Notas iniciais
Hello hello❤️ Esse capítulo é sobre a Alice e se passa antes do capítulo anterior, okay? Okay. Boa leitura.

Flashback

Ela tinha apenas 6 anos, viu seu pai espancar sua mãe e quebrar uma garrafa em seu braço. Aquilo matava Alice por dentro, a quebrava completamente. Ainda não entendia direito tudo que estava acontecendo, não sabia como as pessoas poderiam ser ruins, não entendia o porquê de seu pai estar fazendo aquilo com sua mãe, afinal, Juliana era uma mulher incrível e a melhor mãe que alguém poderia querer. Mas tinha se casado com um homem muito ruim. Injustiça.

Ela andava pelas ruas da cidade sozinha, pois sua mãe não estava em casa e seu pai não se importava com ela, talvez se ela aparecesse morta ele nem mesmo fosse ao enterro. Algo chamou sua atenção, uma menina aparentemente da sua idade, brincava distraidamente em um parquinho, sozinha.

—Quem é você? — a menina negra perguntou, sentando ao lado da menina morena de olhos verdes que havia visto.

—Meus pais não me deixam falar com estranhos.

—Eu não sou estranha, sou a Alice. — disse sorrindo.

—Como no país das maravilhas? — a garota perguntou inocentemente, sorrindo animada.

—Acho que não, no país das maravilhas os nossos pais brigam?

—Não sei, nunca fui lá, só vi nos livros que a minha mãe lê pra mim.

—Minha mãe lia alguns livros pra mim também, mas um dia meu pai se irritou com isso e rasgou todos eles. Acha isso justo?

—Sabe o que não é justo? Meu pai não me deu uma boneca que eu queria porque disse que era cara. Você tem muitas bonecas? — Malu disse, e aquilo entristeceu Alice.

—Minha mãe não tem dinheiro pra comprar brinquedos pra mim, às vezes nem pra comprar comida. — ela disse com um olhar triste e uma lágrima descendo pelo rosto. — Mas eu queria muito uma boneca.

—Sério? — aquilo a fez se sentir culpada, a fez sentir-se fútil sem nem mesmo saber o significado daquela palavra. — Pode ficar com essa.

Alice olhou para boneca e sorriu, a pegando. Pela primeira vez ela sentiu que vivia em um país das maravilhas, onde as pessoas são boas, os pais não brigam e as mães não apanham.

—Obrigada. Acho que agora não sou mais uma estranha, né? — a garota de cabelos cacheados disse.

—Acho que não, acho que somos amigas agora. — disse sorrindo. — Meu nome é Maria Luiza.

—Vou te chamar de Malu.

***

Ela não era mais uma criança, agora tinha 17 anos e estava voltando de uma festa. Quando estava chegando perto de sua casa, começou a ouvir gritos altos e suspirou cansada. Cansada de tudo aquilo, das brigas, dos tapas, dos socos, estava cansada de seu pai.

Não ousaria interromper uma briga deles, da última vez que fez isso seu pai se irritou e bateu nela, tinha uma cicatriz nas costas que comprovava isso. Também não entraria pela janela de seu quarto porque sua irmã estava dormindo, e Sophia não dormia há dias, Alice não poderia ser egoista.

Se sentou na calçada por alguns minutos, pensando na vida, no caos que era sua vida. Tudo que queria era dormir, mas não dormiria na calçada, afinal, no lugar onde vivia, se dormisse na calçada seria roubada, estuprada e quem sabe até morta. Talvez fosse para a casa de Malu, mas não queria incomodar, eram 04:00 da manhã, ela já devia estar dormindo. Mas, se não fosse pra lá, onde ficaria?

Que se dane.

Foi até a casa da melhor amiga e parou em frente à porta. O que faria agora? Gritaria? Bateria na porta? Ligaria para Malu?

Olhou para o lado e viu Pedro, o vizinho galinha e super gato de Malu, entrar em casa com uma garota de sua classe (se ao menos conseguisse lembrar de seu nome). Riu. Como alguém poderia ser tão cafajeste, semana passada estava com uma prima de Malu super arrogante e metida, na festa Alice o viu beijando uma garota de cabelos loiros que ela não conhecia, e agora estava com essa outra.

Decidiu então que dormiria na calçada, não teria problema, as pessoas que moravam lá eram ricas, pra que roubariam uma garota pobre que de valioso só tinha um colar que era de sua avó e um celular que os pais de Malu a deram. Não seria estuprada nem morta porque de vez em quando um policial passava pela rua. Então tudo bem, dormiria na calçada.

E foi o que fez, dormiu na calçada, por três horas apenas, porque as 07:00 o pai de Malu estava saindo pra trabalhar e viu a garota ali.

—O que está fazendo aí? — o homem de terno e gravata perguntou à garota deitada na calçada com um vestido de festa e salto alto, a acordando.

Alice primeiramente fez rodeios, disse que estava tudo bem e que não havia acontecido nada, mas Edgar conhecia a garota o bastante pra saber quando estava mentindo. Era um pai para aquela menina, o pai que ela nunca teve realmente, a conhecia melhor do que o próprio homem que havia ajudado a colocá-la no mundo. Teve que contar a verdade, e quando contou, ele a mandou entrar e ir dormir com Malu, e foi o que ela fez.

Ainda estava meio sonolenta, então caiu em cima da garota ainda com o vestido e o salto. Seus cabelos estavam muito assanhados e o que havia restado de sua maquiagem estava totalmente borrada.

Apenas acordou novamente quando sentiu seu corpo bater no chão. Mataria Malu assim que acordasse totalmente.

***

—Larga esse celular, Maria Luiza. — ela disse para a amiga que conversava animadamente com alguém que ela não estava interessada em saber quem era. — Com quem está conversando que é mais importante do que eu?

—Não seja ciumenta. — disse rindo. — Com o garoto da festa.

—O super gato?

—Yes, baby.

Uma garota que estava passando jogou suco de uva em Alice, que estava distraída, sentada em uma mesa com Malu no intervalo.

—Quem você pensa que é? — Malu gritou se levantando e largando o celular pela primeira vez desde que o intervalo tinha começado.

—Me desculpa, é que você foi a coisa mais parecida com lixo que eu vi, sabe, preta e podre. — disse Marina, uma garota da classe delas que adorava infernizar a vida de todos, expecialmente a de Alice. — Mas você deveria agradecer, deve ter sido sua primeira refeição do dia.

—Vagabunda. — Malu disse pegando uma casca de banana e jogando em Marina. — Me desculpa, você foi a coisa mais parecida com lixo que eu vi, sabe, nojenta e podre por dentro.

A garota pegou a casca de banana e jogou em Alice novamente, arrumando seus cabelos ruivos e olhando pra Malu com cara de nojo.

—Vocês deveriam se enxergar. Essa sua amiga é uma garota nojenta, pobre e que só está aqui por dó dos professores.

—Ela está aqui porque merece, porque foi inteligente o bastante pra passar em uma prova na qual pessoas como você não responderiam nem a primeira questão. Ela é bolsista sim e deve se orgulhar disso. — Malu falou e Marina apenas riu.

—Eu tenho dó de vocês, expecialmente dela, que não tem onde cair morta, se veste igual uma mendiga e não tem nem o que comer. — a ruiva disse olhando Alice, que chorava tentando disfarçar e olhava todas aquelas pessoas observando, se sentindo humilhada. — Aliás, dó não é a única coisa que eu tenho de você, também tenho nojo.

Depois disso o sinal tocou, e quando todos ali já tinham ido embora, Malu olhou a amiga e a abraçou.

—Não liga pra ela, dó eu tenho dela que nunca vai saber o que é amor, que acha que dinheiro é o mais importante na vida de uma pessoa e se acha melhor do que todos porque é bonita, branca e rica. Você é especial, Alice, você é única, e não é por causa de cor, dinheiro ou beleza, é por causa da sua bondade, do seu jeito, do seu coração. — Malu disse ainda abraçada à amiga. — Você é a pessoa que transforma qualquer lugar em um verdadeiro país das maravilhas.

Notas finais
Espero que com esse capítulo vocês tenham aprendido um pouco sobre a vida. Queria apenas dizer que todos nós somos únicos e especiais, que cor, dinheiro, beleza, entre muitas outras coisas, não significam nada, que o mais importante é o que temos dentro de nós e o amor que sentimos pelas outras pessoas. Lembrem-se que no mundo existem milhares de injustiças, como ou piores que as da Alice, no mundo existem milhares de preconceitos, então vamos lutar contra eles. ❤️ Paz.