Notas iniciais
Oi gente! Barbara Gentil, adorei a recomendação, que bom que a fic despertou sua curiosidade para ler a outra. Suas palavras foram tão gentis rs, (desculpa não resisti), enfim, muito obrigada, espero que curta esse capítulo.

A clareira da montanha estava silenciosa e nossos convidados aguardavam cheios de expectativa enquanto eu ia até Quinn, que me estendeu a mão esquerda, oferecendo-a de um modo diferente do que havia feito na cerimônia. Dessa vez sua palma cortada se virou para frente, de modo que eu visse com clareza o X que ela havia posto ali.

Aceitei sua mão esquerda com a minha direita e ela pôs a outra nas minhas costas, moldando-a de encontro ao meu corpo. Depois pousei minha mão esquerda gentilmente em seu braço direito, bem onde seu bíceps se pronunciava.

Enquanto estávamos viradas uma para a outra, preparadas para nos movermos ao som assombroso da Sonata ao luar, de Beethoven, não fiquei preocupada com o fato de eu ainda não saber dançar bem. Apesar de algumas lições de última hora no escritório de Quinn, eu não evoluíra muito em relação à primeira vez em que dançamos, no ginásio da Escola Woodrow Wilson, sob luzes piscantes que nunca mais me satisfariam, agora que havia me casado num mar de velas.

Não, eu não sabia dançar, mas era capaz de pôr aquele olhar no rosto de Quinn, aquela expressão de adoração, protetora, que vi em minha mulher enquanto ela me segurava.

O pianista começou a tocar e Quinn e eu nos movemos ao som das notas delicadas e poderosas que eram uma cascata de luz e mistério, uma expressão musical de como eu me sentia todas as vezes que via Quinn depois de termos nos separado ao menos por alguns minutos, como acontecera depois da cerimônia. Era como o jorro incomparável de alegria, calma e empolgação que me dominava sempre que ela entrava num cômodo. E por baixo disso estavam os tons sombrios também...

Nós nos movemos juntas no centro de um círculo formado por todos os convidados. Quinn apertou com mais firmeza a mão que estava nas costas do vestido preto – um negativo fotográfico do traje tradicional de casamento – que eu tinha posto depois da cerimônia, porque sua palma cortada havia sujado de sangue o vestido branco quando nos beijamos.

A música era cheia de mudanças de ritmo e complicada de acompanhar, mas ela me guiou pelas partes mais difíceis, meus olhos fixos nos dela para não tropeçar.

Que olhos incríveis tinha minha mulher...

Ela sorriu e, como eu sabia que aconteceria, errei a passada e chutei o pé dela. Então desisti e soltei minha mão da dela, passando os braços em volta de seu pescoço e esquecendo a tentativa de dar alguns passos básicos, porque de súbito só queria abraçá-la enquanto aquela canção linda e pungente tocava. A música, composta havia séculos e ainda tão sugestiva, me fez pensar ainda mais no tempo, um assunto que estivera em minha cabeça durante toda a noite.

Anos, décadas, séculos... eternidade.

Tínhamos a promessa disso, mas, dado quem éramos, governantes, ambas sabíamos que essa promessa era provavelmente falsa. Sabíamos que um dia seríamos tiradas uma da outra, como nossos pais haviam sido separados para sempre. Pessoas amedrontadas iriam se voltar contra nós ou alguém da nossa espécie iria nos trair.

Quando pousei o rosto no peito dela, Quinn também desistiu de tentar me guiar valsando e acariciei seu cabelo enquanto oscilávamos, dizendo a mim mesma para não me preocupar na minha noite de núpcias – porque aquele dia terrível poderia acontecer dali a uma semana ou mil anos.

– Alguma coisa errada, esposa minha? – sussurrou Quinn, usando a palavra da qual não parecia se cansar naquela noite. – Sinto que você não está feliz.

Levantei o rosto, percebendo que outros convidados tinham se juntado à nossa dança e me obrigando a sorrir, porque não queria que ela se preocupasse nem desperdiçar essa comemoração pensando em coisas terríveis que poderiam jamais acontecer. Era só a música que tinha feito com que eu me sentisse triste por um minuto.

– Eu só estava imaginando como Quinn Fabray colocou um piano de meia cauda numa clareira no alto dos Cárpatos – falei, provocando-a. – Estava tentando entender a logística.

Quinn riu, surpresa, e me apertou com mais força.

– Fico feliz por você manter seu lado racional e matemático, Rachel, porque amo isso também.

Olhei a clareira rochosa ao redor, coberta de grama. Não era exatamente adequada para uma festa, mas era especial para mim.

– Deixando as brincadeiras de lado, Quinn... – continuei, acariciando sua nuca com o polegar e encarando-a, de modo que ela pudesse ver como eu apreciava de verdade tudo o que ela havia feito. – Obrigada por tornar isso possível. A comida, a música, tudo, aqui.

Quinn ficou séria.

– Se é aqui que você vê sua mãe nos sonhos e se você sente que Mihaela está conosco agora, eu arrastaria 100 pianos montanha acima para torná-la parte da comemoração, para você.

– Sei que é estranho – admiti. – Mas realmente sinto a presença dela aqui.

Eu tinha visto a clareira pela primeira vez num dia em que Quinn e eu saímos para cavalgar. Reconheci imediatamente o afloramento semicircular de pedras, porque o tinha visto muitas vezes enquanto dormia. Nos sonhos, quase sempre era inverno e a terra estava coberta de neve, mas aquelas rochas pontiagudas eram inconfundíveis. Cheguei a dar um puxão nas rédeas, erguendo-me da sela e procurando por minha mãe, certa de que ela estaria ali, me esperando, e só então lembrei que ela havia partido anos antes. Eu estava procurando um fantasma. Um fantoma, como diriam meus novos compatriotas.

– Sou completamente irracional, como você costumava me lembrar – brincou Quinn, mudando a posição das mãos para apertar minha cintura. – Eu acredito no poder dos sonhos. Como a maioria dos vampiros, dou grande importância a eles. O que você sente aqui não parece estranho para mim, nem um pouco.

Estremeci nos braços dela, porque meus sonhos pareciam estranhos para mim. Premonitórios às vezes, como a sonata.

Olhei em volta, surpresa ao ouvir nada além do farfalhar do vento nas árvores, taças tilintando e conversas baixas a distância. Então olhei de volta para Quinn e encontrei-a rindo para mim.

– Você percebeu que a música tinha terminado? – perguntei. – Que todo mundo parou de dançar?

– Percebi – admitiu Quinn, ainda me segurando. – Mas não estava pronta para soltar você.

Enquanto nos separávamos relutantes, estremeci de novo, desta vez porque estava ficando tarde e frio... e por causa da expectativa também. Logo, logo estaríamos longe de todos e não haveria motivo para parar de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de nos tocarmos.

– Deveríamos nos despedir agora – sugeriu Quinn, pegando minha mão e me levando para a tenda branca e diáfana em que todos estavam reunidos e onde haviam sido postos candelabros de ferro iguais aos da sala de jantar dos Fabray.

Essa era mais uma magia da engenharia e logística aparentemente impossível que a mágica com quem me casei conseguiu realizar naquela noite, além de levar montanha acima todos os nossos convidados, um incrível jantar de sete pratos e aquele piano.

– Eles vão se sentir obrigados a permanecer até irmos embora – acrescentou Quinn, sorrindo. – Devemos partir logo, para eles ficarem à vontade para ir também.

Enquanto andávamos de mãos dadas sob as estrelas, tentei decifrar aquele sorriso. Ou ela percebeu meu tremor e também viu que estava ficando tarde ou estava ansiosa também.

A julgar pelo brilho nos seus olhos, tive a sensação de que era principalmente a segunda hipótese.

Entramos na tenda, Quinn se curvando porque era um pouco maior para as partes mais baixas, e começamos a nos despedir e agradecer. Só então pude falar com meu tio Dorin, que eu praticamente não tinha visto durante a noite. Eu o havia notado apenas duas vezes: uma falando com Mindy e uma se esforçando para manter uma conversa com Claudiu, que, claro, ele conhecia de reuniões dos Anciões, mas que não era exatamente um amigo.

Na verdade, muito pelo contrário.

– Ah, Anastácia – disse Dorin, os olhos brilhando mais ainda do que o normal. – Que festa linda! Lindíssima. Estou muito feliz por vocês duas!

– Obrigada – respondi, abraçando-o. – Obrigada por vir e por tudo o que fez para que isso acontecesse.

Quase derramando o vinho tinto que estava tomando, talvez porque não tínhamos servido cappuccino, Dorin fez um gesto com as mãos para dispensar minha gratidão.

– Você fala isso com muita frequência. Não foi nada! Aquilo tinha que ser feito!

Eu realmente agradecia um bocado ao tio Dorin. Mas será que algum dia seria capaz de exprimir gratidão suficiente pela forma como ele havia orquestrado a sobrevivência de Quinn no celeiro de Brody Weston e de algum modo levado o “corpo” de volta à Romênia? Ou por violar as ordens de Quinn e voltar aos Estados Unidos para me informar que ela estava viva?

Quinn estendeu a mão, acrescentando:

– Obrigada, Dorin. Anastácia está certa. Você foi fundamental para trazê-la de volta para mim.

Dorin apertou a mão de Quinn, como sempre parecendo meio intimidado pela minha mulher, mesmo numa festa. E meu tio ficou definitivamente branco quando Quinn acrescentou, ainda sorrindo e apertando a mão dele com força:

– No entanto, eu não sugeriria que desconsiderasse qualquer ordem direta no futuro, mesmo tendo intenções nobres.

Era uma brincadeira – mas também um alerta. Quinn estava feliz com o resultado da insubordinação de Dorin, mas, como me contava com frequência, os vampiros eram um grupo indisciplinado. Era fácil perder o controle se você permitisse que a menor desobediência passasse despercebida.

– Pode deixar! – concordou Dorin, com um riso nervoso. Os dois soltaram as mãos e ele acrescentou, parecendo aliviado por olhar para mim. – Parabéns a vocês duas!

Quinn ficou mais ereta, franzindo a testa e examinando a multidão.

– Bom, onde está Claudiu?

A cor que havia retornado às bochechas de Dorin sumiu de novo e ele não encarou Quinn enquanto nos informava:

– Claudiu? Ele... ele não estava se sentindo bem. Eu... acho que foi embora.

Quinn olhou para Dorin arqueando uma sobrancelha.

– Verdade? Saiu do meu casamento sem me dizer uma palavra?

O rosto de meu tio estava lívido, como se ele tivesse medo de Quinn matar o mensageiro.

– É... creio que sim.

Eu mesma me senti mal. Sabia a razão da partida de Claudiu. Ele não suportava a ideia de uma Dragomir fazer parte da família Fabray. Mal tolerava Dorin como um dos Anciões e nem pudera olhar para mim enquanto eu escrevia meu nome na árvore genealógica. Eu tinha certeza de que Quinn não havia ficado cega diante da atitude de Claudiu e que não gostaria dessa desfeita.

– Se vir o meu tio – disse Quinn a Dorin –, por favor, diga que me informarei sobre sua saúde dentro de um ou dois dias.

– Quinn... – falei.

Pus a mão em seu braço, reconhecendo no tom seriamente mortal que aquela não seria uma visita amigável. Ela não parecia com raiva, mas estava muito claro que não aceitava o sumiço de Claudiu, que seu tio precisaria prestar contas e, se necessário, seria forçado a me aceitar como parte da família.

– Informarei a Claudiu que você planeja fazer uma visita – prometeu Dorin, nervoso. E tomou todo o vinho de uma vez só, engolindo com dificuldade. – Se eu o vir, certamente o avisarei.

Quinn pôs a mão nas minhas costas e nos guiou para longe do meu tio. Quando nos afastamos alguns passos, fiz com que ela parasse e sussurrei:

– Quinn, por favor...

Mas o que eu poderia pedir? Até eu reconhecia que o fato de Claudiu ter saído cedo sem dizer nada era um insulto a nós – a mim. Se íamos governar juntas, isso teria que ser resolvido. Caso contrário, Claudiu seria capaz de pensar que poderia me ofender sem consequências, o que começaria a minar minha autoridade já tênue. E isso não seria bom. De repente me lembrei de uma coisa que tinha lido quando folheei o presente deixado por minha mãe biológica: “Uma vez que se perde o poder, é IMPOSSÍVEL recuperá-lo.

Mesmo assim eu não queria começar uma briga.

Quinn entendeu a consternação no meu rosto e pegou meu braço, sorrindo e me tranquilizando, baixinho, para que só eu ouvisse:

– Boa parte da atitude de um governante é blefe, Rachel. Não se preocupe com algo tão pequeno como um confronto com Claudiu. Não vai dar em nada.

Mas Quinn tinha destruído o irmão de Claudiu. Episódios violentos aconteciam...

Quinn percebeu que eu não estava convencida de que não havia com o que nos preocuparmos.

– Se isso faz você se sentir melhor, vou levar meu padrinho comigo – prometeu, com riso nos olhos. Depois se empertigou e examinou os convidados de novo. – Onde está Sam? Será que também me abandonou?

Comecei a procurar com ela, esticando o pescoço.

– Na última vez que vi, ele estava com Mindy e os dois estavam dançando não muito longe de nós.

Enquanto olhava ao redor procurando Mindy e Sam, me lembrei de ter pensado, naquela hora, que eles pareciam estar se dando muito bem. Mindy estivera rindo, como se finalmente houvesse descoberto que Sam era um acompanhante divertido, ainda que decepcionante em termos higiênicos.

Franzi a testa. Será que ele havia sido decepcionante, afinal de contas?

Com o cabelo castanho claro revolto domado num rabo de cavalo e a bermuda de surfista substituída por um dos smokings que o pobre alfaiate de Quinn, afogado em trabalho, havia ajustado ao corpo malhado de surfista, Sam havia ficado bastante apresentável. Era alto como um Fabray, tinha olhos verde-acinzentados incomuns – talvez herdados de seu lado italiano, dos Evans – e um sorriso que conquistava aos poucos. A maioria das garotas, sobretudo se não tivessem visto Sam com as sandálias de borracha sujas, provavelmente ficaria feliz em ter a companhia dele num casamento.

Mas Mindy e um vampiro?

Olhei para Quinn, que parecia pensar a mesma coisa.

– Você não acha que eles...? – perguntei.

Quinn balançou a cabeça e suspirou.

– Ah, espero que não.

Eu queria perguntar com quem ela estava preocupada. Com Sam, à mercê de Mindy Stankowicz, que lia a Cosmopolitan havia pelo menos uma década, preparando-se para “pegar” um cara? Ou haveria algo que eu deveria saber sobre Samuel Evans e seu histórico com as garotas?

Antes que eu pudesse perguntar, senti um tapinha no ombro e me virei, vendo mamãe e papai e esquecendo Mindy totalmente.

Notas finais
Bom gente, me ferrei por ter colocado orange na fic rsrs, mas vou fazer o melhor que puder. Estamos há um ou dois capítulos do final. No próximo, eu explico melhor. Bye