Capítulo dez

1

Mais um dia estava começando e Kamenashi nem ao menos tinha se dado conta. Virou a madrugada escrevendo um artigo sobre o assassinato do cantor a pedido de Nakai-san. Aquele texto teria o objetivo de fazer a sociedade refletir sobre o crime, de modo que percebessem que não era um simples ataque de um fanático. Nakai queria que o assunto retornasse a agenda setting, não poderia deixar a imprensa esfriar esse assunto.

Espreguiçou-se e ao sentir seus músculos tensos foi que percebeu o tempo em que estava sentado. Estalou os dedos e girou o pescoço. Depois disso, seu olhar caiu sobre a caixa de papelão que era a cama improvisada de Akame. Ele dormia encolhido, ficando ainda menor do que era realmente. Kamenashi riu porque, de alguma forma, Jin parecia com aquele filhote de cachorro. Ambos pareciam tão frágeis dormindo, principalmente Jin que estava doente.

– Akame... – refletiu. E depois sacudiu a cabeça. – Isso é tão ridículo. – murmurou.

Tentou voltar para o texto que escrevia quando foi envolvido por dois braços. Akanishi o abraçava e encostou o rosto ao seu. Kamenashi não se deixou distrair e continuou digitando.

– O que está escrevendo com tanta atenção que nem pode me dar bom dia direito?

– Ohayou.

– Ohayou Kame-chan. O que é?

– Um artigo.

– Sobre?

– Kimura.

Akanishi o abraçou com mais força.

– Ne~? Arigatou por ter cuidado de mim. Hoje me sinto bem melhor. – e ele estalou seus lábios na bochecha de Kamenashi, que exibiu um sorriso curto. – Você não pode dar uma pausa para tomarmos café da manhã? Estou faminto!

– Hai, hai... Se eu não fizer, você vai se cortar de novo. Não quero mais minha cozinha manchada de sangue.

– Não fale desse jeito tão cruel. A minha mão ainda tá doendo.

– A culpa é sua por ser idiota.

– Mou~ Kame-chan!!

O jornalista riu enquanto seguiam para a cozinha.

2

– Un. Me sinto melhor hoje, vou trabalhar sim. Gomen ne, Nagase-san, fiz você perder dinheiro esses dias.

– Idiota, só me dá trabalho. Mas se for pra vir e passar mal, fique em casa mais alguns dias. Aliás, você não está mais na casa do Pi? Vocês brigaram? Parem de me dar dor de cabeça!

Jin riu enquanto ouvia aquela bronca toda. Riu porque sabia que aquele era o jeito de Nagase demonstrar sua preocupação. Ele jamais diria a Jin “Olha, não precisa vir hoje. Descanse mais um dia!”. Não, isso não combinava com ele.

Depois de garantir que estava bem e que se veriam mais tarde, ele encerrou a ligação e depois parou em frente a uma loja de esportes. Ele estava bem e por isso decidiu dar uma volta na rua. Precisava respirar um pouco de ar e, há algum tempo, ele também queria passar em uma loja e comprar um presente para Kamenashi. Tinha visto um dia desses qualquer e pensou no jornalista imediatamente. Combinava com ele aquela camisa do time de basebol para qual torcia e Jin soube que ela tinha sido lançada a pouco tempo. O jornalista ficaria feliz com ela e ele poderia agradecê-lo devidamente por ter cuidado de sua saúde nesses dias.

Sorriu, feliz com a sua decisão.

3

Um suspiro impaciente fez Nishikido Ryo desviar sua atenção do telejornal e olhar na direção de Tanaka Koki. Seu amigo e subordinado estava deitado no sofá ao lado, próximo a janela, com os pés apoiados no encosto e os braços atrás da cabeça, brincando com a cortina com os dedos do pés. Ryo o conhecia suficiente para ter imaginado, assim que tiveram que fugir da polícia, que Koki seria o primeiro a se entediar.

Isso porque ele era uma pessoa de espírito livre e espontâneo. Gostava de fazer o que tinha vontade na hora que queria. Não se importava em criar um futuro porque vivia para o presente. Não tinha residência fixa, alugava um apartamento aonde fosse mais barato e havia temporadas em que vivia no apartamento de Kamenashi ou no de Maru. Não conseguia ser controlado e não teria entrado na Yakuza se não fosse por Ryo, que o convidou, porque ele não gostava de se comportar conforme a hierarquia ordenava.

Três dias se passaram desde a apreensão de drogas no bar em que os negócios de Ryo costumavam acontecer. E cinco dias se passaram desde que estavam escondidos naquele apartamento. Naquela noite, a Nishikido-gumi estava traficando com uma família americana. Era uma grande transação que Ryo tinha acertado para seu pai. E os principais nomes das duas organizações conseguiram escapar. Agora o momento era de esperar até poder agir de novo.

Nishikido Ryo era uma pessoa explosiva. Comprava brigas se alguém o irritava suficiente para isso sem se importar e tão pouco gostava de ficar preso em um apartamento, mas sabia que era necessário.

– Suspirar desse jeito não vai resolver nada.

– Não acha que já é o suficiente? Naquela noite, nenhum tira nos viu. Saímos antes de eles alcançarem os fundos da boate. Eles não sabem da nossa identidade.

– Sairemos daqui quando recebermos orientação para isso. Você quer ser preso?

– Demo... Eu tenho coisas a investigar.

– O caso do cantor? Para que tanta urgência? O cara já tá morto de qualquer jeito.

– Não posso deixar o Kazu na mão.

– Você é muito cara de pau.

– Eh? Por que isso? – ele riu.

– Você, de forma indireta, vai ajudar os tiras. E você pertence a Yakuza. Não acha isso muito cínico da sua parte?

– Eu tô ajudando o Kazu. Quem ele vai ajudar não me interessa.

– Feh... Que lealdade...

– Está com ciúmes? Não precisa chefinho. Eu também te ajudo. E te protejo... Como naquela vez em que estava se afogando na praia.

– Do que está falando? Não se trata de ciúmes! – ele riu com deboche. – De qualquer forma, não seja imprudente. Acalme-se, está bem?

– Mas quantos dias mais nós teremos que esperar?

– Como vou saber? Ao menos as notícias sobre o assunto já estão diminuindo. Logo mais ninguém vai falar sobre isso.

Koki sabia que isso era verdade, e sabia que Ryo tinha razão quando o mandou ser mais paciente e esperar. Só que ele não conseguia concordar com essa situação. Suspirou de novo e escutou um suspiro irritado de Ryo de volta. Riu e depois tentou tirar um cochilo.

4

Murakami Yusuke era uma pessoa que sonhava em se dar bem na vida. Trabalhava arduamente desde os treze anos, em bicos de meio período, para conseguir enriquecer. E tinha um sonho de trabalhar na polícia. Achava um trabalho muito honrado e pretigioso. Contudo, ele cresceu e descobriu que a realidade era bem mais cruel do que imaginava. Aos trinta e cinco anos ele não tinha enriquecido, trabalhava muito e recebia mal, era solteiro e tinha que uidar da mãe, da irmã e do primo mais novo. Seu pai e seus tios, pais de Shingo, morreram quando eles ainda eram crianças e ele passou a morar com a sua família.

Ele passou por diversas situações em que teve que escolher entre o certo e o errado. Escolheu por muitas vezes o certo, mas o que recebeu em troca não lhe pareceu justo. Aos poucos, foi mudando seu modo de pensar e agir. E foi por isso que ele aceitou o trabalho que o amigo de seu primo lhe ofereceu: vazar informações da polícia sobre a recente operação contra o tráfico de drogas. E ele tinha um papel específico: encontrar a localização de Nishikido Ryo e Tanaka Koki.

5

Kamenashi olhou de canto e notou Nakamaru olhando para si. Fingiu não perceber e voltou a digitar. Cinco minutos depois, arriscou outra olhada e novamente seu amigo o observava. Irritado, parou de escrever o texto e girou a cadeira para a sua direção.

– O que foi? – e lambeu o interior da sua bochecha.

– O que foi perguntou eu! Kame... O que foi isso de faltar no trabalho ontem porque aquele cara estava doente?

– O que que tem? Eu não podia largá-lo daquele jeito.

– E depois vem me dizer que é só sexo... Pra começar, porque esse cara está morando com você?

Ele abriu a boca para responder, mas não sabia a resposta. Ele também não entendia porque Akanishi Jin estava morando em sua casa, tomando conta da sua vida daquela forma. Mas já não tentava se enganar. Ele estava apaixonado. Só não precisava contar isso para outras pessoas e muito menos para Nakamaru.

–... Não é como se ele estivesse morando lá... Ele só aparece de vez em quando. – mentiu – E assim que melhorar vai embora. O que tem ter um pouco de compaixão de vez em quando?

– Você está amando.

Uma veia saltou em Kamenashi. Nakamaru escutou alguma coisa do que tinha dito?

– Você está amando e isso está me dando medo. – ele caçoou, fazendo uma expressão horrorizada. – Em todo caso, eu acho que é a primeira pessoa que te faz largar um pouco do trabalho. Seja quem for, já tem o meu respeito por isso.

– Eu não estou apaixonado. – murmurou.

Kamenashi decidiu que já tinha dado atenção demais a Nakamaru. Precisava voltar para o seu texto. Girou a cadeira novamente e colocou os fones de ouvido. Escolheu uma música em sua playlist e colocou em um volume alto o suficiente para ignorar o amigo. Protegido das zombarias de Maru, ele voltou ao que fazia antes.

Voltou a pensar no que faria para o jantar daquela noite e que precisava comprar ração para Akame.

6

Não era um tempo realmente longo esse em que ficaram sem se ver e, na verdade, não era o tempo que realmente havia lhe machucado, mas sim o modo como ele tinha sumido e cortado qualquer comunicação. Até mesmo no trabalho não conseguia encontrá-lo, ele tinha acertado com seus clientes e estava atendendo fora da Casa de Show.

O primeiro olhar que trocaram os paralisou. Não sabia se Jin havia feito de propósito. Não sabia se ele apareceu na sua frente por vontade ou se foi mesmo coincidência, como aqueles olhos agitados e envergonhados faziam supor. Não sabia o que se passava dentro daquela cabecinha porque Yamapi o conhecia bem demais para desconfiar das suas atitudes.

Jin estava sentado de frente para a penteadeira e eles se viram atrás do espelho. Ele estava encostado à porta e mantinha os braços cruzados. A sua impassividade era o seu trunfo contra o modo imprevisível de agir e pensar de Jin.

Aquela era uma sala reservada para os rapazes da Casa de Show descansar, simplesmente aguardar enquanto estiver sem clientes ou ainda, como Jin, dar um último trato no visual antes de atender alguém.

Jin foi o primeiro a quebrar o contato visual e voltou a prestar mais atenção em sua própria imagem. Ele pegou o colar na penteadeira e esse gesto incentivou Pi a se aproximar. Ele não disse nada e pegou o acessório das mãos de Jin, que também permaneceu em silêncio, apenas levantou seus cabelos e deixou sua nuca exposta.

Yamapi envolveu o pescoço de Jin com o colar e uniu os fechos. Depois ele abraçou o rapaz e afundou o seu rosto entre os cabelos sedosos e volumosos dele, sentindo-se bem com aquele cheiro, sentindo-se quase completo com aquele calor. Ainda havia aquela distância não física entre eles que pertubava Yamapi e o fez apertar ainda mais o abraço.

O toque suave dos dedos de Jin sobre a sua mão o fez olhar para o espelho. Encontrou um sorriso carinhoso. Yamapi tocou aquele rosto, trazendo-o perto para beijá-lo. Jin aceitou, fechando os olhos para apreciar melhor a língua quente de Pi batendo contra a sua, enrolando-se a sua, dominando-lhe e, ao mesmo tempo, protegendo-o como sempre fazia. Muitas vezes não ficava muito claro do que ele o protegia, como agora, mas sempre o protegia.

Aquele foi um longo beijo porque Pi percebeu que, quando eles se separassem, teria que escutar o que não desejava.

– Pi...

A voz de Jin era sempre deliciosa, ainda mais quando sussurrada daquela forma agonizada, e isso, apenas isso, já era motivo para Yamapi sentir vontade de intensificar o beijo, mas também havia a intenção de impedi-lo de falar qualquer coisa que só machucaria os dois.

Yamapi sentiu as mangas da jaqueta que vestia serem puxadas com força. Jin se segurava a elas. Mesmo sem vê-lo, o gesto de Jin lhe apertou o coração e ele se afastou. As mãos de Jin escorregaram pelos seus pulsos, tocaram seus dedos e eles se separaram. Não podia negar nada a ele quando sabia que estava sofrendo. E, naquele momento, ele estava sofrendo muito. Deu as costas a Jin.

– Gomen... Pi... – disse, com o rosto baixo. – Eu só erro com você... Desde o começo... Ne? Talvez, se eu tivesse me apaixonado por você primeiro, talvez nada disso estivesse acontecendo... Gomen.

– Do que você está falando? – ele tratou de cortá-lo, não queria escutar aquele discursso que ele já conhecia. Quantas vezes Jin já não tinha se lamentado sobre isso quando estava triste por causa de Kimura? – Você se apaixonou por aquele jornalista?

Jin o olhou surpreso. Yamapi já sabia sobre Kamenashi.

– É isso, você está se apaixonando por aquele cara... Esqueça-o! É só mais uma paixão absurda... Assim como foi com Kimura.

Virou o rosto sem negar o que ele dizia.

– Jin... Por que você está fugindo?

Jin abaixou ainda mais o rosto.

– Porque eu fiz algo imperdoável. – ele confessou.

Yamapi se virou para observá-lo. Franziu a testa.

– E eu não posso... Não devo... E não quero mais te envolver nos meus problemas. Então... Não me procure mais, está bem? A partir de hoje, finja que eu não existo, ok? – levantou-se, sem nem ao menos olhar para o rosto de Yamapi e saiu.

Um olhar amargurado foi lançado para a porta depois que ele saiu. Yamapi fechou sua mão com força, sem perceber, xingando Jin em pensamento. Ele era realmente um grande idiota. E era justamente por isso que ele tinha que agir mais rápido. Pegou seu celular e ligou para o primo de Murakami.

– Você precisa descobrir logo onde eles estão. – foi a única coisa que disse e desligou, buscando outro número em sua agenda. Esperou até ser atendido. –... Yo! Um cliente meu desmarcou... Estou livre esta noite. O que acha? Eu estava querendo passar um tempo com você...

7

Era melhor assim. Jin mordeu os lábios e xingou a si próprio por ter desenvolvido esse hábito inútil de chorar. Tudo por culpa de Kimura. Foi ele quem trouxe lágrimas para dentro de si inicialmentte e agora era tão simples fácil derramá-las. Talvez fosse ele quem estivesse mergulhado em uma fase cheia de tristeza. Se era esse o caso, ele só precisava sair dela, certo?

Enxugou os lábios e os olhos. Tinha que trabalhar direito naquela noite.

8

Quando chegou em casa, Kamenashi estava saindo do banho. Eles pararam no quarto e se olharam, não era uma situação comum para o jornalista e por isso Jin se sentiu culpado. Ele tinha levado uma roupa extra, uma roupa comum, para voltar com ela, e deixou a sua roupa de trabalho na Casa de Show. E ele tinha tomado um banho lá, depois outro em uma casa de banho público, e tomaria o seu terceiro banho ali. Não queria que nada, nenhum vestígio daquela noite, pudesse incomodar ou deixar o jornalista zangado.

– Okaeri. – Kamenashi foi o primeiro a quebrar o clima, sorrindo para confortar o outro rapaz. – Ainda não jantei. Estava terminando uma matéria. Quer que eu esquente a comida para você?

Jin ficou sem reação. Imaginava que receberia alguma bronca por chegar à casa do jornalista depois do seu trabalho. Esperava algum tipo de cobrança, como Kimura lhe fazia quando eles se encontravam, mas Kamenashi não disse nada. Se ele estava segurando a vontade de brigar com ele ou se realmente ele não se importava com essa situação, não importava. Jin gostou daquela atitude, principalmente porque se sentia triste demais depois da conversa com Yamapi e precisava muito de colo naquele momento.

– Eu quero. – disse e se assustou com o cansaço que percebeu em sua própria voz. Kamenashi também notou, pois o olhou com uma expressão confusa e preocupada. Por isso, Jin se forçou a sooar mais animado: – Estou morrendo de fome. Vou tomar um banho.

– Ok. – ainda assim, Kamenashi continuou estranhando o seu desânimo.

Kamenashi secou seu corpo e vestiu uma calça moletom. Seguiu para a cozinha e teve que pular Akame, que estava andando de um lado para o outro do apartamento, provavelmente ainda conhecendo aquele território novo. Assim como Jin, ele parecia mais cheio de energia.

– Só espero que ele tenha entendido aonde é o banheiro dele. Não quero meu carpete sujo e fedendo a bosta e urina de cachorro... – resmungou.

Kamenashi havia decidido por fazer macorronada. Jin havia comentado em uma noite que gostava de comida italiana. Seu avô era italiano, segundo Kame tinha entendido. E era um prato fácil e rápido de preparar.

Quando Jin terminou seu banho e se juntou a Kamenashi na cozinha, o jantar estava quase pronto. Kamenashi notou que os olhos dele estavam vermelhos.

– Você estava chorando? – foi a primeira coisa que lhe ocorreu.

– Eh??

– Seus olhos. – Kamenashi sacudiu o dedo indicador e o médio em frente aos próprios olhos. – Seus olhos estão vermelhos.

– Ah! Isso... Foi só um pouco de shampoo que caiu... Porque eu estaria chorando? – ele riu com desdém. – Como foi seu trabalho hoje?

– O de sempre. – ele se virou para a panela, recolheu um pouco de molho com a colher de madeira. – Hum... Atsui... Mas tá pronto.

Jin o ajudou a arrumar a mesa e continuou perguntando sobre o dia do jornalista que, vencido, contou por cima sobre as matérias que teve que escrever. A de Kimura estava progredindo lentamente e ele estava com textos acumulados. Dedicou-se apenas a esses durante todo o dia.

– Nem saí da redação hoje. – finalizou, enrolando uma quantidade considerável de massa e levando a boca. – E você...

Eles se olharam novamente ao mesmo tempo e, de novo, ficaram constrangidos. A profissão de Jin não era comum, por mais que eles tentassem agir como se fosse.

– Foi... Como sempre. – respondeu.

Kamenashi aceitou aquela resposta. Jin não estava apenas lhe dando a mesma resposta que ele, mas entendeu que ele não queria conversar sobre o assunto. Deveria imaginar, agir de forma tão natural parecia que estava forçando a situação. Talvez fosse melhor evitar falar sobre trabalho. Contudo, ficou surpreso quando Jin prosseguiu.

– Foi normal... Atendi apenas dois clientes. Como sempre. Porque eles não querem só companhia. Meus clientes sempre querem sexo e sempre querem mais de uma vez. Na verdade, eles dispensam a minha companhia. Sempre vamos direto para o motel ou algum quarto na Casa de Show. E eu sempre fico muito cansado, não posso atender mais do que dois clientes.

Kamenashi tinha feito a pergunta e não tinha gostado daquela resposta. Não que ele realmente esperasse uma resposta que pudesse agradá-lo. Sentiu raiva por Jin falar daquela forma que havia transado com outras pessoas naquela noite e que agora dormiria em sua cama. Mas teve que controlar essse sentimento que, em outro relacionamento, seria mais do que natural. Ao mesmo tempo, ele sentia raiva daqueles homens que estavam machucando a Jin. Jin estava machucado e isso era tão visível que não entendia porque ninguém fazia nada para protegê-lo. Por que não existia uma pessoa que o tirasse dessas mãos imundas e impedisse que ele continuasse a sofrer desse jeito?

Essa, no entanto, não era a questão principal. A pergunta mais importante era porque Jin deixava ser machucado dessa forma? Kamenashi sabia que sair dessa vida não era uma tarefa fácil porque as pessoas que lucravam com o trabalho de Jin eram poderosas e perigosas. Ainda assim, nas poucas vezes que conversaram sobre a prostituição de Jin, nunca escutou do rapaz que ele quisesse sair. Escutou que ele se arrependia, mas não que gostaria de sair ou que tivesse tentado sair.

Kamenashi levou a garrafa de cerveja aos lábios e tomou e um grande gole. Não sabia o que dizer a Jin e ele tinha ficado em silêncio, parecendo repetir mentalmente as palavras que ele já tinha dito para se deprimir ainda mais. O garfo com massa estava parado próximo ao seu rosto, mas ele parecia não sentir o aroma ou a fumaça quente que batia em sua bochecha. Então ele riu e despertou a curiosidade de Kamenashi.

– É um pouco solitário... Mas só isso. – e ele voltou a comer. – Está delicioso como sempre, Kame-chan! – ele encolheu os ombros como uma criança tímida quando confessa algo. – Amo a sua comida, é a melhor!

–... Baka. – foi a única coisa que conseguiu dizer.

E Jin tinha mudado novamente a sua personalidade.

9

Os dedos percorreram as costas largas bronzeadas. O rapaz estava deitado de bruços, sonolento, ao seu lado, com a coberta de veludo imitando a pele de onça até a sua cintura, e resmungou alguma coisa sem sentido. Matsuoka não se importou e continuou acaricando as costas nua com uma mão e com a outra segurava o seu cigarro.

Ele tinha lhe dado uma noite maravilhosa, ele tinha se esforçado tanto que agora estava esgotado. Raramente ele dormia, era comum ele tomar banho e ir embora. Matsuoka estava mesmo satisfeito com ele.

O sexo havia sido perfeito como sempre e também havia aquele outro motivo. A razão pela qual Yamapi pediu para encontrá-lo. Aquela ideia lhe pareceu um absurdo assim que a ouviu, mas o rapaz conseguiu com que ele pensasse melhor e com mais calma.

Era uma ideia ousada. Sim, aquele menino tinha lhe dado uma ideia ousada e perigosa, mas não era nada absurda. E se ele jogasse as pedras certas conseguiria o que desejava há algum tempo: eliminar a família Nishikido.

Uma guerra entre as famílias começaria, mas, essa hipótese não era algo que lhe desagradava. Odiava muito mais essa política de boa vizinhança que tinha sido implantada pelo seu tio após a morte de seu pai. Não, ele acreditava que a família Matsuoka deveria mostrar o seu verdadeiro poder. Deviam eliminar a família rival e obter a supremacia da região.

Os olhos de Matsuoka brilharam diante dessa possibilidade.

10

Ele estava lendo na cama quando Jin entrou no quarto. Notou vagamente quando ele se ajoelhou e engatinhou até a sua cintura. Kame o olhou com curiosidade e entendeu o pedido daquele sorriso. Fechou o livro e o colocou na cômoda ao lado da cama. Quando se virou para Jin novamente, as mãos dele se apoiaram em sua cintura e ele o puxou com brutalidade. Quando Kame deu por si, estava embaixo daquele homem.

Jin se sentou sobre o seu quadril e tirou a camiseta que vestia. A única iluminação do quarto era a que vinha do abajur da cômoda, uma luz dourada em um ambiente escuro deixou o corpo de Jin ainda mais atraente. Kamenashi não se cansava de olhar para a barriga bem definida do rapaz e só não se deixou levar totalmente pelos seus desejos – que era jogar Jin para o lado e subir ele em cima do rapaz – porque algo lhe veio manter a consciência.

– Eu não vou dever quinze mil para você... – disse sem tirar os olhos do peito de Jin.

Ele riu porque sabia que aquela afirmação não era verdadeira, Kamenashi não seria capaz de continuar resistindo, mas, também ele não precisaria resistir. E se apoiou na cama por cima de Kamenashi, as mãos em cada lado dele.

– Dessa vez sou eu quem está comprando os seus serviços...

– Isso quer dizer que...

– Vou abater cem dólares da sua dívida...

– Eh? Só isso?!!! – ele se enfezou.

Jin gargalhou e avançou em sua boca. Era a primeira vez que ele estava direcionando o sexo e Kamenashi não podia negar que isso era excitante.

Não, ele logo se corrigiu. Era a primeira vez que Jin demonstrava direcionar o sexo. Nas vezes anteriores ele sempre tinha deixado Kamenashi acreditar que estava no comando. A técnica que Jin mais usava com ele era se mostrar dominado para dominar. Jin sabia que ele gostava de estar no comando e não se importava em deixá-lo assumir esse papel.

Esta noite, porém, Jin estava realmente no comando. Kamenashi pode perceber isso quando ele parou de beijá-lo e manteve o rosto próximo. Na pouca iluminação que vinha do abajur, ele viu o rosto dourado pela luz cheio determinação. Era aquele Jin sedutor, confiante, cheio de si, arrogante.

Quando a mão fria de Jin entrou por debaixo da sua camiseta, erguendo-a para descobrir seu torso, Kame sentiu um pequeno arrepio. Depois, ele sentiu os lábios carnudos deslizarem apressadamente pela sua pele enquanto as mãos continuavam percorrendo a região com velocidade, subindo e apertando seus mamilos e descendo até a cintura, apertando forte ali também.

Kamenashi afundou suas mãos nos cabelos dele e o puxou pela nuca para voltarem ao beijo. Ele gostava de beijá-lo, ele gostava de verdade dos beijos daquele homem. Involuntariamente, ele ergueu a cabeça, em uma tentativa de virar o jogo, mas, ao percebeu seu movimento, a mão de Jin subiu até a sua e o segurou pelo pulso, mantendo-o naquela posição.

Jin riu.

– Já falei que hoje eu estou te comprando e vou usar do jeito que eu quiser... – sussurrou.

Kamenashi sustentou o olhar guloso de Jin e sorriu de canto.

– Vai ter que fazer o seu melhor... – foi a sua resposta.

– Um desafio? Se é assim, então que esteja preparado! – foi a resposta divertida antes de voltar a devorá-lo.

11

Kamenashi se sentou na cama e observou Jin dormindo tranquilmente. Ele estava virado em sua direção, os cabelos caindo sobre seu rosto, bagunçados. Parecia que tinha dormido assim que se separou do corpo do jornalista. Ele caiu para o lado e dormiu do jeito em que ficou. Estava esgotado, ele tinha feito o seu melhor, realmente.

Agora ele estava tranqüilo. Meia hora atrás, Jin parecia desesperado. Sim, desespero era a palavra que definiam os toques, beijos e carícias que ele lhe deu durante o sexo. O fato de ele dizer que não queria seu dinheiro naquela noite também demonstrava insegurança e aflição. Ele estava buscando por alguma coisa que Kamenashi não conseguia compreender.

O sexo havia sido bom. Talvez um dos melhores com Jin, que havia demonstrado paixão em todos os seus gestos. Mesmo que fosse uma paixão direcionada a outra pessoa. Kamenashi tinha consciência de que não era ele a pessoa que o acompanhante estava pensando no momento em que gozou. Ele sabia por causa do nome que Jin tinha murmurado alto o suficiente para acordá-lo enquanto dormiam.

O seu sono não era pesado e ele não estava completamente adormecido quando Jin deixou escapar:

– Ta-chan...

Existia alguém na vida dele e isso deveria ser algo óbvio. Saindo com tantas pessoas, uma delas tinha que ser do interesse de Akanishi. Devia ser alguém muito atraente para ter conquistado o rapaz desse jeito, a ponto de fazê-lo suspirar enquanto dorme.

Kamenashi sentiu sua veia jornalística misturada aos ciúmes começar a saltar. E essa é uma mistura das mais perigosas, a sua curiosidade o perturbaria até que descobrisse a fundo aquela história e o seu ciúme certamente o faria experimentar um sabor amargo com a resposta.

Levantou-se da cama e caminhou até o armário. Pegou a camiseta do seu time, já pendurada em um cabide, e sorriu. Jin tinha um sorriso enorme e sincero quando lhe deu o presente. Ele sempre ficava confuso com as personalidades de Jin, mas gostava de todas elas. E aquela talvez fosse a sua preferida, aquele Jin meigo e tímido que fazia de tudo para lhe agradar, mas, ele tinha que admitir, também era essa personalidade que o preocupava. Por que esse Jin lhe passava a impressão de que escondia algo muito sombrio.

Capítulo onze

1

Ele se olhou no espelho uma última vez, verificando se o penteado estava devidamente arrumado, os cabelos cumpridos alinhados para trás com ajuda do gel mais popular do mercado. Sorriu para si mesmo e depois saiu do banheiro do departamento de polícia e seguiu para o seu escritório depois de quase duas horas de almoço. Havia se atrasado por conta de um bico que estava fazendo, mas, por sorte, ninguém tinha reparado.

No caminho, Murakami Yusuke percebeu uma movimentação estranha pelos corredores. Homens sérios, usando ternos e com ar imponente seguiram para o escritório do Chefe de Polícia, Matsuda Toshio, na companhia de um agente da corregedoria.

Ele se aproximou de um rapaz jovem, que estava temporariamente trabalhando com eles no caso do assassinato do cantor, mas Murakami não conseguia entender a ligação dos agentes da Divisão de Entorpecentes se a única droga relacionada naquele caso foi a substância ingerida por Kimura antes de ser estrangulado.

– O que está acontecendo aqui, Okura-kun? – ele se dava a liberdade de ser informal com o jovem por ser mais velho.

– Não está sabendo, Murakami-san? – Okura semrpe mantinha a educação com quem quer que fosse. – A Yakuza está começando a agir. – ele respondeu, olhando na direção em que aqueles homens seguiram. – A corregedoria está investigando supostos abusos por parte da polícia na última apreensão de drogas. É claro que eles estão apenas querendo salvar a pele do herdeiro Nishikido.

– Isso quer dizer que...

– Sim, nós descobrimos onde Nishikido e seu comparsa estão escondidos. Mas essa maldita burocracia vai impedir qualquer ação antes de se comprovar que agimos dentro da lei. E qualquer deslize que qualquer um de nós tenhamos cometido naquele dia pode ser um motivo para interromperem as investigações. – ele suspirou. – Maldita corrupção. Bem que meu avô dizia que o nosso principal inimigo é o nosso espírito. As tentações sempre estão a nossa volta...

Okura se despediu quando viu Subaru, afastadim, fazendo um sinal para segui-lo, e logo se afastou sem ouvir as palavras de Murakami:

– Tentações? Somente um filhinho de papai que quer brincar de herói enxerga sobrevivência dessa forma. Tsc. – colocou as mãos no bolso e foi para o seu escritório. Tinha que avisar a Shingo que tinha informações valiosas para seu amigo Koyama.

2

Algum barulho o despertou e ele inclinou a cabeça, erguendo seu corpo alguns centímetros enquanto procurava a origem do som. Ainda estava sonolento e sentia seu corpo pesado. Descobriu Kamenashi procurando alguma coisa em seu guarda-roupa e ele tentou enquadrar sua visão.

– Ohayou.Você tá indo trabalhar? – Jin quis saber, a voz refletindo o seu cansaço, enquanto esfregava os olhos e tentava entender o que acontecia a sua volta.

– Ah... Ohayou. Agora não, só de noite. Depois do café da manhã vou dormir um pouco e vou me encontrar com meu editor mais tarde.

– Vai dormir de novo? Que horas você acordou?

– Eu não dormi ainda.

– Você não dormiu? Depois daquele sexo todo? – ele afundou o rosto no travesseiro, mostrando o quanto ainda estava cansado.

– Eu precisava terminar uma matéria.

– Workaholic. Um workaholic desprezível e insensível. Eu deveria me ofender e te cobrar pelo sexo desta noite.

– Do que diabos você está falando?

– Eu não sei, eu ainda não acordei e... Peraí. Você disse que vai se encontrar com seu editor hoje à noite?

– Agora que você percebeu o que eu te disse em primeiro lugar?

– Que tipo de hora extra é essa? Seu editor está te assediando? Não pode! Só eu posso te assediar. – disse, com um sorriso sacana, enquanto se esfregava na cama.

– Eh? Que possessividade repentina é essa? Lembra que você é quem trabalha com sexo?

– Companhia. Eu vendo companhia.

– E sexo também.

– Bem, sim, mas você não precisa falar desse jeito.

– Que seja! O que importa é que você não tem direito de exigir nada de mim enquanto trabalha com isso. – disse, acreditando te colocado um fim naquela discussão.

–... É mesmo né... Eu não devia exigir nada. Nunca. – disse e soou tão vago que Kamenashi se virou para fitá-lo.

– Qual é o problema?

– Nada não. – ele sacudiu a mão. – O que você tá procurando?

– Eu estava procurando um livro sobre o Kurosawa

. Queria colocar um trecho dele na minha matéria sobre os filmes clássicos... Eu tinha certeza de que tinha deixado no guarda-roupa, era um livro velho, mas eu nçao queria que pegasse pó, ele é muito bom. Que coisa, ultimamente não encontro nada no lugar que eu jurava que estava.

– Uma hora você encontra, relaxa.

– Essa é a filosofia de alguém que não se importa com a organização da sua casa.

– Bingo!

–... Cara de pau.

– Agora me faça o meu café! Estou faminto, você me deixou sem energia de novo... E pela segunda vez não ganhei nenhum dinheiro... Comida é o mínimo que você pode me dar agora.

– Cara de pau e folgado. Foi você quem veio esfregar seu traseiro em mim! De novo!

– Não reclame, eu reduzi duzentos dólares da sua dívida.

–... Eu sou tão barato assim, seu cretino?

Ele se virou e o viu rindo. Mordeu os lábios, para não rir com ele. Precisava manter seu orgulho, afinal.

– Vou fazer o café. E você devia alimentar o seu filho.

– Alimentar a família é papel do pai!

– Não, o papel do pai é trazer o dinheiro para casa. Como mãe, você devia ao menos cuidar da refeição...

– Mas a comida do pai é sempre mais gostosa!

– Sim, porque não vem com molho de sangue.

– Aquilo foi só daquela vez ok?

– Sim, porque você nunca mais cozinhou!

– Pare de me deixar mal. – fez bico e depois se escondeu debaixo do edredom até a altura de seus olhos.

– Mimado. – Kamenashi disse enquanto saia do quarto.

Akanishi sorriu.

– Se ao menos as circunstâncias fossem diferente... Será que ficaríamos juntos? – mordeu os lábios, enquanto fantasiava uma realidade. – Bah... Não cometa o mesmo engano duas vezes, Jin-baka! Agora você já controla seus sentimentos e não tem mais idade para se deixar levar por eles. Concentre-se em seus objetivos.

Estava muito claro o que ele tinha que fazer e o motivo pelo qual estava com Kamenashi. Ele repetia isso incontável vezes dentro da sua cabeça e tentava achar alguma desculpa convicente para estar prolongando sua estadia naquele apartamento por tanto tempo. Mas nenhuma justificativa lhe pareceu razoável. Seus olhos caíram naquele porta-retrato com a imagem de Kamenashi.

Suspirou.

3

Koki lançou outro olhar para dentro do quarto de Ryo. Ele ainda estava na cama, falando baixo ao celular, e Koki suspirou. Sabia que aquela era uma ligação importante e certamente era sobre a situação deles. Esperava por uma notícia que o libertasse daquela prisão de luxo em que se encontrava. Um apartamento confortável e caro, mas, ainda assim, era uma prisão e ele já estava impaciente por ficar trancado ali.

Voltou para a sala e pensou em ligar para Kamenashi. Fazia algum tempo que eles não conversavam e ele havia se afastado da investigação da morte do cantor. Será que seu amigo tinha avançado nesse caso? Sentou no sofá da sala e buscou o número do cel de Kame.

4

– Mas porque seu editor quis marcar um encontro de noite? – Akanishi perguntou, sentado diante da mesa da cozinha, esperando pela comida. Ele brincava com o prato e a xícara que estavam postos na mesa.

– Não foi ele. A polícia quer falar com ele e ele pediu para que eu vá junto. É sobre o caso Kimura e como eu estou escrevendo a matéria, e a polícia concordou com a minha presença, estarei lá para compartilhar conhecimentos. É claro que a polícia não vai me contar tudo, mas vamos ver se estamos seguindo a mesma linha.

– E como você está indo? Descobriu alguma coisa? – perguntou enquanto girava uma xícara sobre a mesa.

–... Nada de concreto e... – Kamenashi notou a brincadeira – Se você quebrar essa xícara eu vou abater metade da minha dívida com você.

– Ehhhh?? Que coisa mais cara. Ela não vale tanto assim!

– Nem você.

– Owe!!! Kame-chan... Prefiro você gentil e atencioso como foi nesses dias!

–... Está pronto. Vamos comer!

– Não precisa me ignorar também. Hum, isso parece muito gostoso... Você vai voltar tarde hoje?

Kame sacudiu a cabeça.

– Vou deixar a janta pronta, é só esquentar e pelo amor de Deus não vá me colocar fogo no apartamento!

Jin achou que o jornalistou falou em um tom sério demais. Ele não era tão desastrado assim, afinal. Só não era bom na cozinha, mas podia ser excelente em outros quesitos. E ele teria dito isso a Kamenashi se ele não tivesse saído da cozinha para atender ao telefone. Jin esticou o pescoço o máximo que pode para visualizá-lo na sala e escutou o nome daquele rapaz que destestou desde a primeira vez que o viu:

– Yo, Koki! Como você tá? Há, há, há... Sabia que você não estaria agüentando. Eh?! Não, não... Eu também acho isso... Fique um pouco mais, não se preocupe comigo nessas horas! Não sou que estou na mira da polícia! Pense um pouco mais em você mesmo e pare com essa mania de me chamar de Baby, já não te falei??

Jin fez um bico, alguém devia ensinar aquele cara de que não devia ligar na hora do café da manhã dos outros. Agora ele tinha que terminar sozinho a sua refeição.

5

O automóvel parou em frente à mansão Kimura, depois de percorrer um agradável e bem tratado jardim, passando pela área de lazer das crianças. Eles desceram e o mais novo admirou aquele lugar que só conhecia por fotos em jornais ou entrevistas na televisão. O lugar fazia justiça às pessoas que moravam ali, principalmente a que morou ali, o falecido cantor. A casa era imensa e imponente, fruto de todo o esforço que Kimura dedicou a sua carreira.

Foi o cutucão que Subaru lhe deu quando começou a subir os degraus da entrada que o retirou de sua contemplação e o trouxe de volta a realidade. Eles estavam ali para conversar com a viúva, finalmente. Okura não entendia a animação de Subaru e a sua insistência para conversarem com a mulher do falecido. Haviam se passado dias suficientes para que a sua memória tivesse mais chance de falhar e, além disso, tinha tomado remédios fortes devido ao trauma. Ela não teria muito mais a acrescentar ao que já tinha relatado, portanto. Subaru, contudo, era alguém que gostava de verificar os casos por conta própria e por isso eles estavam refazendo caminhos já percorridos pelos policiais que estavam encarregados do caso antes deles.

Entraram e foram recebidos por um respeitável mordomo de aparência britância, apesar da origem oriental, mas, ele era alto e tinha um porte elegante, sério e discreto. O mordomo os guiou para a sala de visitas, que, na opinião de Okura, era incrível. Ele tinha crescido na riqueza e no luxo, mas, ali, até mesmo para ele era algo surpreendente.

Eles esperaram um tempo considerável, Okura se sentia ansioso, mas Subaru mantinha-se tranqüilo como sempre, mexendo em sua moeda, em pé ao lado da porta de vidro que levava ao jardim. O seu parcerido gostava muito de flores, Okura sabia.

Por fim, a viúva veio recebê-los. Era uma mulher linda, corpo esbelto, apesar das duas gestações, uma pele lisa que escondia a sua idade e os cabelos negros, sedosos e ondulados nas pontas. Usava um vestido justo, na cor rosa, florido, que a deixava com um ar dócil. Certamente, Okura pensou, se o editor Nakai estivesse ali ele repreenderia o cumprimento do vestido, acima dos joelhos, para uma recém viúva. Sendo tradicional e rigoroso como era, ele deveria esperar por uma roupa de luto.

Ela os cumprimentou e se sentou na poltrona ao lado do sofá em que Okura estava sentado e de onde ela tinha visão do outro detetive. Okura notou que ela usava um perfume forte, impossível de não ser percebido.

– Desculpem por fazê-los esperar. – a sua voz era baixa e frágil. – Eu realmente quero ajudar a descobrir o que aconteceu com meu marido... Foi tão... Horrível. – ela parecia que começaria a chorar a qualquer instante. – Eu realmetne não consigo fazer as coias direito sobre este assunto, eu não gosto de pensar que Takuya não está mais comigo e minhas filhas...

– Sentimentos muito pela sua perda e por todo esse processo doloroso. – Okura já estava penalizado pela situação da mulher – Mas precisamos repetir algumas vezes para chegarmos até o culpado. Queríamos confirmar com a senhora um depoimento do advogado Kusanagi-sensei.

– Seria sobre meu marido se queixar que estava sendo enganado? – ela questionou, olhando-o diramente em seus olhos.

– Sim, essa declaração.

– Como disse aos detetives anteriores, eu não sei exatamente do que ele estava se referindo. Takuya era uma pessoa muito gentil, ele não se queixava sobre trabalho em casa, sempre dizia que quando entrava em casa, ele era o pai de nossas filhas e não mais a personalidade famosa que era fora daqui. Era um pai dedicado. As meninas sentem muito a sua falta e nossa caçula não consegue entender direito o que está acontecendo, é muito pequena.

– Então a senhora pensa que ele estava sendo enganado no trabalho? – perguntou Subaru.

– Ele não era enganado dentro desta casa. – ela disse rápida e séria.

– Não, não... – ele riu e sacudiu a mão. – Desculpe se a ofendi. Eu estava pensando nos amigos. Inagaki-san parece que conhece a cena do crime, apesar de que não há registros de sua passagem pelo hotel.

– Inagaki-san é uma pessoa honesta e íntegra, não faria mal ao meu marido. – ela disse com muita convicção. – É um amigo de longa data e era muito querido por Takuya... Não seria capaz de fazer mal ao meu marido... Não... Essa ideia... Não pode ser verdade. Ele teve ter uma justificativa para conhecer o local do crime.

– A senhora não acha, então, que o criminoso possa ser um dos amigos do seu marido? – Okura indagou.

– Não acredito que alguém possa mesmo ter feito algo assim... E, no entanto, aconteceu... Takuya sempre foi muito querido. Não há como pensar que alguém o odiasse... É horrível tudo isso... Muito horrível. – ela levou a mão até a garganta, com alguma agitação, e movimentou seus dedos pelo local, certamente pensando no momento em que seu marido foi esrtangulado. – Porque alguém matou meu marido, detetive?

– Isso... Nós iremos descobrir. – Subaru deixou a janela e se aproximou. – Sobre a amante de seu marido...

– Ela não existe. – a senhora Kimura refutou tal ideia – Isso é tão cruel, levantar suspeitas desse nível sobre uma pessoa que não pode mais se defender, nem preservar a sua honra...

– A senhora vai me perdoar, mas, o caso de Kimura é real. Temos provas e testemunhos de que ele se encontrava com alguém naquele hotel com muita freqüência.

Okura viu o rosto da mulher se alterar e parecia que ela estava a beíra do choro. Ele se sentiu penalizado e teve que segurar as próprias lágrimas. Naquele momento, ele também se perguntou como Subaru podia ser tão cruel com a família da vítima.

– O seu marido a traía, esse é um fato que não tem mais como negar.

– Shibutani-san! – Okura o repreendeu, mas foi ignorado.

– E na noite do crime... O que seu marido disse para se ausentar durante a noite?

– Naquele dia, nós não nos encontramso ou nos falamos... Na noite anterior, ele tinha me avisado que sairia cedo para ir até a casa de Shingo... Eles estavam trabalhando em uma música e disse que ficaria o dia todo lá...

– Segundo Katori-san, ele deixou sua casa às dezenove horas. E ele foi morto à uma da manhã. Temos a informação de que ele chegou no hotel às 20h00 e teria se encontrado com Hayami Minami por volta da meia noite. Essa é a informação que recebemos da recepção do motel. Por volta da meia noite, uma mulher chamada Hayami Minami procurou pelo quarto que o seu marido tinha alugado. Mas temos essas quatro horas até o encontro com Hayami. Porque seu marido teria alegado que estava atrasado para um encontro, ele disse isso a Katori-san, mas só há o registro de um encontro por volta da meia noite? O que seu marido fez esse tempo todo sozinho?

– Eu... – ela refletia naquelas informações – Tudo isso é muito confuso. Eu também não entendo o que Takuya foi fazer lá... Certamente, o mais provável, é que ele tenha sido atraído por um fã... Essa hipótese é a mais provável.

– Mas não é a verdadeira. – Shibutani disse, incisivo. – Em todo caso... Naquele dia... A senhora esteve com suas filhas, correto?

– Sim, a minha filha mais velha não se sentiu bem para ir à escolinha, então ela ficou em casa e eu passei o dia cuidando dela e da mais nova. Cheguei a pensar que, apesar de preocupada com a sua saúde, esse sentimento de poder proteger quem amamos é algo maravilhoso. Como mãe, eu me sinto muito realizada. Takuya tinha essa mesma opinião. Ele era mesmo um pai maravilhoso...

– Segundo o relato de seus empregados naquele dia a senhoria cuidou de suas filhas o tempo inteiro, ausentando-se apenas por momentos triviais como ir a cozinha, usar o banheiro e atender ligações.

– Bem... Sim... Alguns músicos estavam procurando por meu marido, sempre existem essas ligações... Parcerias em composições e essas coisas de sempre.

– Nenhuma ligação era para a senhora?

– Porque esse tipo de pergunta?

– Uma dessas pessoas que ligou pode ter sido o assassino. – Subaru explicou tranquilamente. – Alguém marcou um encontro com seu marido com o único intuito de assassiná-lo. E se o seu marido aceitou o encontro, era porque se tratava de um conhecido. Alguém que ele confiava o suficiente ou ao menos tinha um bom motivo para aceitar encontrá-lo. O assassino poderia ter ligado para sua casa a fim de confirmar o encontro.

– Isso... Isso é tão frio e asqueroso... Como poderia ser tão calculista?

– Os humanos são capazes de tudo. Até mesmo fingir sentimentos que não possuem. – Subaru explicou – Se todas as ligações foram para seu marido, poderíamos ter a permissão da senhora e checar com a operadora o conteúdo delas?

– Não vejo problema algum sobre isso... Por favor, apenas peço que nos preservem e as pessoas com quem meu marido fazia negócio se não houver relação alguma com o crime.

– Certamente. – quem respondeu foi Okura.

– Em nossa relação... A senhora tendeu ao telefone da casa e também ao seu celular algumas vezes. Poderia nos dizer com quem conversava?

– Vocês estão suspeitando de nossos amigos?

– Desculpe-nos, mas, não podemos entrar em detalhes. Apenas posso dizer que suspeitamos do maior número de pessoas possível. – Okura explicou.

– De qualquer modo, minhas ligações foram particulares. Não foi nenhuma ligação relacionada com o meu marido.

– Seu marido não ligou, mesmo sabendo que sua filha estava doente? – Subaru perguntou, de repente.

– Ele não sabia. Como disse, ele saiu muito antes dela acordar e descobrirmos que não se sentia bem...

– E a senhora não ligou para avisá-lo?

– Meu marido sempre desliga o celular quando está compondo música e, além disso, não era mais do que uma simples gripe. Se ela piorasse, certamente que eu o avisaria.

– Está certo... Acho que já verificamos todos os pontos que temos no relatório. Desculpe o incômodo. – Subaru a cumprimentou e foi o primeiro a se retirar.

6

Okura afrouxou a gravata que usava quando eles voltaram para o carro. Shibutani sentou-se no lugar do motorista e olhou para o mais novo com um sorriso compreensivo.

– Sentindo-se perdido, Tacchon?

– Você não se sente assim? – ele reclamou – Estamos andando atrás de informações que já tínhamos.

– Não é bem assim. Você tem que prestar mais atenção. Ela não disse que cuidar da filha adoentada a fazia se sentir realizada como mãe? E que Kimura tinha a mesma opinião? Contudo, ela não o avisou sobre a gripe da menina. Eu me pergunto o motivo...

– Porque suspeita sobre isso? É natural que, não sendo grave, a esposa não vá perturbar o trabalho do marido, não?

– Sim, é natural... Mas não parece combinar com o pai maravilhoso e perfeito como ela o retratou, não acha? Além disso... Kimura era somente um pai maravilhoso e perfeito.

– O que você quer dizer, Baru?

– E como marido? Ela nunca mencionou um elogio a ele como marido... Apenas sente sua morte por causa das filhas?

–... Sabe que essa mulher está sob efeitos de remédios. Não se pode levar ao pé da letra tudo o que ela diz...

– Sim, são apenas considerações... Mas, neste caso, acho que devíamos prestar mais atenção aos sentimentos dos envolvidos.

– Então, afinal, você pensa que é um crime passional?

– Nunca descartei essa hipótese... Em todo caso, temos uma novidade. Conseguimos as imagens do circuito de segurança da loja de conveniência em frente ao hotel. Depois de conversarmos com os jornalistas, vamos analisá-las na delegacia.

– Certo, então é isso. Vamos lá!

7

– Boa notícia, Koki... Já podemos sair deste lugar!

O rapaz se ergueu do sofá e encarou Ryo. Ele estava encostado na batente da porta do corredor, usando apens um jeans surrado, os braços cruzados e um largo sorriso.

– É sério?

– Sim, a polícia vai fazer vista grossa. – ele disse, bem humorado – Eu disse para ter paciência que este assunto seria resolvido.

– Seu pai?

– O velho, primeiro, ficou furioso... Depois ele descobriu que tivemos um delator. A informação vazou para a polícia, mas, eu não consigo entender como isso pode ter acontecido... Vou verificar isso logo. E você está livre.

– Ahhh! Isso é tão bom! Não agüentava mais ficar aqui com você! – disse, rindo.

– Owe!

Koki se levantou e disse que ia recolher suas coisas. Ryo fez que sim e esperou que o rapper se afastasse, então pegou seu celular e discou um número. Com a voz suave, ele disse quando foi atendido:

– Precisamos nos encontrar. Tenho um assunto a tratar com você. Ah, sim, isso também... E... Estou com saudades. Vamos nos ver, certo?

8

O encontro aconteceu em um hotel, a pedido de Nakai. Ele não queria perturbar sua família com aquele caso, também não queria chamar muita atenção dos outros jornalistas da redação. Por isso preferiu um ambiente reservado e tranqüilo.

Era um quarto decorado em tons vermelhos. As paredes eram dessa cor até a metade e depois eram na cor creme. Quadros com paisagens rural faziam fila em uma das paredes. Os móveis eram de mogno antigo, escuro.

Kamenashi foi o último a chegar e pediu desculpas pelo atraso, xingando Akanishi em pensamento por querer lhe agradecer justo na hora em que tinha que sair. Ao menos Kame se sentiu mais animado depois disso. Estava mesmo cansado e precisando relaxar de alguma maneira. Mas Akanishi se pendurando em seu pescoço, tentando impedi-lo de sair da cama, foi um golpe baixo, muito baixo. Era mais do que urgente ao jornalista aprender a controlar seus desejos.

– Não se preocupe. Não se atrasou muito.

Kamenashi olhou para o rapaz, que, segundo seu editor havia apresentado, chamava-se Okura Tadayoshi. Ele tinha um sorriso gentil e gestos elegantes. O outro detetive estava de pé, encostado a janela, observando as luzes dos outros prédios enquanto brincava com uma moeda. Esse era Shibutani Subaru. Não causou uma boa impressão em Kamenashi.

– Kamenashi-kun, sente-se.

Ele atendeu ao pedido de Nakai-san e se ajeitou no sofá de dois lugares em que estava Okura. Nakai ocupava a poltrona a frente e ainda havia mais uma e que ele tinha deixado para o outro detetive, mas o lugar ficou vago.

Não demoraram em entrar no assunto. E o primeiro tema que abordaram foi a amante de Kimura, assunto este que Kamenashi tinha uma informação a mais. Ele contou aos jornalistas que Hayami era uma pista falsa.

– Ela não era amante do Kimura. Apenas servia para distrair as atenções. – explicou o jornalista.

– Kamenashi-san tem certeza quanto a isso? – Okura questionou.

– Tenho plena confiança em minhas fontes.

– E sobre elas...

– Desculpe detetive, sobre nossas fontes, não conversaremos. – Nakai esclareceu – Não estamos sob nenhuma ordem judicial. Nós contamos o que descobrimos, mas acreditar nisso ou não já não é mais com a gente.

Okura admitia que eles estavam certos. Aquela conversa com Kamenashi-san, em primeiro lugar, não era um método do qual a polícia devia se orgulhar. Mas Shibutani disse que não havia nada de errado em escutar opiniões diferentes sobre o caso e que, como imprensa, eles podiam mesmo ajudar de alguma forma.

Sacudiu a cabeça, aceitando aquela imposição.

– Nesse caso, ela mentiu para a polícia. – Okura afirmou – Se ela mentiu para a polícia, porque diria a verdade a suas fontes? Porque ela mentiu sobre ser amante de Kimura... Porque ela correu esse risco?

– Obviamente estava escondendo a verdadeira identidade da amante. Pode ser uma pessoa próxima, alguém que ela quisesse proteger. – Kamenashi cogitou.

– Ela não tem parentes. Filha única, seus pais morreram há alguns anos, em ocasiões distintas. O pai do filho desapareceu antes mesmo dela descobrir que estava grávida.

– Uma amiga? – Nakai sugeriu.

– No trabalho, ela não tem nenhuma relação mais profunda com ninguém. Mas talvez possamos voltar a questionar a Casa de Chá sobre as relações dela. Se a proprietária conhece ou ouviu falar de alguma amiga de Hayami. Em todo caso, como ela mentiu para nós, teremos que interrogá-la novamente. – Okura fez uma rápida observação em seu bloco de notas e depois prosseguiu – O que mais vocês podem nos dizer? Kamenashi-san conversou com Inagaki-san, estou certo?

O jornalista assentiu, apesar do olhar reprovador de Nakai-san, que ainda estava zangado por ele ter ido atrás de um assunto antigo e doloroso para seu amigo Goro-chan. Ele acreditava em seu amigo, se ele disse que sua briga com Kimura nada tinha a ver com o crime, ele acreditaria, era lógico. Por outro lado, o seu lado jornalista entendia a necessidade de averiguar aquela história ainda. E também em razão ao seu sentimento a Kimura ele também queria descobrir a verdade sobre o crime. Era uma situação confusa que envolvia dois de seus melhores amigos e ele não gostava de ficar dividido dessa forma. Por isso ainda estava mal humorado sobre essa conversa entre Kamenashi e Goro.

– Ele só me contou uma história esquisita. Uma briga de Kimura com um acompanhante. Yamashita Tomohisa. Não sabia o motivo, mas disse que foi a única pessoa que pensou que poderia guardar alguma mágoa do seu amigo. E garantiu que a sua própria briga com Kimura não gerou ódio entre eles, mas não quis esclarecer esse ponto.

– Inagaki-san está irredutível. – Okura comentou – E ele já se protegeu com o advogado Kusanagi.

– Isso é uma prova de sua inocência. – Nakai declarou – Tsuyoshi-kun não o defenderia se soubesse que ele é culpado. Nós cinco somos amigos de infância. Se um fizesse algo assim com outro de nós, não poderíamos acobertá-lo jamais.

Okura assentiu, compreendendo e respeitando o desabafo do editor. Kamenashi se calou. Conhecia o editor há muito tempo, ele foi seu tutor na profissão que escolheu, e imaginava que havia convivido o suficiente para conhecer a sua integridade. Ainda assim, sempre existia a possibilidade de que Nakai poderia estar enganado a respeito de Inagaki. Ninguém sabia o motivo da briga entre eles, como poderia afirmar com convicção a sua inocência? Ainda assim, aquela lealdade era admirável.

– E tem isto também... – Kamenashi entregou a Okura o pedaço de cartão que encontrou na cena do crime. – Encontrei isso no quarto em que Kimura foi encontrado.

Okura entregou a Subaru.

– Quando foi isso?

Kamenashi respondeu a pergunta.

– Isso foi depois que fizemos a varredura... – Subaru murmurou.

– Nakai-san.

Okura desviou o rumo da conversa.

– Nakai-san. O assunto que nos trouxe até aqui é algo que Kusanagi-san disse em seu primeiro depoimento. Segundo ele, Kimura comentou que estava preocupado com alguma coisa. Nakai-san saberia dizer do que se tratava?

– Isso é muito difícil de responder... Kimura era uma pessoa preocupada com muita coisa... – ele coçou o queixo, enquanto pensava.

– Vamos tentar pensar nas últimas semanas. – Okura pediu – Nos últimos encontros que vocês tiveram, Kimura lhe pareceu preocupado por quais motivos?

– Bem, ele estava preocupado com uma música que ele queria que ficasse pronta antes de julho. Ele estava compondo com Shingo e depois gravariam com Goro-chan. E... Ah, sim! Havia algo... Não dei muita importância porque foi somente uma vez que Kimura mencionou aquilo.

Ele hesitou, parecia que se recordava de algo. Okura se inclinou em sua direção, ansioso. Até mesmo Shibutani desviou seu olhar para observar o editor.

– Bem... Havia alguma coisa incomodando meu amigo, mas ele não chegou a me contar exatamente. Uma vez ele soltou a seguinte frase: “Nakai-chan... Você já foi traído? Eu acho que estou sendo traído...” Mas não conversamos sobre isso. Estávamos voltando de um bar, eu o deixei em sua casa e isso foi a última coisa que ele me disse naquela noite. Não me deixou responder... Fechou a porta do carro e entrou em sua casa. Fiquei preocupado na hora, mas confesso que pensei que fosse uma briga com a sua amante ou talvez estivesse falando sobre sua esposa. Se fosse sua esposa, não é muito correto dizer isso, mas eu sempre soube que aquela mulher não prestava. Eu ficaria triste se fosse a amante. Porque ela, seja quem ela for, realmente fez meu amigo feliz... Mas Kimura era uma pessoa ciumenta. Não do tipo explosiva, mas ciumenta. Poderia ser apens uma suspeita sua infundada. De qualquer forma, depois que o encontrei de novo, ele estava feliz. Pensei que tinha se entendido com a sua amante e não toquei mais nesse assunto. Ele também não.

– Não é bem um caso amoroso que estamos procurando. – Okura suspirou, cansado.

– Acham que o caso não é passional? – Nakai questionou.

– Não temos como dizer nada ainda. – foi Subaru quem respondeu. – Mas crime passional não é a única possibilidade neste caso. – e não explicou aos jornalistas quais seriam as outras possibilidades.

– Nakai-san sabe de alguma inimizade de Kimura? – Okura voltou às perguntas.

– Não diria inimigos. Kimura sempre teve uma personalidade forte, porém nunca agressiva. Ele sabia defender seu ponto de vista com muita determinação, mas nunca ofendia quem era contra a sua opinião. Se ele estivesse discutindo com alguém em um dia, no dia seguinte ele sorriria de forma gentil para essa mesma pessoa. Isso eu digo com relação ao trabalho. Sempre foi assim, na época da escola. Estudamos na mesma classe. – explicou – E sei que no trabalho também é assim. Ele trabalha com Shingo e Goro, então muitas vezes em que saímos nós cinco era comum vê-los discutir sobre músicas, álbuns, e tudo mais. É muito difícil acreditar que ele tenha sido assassinado. Mas... Se vocês quiserem ouvir se eu suspeito de alguém, a pessoa que eu indicaria é mais do que óbvia: a esposa. Eu nunca confiei totalmente nessa mulher. Não acho que ele algum dia amou meu amigo. Apenas quis garantir a boa vida engravidando.

– Alguma razão para esse rancor contra a viúva? – Okura quis saber.

– Não gostava, nunca gostei, da forma como ela o tratava, mesmo quando eram ainda namorados. Não era do tipo carinhosa e as cobranças eram exageradas. Mas naquela época Kimura era ainda ingênuo e romântico. Tinha a imagem dela como uma santa porque ela falava baixo e com delicadeza. Isso eu não suportava. Ela manipulava meu amigo com a sua meiguice. E Kimura era apaixonado por ela, obedecia. Obviamente que isso não ia durar para sempre. O encanto para Kimura tem que ser alimentado. Se ele começar a desconfiar de alguma coisa, vai até o fim para descobrir. Não se podia enganá-lo por muito tempo. Nossas mentiras de criança, ele era sempre o primeiro a perceber. – riu, lembrando-se de alguma situação carinhosa – E ele descobriu que não era amado. Iam terminar. Mas aí ela engravidou, aquela raposa, e meu amigo se sentiu responsável por ela!

Nakai se inclinou para frente na poltrona, estava visivelmente alterado. Shibutani preferiu mudar o rumo da conversa.

– Yamashita Tomohisa.

Kamenashi olhou para o policial mais velho.

– Kimura discutiu com esse rapaz, segundo Inagaki-san. O que sabe sobre isso, Nakai-san?

– Yamashita Tomohisa... – ele refletiu.

– É um acompanhante. – Shibutani esclareceu. – Parece que Kimura visitava esse tipo de casa.

Nakai assentiu.

– Fomos a Casa de Show uma vez para acompanhamos um artista estrangeiro que estava sob a responsabilidade de Kimura. Ele estava visitando o Japão pela primeira vez e, como a maioria dos estrangeiros, queria conhecer esse serviço. O levamos, ele se divertiu e fomos embora. Isso é tudo que eu sei das visitas de Kimura. Soube que ele continuou indo lá, politicamente, levando outros turistas. E soube por alto sobre essa discussão com esse menino, Yamashita. Não sei o motivo. Kimura não me contou.

–... Casa de Show?

Nakai confirmou a pergunta de Kamenashi e não entendeu a expressão que viu em seu rosto. Não sabia dizer se ele estava ansioso, animado e um pouco... Preocupado? De qualquer forma, o editor sabia de uma coisa. Kamenashi tinha alguma informação valiosa.

9

Era uma boa pista e, ao mesmo tempo, não era. Yamashita Tomohisa trabalhava na mesma casa de Akanishi e descobrir que o rapaz tinha alguma ligação com o crime, mesmo que seja insignificante, não o deixou tranqüilo. Num primeiro momento, ele se sentiu animado, tinha uma vantagem em relação à polícia quando percebeu que Jin seria uma boa fonte de informação.

Essa animação, porém, se desfez com uma velocidade impressionante. Kamenashi supirou fundo enquanto se dirigia para o seu carro. Abriu a porta e se trancou ali, mas não ligou o veículo. Bateu os dedos de uma mão no volante, enquanto mordia o polegar da outra. Estava nervoso.

Ele não conseguia entender porque se sentia tão mal naquele momento. Por alguma razão, o deprimia pensar que poderia usar Jin como fonte de informação. Isso porque ele sabia que não poderia ser direto e sincero com ele. Kamenashi não sabia qual seria a relação entre Yamashita e Jin. Eles seriam apenas colega de profissão? Teriam alguma amizade? Se fosse o caso, Akanishi não estaria em uma situação agradável.

Kamenashi pensou em sua amizade com Koki. Sabia por algo de seus negócios na Yakuza. E fechava os olhos para eles. Assim como tinha consciência de que as informações que obtinha também não seriam consideradas legais. Nessa situação, ele teria coragem de entregar o amigo à polícia? Não teria. Akanishi poderia ter a mesma postura. Por isso não poderia perguntar diretamente. Tinha que ser sutil. Mas não estava se sentindo bem em enganar Akanishi, por uma razão que ele não queria admitir. Não queria ter um relacionamento baseado em mentiras com ele. Tudo porque ele queria um relacionamento com Akanishi Jin.

Além disso, havia uma razão mais obscura que ele mesmo não queria cogitar, mas, pela primeira vez desde que aceitou escrever a matéria sobre a morte do cantor ele sentiu medo. Medo em descobrir a verdade.

10

Para Akame, que não passava de um filhote, aquele apartamento era grande o suficiente. Talvez fosse por isso que ele procurava ficar sempre próximo de Jin, era o que o rapaz pensava.

– Demo... Não precisa ficar tão próximo assim ou pelo menos não entre no caminho dos meus pés! – ele disse, ajoelhado ao lado do cãozinho, que tinha voltado para perto de sua cama e ficou ali, parcendo muito magoado por ter sido pisado. – Não pisei de propósito... Vamos, tome um pouco de leite! – ele empurrou a tigela – Bah, esse temperamento ruim você herdou do jornalista, né?!

Ele desistiu. Uma hora Akame esqueceria o que tinha se passado e Jin tinha mais o que fazer. Ele se levantou e voltou para a mesa em que estava o laptop de Kamenashi.

– A sua senha é tão óbvia... – ele comentou rindo – Só podia estar relacionada ao basebol.

Ele tinha passado alguns dias tentando inúmeras senhas, até que descobriu o ídolo do esporte para Kamenashi. E foi fácil ter acesso a sua área de trabalho e, as suas matérias. Abriu a pasta do caso Kimura e começou a leitura. Um nome, porém, chamou sua atenção de imediato.

2 – Kimura foi visto discutindo com Yamashita Tomohisa em uma casa de acompanhante de rapazes. (Preciso descobrir que casa é essa. Inagaki não disse o nome e preciso descobrir quem é Yamashita Tomohisa)

– Pi...

O jornalista já tinha chegado até seu amigo, então. Jin sentiu toda sua alegria desaparecer de uma só vez. Fechou os olhos, ele sabia que precisava fazer uma escolha.

11

– Isso quer dizer que... – Subaru não precisou terminar a frase, Okura tinha percebido por conta própria.

– Se o jornalista conseguiu acesso a cena do crime, um dos foi subornado. Precisamos descobrir quem foi.

Dentro do carro, Subaru assentiu, o pensamento de Okura estava correto, mas havia algo mais que o incomodava naquele momento.

– E há outra coisa...

– O que foi?

– Nós vistoriamos aquele quarto mesmo depois da varredura de outros agentes. Ninguém encontrou essa pista antes...

– Você acha que...

– Sim. – ele disse, sério, e encarou Okura: – Definitivamente... Estão plantando provas.

Okura franziu a testa. O caso estava cada vez mais complicado, em sua opinição.