Acordar não parecia ser algo fácil. Não em uma manhã de domingo. Hermione abriu os olhos, cansada. Os olhos cobertos de areia. Não dormiu nada, pensando no que poderia acontecer. Nos problemas que teria de enfrentar. Na ameaça que os comensais representavam. Na possível volta do Lorde das Trevas. Em Malfoy em sua sala.

Malfoy em sua sala. Na casa que ela chamou de lar. Que ironia! Por que ele estava lá, nas escadas, na noite anterior? O que o moveu até ela? Talvez, solidão. Eles eram parecidos. Não tinham uma família. Ela, por ter feito um feitiço de obliviação. Ele, por causas mais trágicas e sérias. Uma família desestruturada, que deixou o destruiu. Afinal, era óbvio que ele sofria pelo passado. Ele demonstrara isso na noite anterior, quando chorou. Ela pode ouvir seus gritos. Ela escutou sua dor. Se ela foi até ele? Bom, não conseguiu ignora-lo. Era como se seu coração quebrasse por ouvir seus gritos. Não suportava ver pessoas em sofrimento. E não poderia deixa-lo. Ele apenas tinha um pesadelo, algo sobre não querer ver uma trouxa ser morta.

Engoliu a seco. O que mais ele teria visto? O que mais foi obrigado a ver, enquanto suportou viver naquela mansão, com Voldemort dominando a todos? Todos diziam que ele era um monstro. Um homem horrível. Não, um homem não. Uma fera. Ele não tinha coração, não tinha sentimentos. Apenas a sede do poder e de esmagar seus inimigos, destruindo seu psicológico, até não restar mais nada dessa pessoa, a não ser uma carcaça de um corpo débil e com uma sobrevida. E aqueles que não sofriam esse destino, eram torturados até implorar a morte. Hermione havia participado dos julgamentos, é claro. Escutara o relato dos comensais que pediam clemencia. Eles contavam como era estar nas mãos de Voldemort. E diziam que não tinham escolha. Alguns, é claro, falavam com o orgulho do mestre. Simplesmente não se preocupavam em ter participado de um genocídio. E não queria regeneração alguma. Esses, é claro, estavam soltos, com certeza, prontos para recrutar mais comensais e causar o caos no mundo, se possível.

Ela se levantou da cama, sentindo os músculos doloridos. Seus pesadelos também não a deixaram dormir. Não conseguiu conciliar o sono. Talvez, Malfoy tenha usado a bebida para aliviar suas dores e esse momento seria o único que ele teve para dormir profundamente. Sentiu a pena dentro de si aumentar. Aquele rapaz estava dominando seus pensamentos de forma que nunca imaginou que alguém faria. E nunca pensou que sentiria isso por ele. Amizade, compaixão...e gostar dele de alguma forma estranha.

Desceu as escadas, com seu robe e Bichento descia sua frente, como um verdadeiro lorde inglês, com elegância e refinamento. Ela riu do felino, que se esgueiro para a sala. Ela o seguiu e viu o gato deitar na barriga de Malfoy. Ele parecia dormir ainda. Bom, deixaria que Bichento fizesse companhia para ele. E se Malfoy fosse alérgico a gatos, seria problema dele.

Seguiu para cozinha, preparar um café. Não sabia se Malfoy tomava isso, mas não importava. Ele não era seu hospede por vontade própria. Era apenas por circunstâncias maiores. Ou por força maior. Ainda o questionaria sobre sua audácia a aparecer em sua casa, mas então percebeu algo. Se ele apareceu em frente à sua casa, era porque ele confiava nela. Isso a surpreendeu. Ele realmente confiava nela.

Depois de ter feito o café, ela pegou biscoitos e torradas, além de geleia de framboesa, equilibrando tudo em uma bandeja de prata que encontrou no armário. Seguia para a sala, quando escutou o grito indignado de Malfoy.

— Gato maldito!

Riu, consigo mesma. Ele estava espirrando. Ao que parecia, era alérgico sim.

— Granger, socorro, tem uma bola de pelo em cima de mim!

Ele não poderia estar falando sério. Santo Deus! Ele era tão fresco assim? Entrou na sala, encontrando Bichento perigosamente perto de Malfoy, que se levantou do sofá. O gato pulou para o chão e se esfregou nas pernas dele. O olhar dele era de puro desespero.

— Por favor, tira isso...atchim! De perto de mim! – ele implorou.

Ela notou então seus olhos. Estavam avermelhados, a ponta do nariz também. Gargalhou, com vontade.

— Granger...tchim!..issu é de probosito, não é? – a voz dele era anasalada, mas seu olhar era mortal.

Ela deixou a bandeja em cima da mesinha de centro.

— Vem Bichento, deixa o chato em paz – Ela pegou a bola de pelo laranja, acariciando seus pêlos. Ele ronronou, contente.

Malfoy a fitava com os olhos apertados.

— Isso é um castigo...atchim! Por acaso?

— Talvez – ela respondeu, petulante – Tem café aqui, na térmica. E açúcar. Ou adoçante, se quiser.

— Não tem chá, não? – ele perguntou, olhando para a travessa de prata desconfiado – Ou melhor, talvez não seja bom tomar seu café. Quem sabe, tenha vomitilhas nele, como da última vez. Atchim! Mas que inferno!

Ela riu ainda mais, achando graça de como ele parecia irritado e com problema de alergia. Ele era um figura e tanto. Ele a fulminou com o olhar. Logo ela notou que as roupas dele estavam amassadas, sem todo o refinamento de sempre. E seus cabelos eram um redemoinho loiro. Contudo, ele continuava bonito, mesmo com toda alergia que o deixava com o rosto vermelho e com os olhos lacrimejando.

— Vai, é só provar. Eu também vou. Prometo não ter colocado nada.

Ele a fitou, mais uma vez, desconfiado. Então se serviu de uma xícara de café, em uma porcelana preta, com flores de cerejeira ao redor. Adoçou o café e tomou.

— Bem, talvez, laxante – ela brincou.

Ele cuspiu o café de volta na xícara.

— Que nojo, Malfoy! – ela o repreendeu.

Ele a fitou um olhar irônico.

— Você fala isso, mas me faz beber café com... o que mesmo?

— Eu não coloquei nada. Toma isso ai.

Ele revirou os olhos e deixou a xícara sobre a mesinha de centro, pegando a outra, limpa.

— Espera o que está fazendo? – ela largou Bichento no chão, que saiu emburrado.

— Estou pegando uma xicara limpa – ele explicou, com um tom sarcástico – Você me fez cuspir no meu café. Então, preciso de outra.

— Mas, essa é minha!

Ele a fitou com um ar desafiador.

— Bom, esse é seu castigo. Pegue outra.

— Ah, você é um folgado mesmo.

— Que bom que estamos no entendendo.

Ela bufou, voltando para a cozinha. Pegou outra xicara e voltou a sala. Malfoy espirrava ainda, mas bebia o café, com os olhos fechados. E parecia apreciar algo.

— Gostou do cafezinho, Draquinho? – Ela provocou.

— Não enche – ele retrucou, abrindo os olhos, mal-humorado – É que...bom, estou com frio e o café até que aquece, mesmo sendo uma bebida de cor duvidosa.

Ela riu. Então, fez algo por ele, usou a varinha pra acender o fogo da lareira.

— E por que diz isso? – ela perguntou, pegando café e biscoitos, sentando no outro sofá, de frente para Malfoy.

— Porque, bom ela tem um aspecto escuro. Parece até que vou beber uma poção que pode me matar – ele respondeu, rindo – Enfim, até que esse café não é ruim. Tem um gosto bom.

Ela gostou do elogiou. Gostava de Malfoy quando ele não era pedante. Era mais fácil de conviver.

— Vai, pega algo para comer. Trouxe para nós dois.

Ele a fitou, com desconfiança, segurando a xícara com as duas mãos.

— Tem alguma pegadinha? Os biscoitos vão me deixar com espinhas?

Ela engasgou com o café, controlando o riso.

— Não, Malfoy. Come de uma vez e para de se fazer.

Ele anuiu com a cabeça, ainda olhando com os olhos apertados para ela e pegou os biscoitos, depois a torrada. Comeram em silêncio reconfortante. A chuva começou a cair, batendo contra o vidro da sala.

— Sabe, estou curiosa para saber o motivo da sua visita.

— Eu já disse, estava andando por aí e por acaso, parei em frente à sua casa – ele respondeu, dando de ombros – Não dava para saber se você estava em casa ou não.

— Você tentou bater na porta?

— Ah eu tentei...- ele pigarreou, ficando vermelho.

— O que? Você realmente tentou falar comigo?

— Por que parece surpresa? – A voz dele era aguda.

— Eu entendi tudo agora – ela disse, com bom humor – Você me vê como sua amiga. Não acredito. Você realmente gosta de mim.

— Também não precisa se vangloriar, Granger – ele retrucou, irritado – Eu apenas...para com esse sorriso irritante.

Ela sorriu ainda mais, para irrita-lo.

— Eu te odeio, sabia? – Ele disse, em tom exasperado.

— Eu também Malfoy. Mas, parece que estamos tendo um entendimento aqui. E isso é bom. Estamos se tornando amigos e acho isso muito saudável.

Ele revirou os olhos.

— Eu não disse que somos amigos, Granger. Apenas temos um acordo tácito de convivência, por causa do trabalho. Se não, nunca teríamos que conviver.

— E é tão ruim estar na minha presença?

Ele entreabriu a boca. Parecia surpreso com a pergunta. Parecia afirmar um ponto que se afiançava, o ponto em que eles eram apenas colegas de trabalho, que se suportavam.

— Até que você não é tão ruim assim – ele respondeu, zombando – É organizada, pontual. Bom, eu não moro com você, mas parece que a casa está em ordem – Ele olhou ao redor – A louça é bem limpa – ele analisou a xícara em sua mão – Você é bem melhor de conviver do que Camus.

Ela riu da descrição dele. Ele parecia maníaco por limpeza. Ela notou isso enquanto trabalhava com ele. Estava sempre limpando as mãos com álcool e se certificando de comer em lugares que confiava.

— Você tem toque – ela constatou. Ele franziu o cenho – Quero dizer, você tem uma mania, entende? Por limpeza. E pelo visto, também com horários e em ser pontual.

— É assim que minha vida não vira um caos. E não vejo problema em ver tudo limpo – ele respondeu, dando de ombros.

— Ah, não ser que isso seja uma mania que o prejudique, Malfoy. E você deveria consultar um terapeuta indicado pelo Ministério. Sabia que eles aprovam os procedimentos trouxas quando a Psicologia?

Malfoy revirou os olhos.

— Não vou me consultar com nenhum analista, se você quer saber. Kingsley já me pediu isso.

— Pois deveria. Tudo que passou na guerra deve tê-lo afetado.

— Já disse que não quero – Malfoy rangeu os dentes – Bom, chega de falar nesse assunto.

O silêncio se tornou quase palpável, de repente. Ela havia o irritado. Com certeza. E não gostava daquela sensação de ter feito isso. Gostava dele mais comunicativo.

— Escuta, que tal sairmos? – ela convidou.

— Sair? Para onde? – Malfoy perguntou – Eu pensei...bom...em ir para casa.

— Ah, é claro. Você deve ter planos. Que tola eu sou...

— Não tenho nenhum plano – ele a interrompeu – Eu só iria para casa. Já impus minha presença demais a você. De forma muito mal-educada. Mas, eu estava bêbado. Então, você poderia esquecer isso, por favor?

Ela riu.

— Claro que sim. Eu não o deixaria caído na minha porta. Aliás, você deixou sua garrafa cair ontem nos degraus e com certeza os vizinhos vão pensar que sou festeira.

Ele deu um sorriso ínfimo.

— Que pena, perdemos a bebida – ele brincou – Mas, de verdade, Granger. Obrigado. Ontem não foi um dia...bom, fácil. E sua casa estava mais perto...então...

— Claro, minha casa era mais perto. Estou aqui sempre que precisar.

Ele se calou, olhando para os lados. Nenhum dos dois se moveu. Ela notava o nervosismo dele. A forma como tremia sua perna direita. Ele queria dizer algo, mas não conseguia. Parecia ter medo ou receio.

— Não quer nem dar uma volta no Hyde Park? Acho que vai te fazer bem.

Seu olhar encontrou o dela. Ele parecia indeciso.

— Bom, se você insiste, eu vou então.

**

O Hyde Park estava relativamente cheio. De turistas e londrinos. Hermione caminhava ao lado de Malfoy, que apenas mantinha a visão em um ponto fixo. O que queria dizer que seguia em linha reta, pelo caminho de terra, onde um dia havia passado cavalos e carruagens. Ele tinha as mãos no bolso, usando um sobretudo, que pegou em casa, enquanto Hermione aguardava no corredor. Havia arrumado seus cabelos, claro. Parecia novo em folha, a não ser pelos olhos irritados e avermelhados. Ela deu a ele um remédio que tomava para alergia. Ele protestou, não querendo tomar, pensando que poderia ser mais uma brincadeira de Hermione, mas ela o acalmou, dizendo que era apenas um antialérgico. Ele aceitou com relutância e não espirrava mais. Contudo, não parecia no seu feitio fazer muitos agradecimentos. E ele não agradeceu.

— Quanto mais precisamos andar? – Ele perguntou, parecendo impaciente.

— Estamos apreciando a paisagem, Malfoy – ela explicou, pacientemente a ele – E vamos andar enquanto tivermos disposição para isso.

Ele anuiu com a cabeça, mas parecia contrariado.

— O que foi? Deseja ir para casa?

— Esse é o problema. Você é minha carona – ele disse, em tom irritado – Desculpe. Estou sendo rude. O que quero dizer...

— Você está se desculpando? – Ela alfinetou. Não conseguia resistir.

— Da próxima vez não o farei – ele retrucou, sarcástico – Mas, para ser sincero, Granger, como você suporta essa multidão de pessoas? Isso é tão...

— Você não gosta de multidões? – Indagou, surpresa. E ali estava, fobia social. Ou quem sabe, síndrome do pânico.

— Eu evito – ele respondeu – Não saio muito.

— Tá, quer voltar?

— Vamos...para aquele banco – ele apontou para um mais próximo as margens do lago Serpentine.

Eles saíram da trilha, seguindo pelo gramado e sentando-se no banco vazio. Ele suspirou, olhando para o horizonte.

— Não gosto de ficar tanto tempo na companhia de ninguém – ele respondeu – Fiquei muito tempo sozinho. Estou acostumado a isso. Trabalho de forma forçada, tentando superar isso. Não gosto que me toquem – ele riu – Mas, o engraçado é que eu a abracei, para que você parasse de chorar. Isso é estranho, não é?

— Eu não acho estranho. É só seu jeito de ser, Malfoy. Eu não sou a pessoa certa para responder isso, mas você deveria realmente ver os motivos para se sentir tão desconfortável perto das pessoas.

— Eu não quero dizer a ninguém o que sinto. Não acho que seja da conta de alguém.

— E mesmo assim, prefere falar para mim.

— E mesmo assim, eu prefiro.

Ela fitou seu perfil. Ele tinha o nariz perfeito, aristocrático. O queixo fino. Um rosto oval. Nada marcante, mas ele era bonito, devido aos olhos de um tom cinza impressionante. Eram azuis, mas de um tom cinzento, como céu naquele dia. Ele se virou para ela, com o cenho franzido.

— O que está olhando? – Ele perguntou, mas sem o tom de hostilidade, apenas curioso.

— Que você tem cabelos muito claros – ela encontrou a primeira mentira que veio a sua mente.

— É da família Malfoy. Faz parte do sangue – ele respondeu, como se ela realmente quisesse ouvir sobre a linhagem de sangue dos Malfoy – Acho que basicamente todos nós, Malfoy, teremos esse cabelo. Os olhos talvez, mudem. Eu tenho os olhos do meu avô, meu pai havia dito uma vez. Não cheguei a conhece-lo.

— É mesmo? Eu tenho os cabelos do meu pai – ela disse, sem querer. Estava ouvindo ele ser tão sincero, que talvez, não tivesse problema em ser também.

— E onde ele está agora? – Malfoy perguntou.

— Eu...obliviei meu pais – ela confessou.

— Você...o que?- ele indagou, perplexo – Não pode ter feito isso...

— Eu fiz. Para protege-los – ela explicou, se sentindo culpada pelo olhar abismado que ele lhe dirigia.

— Granger, eu...eu ficaria muito mal se alguém fizesse isso comigo, ou de pensar em apagar as memórias dos meus pais, para eles me esquecerem. Isso é horrível.

— Eu sei – ela disse, sentindo os olhos rasos. Iria chorar de novo e era o que não queria.

— Ei, não chora de novo- ele pediu, um pouco exasperado – Eu nunca sei o que fazer quando alguém chora.

— Não precisa fazer nada – ela disse, secando o rosto com o dorso da mão – É só saudade que sinto deles.

Malfoy anuiu com a cabeça, lentamente, então passou o braço por cima do ombro dela. Ela estranhou seu contato.

— Você disse que não gosta de ser tocado – ela sussurrou. No entanto, ela repousou a cabeça sobre seu ombro, mesmo ele não gostando de ser tocado.

— Eu...me sinto bem com você – ele murmurou.

— Eu também.

Ela não sabia se ele tinha ouvido e talvez, não quisesse ser ouvida. Nem ouvir o que seu coração lhe sussurrava.