O ato de amar
2 Capítulo 1 - O início de uma loucura

O ser humano é movido a sonhos, realizações, desejos. Desde de pequeno até a velhice somos, praticamente, obrigados a sonhar com algo. Na infância sonhamos em ganhar aquele tal presente no aniversário, sonhamos que vamos ser astronauta e que nossos pais vão viver para sempre. Na adolescência sonhamos apenas em encontrar o grande amor e passar numa boa faculdade. Mas eu nunca fui assim, nunca sonhei com nada destas coisas. Sempre preferi viver o momento, fazer o que quisesse e não planejar nada que ultrapasse 24 horas.
Minha vida foi assim até seis meses depois que terminei o ensino médio, vi a mulher que mais amava descobrir o câncer em um estágio muito avançado. Os médicos disseram que não tinham muito o que fazer era só esperar. Passei dois meses ao seu lado na cama, ouvi atentamente suas histórias e conselhos. Chorei todas as vezes que sai do quarto, limpava as lágrimas e sorria novamente para levar a minha irmã para ver nossa mãe. Mel não entendia o que estava acontecendo com a sua heroína. E como poderia com apenas cinco anos? Mas ela é tão esperta que sempre falava para mamãe ficar tranquila, pois aquela dor ia passar e ela ia para um lugar lindo ao lado do papai do céu. Eu tive que me manter forte várias vezes, nosso pai conseguiu parar com as viagens ao exterior para nos dar apoio, mas ele não era muito bom com estas coisas. Eu que tinha que sustentar tudo.
Todos nós sentimos que o dia dela estava chegando. Eu nunca fazia planos, mas eu queria muito que minha mãe pudesse me ver agora. Ela ia ficar tão orgulhosa, iria me abraçar e dizer bem baixinho que tinha certeza que eu iria conseguir. Minha mãe foi a mulher mais sábia que conheci na vida, ela tinha um jeito todo especial de nos fazer se sentir especial. E foi assim até o seu último suspiro.
Em um desses dias no hospital, sem pensar muito, eu apenas chorava, soluçava e perdia perdão pra ela. Prometi que iria me formar, ter um bom emprego, me casar e dar dois netos para ela. Ela sorriu e pediu para que isso realmente acontecesse mesmo se ela não estivesse aqui. Não tiver como negar, mas eu não sabia que seria tão difícil.
Logo após ela nos deixar meu pai teve que voltar a Europa, tinha deixado algumas coisas pendentes e pediu para eu e Mel ficarmos na casa da minha tia. Ninguém sabia lidar com aquela situação e durante um ano eu fiquei ali cuidando da minha irmã e da minha tia. Arranjei um emprego no shopping e passei a estudar espanhol — uma língua que sempre odiei, mas que fazia parte para eu concluir meu primeiro sonho, a primeira parte da promessa que fiz a minha mãe.
No aniversário de um ano da morte da minha mãe meu pai finalmente voltou para Rosewood, voltou para cuidar de uma filial da empresa. Nossas vidas ia começar a voltar ao normal, ele me fez sair do trabalho e com o tempo livre entrei em um curso de francês. Admito: nunca estudei tanto na minha vida como nestes dois últimos anos.
— Pronta pra dar início a sua carreira? Perguntou meu pai parado atrás de mim.
Eu estava a mais de uma hora na frente do computador evitando entrar no meu e-mail. Parece algo bobo, mas eu já tinha sido rejeitada tantas vezes que não aguentaria isso mais uma vez.
— Não sei nem por onde começar.
— Papai tem um presente pra você! Disse Mel entrando correndo no me quarto. Minha pequena iria completar oito anos no próximo mês.
— Era segredo, querida.
— Desculpa, papai...
— Hum… E este presente por acaso é um castelo cor de rosa?
— Não. Mas se fosse você iria dar ele pra mim.
— Ufa, ainda bem que não é.
— Eu espero que você goste. Disse ele me entregando um envelope.
Quando abri o envelope demorei um pouco a atender, tinha várias folhas lá dentro e só consegui ler Porto de Galinhas, Recife, Brasil.
— Eu acho que está na hora de você descansar um pouco antes de meter a cara nos livros.
— Sério isso, pai? E-eu não sei o que dizer…
— Bom, acho que você deve me agradecer e ligar logo para seus amigos. Aí tem mais cinco passagens.
— Cinco?
— Achei que seria uma boa ideia você rever seus amigos.
— E-eu… Obrigada pai.
Abracei ele como eu nunca tinha feito antes. Entrei no meu e-mail e encontrei na minha caixa de entrada a carta de aprovação. Era como se um peso enorme estivesse sendo tirado de cima de mim. Finalmente eu iria começar a cumprir a promessa que fiz a minha mãe.
— Por nada minha princesa. E mais uma coisa: vocês viajam amanhã.
— AMANHÃ?
— Desculpe, eu tinha que aproveitar o feriado.
— Não, ta certo. Certo. Bom vou ligar para Aria…
Peguei o celular na mesinha e busquei o telefone da minha melhor amiga. Nós crescemos juntas, eramos vizinhas na infância e fizemos todo o colegial juntas. Não nos víamos com tanta frequência como antes, mas sempre conversamos pelos aplicativos de mensagens no celular e no computador.
— Ô meu deus! Que ótimo, Spencer! Mas… Eu não sei…
— Ah não Aria, nem inventa. Por favor, preciso de você.
— Sem chantagem, garota!
— Não é chantagem, mas tem tanto tempo que a gente não faz nada juntas.
— Eu sei, mas eu queria aproveitar o feriado para adiantar umas coisas da faculdade.
— Adianta lá na viagem.
— Ah ta, com certeza. Em frente ao mar com um livro enorme de Direito.
— Nosso voo sai amanhã, então você vai ou você vai.
Ouvi Aria respirar fundo e até pude imaginar ela olhando para os livros jogados em cima da cama.
— Está bem.
— Sério?
— Sério. Que horas a gente se encontra?
— Te amo, pequena! Oito horas lá no aeroporto, agora tenho que convidar mais quatro pessoas.
— Quatro? Boa sorte!
—Obrigada.
A próxima ligação seria mais fácil, Hanna amava viajar e topava qualquer coisa que eu a chamasse. Nos conhecemos no colegial e foi amor a primeira vista. Eu, ela e Aria eramos inseparáveis. Hoje ela é uma jornalista de uma revista para adolescentes e sempre que pode inventa uma pauta nova para viajar.
— Claro que topo. Quando a gente vai?
— Amanhã.
— Ô meu deus! Preciso avisar minha chefe, mas é tranquilo. Pode contar comigo.
— Agora só tenho um problema. Ainda tenho três passagens.
— Uma é do Caleb, né?
— Gente, claro! O Caleb! Vou ligar para o seu amor. Beijo e até amanhã.
— Até.
Caleb se tornou meu melhor amigo no colegial, isso ocorreu por causa das idas e vindas dele com a Hanna. Eles terminaram o colegial separados, mas o destino uniu eles na revista e já vão fazer um ano de namoro.
— Caraca, Spencer! Claro que vou.
— Eu também vou.
— Oxi eu não vou ficar de fora.
— Q-quem ta aí?
— O Toby e o Noel.
Toby. Meu coração ainda apertava quando escutava este nome, ele foi o único cara de quem eu realmente gostei. Mas não deu certo e a gente só se encontrava por causa do Caleb e da Hanna. Noel também fez parte do nosso grupo de amigos, ficou com Aria na época que todos nós eramos um casal, mas ele não curtia romances sérios e terminou com ela um mês antes da formatura. Aria ficou arrasada, mas depois de tanto tempo parece que ela nem pensa mais nele.
— E aí, da pra os caras irem?
— Claro Caleb, tenho duas passagens sobrando.
— Opa! Demoro!
— Vai ser como nos velhos tempos.
— É vai. Até amanhã então.
Era dolorido lembrar os velhos tempos, no colegial a gente era um grupo. Não nos desgrudavam e aprontávamos tudo juntos. Mas depois, com o tempo, fomos nos distanciando. Saímos juntos algumas vezes, mas nada relevante. Continuei amiga das meninas e pelo jeito eles também continuaram amigos.
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