O Véu Negro
12 Pesadelos em Pé.

P.O.V. Ravena Castellyn
Os olhos da bruxa me perseguiam. Já fazia algumas horas que havia chegado em meu quarto, as meninas dormiam enquanto eu encarava o Lago Negro, com a bruxa ainda em minha mente.
O seu olhar era maligno. Só de lembrar do cruzamento breve de olhares com a bruxa, todo o meu corpo tremeu e senti o frio mais estranho de minha vida, um frio que vinha de dentro para fora e deixava todo meu corpo em choque. Eu a teria seguido pelo véu até conseguir encontrá-la e enchê-la de socos, já que meu medo vinha junto com uma raiva intensa e ela me dominava mais que o medo.
Mais um dia sem dormir. Passei a noite toda encarando a janela e agora meus olhos e cabeça doíam, estava ainda menos animada que antes e, além de tudo, não tinha como faltar a aula. Tinha muitos trabalhos para entregar hoje que valiam trinta por cento das notas e em hipótese alguma eu me perdoaria por tirar nota baixa por algo assim. Tomei um belo banho e me vesti, pronta para enfrentar mais um dia — mentalmente eu estava tudo, menos pronta.
De todos os amigos de Noah e o próprio Noah, eu fui a primeira a aparecer no café. Com a ausência dos outros, não tive a audácia de me sentar na mesa da Grifinória, já que hoje não era um dia que queria nenhum tipo de discussão. Sentei na mesa da Sonserina, servi meu prato e passei a encarar. Soltei um sorrisinho quando associei que havia ficado a noite inteira nesta mesma posição.
Não observei a porta de entrada, então não vi quando os outros adentraram o Salão Principal, mas eles chamaram minha atenção parando todos em minha frente. Ergui os olhos devagar até encontrar o grupo e me surpreendi ao vê-los se sentarem ali.
Era verdade que nós passávamos as refeições em mesas diferentes da nossa casa, mas eles nunca tinham ido a minha mesa e eu compreendia a razão: se as outras casas nos olhavam estranho, o clima esfriou quando todos se sentaram na mesa da Sonserina, já que todos os sonserinos encararam o grupo com o olhar que significava uma promessa de morte.
Scorpius e Alvo se sentaram ao meu lado, Hitomi, Matt e Noah se sentaram em nossa frente. Eu gostei da ousadia daqueles três, mal sabiam que seriam importunados durante sua vida inteira por esse gesto amoroso.
— Estava pensando em nos encontrarmos no almoço — começou Matt, se servindo. Ninguém queria sentar perto de nós. — Vemos uns livros de Runas Antigas e vocês podem me mostrar os símbolos escritos no arco do véu.
— Não era e entrada de uma caverna? — Hitomi tinha um ar lunático, olhando para cima como se esperasse a resposta do céu. — Bem, tanto faz. Então acredita na gente, não é?
Havíamos contado tudo ao Matt na mesma noite antes de voltarmos ao castelo. Ele desacreditou no início, mas depois se rendeu.
— Já falei que tanto faz — ele estava realmente irrelevante. — Mas eu gosto de Runas Antigas e, no final, resolver esse enigma não faria mal.
— Okay, então nos encontramos na biblioteca no almoço! — Concluiu Noah.
Hitomi fez cara de triste.
— Eu estou tão cansada, a biblioteca seria o último lugar para o qual eu iria nesse almoço — ela sussurrou mais do que falou, quase não ouvia a voz de Hitomi.
— Concordo — Scorpius estava com olheiras bem aparentes por conta de sua pele de porcelana. — Não é o melhor lugar para passarmos o almoço.
Alvo deu de ombros.
— Pelo menos não vamos encontrar ninguém lá. Só masoquistas passam seu almoço naquele lugar, tem que gostar da dor.
Scorpius riu.
— Sua prima vive lá, a Rose.
Alvo franziu o cenho e depois sorriu, sua face demonstrando a satisfação por dar a resposta que saiu de seus lábios:
— Ta sabendo muito de Rose ultimamente, Scorpius. Espero que não esteja apaixonado.
Scorpius se engasgou com a comida e espirrou em cima da mesa, assustado. Todos nós rimos, até mesmo eu, e ele começou a dar negar.
— Para com essa graça — acrescentou. — Eu nunca me apaixonaria por alguém que passa mais tempo lendo do que vivendo.
O assunto acabou por causa do toque da primeira aula. Todos que restavam no Salão Principal saíram e, por conta do meu desânimo aparente, fiquei para trás. Todos seguiram a frente até animados, provavelmente com o que aconteceria no almoço. Eu não podia negar que estava feliz por finalmente termos alguma coisa para seguir e parar de ficar no achismo, mas não conseguia ficar completamente feliz.
As aulas foram exaustantes e improdutivas. Não conseguia prestar atenção em nada e todos os professores comentaram que não me reconheciam mais: alguns diziam rindo, como se isso fosse uma brincadeira, algo para tentar alegrar meu humor.
A biblioteca estava vazia no almoço, como imaginávamos. Quando cheguei Matt já estava sentado em uma das mesas com uma pilha de livros que, sinceramente, me deixaram com ainda mais sono só de olhar. Pensei em sair correndo e dizer que tive um imprevisto, me trancar em meu quarto e nunca mais sair, mas Matt me viu antes de eu conseguir sair.
— Está indo aonde? — Ele gritou para minhas costas. — Eu estou aqui!
— Silêncio! — gritou a bibliotecária, o encarando com ódio. — Se falarem alto mais uma vez, eu os expulso!
Eu apenas acenei para ela, a deixando confusa enquanto me sentava em frente de Matt. Apesar das olheiras, ele estava com um humor incrível hoje.
Rose chegou logo. Sua face estava arrasadora, eu não havia percebido o quanto Rose estava acabada. Suas olheiras eram enormes, seus cabelos volumosos estavam bem bagunçados, presos de forma desleixada em um coque. Ela segurava os seus livros um pouco trêmula, se sentou na mesa mais próxima que achou e enfiou a cara nos livros com um olhar desesperado, segurando seus cabelos com as mãos.
Matt pareceu perceber que eu estava a encarando.
— Dizem que ela está maluca — ele comentou, chamando a minha atenção. — Ela nem dorme direito, passa o dia todo estudando e ainda não está conseguindo atingir a tão sonhada “média mais alta”. Sabia que você está na frente dela?
— Eu? — Franzi o cenho. — Nem sabia.
— É, você está em terceiro lugar no ranking da sala. Noah está em quinto, Rose em quarto, eu em segundo e Analice, uma menina da Corvinal, em primeiro. Basicamente a Corvinal está acabando com todas as outras casas!
Geralmente isso seria a brecha para uma discussão saudável, porém estava cansada demais para qualquer coisa do gênero.
— Vai querer que eu pesquise alguma coisa enquanto os outros não chegam? — Perguntei, deixando minha cabeça cair em cima da mesa enquanto falava.
Ele pareceu confuso, pegou um livro e me entregou, depois mostrando o papel com os símbolos que eu precisava achar.
— Você está mal — ele falou o óbvio. — Aconteceu alguma coisa?
Neguei sem tirar os olhos do livro, mesmo não conseguindo ler o mesmo direito. Eu senti que ele continuaria a falar quando Scorpius, Alvo e Noah chegaram juntos, um acontecimento interessante. Hitomi chegou logo depois acompanhada de um dos gêmeos Scamander, o lufano Lorcan, se separaram logo depois de chegarem: Lorcan foi se aventurar em meio às prateleiras enquanto Hitomi, animada como sempre, foi se juntar a nós.
***
Sentada em minha cama me pergunto como não consigo dormir. Continuo a encarar a janela como todas as outras noites, mais desanimada que o normal, minhas colegas comentavam de uma festa de pijama maravilhosa e riam alto, suas vozes ecoavam em minha mente vazia, mas mesmo assim não conseguia escutar. Por algum motivo, eu estava eufórica e mesmo assim não conseguia parar de olhar para o Lago Negro.
Só consegui mover minha cabeça quando as meninas falaram meu nome, então passei a realmente escutar o que elas falavam. Só consegui pegar a parte que chamavam alguém do quarto de parasita e, sabendo o quanto me amavam, tinha certeza de ser eu. Ignorei-as e voltei a observar o Lago Negro e sua monotomia que tanto me fascinava.
No começo pensei que iriam fazer ali, mas quando o relógio bateu a meia-noite elas saíram para o quarto de alguma outra menina, completando que não dava para fazer nada no quarto por conta da parasita, como se eu não soubesse de quem falavam — nem se fosse idiota iria entender.
Decidi estudar já que minha mente havia voltado e conseguia pensar claramente, mesmo que todas as minhas tarefas estivessem prontas — eu não tinha mais nada para fazer nesse horário e socializar não era uma opção considerável.
O clima pareceu esfriar drasticamente com o passar do tempo. Quando o relógio da minha escrivaninha bateu as três da manhã minha mente voltou a não funcionar, mas, dessa vez, um sentimento de perigo tomou conta de todo meu ser.
Olhei para todos os lados esperando encontrar a bruxa. Até mesmo o Lago Negro pareceu assustador ao olhar, a luz começou a enfraquecer e meu corpo parecia gritar por socorro. Me levantei para sair dali com um delay mental, mas assim que dei dois passos meu corpo parou.
Minha mente continuou alerta e eu continuei a perceber o perigo que corria por alguma razão. Nada estava ali, mas mesmo assim a luz diminuía e tudo parecia mais assustador, as sombras que os objetos formaram pareceram monstros prestes a me devorar, mas meu corpo não se movia por mais que eu quisesse.
Não consegui segurar minhas lágrimas quando meus olhos caíram no Lago Negro e vi o monstro mais horrível que minha mente conseguiu criar — eu estava convicta que tudo aquilo era coisa da minha mente, mostros que a bruxa mandou para me atormentar. Ela amava me atormentar…
Tudo me avisa que ela estava perto e mesmo assim não conseguia me mover. Pensei que seria assim que morreria: eu não teria nenhuma chance se ela aparecesse naquele estado, sem nem conseguir pegar minha varinha que estava presa na minha cintura.
O frio se tornou mais intenso, os monstros chegavam mais perto, senti que meu corpo inteiro estava congelando, até meus órgãos pareciam ser feitos de gelo e, quando o monstro do Lago Negro quebrou a janela do meu quarto e a água passou a imundá-lo inteiramente, meu grito nem sequer saiu.
Ainda conseguia ver a água me engolindo e o monstro me rodeando , tão grande que ouvia as paredes serem destruídas. Quando a água adentrou meu pulmão e parei de respirar, passei a duvidar se aquilo seria mesmo algum tipo de pesadelo… a dor era tão real, eu conseguia sentir a vida sair do meu corpo, conseguia ver que aqueles seriam meus últimos momentos: nas águas que eu tanto apreciava envolta de monstros indescritíveis.
Foi quando a luz se apagou e não consegui ver mais nada. Voltei a respirar e a ter certeza que fora um pesadelo e que ele não havia acabado. Uma luz passou a brilhar, me fazendo perguntar se a minha dúvida estava certa: eu estava morta e aquela seria a “luz” que todos diziam aparecer em seu leito?
A porta do meu quarto apareceu em frente da luz. Não consigo controlar meu corpo, e passo a caminhar até ela: a caminhada foi estranha, eu cambaleava e parecia uma criança aprendendo a dar meus primeiros passos. Quando cheguei a porta, minha mão foi involuntariamente para a maçaneta e a abri, não me impressionando quando vi o que estava ali atrás.
Meus olhos começaram por baixo, vendo os pés que não tocavam no chão, subindo até sua mão, vendo que na realidade a sua varinha era seu dedo indicador e, quando finalmente cheguei em seu rosto, tentei ao máximo não olhar seus olhos, mas algo foi mais forte que eu. Os olhos mortos dela me davam arrepios, seu olhar penetrante parecia mexer com minha mente, sua persistência em não tirar seus olhos do meu me fazia suar frio, eles estavam me penetrando da mesma forma que fez na floresta, mas como lá eu não conseguia desviar meu olhar.
Ela era mais alta do que me lembrava, ou estava flutuando mais alto.
Minhas lágrimas continuavam a cair, meu corpo tremia de medo e ela sabia. Ela percebia, ela gostava e dava para eu perceber isso. Ela se deliciava com o meu desespero e medo.
Ao redor dela tinha a luz que atenuava ainda mais sua aparência macabra. Ela falou, sua voz mais doce que da última vez que a ouvi, porém ainda pareciam facas. Facas sem pontas que me cutucavam se intensão de me matar, apenas fazer com que eu sofra o máximo possível.
— Oh, minha pequena, não precisa ter medo — do modo como falava, nem parecia que aquela maluca era do mal. — Venha para a luz, minha pequena flor. Eu vou cuidar de você, nada te fará mal em minha presença… comigo, você estará segura.
Eu sabia que era mentira, ela era a pessoa que queria me fazer mal, com sua voz doce e sua falsidade estampada que, de algum jeito, ela pensa que alguém poderia acreditar.
— Vamos para o seu descanso, sei que quer descansar. Seu corpo implora por isso, tanto que nem consegue movê-lo, não é? — Ela conseguia ler o espanto em meu rosto. — Não se preocupe, minha querida, tudo ficará bem.
Por fim ela colocou sua mão com dedo de varinha sobre o meu rosto, o acariciando gentilmente, sua pele fria parecia estar morta, seu toque fazia com que meu corpo se acalmasse. Ele se esquentou, parei de sentir que minha morte estava próxima, eu me senti segura.
Mesmo sabendo que não estava.
Eu jurava que iria dormir ali mesmo. Estava tão suave, minha mente estava parando de funcionar, eu estava entrando em sono profundo e me segurei para não entrar. Forcei a mim mesma a reviver minutos atrás, fazendo com que o medo voltasse a ser presente; mesmo que nem tanto quanto antes.
Involuntariamente estendi minha mão à ela e ela a pegou, me levando como uma criança. Meu corpo a seguia sem contestar, minha mente continuava a querer dormir, o esforço que fazia eu me manter acordada era o que estava me cansando ainda mais, mas eu simplesmente não podia deixá-la vencer tão facilmente… e ela estava. Ela estava vencendo com a maior facilidade possível e isso fazia minha raiva surgir.
Ela continuava a brilhar cada vez mais forte, seu brilho contribua para o cansaço mais específico do meu olho e eu continuava a não enxergar nada além dela. Estava prestes a desistir, convencida que não havia como sair dali, entregando mais lágrimas quando ouvi uma voz: aquela voz conhecida foi o suficiente para fazer meu controle ser maior. Eu consegui olhar para trás.
Noah corria em minha direção com seu pijama e sem sapatos, visivelmente havia acabado de sair de seu quarto e ele também brilhava. Eu consegui sorrir e ele passou a correr mais com minha resposta ao seu grito, mas ele estava longe e todo mundo sabia que ele não era atlético. Era um brilho roxo estranho, parecendo ser sua aura, misteriosamente eu conseguia vê-lo, mas ele começou a desaparecer. Antes de sumir por completo eu consegui erguer minha mão vazia, em um ato de tentar agarrá-lo… mas ele estava muito longe. Ele havia desaparecido e meu corpo voltou a ser completamente cancelado, além de escutar a voz da bruxa mais uma vez.
— Você está exausta e vendo coisas, minha querida — sua falsidade me dava raiva, mas eu não conseguia mais aguentar. — Descanse, meu bem. Descanse em mim!
Eu apaguei.
Não sei quanto tempo fiquei fora do ar, mas quando consegui voltar a consciência eu vi um bosque, sem lembrar como havia parado ali. Ou algo parecido, já que tinha tanta névoa que era impossível ver mais de um metro em minha frente. A bruxa já não segurava a minha mão e eu me sentia perdida, completamente só, e mesmo me sentindo assim eu só consegui pensar em uma coisa. E, agora, eu conseguia falar, percebi ao ouvir minha própria voz:
— Aron…
E uma mão pegou em meu ombro, me puxando para trás.
Agora eu me encontrava deitada no chão da Floresta Negra com Noah ajoelhado ao meu lado, chorando.
— Noah… — consegui falar. Todas as memórias voltaram em um mesmo momento, me fazendo pular e levantar tão rápido que deixou Noah confuso. Eu o segurei e puxei com força, também o fazendo levantar. — Temos que fugir! Ela vai controlar a sua mente, Noah! Como controlou a minha e do Aron! — Eu percebi que ainda chorava.
Ele, por outro lado, apenas apontou para o arco e, onde deveria haver o véu, era apenas uma passagem.
— Ele sumiu, Rav. Está tudo bem…
Eu não conseguia mais acreditar nisso. Me ajoelhei e deixei todas as minhas lágrimas saírem, deixei todo meu medo transbordar, deixei tudo.
— Ela é forte demais, Noah — disse quando ele chegou perto. Deixei que ele me abraçasse, me acomodando em seu peito e continuando a chorar. — Nós não temos chance.
— Epa, pode parar! — Ele falou sério, segurando meu rosto com suas mãos e me forçando a encará-lo nos olhos. Eu nunca havia visto aquele olhar em Noah… ele transbordava ódio. Não raiva, ódio. — Lembre-se de quem você é, Ravena Castellan, lembre-se que nunca vai abaixar sua cabeça e se dar por vencida. Nós, juntos, conseguimos: ela está sozinha, nós estamos em seis. Vamos salvar o Aron e acabar com a raça dessa bruxa de quinta!
Ainda não acreditava que isso seria possível, mas suas palavras me acalmaram e fizeram com que eu finalmente parasse de chorar. Não disse nada, apenas continuei em seu abraço e voltei a apoiar meu rosto em seu ombro, encarando a passagem em minha frente.
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