O artista e o poeta
1 DIONÍSIO
Notas iniciais
Coloquei algumas referências a músicas aqui, quem descobrir quais, ganha um cookie.
E a música desse capítulo é "Amor Marginal" do Johnny Hooker (esse homem é um rei).

Ele sabia que o vento frio que lhe açoitava as costas nuas era Bóreas, castigando-o em nome de Zéfiro. Zéfiro, que a quem ele amara tanto, a quem dedicara inúmeros versos soltos e poesias tortas e estrofes incompletas e sem rimas, falando sobre o seu sorriso gentil, e os cabelos castanhos cuidadosamente bagunçados, e o quanto ele era quente e mesmo nas noites frias, mesmo no mais duro inverno, Zéfiro o aqueceria com apenas um toque, como o anunciador da primavera. Zéfiro, quem o acordava com beijos no rosto todos os dias, suaves como uma brisa, e eram, sim, brisas que tocavam seu rosto, e eram ainda mais bem recebidas quando ele acordava sozinho em seus aposentos ou na caverna do amado.
E, sim, Dionísio o amava perdidamente. Amava tudo aquilo, e muito mais, como o jeito com que os seus cabelos bagunçavam quando ele batia as suas asas, e o perfume dele. Ele sabia que eram jacintos, e ele sabia o porquê, mas não se incomodava, porque ele amava Zéfiro e não importava o que ele carregava nas costas, contanto que ele ainda pudesse correr as mãos por elas e sentir o anemoi ficar arrepiado, e então ele murmurava algo e Dionísio o respondia com um sorrisinho abobalhado.
Mas, Ah Zéfiro, me perdoa, me perdoa, ele pensa, me perdoa por minha traição. Mas ele sabia que não fora uma traição, ou pelo menos Apolo clamava não ser, afinal Não és de Zéfiro, ele dizia. És teu e apenas teu e de ninguém mais. Se quis deixar uma parte de ti com Zéfiro, que seja, mas ela ainda é tua, e se quiseres, toma de volta. E ele dizia com aquela voz profunda, os olhos daquele anil macio e fluído como o mar, que mudavam como o céu, ora claros ora escuros, e dizia com o rosto colado ao dele, os dedos entrelaçados nos cabelos de sua nuca e, num piscar de olhos, Dionísio tomou o coração que dera ao vento oeste e o atirou aos pés de Apolo.
E nunca mais o viu porque, ele tinha certeza, o poeta o guardara em sua boca. Só poderia ser, porque cada risada dele (aquela risada que era ao mesmo tempo grave e aguda, como uma sinfonia) fazia o peito do artista boêmio apertar, como se ele ainda sentisse o coração. Cada sussurro era como um carinho e cada trincada de dentes quando ele o irritava era uma dor insuportável.
E o amor, ah, aquilo podia ser chamado de amor, sem dúvida. E mesmo que não houvesse nada de errado, mesmo que o amor do pai de ambos por Ganimedes fosse apreciado até por Afrodite e os Amores, por que O amor entre dois homens ou duas mulheres é tão puro e verdadeiro, ela dizia, porque vai além do instinto de reprodução, e é muito mais amor, muito mais puro, Apolo insistia que aquilo fosse um segredo, Que seja só nosso, ele dizia antes de beijá-lo.
E o pequeno universo do patrono dos bêbados girava ao redor de Apolo, e cada toque era como o brilho de uma estrela e cada beijo uma chuva de meteoros e sexo era uma supernova e estar com ele era como ser uma galáxia, porque ele se sentia infinito e brilhante e único, assim como quando era maltratado ou vítima do humor volúvel de Apolo, ele se sentia como um buraco negro.
Mas Eros arrancara dele o segredo, lhe convencendo com uma história de Eu sei que está apaixonado, porque fui eu quem o fez se apaixonar, seguido por um sorriso torto como o de Ares e uma erguida de sobrancelha convincente como a de Afrodite. E agora Afrodite sabia e Ares também, e o irmão mais velho foi o primeiro a ralhar com ele, dizendo “Não brinca com Apolo, meu irmão, porque ele é um pesadelo vestido como devaneio e uma vez que ele te tiver na mão, serás brinquedo dele até que ele enjoe e te deixará com uma cicatriz horrenda na alma”. O conselho mais útil que ele recebera e provavelmente o melhor conselho que Ares já dera que não envolvia a palavra morte.
E Dionísio tinha ciência de que ele não era para o irmão o mesmo que o irmão era para ele, mas, agora Apolo o tinha não (apenas) na mão, mas na boca, e naquele exato momento, naquela pequena parcela de eternidade, Dionísio o tinha também, em sua boca, em seus braços, em seu olhar e naquele momento Apolo era dele também.
Notas finais
https://www.youtube.com/watch?v=jx9eAJkDVc0
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