Notas iniciais
Visão de Matthew! Espero que gostem! =)

Toda a reflexão que tive durante a noite me fez chegar à decisão de tentar melhorar meu comportamento que, ultimamente, não estava sendo muito bom.

As palavras de Hanna ainda ecoavam em minha mente como um sino batendo constantemente. “Achei que não queria mais ser um monstro”. Eu realmente não queria mais ser assim.

Quando o sol começou a aparecer timidamente no céu eu já havia tomado minha decisão. Meu primeiro ato de redenção seria soltar aquele homem que eu havia prendido na noite anterior.

Eu precisava de ajuda nessa mudança, não tinha certeza se conseguiria fazer isso sozinho. Hábitos de anos são difíceis de mudar de uma hora para a outra, mas tinha certeza que encontraria apoio nos meus fiéis amigos. Hanna, Smutter e Benn eram mais do que simples empregados para mim, eram meu apoio.

Às vezes eu tinha pena deles por terem que me aturar, mas eles o faziam de bom grado e nunca reclamavam, ao contrário, se mantinham ao meu lado mesmo eu os repelindo em meus momentos de raiva e angústia.

Fui para a cozinha tomar meu café da manhã, não gostava de usar a sala de jantar, ela era muito grande e me fazia sentir mais sozinho do que de costume. Minhas refeições eram ali, junto aos criados. No começo eles ficavam muito desconfortáveis com a minha presença e me olhavam um pouco assustados. Eu não podia culpá-los. Do modo como os tratava antes, era mais do que natural que agissem dessa forma. Mas, com o passar dos anos, eles se acostumaram com minha presença e não se incomodavam mais.

Depois de ter tomado meu café pedi para que Hanna fosse comigo até o jardim. Queria que ela fosse a primeira a saber da minha mudança, ou pelo menos do meu desejo de mudar. Quase como um filho que quer contar à sua mãe os planos para o futuro.

Ela me acompanhou até um banco que ficava debaixo de uma árvore e sentamos ali.

O céu estava azul sem nenhuma nuvem. Nem parecia que havia desabado água no dia anterior.

Eu queria começar a contar meus planos mas não sabia por onde. Felizmente Hanna pareceu notar minha agitação e começou, ela mesma, a falar.

– Que há Matthew? – longe dos outros criados ela ainda me chamava pelo nome, assim como quando eu era criança. — Você parece agitado. Tem algo para me falar?

– Bom, é que eu andei pensando muito naquilo que você disse ontem à noite. Eu não quero mais... – deixei minha voz morrer. Eu estava prestes a perder o controle ali. Meus olhos começaram a ficar úmidos demais.

– Você ouviu o que eu disse, é? Achei que não fosse me ouvir, foi só um sussurro. Mas ao que parece isso mexeu com você, não é mesmo? – Ela ergueu meu rosto com uma das mãos e olhou-me nos olhos. – E o que andou pensando?

Consegui me conter, mas minha voz ainda estava meio embargada.

– Eu decidi que quero ser melhor, não quero mais ser como tenho sido...

– Isso é algo muito bom. A decisão é o primeiro passo para a mudança. E o que pretende fazer?

– Bom, para começar, vou libertar aquele senhor que prendi ontem e pedir desculpas a ele. – Lembrei-me de como o tinha tratado na noite anterior. Não havia sido nada gentil.

– Excelente! Sei que vai se sair muito bem nessa mudança. Sempre tive fé em você.

Seu olhar era cheio de carinho e compreensão. Ela era como minha mãe.

– Obrigado. – disse num murmúrio.

Não sabia se era digno desse crédito, mas faria de tudo para ser.

– Mas preciso da ajuda de vocês. Principalmente da sua. Não sei se consigo mudar velhos hábitos sozinho.

– É claro que pode contar comigo. Estarei sempre aqui, do seu lado.

Ela passou o braço por cima do meu ombro. Eu era muito alto e ela teve que se esticar um pouquinho.

Eu me sentia aliviado. Quase feliz. Tinha de novo uma pontinha de esperança nascendo dentro de mim.

Ouvi passos correndo em nossa direção, me virei para ver quem era e vi o filho de Hanna.

Timoty, ou simplesmente Tim, era um garoto de doze anos. Alto e esguio, era muito inteligente e perspicaz. Seu pai era o antigo jardineiro e tinha morrido há sete anos. Hanna sentiu muito a perda, mas não se deixou abater, principalmente por causa do garoto que, na época, não passava de uma criança. Ele também sentiu muito, mas graças à mãe, pôde passar por tudo sem muito sofrimento.

Ele chegou até nós ofegante e seu rosto estava um pouco vermelho. Tinha sido uma grande corrida.

– Senhor. – ele fez uma pequena mesura para mim e se dirigiu a Hanna.

– Mãe! Precisamos de você lá na biblioteca! Smutter e Benn estão discutindo de novo! – Um sorriso divertido se formou em seu rosto. – Só a senhora consegue por ordem nessa bagunça.

Hanna revirou os olhos e deu um suspiro.

– Esses dois são impossíveis! Adultos, quase velhos, e se comportam pior que crianças!

Não pude deixar de rir. Éramos quase como uma grande família, Hanna era a mãe devotada e nós os filhos. Eu era o filho rebelde arrependido.

– Com licença. Tenho uma discussão para resolver. – Dizendo isso ela e Tim me deixaram ali, debaixo da árvore.

Fiquei pensando em nossa conversa. Eu já me sentia mais leve, talvez as coisas realmente melhorassem se eu quisesse que elas ficassem melhores.

Pensei em como faria para libertar aquele homem. Eu nem sabia o nome dele, nem tinha ideia de onde ele realmente era, mas algo me dizia que eu já o conhecia de algum lugar. Não conseguir lembrar me deixou um pouco incomodado.

Eu o soltaria logo depois do sol se pôr e, antes que o despachasse para Danorum, pediria desculpas por ter sido tão grosseiro, talvez até lhe desse algum dinheiro ou outra coisa de valor. Quem sabe ele aceitaria melhor minhas desculpas assim.

Novamente ouvi alguém vindo pelo caminho de pedras e vi que Thiodell, a sobrinha de Benn, vinha ao meu encontro.

Aquela garotinha de 10 anos sempre me deixava extremamente intrigado. Benn a trouxe há cinco anos para morar conosco. Seus pais haviam morrido num incêndio e ela milagrosamente tinha sobrevivido. Eu não gostei muito da ideia, mas o que poderia fazer? Deixar a menina abandonada por aí? Eu era um monstro, mas ainda tinha um coração. Um coração que se derretia um pouco, principalmente quando o assunto era crianças.

Mas ela me intrigava por ser alguém tão adulta para a idade dela. Talvez fosse por ter visto os pais morrerem ou algo assim, mas ainda me assustava com ela às vezes. Lembrei-me do primeiro dia dela aqui. Benn chegou com ela na carruagem e a levava pela mão para o quarto que tinha sido arrumado para acomodá-la. Eu espiava da janela sem querer que ela me visse, pois tinha certeza de que a assustaria. Mas, ao contrário do que eu esperava, ela apontou na minha direção e perguntou alguma coisa a Benn e depois deu um sorriso iluminado para mim.

Foi igualmente estranho seu comportamento quando fomos apresentados durante o jantar. Ela não chorou, não me olhou desconfiada e nem ficou quieta com medo. Sentou-se ao meu lado e começou a conversar comigo como se fôssemos velhos amigos. Eu não podia entender como alguém tão pequeno poderia ser tão corajoso.

– Olá, Matt! – além de tudo ela tinha a incrível mania de me chamar de Matt!

– Oi, pequena. Que faz aqui?

– Nada. Só vim conversar um pouco com você. – Ela se sentou despreocupadamente ao meu lado e me olhou com olhos curiosos. – E o que você faz aqui sozinho?

Eu ainda me assustava com ela, e tinha certeza que seria sempre assim.

– Nada. Só pensando um pouco na vida.

– Você parece que está mais contente. Ou melhor, menos triste. – Ela ainda me olhava daquele jeito. Por que eu ficava tão desconfortável ao lado de uma criança de dez anos?!

– É, tomei algumas decisões que me deixaram mais aliviado.

– Que bom! – ela abriu um daqueles sorrisos enormes. – Você é uma pessoa muito legal, sabe. Não quer dizer que só por ser... hum... diferente – eu tinha certeza que ela ia dizer feio, monstruoso ou algo parecido – Bom, só por ser diferente não quer dizer que você é ruim. Pare de achar que tudo é tão terrível. Pare de achar que você é terrível.

Realmente aquela menina não era comum. As palavras dela me atingiram como uma baldada de água na cara. Talvez o que ela disse era verdade. Talvez eu estivesse fazendo muito drama por nada.

– Obrigado, pequena. – disse no tom mais controlado que consegui.

– De nada. – Ela ergueu uma sobrancelha e me olhou petulante. – Mas pare de me chamar de pequena! Eu já sou bem grande!

– Claro, claro! Desculpe-me senhorita gigante! – Não pude deixar de rir.

Thiodell riu de minha resposta e saiu correndo pelo gramado perseguindo uma borboleta.

Será que eu não era tão terrível assim? Será que estava sendo tão dramático? Eu não sabia as respostas. Só sabia que agora estava dando ouvidos a uma menininha estranha! Eu devia estar realmente maluco!

Levantei-me e caminhei sem rumo pelo gramado que rodeava todo o jardim. Os canteiros de flores estavam mais floridos do que nunca. Cravos, hibiscos, margaridas, flores exóticas de todas as espécies imagináveis formavam uma aquarela de cores brilhando ao sol. E as rosas.

As rosas amarelas cintilavam mais do que as outras flores. Quase como um lembrete do meu tempo se esgotando, elas floresciam ali. Mais vistosas que as outras, mais iluminadas do que as outras. Eram exemplares semelhantes da que eu tinha em meu quarto. Mas aquela era muito mais bonita, extremamente perfeita, pelo menos em seu começo. Agora ela estava murchando. Cada dia sua cor ia ficando mais pálida, mais sem vida. Marcando o fim da minha chance de ser humano outra vez. Isso não era muito drama para pouca coisa! Eu seria condenado a ficar nessa forma de monstro para o resto da eternidade! De tão cruel era até irônico, tantas pessoas ansiando por serem imortais e eu querendo me livrar dela desesperadamente.

O sol estava alto e escutei Hanna chamando para o almoço. Eu não estava com muito ânimo para me juntar aos outros, então entrei e fui direto para meu quarto.

Lá estava ela. A rosa que a feiticeira havia me dado. Minha ampulheta. Uma rosa amarela para um amor eterno. Mulheres se prendem a todos os detalhes mesmo, até na hora de condenar alguém.

Desviei o olhar da flor, não querendo ver o tom mais envelhecido que ela havia tomado hoje. Eu tinha pouco mais de um mês! Definitivamente não havia mais esperanças. Toda aquela alegria que eu tinha logo pela manhã havia evaporado. Por um momento minhas pernas falharam e eu tive que me apoiar na cômoda. Estava cansado, esgotado, e isso nunca mais teria fim! Deitei-me no chão e deixei que as lágrimas jorrassem dos meus olhos.

Acabei adormecendo no meio da crise de choro. Acordei com minha cabeça latejando, tinha chorado tão forte que acabei com dor de cabeça. Além de tudo eu ainda precisava de mais isso.

O sol já estava se pondo. Era a hora de fazer algo certo. Eu iria soltar aquele homem e tentar me redimir, nem que fosse só um pouco, pelo meu mau comportamento.

Quando ia saindo do quarto vi a janela “especial” e lembrei que já fazia um tempo que não dava uma olhada por ela. Obviamente pedi para ver aquela moça que me chamava tanto a atenção.

A imagem foi ficando nítida, mas eu não conseguia entender onde ela estava. Seu rosto estava aflito e ela cavalgava numa estrada muito ruim. Onde ela poderia estar? Fiquei preocupado por sua segurança. De repente, o cavalo parou em um lugar que eu conhecia.

Minha respiração falhou. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Não podia ser verdade!

Notas finais
Tcharam! Altas emoções no próximo capítulo! o/ (tá um pouco dramático talvez?....)