Notas iniciais
Novamente o ponto de vista da Lizzie! A história começa a engrenar! Boa leitura!

Depois que meu pai viajou fui dar um passeio pela campina atrás de casa. As nuvens no céu eram pesadas e parecia que logo cairia uma grande tempestade.

Enquanto caminhava me distraí pensando nos comentários que tinha ouvido na aldeia pela manhã. Ao que parecia alguém iria noivar amanhã. Não consegui saber quem era o casal, mas fiquei com uma pontinha de inveja. Eu queria encontrar a minha “metade” também, não queria mais ficar sozinha. Tinha meu pai, é verdade, mas não era a mesma coisa. Sonhava todas as noites que achava alguém, mas nunca conseguia ver o rosto do meu amado, sempre acordava antes de poder vê-lo.

Já estava perto da margem do rio quando senti os primeiros pingos de chuva caindo em meu rosto. Torci para que meu pai chegasse a algum lugar seguro antes da chuva o alcançar. Dei meia volta e caminhei em direção à casa, mas fui a passos lentos. Eu gostava da sensação da chuva molhando meu rosto, era algo que me acalmava, me deixava leve, com uma sensação de liberdade.

Entrei na cozinha. Minhas roupas estavam pingando e eu estava ficando com frio. Coloquei uma panela com água para esquentar e, enquanto esperava, comi uma maçã que estava na fruteira em cima da mesa. Quando a água já estava quente enchi a tina e entrei, sentindo a água aquecendo meu corpo. Fiquei ali até ficar com os dedos enrugados.

A chuva batia com força nas janelas e o vento assoviava pelas frestas das portas. Senti-me insegura. Não gostava de tempestades e estava sozinha em casa, o único barulho era dos pingos batendo com força na casa.

Sentei na pequena poltrona da sala e peguei meu violino. Comecei a tocar uma melodia mais animada, que me fizesse esquecer do vento lá fora. Conforme ia tocando meu medo ia passando e quando cheguei ao fim da musica já estava tranqüila e, como estava tarde, fui me deitar.

Demorei um pouco para pegar no sono, mas, quando finalmente adormeci, tive um sonho.

Eu passeava tranquilamente pelas margens do rio, num dia claro e ensolarado. Enquanto caminhava, vi ao longe alguém parado bem junto à margem, ele estava de costas para mim. Não sabia o porquê, mas quando o vi, senti uma alegria tão grande, uma vontade louca de abraçá-lo. Corri ao seu encontro, mas, quando me aproximei, ele caiu no rio e começou a afundar. Pulei desesperada tentando salvá-lo, mas não o encontrei. E agora quem afundava era eu.

Acordei ofegante e assustada. Sentei na cama e tentei me acalmar. As imagens do sonho ainda rodavam em minha cabeça. O sol já começava a sair por detrás das montanhas e resolvi levantar.

Tomando meu café na cozinha já me senti mais calma. Odiava quando tinha pesadelos! Sentia-me cansada ainda, mal tinha dormido na noite anterior e para completar ainda tive esse maldito pesadelo.

Olhei para o relógio que estava pendurado na parede: sete horas. Ainda era muito cedo para querer ir a qualquer lugar. Resolvi limpar toda a casa. Isso tomaria um bom tanto do meu tempo até que a biblioteca estivesse aberta.

Terminei a limpeza e dirigi-me para minha visita ao senhor Carter. Quem sabe qual seria a história que ele iria me contar hoje?

Desci a rua animada para chegar logo à biblioteca. Quando virei a curva, dei de cara com Jasper.

– Olá Lizzie! Que prazer enorme vê-la numa manhã tão linda! – Seu sorriso e palavras melosas derreteriam qualquer moça, menos a mim.

– Bom dia Jasper. Como vai? – apesar de não gostar muito dele, devia ser educada com todos e fiz um esforço para não ser irônica.

– Oh, vou muito bem! Ainda mais agora que me encontrei com você! – seus olhos tiveram um pequeno lampejo e eu me perguntei o porquê. – Já deve ter ouvido sobre o noivado de hoje, não é? – seus olham ainda continuavam com aquele lampejo e eu comecei a me sentir desconfortável.

– Ouvi sim, mas ainda não sei quem são os noivos. – tinha minhas suspeitas, mas não passavam disso, esperava que ele me esclarecesse.

– Que pena que eu não posso lhe contar agora. Tenho que encontrar alguns amigos e já estou atrasado. Mas... – ele deu um sorrisinho — ...eu poderia visitá-la durante a tarde, então poderemos colocar os assuntos em dia.

Que droga! Lá vinha ele com suas insinuações!

– Não sei se seria uma boa ideia. Não ficaria bem.

– Ora, Lizzie! Não seja desconfiada! Nos conhecemos a tanto tempo que penso que essas formalidades não são necessárias. – Ele se recostou no tronco de uma das árvores que ladeavam a estrada.

Como eu iria escapar dele?!

– Eu nem sei se vou estar em casa. Talvez almoce com o Sr. Carter. – esperava que essa desculpa fosse suficiente.

– Bom, de qualquer forma darei uma passada por lá. Quem sabe dou sorte e te encontro em casa.

Torci para que isso não acontecesse!

– Sua companhia é muito melhor do que a dos meus amigos, mas preciso deixá-la e ir encontrá-los, como já lhe disse. E já estou bem atrasado. Até logo Lizzie – ele fez uma mesura e se distanciou pela estrada.

– Tchau, Jasper!

Segui meu caminho e logo estava na biblioteca. O Sr. Carter me recebeu com a mesma alegria de sempre. Contou-me algumas novidades e inevitavelmente chegamos ao assunto do misterioso noivado.

– Eu ainda não sei quem é a noiva – ele me disse – Mas tenho grandes suspeitas de que o noivo seja seu amigo Jasper.

– Jasper?! Eu acho que o senhor deve estar enganado. Encontrei com ele quando vinha para cá, até conversamos sobre o assunto, mas não disse coisa alguma de que o noivo fosse ele próprio.

– Hum – Sr. Carter parecia pensativo – Pode ser que eu esteja enganado, mas se não for ele o noivo, por que os empregados da estalagem estão tão envolvidos nos preparativos da festa?

– Estão?! – Eu estava mais desinformada do que imaginava.

Se os funcionários de Jasper estavam envolvidos nos preparativos, então as suspeitas do senhor Carter tinham fundamento. Mas então por que Jasper não me disse algo sobre o assunto?

De qualquer forma me senti aliviada. Pelo menos eu não seria mais alvo das atenções e bajulações dele. Mas quem era a noiva? Pobre coitada! Não queria estar no lugar dela, ainda sim, serei eternamente grata a ela por me salvar.

– Mas o senhor não faz ideia de quem pode ser a moça? Nenhuma suspeita?

Ele deu um suspiro e falou com um tom de desânimo.

– Não, sinto muito. Mas pode ter certeza que estou tão curioso quanto você! – ele fez uma pausa e de repente me olhou com curiosidade. – Tem certeza de que Jasper não te disse alguma coisa sobre o assunto?

– Não – eu estava meio confusa – Já lhe disse que ele não me falou coisa alguma. Mas por que a pergunta?

– Bom, pensei que ele queria noivar com você, já que não te deixou em paz durante os últimos dois anos.

A ideia me fez tremer. Será possível? Sacudi a cabeça tentando desfazer a imagem que se formou. “Não, não e não!”

A festa era hoje e não tinha como eu ser a noiva se mal sabia da existência do tal evento.

– Acho que não! – tentei manter minha voz num tom menos nervoso possível. – Se fosse eu ele já teria me feito o pedido.

– É verdade. – os pensamentos dele pareciam um pouco distantes.

Lembrei-me da conversa que tinha tido com Jasper antes de vir para cá. Ele não tinha deixado escapar nada. Não fez nenhuma insinuação, pelo menos eu não notei nenhuma. Isso me fez lembrar da promessa de visita que ele tinha me feito.

– Sr. Carter?

Ele teve um pequeno sobressalto quando eu interrompi seus pensamentos.

– Sim, Lizzie? – disse ele se recompondo do susto e arrumando seu pequeno óculos na ponta do nariz.

– Será que eu poderia lhe fazer companhia na hora do almoço? É que estou sozinha em casa e pensei que poderíamos almoçar juntos. Se o senhor não se incomodar, claro.

– Oh, querida! Infelizmente não poderei aceitar seu convite. Estou indo daqui a pouco para Mambfing. Recebi uma carta de minha sobrinha Kate. Ela teve gêmeos na semana passada! Estou indo para visitá-la e conhecer meus novos sobrinhos. – Seu olhar se iluminou ao me contar a novidade.

O Sr. Carter nunca tinha se casado. Seus únicos parentes eram a sobrinha Kate que morava em Mambfing e o irmão dela, Anthonie, que morava em Lighenfor. A alegria do solitário velhinho eram as visitas que os dois faziam para ele, ou as raras visitas que ele podia fazer aos sobrinhos.

Kate era uma das poucas pessoas com quem eu realmente podia conversar em Danorum. Ela era uma pessoa muito amável e educada. Tínhamos modos de pensar bem semelhantes e nossas conversas eram sempre alegres. Mas pouco mais de um ano atrás, ela se casou e foi morar com o marido na cidade que ficava logo depois do vale Tinsdaley. Nem podia acreditar que ela já tinha dois filhos agora!

– Que bom! Fico muito feliz por Kate! Mande lembranças minhas à ela!

– Pode deixar! Ela ficará muito feliz! Faz tempo que não vêm para cá, principalmente pelo seu estado até esses dias. Na última carta, ela me disse que estava com muita saudade de você.

Eu me lembrei da última carta que ela havia me mandado. Fazia um pouco mais de um mês. Na carta ela me contava como estava feliz na casa que eles conseguiram comprar perto de um lago muito bonito. Contava dos planos para a chegada do bebê e como seu coração estava transbordando de tanta alegria e me convidou para ser madrinha do pequeno tesouro dela.

– Eu acho que está na hora de ir Lizzie — nem tinha notado que eu estava divagando e que ele precisava fechar a biblioteca.

– Ah, sim! – levantei-me da cadeira e me dirigi para a porta. – Boa viagem Sr. Carter!

– Até logo Lizzie!

Já era quase meio dia. Meu estômago se revirou de fome e eu apressei o passo para ir logo para casa.

Fui direto fazer meu almoço quando cheguei. Almocei ali sozinha, absorta em meus pensamentos.

A ideia do Sr. Carter ainda martelava em minha mente. Era realmente estranho que, depois de tanto tempo tentando conquistar meu afeto, Jasper resolvesse noivar com outra moça.

Não que isso me deixasse infeliz ou desapontada, pelo contrário, me sentia aliviada, só a repentina mudança na situação era muito estranha. Ele estava comprometido, mas ainda me tratava da mesma forma de sempre, o que não deveria acontecer se ele estava noivo de outra pessoa.

Esse pensamento me deixou extremamente confusa e desconfortável.

Enquanto mastigava devagar, deixei que os pensamentos fluíssem livremente. De repente, como se houvesse um estalo em meu cérebro, um pensamento me chamou a atenção.

Ninguém havia confirmado com todas as letras que Jasper estava noivo. Só se tinha certeza de que alguém iria noivar hoje. Tudo era só suposição minha e do senhor Carter, mas nada estava realmente confirmado.

Isso me deixou mais aliviada.

Com os pensamentos mais calmos, lavei a louça e limpei a cozinha. Ao terminar fui tratar os animais. Atrás da casa, um pouco mais afastados, ficavam os estábulos. Tínhamos algumas vacas, cabras, galinhas, ovelhas, dois cavalos, um chiqueiro com porcos e dois cachorros perdigueiros, sendo que um deles havia acompanhado meu pai na viagem.

Tratei cada um deles, troquei a água, recolhi os ovos do galinheiro e, por fim, fui dar comida aos porcos. Para poder entrar naquela lama toda havia um par de botas velho e todo sujo ao lado do portãozinho. Calcei-as e, quando colocava a comida no cocho, ouvi alguém me chamar na parte da frente da casa.

Sai dali e, enquanto estava tirando as botas sujas, vi Jasper vindo em minha direção e acenando para mim com um largo sorriso no rosto.

–Que bom que te achei em casa! – seu sorriso se alargou ainda mais.

– Olá, Jasper. – meu estômago se revirou nervoso; minhas mãos suavam.

Mas que droga! Não havia motivo algum para estar assim!

Endireitei-me e tentei parecer o mais indiferente possível enquanto ele se aproximava.

– Lizzie! – ele me abraçou por um instante e se afastou — Não vou ficar de rodeios com você. Já soube da grande notícia?

Olhei espantada para ele. Que significava tudo aquilo?

– Não, Jasper. O que aconteceu?

Ele estufou o peito e disse orgulhoso.

– Vou noivar hoje!

Pude sentir meu rosto se transformar em uma quase careta.

– Verdade?! Que surpresa agradável! – não deixava de ser verdade, mas ainda me sentia um pouco incomodada.

– É verdade sim! – seus olhos faiscavam de satisfação. – Imagine só Lizzie! Vou me casar!

Mas ele ainda não tinha dito o que eu queria tanto saber.

– E quem é a noiva? Eu a conheço?

– Imagine! – ele estava tão absorto em seus pensamentos que parecia não ter ouvido minha pergunta. – Deixarei o controle da estalagem nas mãos de Steve e vamos viver numa casinha no pé das montanhas. Teremos dúzias de filhos que serão tão fortes quanto eu e tão lindos quanto a mãe.

Ele se aproximou de mim e dei alguns passos para trás para tentar me afastar, mas logo senti que já estava quase pisando na lama do chiqueiro. Não havia para onde fugir. Estava com medo do que viria pela frente.

– E sabe quem será a esposa feliz? – ele olhou diretamente nos meus olhos.

– Quem será? – murmurei pensativa, virando o rosto e tentando desviar do olhar dele.

Jasper se aproximou mais e eu tive vontade de sair correndo.

– Você Lizzie!

O que aconteceu depois disso se desenrolou muito rápido.

Ao falar aquilo, Jasper deu mais um passo em minha direção mas, ao fazer isso, enroscou a bota em uma pedra e seu corpo se desequilibrou para frente.

Ele cairia em cima de mim, porém fui mais rápida e me desviei para o lado. Jasper caiu de bruços e deu de cara na lama.

Aquela visão foi extremamente cômica!

Aproveitei a oportunidade e, enquanto ele se levantava, corri para dentro.

– Desculpe Jasper, mas não posso aceitar! – gritei por cima do ombro enquanto corria.

Entrei na cozinha ofegante e passei o ferrolho na porta. Corri para a sala da frente e tranquei a porta do mesmo modo. Subi para meu quarto e olhei na janela que dava para o jardim da frente.

Jasper caminhava furioso indo embora. Ele se virou e me viu na janela. Seu rosto estava contorcido numa careta de nojo e raiva. Suas roupas estavam cobertas de lama. Ele era quase um monstro de sujeira.

Quando me viu, parou e apontou o dedo em minha direção.

– Você acha que pode me tratar desse jeito?! – sua voz estava cheia de raiva e seus olhos faiscavam para mim.

Sai da janela e me encostei na parede ao lado ouvindo seus gritos lá fora.

– Nuca fui tão humilhado! Você se acha tão boa, não é? Não sei por que perdi meu tempo com uma caipira tão sem graça e metida como você! – ele fez uma pausa e achei que já tinha ido. Estava enganada.

– Pensa que, só por se achar bonita, vão existir vários homens correndo atrás de você? Eu fui o único a ter coragem de me arriscar e lhe fazer uma proposta! E pode ter certeza que ninguém mais irá fazer! Você é totalmente desprezível! O que fez comigo foi sujo!

Eu podia entender que ele estava chateado por ter caído no chiqueiro e por eu ter recusado o pedido. Mas me ofender assim não tinha desculpas!

Fiquei feliz por ter recusado alguém que mostrava ser totalmente mal educado e ter modos tão grosseiros. Sempre tive minhas desconfianças em relação a ele, seus modos exagerados e seu sarcasmo sempre me incomodaram, mas nunca tive maiores provas de sua deficiência de caráter. Porem, naquele momento, ele estava deixando transparecer seu verdadeiro eu.

Olhei para o lado e vi o lavatório que ficava em cima da cômoda. A jarra estava cheia de água e aquilo me deu uma ideia.

– Você disse que o que eu fiz com você foi sujeira? Então me deixe limpá-lo.

Ao dizer isso, derramei com satisfação a água da jarra pela janela. Ele ofegou com a água fria caindo em sua cabeça.

Achei que depois do que eu fiz escutaria mais um monte de xingamentos e besteiras, mas estava enganada.

Jasper baixou a cabeça e marchou furioso embora.

Deixei minhas costas deslizarem pela parede fria e fiquei sentada no chão repetindo mentalmente as cenas que haviam acabado de acontecer.

Tudo foi tão repentino que não parecia ter sido real. Parecia mais um pesadelo de uma noite mal dormida. A confirmação de que Jasper era realmente o noivo. O pedido. O tombo no chiqueiro. Os xingamentos. Tudo me deixou atordoada.

Senti que meu rosto estava molhado pelas lágrimas que brotavam continuamente de meus olhos.

Abracei meus joelhos, baixei minha cabeça sobre os braços e deixei que as lágrimas rolassem. Não sei quanto tempo fiquei ali, nem quantas vezes as cenas passaram em minha mente.

Sempre achei que o pedido de casamento seria o momento mais feliz e exultante da minha vida. Nunca imaginei que pudesse ser tão ofendida e humilhada. E pior! Ser humilhada por quem sempre pareceu querer casar comigo e me amar durante toda a vida.

Levantei-me e saí para tomar um ar fresco. De repente aquele quarto parecia sufocante demais para mim.

Caminhei deixando que o vento secasse minhas lágrimas. Eu não sabia ao certo porque chorava tanto. Talvez fosse o estresse que tudo aquilo havia me causado, talvez fosse por não ter meu pai por perto para poder me abraçar e confortar. De repente me senti mais sozinha do que nunca e isso fez com que mais lágrimas caíssem.

Deitei no gramado, exausta. Meu corpo não estava cansado, mas minha mente e meu coração estavam exauridos. O céu estava avermelhado e o sol se escondia atrás das montanhas. Aquela sempre era minha hora favorita do dia. O crepúsculo. Não havia a escuridão amedrontadora da noite nem o sol escaldante do dia. Era tranquilo, lindo, inspirador.

Fechei meus olhos e esperei que tudo ficasse escuro. Que amanhã as coisas melhorassem. Mas eu não imaginava o que ainda estava por vir.

Notas finais
Ganhei uma seguidora! o/ O que estão achando? Logo, logo altas emoções! rsrsrs