O Voo da Meia-Noite
1 Liberdade ao Pássaro
Sorri para o porteiro antes de atravessar a porta-giratória da cafeteria. Garoava. Dei alguns passos e logo senti dedos finos e frios apertarem meus ombros, me virei e não reconheci aquela figura encapuzada que agora se agarrava em meus pulsos.
“Preciso conversar” dissera, enquanto retirava o capuz.
Demorei alguns segundos para reconhecer aquele rosto familiar. Era Larry. O acompanhei até a praça, estava vazia, nos sentamos em um dos bancos. Eu no assento e ele no encosto. Larry tirou um maço de cigarros do bolso e o esticou em minha direção, recusei com um gesto com a mão esquerda. Ele retirou um e colocou entre os lábios secos. Não acendeu de imediato, esperou alguns minutos antes de retirar o isqueiro de dentro do tênis do pé esquerdo. Estranhei, mas nada disse.
“Sabe,” e deu uma tragada no cigarro, “sempre achei que seria mais fácil.”.
Ele olhou para mim, de certo esperando uma resposta. Em vão, nada fiz. E então tragou novamente o cigarro, soltando a fumaça devagar pelas narinas e vendo-a se dispersar no anoitecer.
“A vida.” disse finalmente “Deveria ser... Mais fácil.”.
A garoa virou chuva. Calma e fria. Sugeri que fossemos para um outro lugar, e assim foi feito. Fomos a um bar, nos sentamos numa mesa ao lado da janela. Larry ascendeu outro cigarro, ficou vendo-o queimar, segurando-o entre os dentes, até que as cinzas caíram sobre a mesa. Empurrou-a para o chão com um guardanapo e o jogou pela janela após amassá-lo.
“Sem complicações nem problemas.” falou, ainda com o cigarro na boca.
Ao olhar pra mim e ver que eu não havia entendido, completou.
“A vida.”.
Concordei com a cabeça. Silêncio novamente. Larry jogou o cigarro pela janela e ficou olhando-o se apagar.
Depois de um tempo olhando os próprios sapatos, esticou seus braços sobre a mesa e pousou a cabeça por cima. Não demorou muito e percebi que ele havia adormecido.
Pedi uma cerveja. Alcancei o cigarro e o isqueiro no bolso de sua camisa e acendi um. Depois de terminar a cerveja, pagá-la e acabar com o cigarro, me levantei. Guardei em meu bolso o isqueiro e o maço para ter motivo para vê-lo outra vez. Passei lentamente por todos aqueles bêbados no balcão, cheguei à porta e estava pronta para encarar a chuva que agora aumentara.
Foi só na manhã seguinte, após ler os jornais, que fiquei sabendo que, naquela mesma noite, Larry alçara voo do último andar do edifício onde morava.
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