrou de cabeça baixa na biblioteca e perguntou pelo livro — “Não vai mudar hoje Allen? Sempre com esse livro estranho.” — Falou Sra. Callaway calorosamente – “Hoje é a despedida Sra. Callaway” – Respondeu Allen quase que em um sussurro. Se despedir de um livro é como se tornar um órfão, está abandonado, mas ainda se tem esperança que algo novo chegue. Ele se deleitou com um copo de cappuccino direto da máquina velha da biblioteca, foi quando ela apareceu. Tinha uma voz agitada que dominou o corpo de Allen em uma mistura de medo e vergonha.

-Ahn, Diane Arbus né? – Ela tinha um sotaque escocês quase que misturado com americano. Allen deixou suas pupilas dilatarem e sua voz ficar rouca o bastante para a palavra sair quase que como um grunhido.

-Sim.

-Ela é bem bacana – Disse ela sentando-se a mesa – As fotos nos circos são bem interessantes, e a do menino com a granada? Nossa, me deixa estupefata. Vi esse livro em Lima, quando passei pelo Peru, estava cheio de poeira, uma grande fotografa.

- Sim, realmente. Eu gosto da visão dela sobre o mundo, como algo figurativo e quase que sinuoso. – Allen começara a aumentar de voz quando interrompeu a fala para ver o brinco ligado a uma pena escura que pendia na orelha direita da menina – É uma artista completa.

-Então?

-Então o quê?

-Por que não falou comigo na praça?

A saliva corre por sua garganta e o engasga, ele para.

-Ahn, é uma coisa minha.

-Que coisa?

-É uma coisa minha.

-Me fala logo.

-Tudo bem, é que para não me decepcionar com as pessoas costumo a mantê-las na Casa das ideias, onde são perfeitas. No momento que procuro saber mais sobre ela a minha visão perfeita é trocada por algo pateticamente real.

Ela sorri com o canto da boca.

-Então eu sou algo pateticamente real?

-Ainda não a conheci o bastante para isso – Ele dá um gole leve no cappuccino.

-Hum, vem comigo, qual o seu nome monsieur? - Ela fala perfeitamente o francês que é banhado no seu escocês rural – Sou Miriam.

-Allen, Allen Keats.

Ela segura a sua mão e puxa para fora da biblioteca, ele olha para o livro por sobre o ombro e se despede com um sentimento saudoso que sai de todos os seus poros. A garota o leva até a praça onde no chão em frente aos bancos de leitura um grupo de hippies se encontra, eles param de cantar ao ver Allen sendo puxado pela garota.

-Quem é este jovem nada saudável maninha? – Quem fala é o que parece ser o mais velho do grupo, tem seus cabelos loiros presos por um rabo de cavalo.

-Este é Allen, maninho, ele estava na biblioteca e quis me deixar na Casa das ideias, acredita? – O hippie analisa o garoto de cima a baixo – Allen este é o meu irmão William.

-Prazer – Diz Allen estendendo a mão, mas o cumprimento não é retribuído por William que se levanta e abraça o jovem.

-Seja bem vindo ao grupo guri, minha irmã parece gostar de você, raramente ela nos apresenta alguém – Ele olha para Miriam que sorri timidamente – Aquele monte de sujeira no canto se chama Ted, o cara do lado dele com cabelos rubros é o Clóvis e por último aquela musa inspiradora no canto é a minha namorada Nancy.

Todos acenam para Allen.

Allen se senta junto a eles e recusa o cigarro que Clóvis o oferece, ouve-os tocarem um pouco de Starman do David Bowie e deixa Miriam guiar a sua mão até a dela, aquilo parecia não estar acontecendo.

-Então Allen, de onde vem o seu nome? Me chamo William por causa de William Wallace, o grande herói de nossa terra.

-Ele se orgulha muito disso. – Cochicha Miriam para Allen.

-Ahn, bem, eu me chamo Allen por causa do poeta Allen Ginsberg.

Todos trocam olhares.

-Desculpe-nos, mas não conhecemos, quer citar um pouco dele para refrescar a nossa memória?

Ele pigarreia.

-“Eu vi os expoentes de minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus.”

-Profundo, mas ainda não conheço, não temos esse tipo de literatura em Legerwood. É um dos motivos de ter virado mochileiro, conhecer coisas novas, minha namorada e a minha irmã mais nova só pegaram o meu embalo. – Diz ele enquanto olha rapidamente para a irmã.

-Vocês são mochileiros há quanto tempo?

-Cerca de dois anos, encontramos esse monte de besteira mendigando em Paris – Diz ele apontando para Clóvis – Ele estava no mesmo albergue que a gente e dizia ter o mesmo trajeto que nós, por isso nos juntamos, só depois descobrimos que o trajeto dele era o mundo.

-Você mencionou um albergue, onde vão ficar hoje? – Allen não poderia abriga-los em sua casa, até porque a sua mãe não deixaria, mesmo que tentasse uma discussão não teria êxito nela.

-Um amigo do Will ofereceu a chácara dele para ficarmos, vai ter música boa e coisas assim. Não quer ir?

Ele hesita, mas momentos depois está ligando para a sua mãe avisando que vai dormir fora. A chácara é enorme e no seu centro de concentra um enorme casarão, quase que destruído como se saísse de uma obra incompleta de Aluísio Azevedo. Miriam corre para um dos quartos dizendo que vai se arrumar, aquilo parece estar não acontecendo.

-Sabe, esses momentos são eternos. – Comenta William.

-O quê?

-É essa a coisa de ser mochileiro, um momento você está lá e vive o momento e depois o momento se torna lembrança. E podemos retornar a ele como lembrança, mas não será como antes. Tudo acaba sendo como cinzas no deserto, mas não deixam de ser eternos.

-Entendo completamente isso, no começo do dia eu só queria me despedir de um livro e agora estou em uma tentativa de caso amoroso quase que literário. O que vou fazer depois quando vocês forem? Quando os livros me entediarem? Sentarei em frente a minha remington e escreverei sobre vocês, irei recordar disso em cada palavra, mas não estarei lá.

Mirian desce as escadas do casarão e Allen procura palavras para elogiar a beleza dela, ela sorri para ele e isso vale mais do que um dicionário empoeirado na estante. O resto da noite segue como um sonho, eles bebem vinho e café, Clóvis toca mais David Bowie no violão e Mirian deixa sua mão escorregar até os cabelos de Allen que repousa sobre o seu peito. Quando todos dormem e a floresta uiva uma brisa calma surge o primeiro beijo dos dois, não algo extremamente romântico como nos livros e sim a consumação úmida de um sentimento; Os dois seguem aos beijos até o quarto mais próximo do casarão.

Era para ser uma coisa de uma única noite, como quando um demônio visita o mundo sem a intenção de causar o mal, apenas uma manifestação do seu próprio sonhar em um mundo irreal o bastante para se fazer realidade. Allen observa a garota com seus cabelos castanhos e mexas lilás, nua na cama; a curva de seus seios é bem desenhada com um pequeno avermelhado no espaço entre os dois; Ele comprime a sua mão contra eles e os sente; macios e serventes de pequenas entradas a um prazer insistente, o se tornado homem deixa a sua boca escorregar pelo corpo da mulher até que ela carrega o seu amor sóbrio e esfumaçado em um gemido abafado. Era algo mais complexo que um sentimento, era como uma dança sabática que se manifestava em um suspiro. A moça exasperada geme a cada movimento de Allen sobre o seu corpo que se torna um com o dele, o corpo de Mirian agora todo avermelhado é liberto em um grande grito de prazer.

Não é amor, é apenas algo casual.

A despedida ao alvorecer é difícil, Allen é deixado na parada de ônibus e sorri ao ver Mirian entrar em um carro com as rodas sujas. Não se permite pensar por um certo tempo, até que se recorda do sorriso da garota. Sua reflexão chega à decisão que aquilo foi uma coisa aleatória e estranha, mas não deixa ser consistente. Ele se tornou uma foto da maldita Diane Arbus.

E no final do dia ele é cinzas no deserto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!