O adeus da Tristeza
1 Solitária Tristeza
Notas iniciais
Moravam num bosque todos os sentimentos: Alegria, Amor, Calma, Inveja, Medo, Liberdade, Prazer, Vergonha e Tristeza. Todos tinham uma mesma forma, porém irradiavam diferentes cores.
A Alegria era amarela e saltava por todo lugar, levando vida aos que murchavam; o Amor brilhava em violeta e estava sempre acompanhada do Prazer. Calma, era branca e invulnerável, a Inveja era cinza e vibrava ferozmente, vizinha do Medo, que por sua vez era negro e ninguém no lugar se quer o virá, mas sabiam que existia, ao contrário da Liberdade, que voava por cima do bosque, esbanjando sua cor azulada. O Prazer era dono de um vermelho intenso e profundo, fazendo qualquer criatura ser hipnotizada por sua presença. A Vergonha, tadinha, passava longe de todos, esforçava-se ao máximo para esconder seu rosa dos demais. E, por fim, havia a Tristeza. Essa era incolor, ninguém a notava chegar tão pouco percebia quando ia embora, Tristeza caminhava sozinha, apenas cantarolando seus murmúrios pelo bosque dos sentimentos, retirando toda a vida que Alegria deixara.
Até que um dia, Tristeza adoeceu.
Quando um sentimento adoece, sua cor some de sua forma o transformando apenas numa espécie de massa de energia, cabendo aos outros ajudarem a restabelecer a cor daquele que adoeceu, deixando-lhe um pedaço de si mesmo. Todos no bosque estavam preocupados, pois se um sentimento morresse, a harmonia era desfeita. Mas como os sentimentos e os outros seres iriam achar algo que não se via? E como iriam trazer de volta a cor de algo que não tinha cor?
Amor e Prazer saíram juntos para procurar, gritavam seu nome, na esperança de ouvir sua voz em resposta. Liberdade passava o dia voando por todos os lugares, tentando captar qualquer forma que mostrasse que Tristeza havia passado. Nada. Alegria começava a preocupar-se e decidiu reunir todos os sentimentos para encontrarem uma solução juntos.
Reuniram-se ao lado do lago de Cristal, numa noite sem lua onde a escuridão dominava enquanto os outros seres dormiam serenos. Quando todos os oito sentimentos chegaram e acomodaram-se, Liberdade ergueu-se:
— Passei todos esses dias sobrevoando nosso bosque, não ouvi nem percebi nada que mostrasse que estava lá.
— O que vamos fazer? Se não encontrarmos logo, tudo pode desabar!- Grunhiu o Medo, por trás dos arbustos.
— Tristeza não tinha casa, perambulava por ai... – Alegria parou de falar para refletir e em seguida questionou aos demais se alguém era seu amigo.
Silêncio. Perceberam então que ninguém era amigo da Tristeza.
— Esse é o seu destino... Não? – Prazer tentou justificar.
— Não importa. – Decidiu a Calma – Agora precisamos encontra-la.
Começou então a surgirem ideias, cada sentimento tinha alguma, porém nenhuma boa o suficiente. Com o decorrer da noite, os ânimos esfriaram e ninguém sabia mais o que fazer. Entreolhavam-se silenciosos, sem esperança. Sentiam-se tristes.
— Espera! – A Vergonha saltou do seu lugar e quando todos depositaram os olhos nela, recolheu-se rapidamente – E-Esse sentimento... – Murmurou.
Perceberam então que ao se sentirem frustrados, acabaram ficando triste, o que possivelmente atraiu o sentimento incolor. Os oito olhavam ao redor do lugar, o dia começava a amanhecer e os primeiros raios de sol que tocavam o chão fazia acordar aqueles que dormiam. Até que o Medo correu, fugindo daquele clarão e esbarrou em algo: uma energia vibrante que se escorava numa das árvores.
— Tristeza? – Sua voz saiu como um sussurro.
— Medo... Sempre fugindo. – A energia respondeu.
Sem querer ficar, o Medo voltava a correr para o encontro de sua casa, mas antes havia gritado para os outros sentimentos, que logo cercaram a energia.
— Estou morrendo – Fraco, porém claro o suficiente, a voz que emitia o anuncio deixara todos imóveis. Tristeza estava partindo.
— Você não pode morrer! É um sentimento! – Exclamou a inveja.
— O que será de nós se você for? – Completou a Alegria.
— Ah, sentimentos... Tão egoístas, vendo apenas a própria aura, achando-se importantes demais... Somos passageiros – Tristeza calou-se por um segundo para tentar recuperar um pouco de força enquanto os outros permaneciam calados. Pigarreou e continuou – Alegria, você nunca se importou com nenhum ser deste lugar, apenas salta de um lugar para o outro, deixando o rastro do seu amarelo, que consequentemente era apagado por mim, caso cruzasse os caminhos que andara, os seres me culpam por isso, mas mal percebem que o seu amarelo é fraco e que pode ser facilmente substituído por outra cor, assim como você, Calma: sempre branda e serena... Carrega o respeito dos demais e enche-se de orgulho por isso, porém... Esconde o fato de haver outra cor dentro do seu branco escarlate, a raiva que treme preto em seu interior às vezes tenta escapar enquanto você nega-se ao fato de sua existência.
— Você disse... Preto? – A Liberdade interrompe o discurso – Mas...
— O Medo ganhou vida a partir da junção entre Calma e Raiva. Como não conseguem viver separados em dois corpos, a Calma, que mantém o maior controle, decidiu amenizar seu desespero criando outro corpo...
— Não ouse dizer uma só palavra a mais! – Calma agora, vibrava em tons de preto, fazendo as árvores ao redor balançarem – Você não passa de um sentimento bisbilhoteiro, Tristeza! Não sabe nada.
A forma agora era completamente negra, bufava e resmungava palavras indecifráveis e em seguida saltou dali numa velocidade assustadora, fazendo cair algumas folhas das árvores e arbustos.
— Por que fez isso? – Perguntou o Amor, que se encontrava abalado e nervoso.
— Amor... Tão belo e puro... – Tristeza ignora a pergunta do sentimento violeta, preferindo apenas continuar – Não tão puro. Lembra-se de quando esteve doente e os outros sentimentos não estavam conseguindo ajuda-lo? – Esperou uma resposta e como esta não veio, prosseguiu – Todos, exceto o Prazer. Este, que julgam como indecente e leviano, foi o único capaz de trazê-lo de volta a vida. Por quê? Porque você não é tão puro quanto quer ser, não consegue viver sozinho e Prazer é o único que trás o fogo que precisa.
Amor e Prazer se entreolharam e não ousaram dizer uma só palavra. Por mais que desejasse negar tal afirmação, sabia que Tristeza estava correta.
A energia calou-se, todos os sentimentos sentiam-se invadidos de alguma forma, incomodados. Não entendiam o propósito daquele discurso e o que aquele sentimento realmente representava.
— Morreu? – Disse baixo Liberdade.
— Não, não ainda. Estou pensando, Liberdade... Em você e em Inveja.
— Em mim? — Esbravejou o sentimento acinzentado.
— Você, que sempre carregou essa cor pesada por ai, sempre manteve todos afastados, procurando entender de onde tinha vindo e qual seu propósito... Eu posso te esclarecer – Inveja o mirava apreensivo – Assim como o Medo surgiu da Calma, você surgiu de mim.
— O que está querendo dizer?
— Por muito tempo desejei uma cor, desde que surgi... Sempre me mantive assim, invisível. E esse desejo cresceu de tal forma que não cabia mais dentro do meu ser, e então, você foi expelido de mim, a minha parte que almejava uma cor e ao mesmo tempo pedia para que os outros sentimentos perdessem as suas; apenas para sentir... Sentir o quão amargo era ser incolor.
Inveja refletia confusa.
Liberdade, que até então não havia sido citada na fala da energia moribunda começava a perder a paciência, olhava ao redor e notava os outros sentimentos afetados com as palavras de algo que nem estavam vendo, cada um recluso nos próprios pensamentos.
— Por que estamos te dando ouvidos? Tudo o que disse poder ser um monte de mentiras!
— Liberdade, você nunca entenderia. Sempre esteve por ai, voando, fazendo o que te desse vontade, sem receio das consequências que poderiam surgir. Mais que todos, você é o mais egoísta... – Antes que pudesse continuar, uma tosse surge e logo depois um breve silêncio – Não tenho muito tempo, então preciso que saibam: Não somos os únicos. Este bosque também não é único. Em algum lugar, não tão distante, mas também não tão perto, existem outros... Outros sentimentos, replicas de nós mesmo e até sentimentos que não vivem aqui. Não somos inteiros como pensávamos e sim pedaços de algo maior, algo que nos aguarda do outro lado. Um dia, seremos apenas um: sólidos e firmes. Nossas cores se misturarão e gerarão a harmonia. A verdadeira harmonia. Estou deixando este plano agora, pois fui o primeiro a ver as cortinas serem abertas e acreditem, logo acontecerá com vocês.
A energia que desde sempre se manteve incolor, agora brilhava de todas as cores que se podia imaginar, finalmente podiam ver quem era Tristeza.
— Não tenham medo de sentir. Não se limitem ao que acham que foram destinados a fazer e sentir, somos mais que isso, bem mais – Cada vez mais intensa, a luz da Tristeza fazia com que os outros sentimentos cobrissem seus olhos – Tenho esperança que nos unificaremos e finalmente chegaremos perto da paz.
Subitamente, toda a luz se dissipou, Tristeza partira. Os sentimentos se entreolhavam, confusos e perdidos. Afinal, o que de fato era a Tristeza daquele bosque? E sem ela, o mundo deles iria desabar?
— Eu... Não sei o que pensar – Desabafou o Amor, que agora sentava no chão junto com o Prazer.
— Acho que a única coisa que nos restou agora é confiar... Nele – Alegria se afastava dos demais, até perceber que algo se aproximava – Ei, olhem ali!
Os sentimentos levaram sua atenção para o mesmo local de onde brotava por trás das árvores uma luz que se mostrava esverdeada.
— Olá, é uma satisfação estar enfim aqui – Disse a nova cor quando finalmente alcançou os demais.
— Mas o que é você? – Perguntou o Prazer.
— Sou Esperança.
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