O Voo Do Passarinho

30 Capítulo 30 - A Outra Stark


Durante dias Gendry remou naquele pequeno bote que Sor Davos o colocou com Sansa Stark. Somente quando a provisão que lhes foram oferecida acabou eles atracaram em terra firme. Era difícil saber onde estavam, mas era melhor do que o calabouço em que ele fora trancafiado.

Nas masmorras de Pedra do Dragão ele tivera apenas os ratos e os morcegos como companhia.

Assim que chegara naquela fortaleza, ele fora bem recepcionado pelo homem que dizia ser o seu tio por parte de pai. Gendry ficara feliz em descobrir a verdadeira identidade de seu progenitor. Sabia que era filho de um cavaleiro importante, não era a toa que ele ganhara o sobrenome Waters. Sobrenome de bastardo só era dado para pessoas de alto nascimento nascidos do lado errado dos lençóis. Claro que ele teria sido mais grato se pudesse ser chamado de Baratheon, entretanto o Rei Robert jamais o reconheceria como filho, ainda mais agora que jazia morto. Em contra partida, Stannis poderia reconhecê-lo. Um lado seu alimentou esse desejo que foi brutalmente destruído quando o jogaram em uma cela. Ele era uma ameaça para os planos do Rei da Pedra do Dragão. Não era necessário ser bem instruído para perceber isso. Havia se entregado a morte de todas as esperanças de sair com vida do local quando o Capitão das Cebolas provou que ele estava errado.

Não tinha conhecimento de qual era a justificativa da irmã de Arya ter sido enviada para junto dele nesta jornada. Por um bom período de tempo a moça não abriu a boca para nada que não fosse questionar por onde acabaram de passar, algo que ele não conseguiu responder nenhuma vez. Sor Davos o instruiu para seguir para as Gêmeas, sempre tendo a costa de Westeros a sua esquerda. Nenhum dos dois tiveram experiências com navegações anteriores, então levaram muito em consideração o conselho recebido. Sansa raramente o ajudou a remar. A jovem era delicada de mais e Gendry mal conseguia fazer contato visual com ela. Ela era muito bonita, mais bonita do que a irmã, se fosse honesto em admitir a realidade. Porém de alguma forma ela parecia mais fria e arrogante do que Arya. Sansa é uma verdadeira Lady, observou.

Uma vez Gendry incomodado com o silêncio perguntou sobre os Stark à ela. Sansa se limitou a dizer que sentia falta da família e que tinha pressa em encontrar o irmão mais velho antes do casamento de Edmure Tully nas Gêmeas. Stannis contara à ela que agora tinha uma cunhada e ela ansiava em conhecê-la.

Sem ter ninguém por perto que pudesse o escutar, ele encontrou a coragem necessária para falar sobre Arya.

Os olhos de Sansa quase saltaram de seu rosto conforme ele ia contando sobre a aventura que vivera ao lado da irmã dela antes de serem separados.

— Arya está viva...? — A pergunta saiu em um sussurro incrédulo.

Gendry concordou com um menear de cabeça. Era reconfortante poder mencionar sua companheira de viagem desde que deixaram Porto Real.

— Como ela estava a última vez em que a viu?

— Não tão parecida com uma Lady quanto você — Comentou.

Sansa estava trajando um rico vestido amarelo com detalhes em negro. Podia não ter muitos enfeites e não haver estampas no tecido, mas Gendry reconhecia as roupas da nobreza quando as via. Seria difícil passarem despercebidos pelos camponeses naquele traje. Mesmo tendo sujeira das passagens secretas da antiga sede da Casa Targaryen, a moça ainda estava bem vestida. Ele ousava dizer que também estava bem vestido, apesar da roupa ter aderido ao seu corpo pelo tempo passado em cativeiro. Era um traje masculino muito superior aos que utilizara em Porto Real quando era um simples aprendiz de ferreiro.

— Típico da minha irmã — Sansa sorriu com a observação.

Gendry não conhecia Arya Stark. Ele conhecera Arry, Nan e Doninha e ambas as identidades da garota-lobo eram rebeldes e tinham um charme próprio. Ele via a amiga como uma cria do mundo e quando soube quem ela realmente era, se afastou drasticamente. Já não sabia se podia se considerar amigo de Arya. Ela era da nobreza, apesar da garota negar veementemente com palavras e atitude ser uma Lady.

Lady ou não, ela tem um sobrenome, e isso era mais do que ele jamais teria.

Se a Irmandade Sem Estandartes tivesse mantido a palavra, Gendry agora seria um ferreiro dos foras da lei das terras fluviais. Esse era o destino dele, do órfão da Baixada das Pulgas. Era o máximo de reconhecimento que poderia alcançar. Talvez conseguisse fazer fortuna na guerra ou então morrer como um indigente em uma emboscada. Qualquer coisa que acontecesse com ele seria melhor do que congelar a bunda na Muralha, defendendo o reino de criaturas místicas que nunca existiram fora das histórias das amas de leite de crianças de alto nascimento. Bom, esse era o seu pensamento quando estava naquele contexto. Agora o seu destino era levar Sansa em segurança para o irmão que se intitulava o Rei do Norte. Não era uma perspectiva tão ruim no fim das contas. Dessa forma ele poderia reencontrar Arya e quem sabe Robb Stark cumprisse a oferta que Lorde Eddard lhe fizera. Ele estava pronto para pegar nas armas e não mais forjá-las. Se desse o seu melhor, em um futuro próximo poderia ser ungido cavaleiro. Períodos de guerra formavam soldados e a guerra ainda estava longe de seu fim.

Sansa não se impusera nenhuma vez em tê-lo como companheiro. A jovem na maior parte do tempo ficava absorta nos próprios pensamentos. Gendry daria todas as moedas que Sor Davos lhe dera para saber o que passava na mente da moça, porém não tinha intimidade o suficiente para questioná-la e Sansa demonstrava não querer formar uma intimidade maior com ele. A garota quando fora encontrada pela Lady Melisandre estava na companhia do Cão de Caça e somente os Sete sabiam o que se passaram entre eles.

— Poderíamos vender o barco — A Stark sugeriu quando atracaram pela última vez.

Não havia nenhum vilarejo por perto e Gendry mais uma vez não fazia ideia de onde estavam. Ele seguira a direção que Sor Davos indicara e virara na primeira curva a sua esquerda, sempre mantendo a costa desse mesmo lado próxima. No entanto, eles atracaram do lado direito. Sansa lhe disse que desembarcando ali eles estariam no Vale, na margem oposta das Terras Fluviais e era uma posição geográfica mais próxima das Gêmeas. A moça conhecia o mapa de Westeros melhor do que ele. Não tinha como discutir a respeito disso.

— Não vejo ninguém que possa se interessar por um barco aqui por perto — Observou.

— Nós precisamos de dinheiro — Sansa apontou.

Aquele era um fato. Sor Davos lhes deram exatamente catorze moedas de cobre. Poderiam ter um teto e comida por uma semana e nada mais além disso. O vestido de Sansa valeria uma moeda de prata se estivesse em boas condições, no entanto ela teria de comprar uma vestimenta nova e se conseguissem sair da barganha com duas novas moedas de cobre seria um lucro muito grande.

— Você acha que deveríamos voltar para o barco e procurar uma cidade na costa para fazermos negócio? — Não se oporia a essa ideia. Passara tanto tempo a bordo da pequena embarcação que a tratava como um porto seguro.

— Não — A garota meneou a cabeça em sinal negativo — Realmente foi uma ideia estúpida.

Do que eles trouxeram de Pedra do Dragão, eles levaram consigo apenas a bolsa de dinheiro que Sansa guardava dentro do corpete.

Era relativamente constrangedor embarcar em uma aventura com a outra Stark. Sansa não era a mais sociável das criaturas e ora ou outra, Gendry teria ficado feliz se fossem capaz de travar um diálogo inteligente. Eles podiam estar acompanhados, mas era como se a maior parte do tempo estivessem sozinhos. Depois de deixarem o barco, Sansa caminhava à sua frente. A pressa que ela dizia ter era estampada em seu andar. As finas botas dela se mostraram um empecilho no trajeto e quando o sol se punham e tinham de montar um acampamento, a jovem reclamada de dor no pé.

Aquela era a terceira noite caminhando e Gendry mais uma vez se ocupara com a construção da fogueira enquanto Sansa juntava folhas e gravetos para formar uma espécie de cama. O inverno realmente chegara. O vento estava mais frio e o fogo era a única coisa que impediam que sofressem uma hipotermia. Se no Vale era possível sentir isso, temia o que esperavam por eles nas Gêmeas.

— O Rei Stannis não deve ter se importado com a nossa fuga, caso o contrário seus homens já teriam nos encontrado — Foi ele quem iniciara a conversação mais uma vez.

— É bom saber que ele não se preocupa em ter perdido a noiva e o sobrinho — Sansa riu com amargura e Gendry precisou de um momento para compreender aquelas palavras.

— Noiva? — Repetiu com incerteza.

— Eu iria me casar com ele no dia em que fugimos — Informou — Este vestido era para ter sido o das minhas bodas.

Aquela informação fazia menos sentido ainda do que suas especulações. Stannis estava casado com Selyse até onde sabia. Se ele se divorciara da esposa para poder se casar com Sansa, a moça se tornaria a Rainha de Pedra do Dragão. A razão da fuga dela despertava ainda mais sua curiosidade agora. Arya comentara com ele certa vez sobre a personalidade da irmã. A Stark mais velha sonhava em se tornar uma Rainha enquanto a mais nova desejava ser um cavaleiro. Está certo que o seu tio era um homem bem mais velho do que ela, mas mesmo assim era alguém que poderia dar para a jovem o que ela desejava.

— Por que fugiu, então? — Questionou. O assunto não era da sua conta, porém a curiosidade falou mais alto do que a prudência.

— Não queria me casar com ele — A resposta foi simples, ainda que houvesse timidez na declaração.

— Ele a tratou mal? — Insistiu em descobrir a real razão.

— Melhor do que tratou você, se é isso que deseja saber — Apontou. Gendry não precisava ter ouvido isso se tivesse ficado com a boca fechada. Ao contrário dele, a moça teve liberdade pelo castelo. Talvez não tanta liberdade, contudo quando comparada com a sua cela nas masmorras, era como ter asas — Porém o futuro que ele me reservou era horrível! Ele queria me deixar trancada em meu quarto assim como a Princesa Shireen é confinada! Se eu pudesse, teria a trazido conosco.

Princesa Shireen... Gendry ouvira falar sobre a filha do Stannis, mas nunca teve o prazer de ver a Princesa. Julgava que sua prima fosse uma Lady e não uma prisioneira presa em uma torre. Se ela tivesse boa sorte, um homem digno ainda a resgataria de sua prisão. Ele deixaria esse papel para alguém mais afortunado do que ele. Já era um verdadeiro milagre ter conseguido sair com vida de Pedra do Dragão sem que soldados viessem ao seu encalço, imagina se Gendry tivesse trazido a Princesa consigo.

De certo modo, Gendry ficou contente por Sansa considerar a presença dele ao ter dito conosco na frase e não comigo. A antipatia que sentia vir da parte dela se provara algo apenas de sua cabeça e se permitiu sorrir.

— Depois que encontrarmos com o seu irmão, você pode convencer o Rei do Norte a atacar Pedra do Dragão — Não desejava o mal ao seu tio, entretanto ele conhecia os poderosos e a sede de vingança que carregavam em seu sangue sob o nome da honra.

— Não — Sansa meneou a cabeça em sinal negativo com determinação — Se Robb desejar atacar Stannis, o convencerei do contrário. O Rei de Pedra do Dragão não é ruim, ele é apenas um homem solitário endurecido pelo lugar onde mora. Meu pai desejava unir forças à ele e insistirei para que Robb siga a vontade do pai, desde que eu não tenha que me casar para firmar esta aliança.

— Você é mais gentil do que pensava — Gendry admirou a franqueza da moça.

— O que quer que Arya tenha dito a meu respeito, é tudo mentira! — Exclamou.

Gendry riu.

— Ela não me disse muita coisa, apenas que você mentiu perante o Rei Robert e teve a sua loba gigante morta e Arya teve de se despedir da dela — O rapaz se recordou da história que a amiga contara enquanto viajavam juntos nas Terras Fluviais.

— Eu não sou mentirosa! — A moça se defendeu — Eu fiz o que julguei ser o certo naquela ocasião! Eu pensava que Joffrey era um Príncipe galante, mas estava errada... Se soubesse como seriam as coisas, teria continuado em Winterfell e me contentaria em me casar com quem quer que o meu pai julgasse apropriado para mim. Seria uma boa esposa, uma boa filha e até mesmo uma irmã melhor para a Arya... Sinto tanta falta dela agora e me arrependo de tê-la tratado da forma que a tratava... Espero que os seus amigos tenham levado ela para as Gêmeas e que a reencontre lá!

— Eles não são meus amigos. A Irmandade Sem Estandartes me vendeu para a Lady Melisandre em troca do Cão de Caça... — Gendry fixou os olhos no fogo que construiu. Ainda conseguia se lembrar da dor da traição e isso o incomodava profundamente. Se tivesse oportunidade de se vingar dos foras da lei, ele o faria. Não seria misericordioso. Enquanto os vissem agoniar, pagaria a mesma quantia de ouro que receberam para vendê-lo.

— O Cão de Caça... Sandor está com a Irmandade!? — Sansa se exaltou no leito de folhas que ela construíra.

— Talvez já esteja morto a essa altura ou tenha sido vendido para outra pessoa — Deu de ombros.

— Eu não acredito que ele tenha morrido! Stannis me disse a mesma coisa... Isso não é verdade! Se ele morresse, eu saberia... Eu sentiria... — A moça mostrou-se abalada com a possibilidade.

— Havia me esquecido que você fugiu de Porto Real com ele — Julgava que Sansa tivesse antipatia pelo Cão de Caça, entretanto com a reação dela, ele vira que se enganara em sua suposição — Vocês eram próximos?

Mesmo com a escuridão da noite, Gendry julgou ter visto as bochechas da garota corarem.

— De certo modo... — Os olhos dela estavam fixos em um lugar qualquer no chão e a frase não saiu mais alta do que um murmúrio.

— Então ficará feliz em revê-lo um dia, não? — Perguntou com inocência — Eu ficaria feliz em rever sua irmã. Apesar dela ser uma Lady, ela é o mais próximo que eu tenho de uma amiga e antes de nos despedirmos, estávamos brigados...

— Você e Arya brigaram? — A conversa tomou um rumo que Sansa se sentiu mais a vontade de conversar do que a respeito da aventura dela com Sandor Clegane — Como irmã dela devo dizer que Arya tem a facilidade de brigar com qualquer pessoa. Eu e ela já brigamos diversas vezes. Por bobeira na maioria das vezes, agora eu reconheço que tivemos discussões desnecessárias. Por que brigaram?

Gendry estava gostando de ver esse lado mais sociável da outra Stark e pensou que naquele momento ela era a pessoa mais apropriada para pedir conselhos sobre como lidar com Arya quando a reencontrasse nas Gêmeas, apesar de estar ressabiado se a garota encontraria ou não espaço em seu coração para perdoá-lo.

— Sobre a minha permanência na Irmandade. Ela queria que eu fosse com ela para Correrrio, mas eu queria ser ferreiro dos foras da lei... Antes que eles me vendessem, é claro.

— Arya é tão egoísta... — Sansa meneou a cabeça em sinal negativo, claramente decepcionada com a atitude da irmã.

— Eu já reparei nisso — Gendry riu e Sansa o acompanhou.

— Tenho certeza que ela o perdoará por isso, mas se bem a conheço, ela esperará um pedido de desculpas seu — A Stark o avisou.

O rapaz não estava inclinado a se desculpar. Ele tinha o próprio orgulho a manter. Ele fora um objeto facilmente descartado pela Irmandade Sem Estandartes e isso era vergonha o suficiente para ele.

— Talvez ela tenha mudado — Deu de ombros com indiferença, cutucando a fogueira com um pedaço de graveto.

— Talvez — Sansa concordou — Já está ficando tarde, é melhor dormirmos logo se quisermos continuar a viagem assim que o sol nascer.

A moça tinha razão. Ainda não sabiam exatamente onde estavam, mas sabiam aonde queriam chegar e tinham um prazo para isso. A data do casamento estava próxima ou já havia passado, era difícil determinar baseado apenas por uma informação superficial recebida pelos Lordes de Pedra do Dragão. Independente de qual fosse a resposta, eles precisariam se apressar. Se Robb tivesse conseguido os homens dos Frey para lutarem suas batalhas, eles ainda continuariam por um tempo nas Gêmeas antes de descerem para o Sul ou partirem para reconquistar o Norte.

Se despedindo de sua companheira com um boa noite, deitou-se na cama de folhas ao lado dela e depois de alguns momentos de insônia, adormeceu.

No dia seguinte, eles acordaram com a primeira luz do sol como planejado. Gendry e Sansa não se deram ao trabalho de desfazer o acampamento. Não importavam mais em deixar rastros para traz. Eles não tinham pertences para levar consigo e estavam mais perdidos do que as pessoas que podiam estar seguindo seus passos. Desde que atracaram em terra firme pela última vez não encontraram vivalma em seu caminho, nem mesmo uma estrada. A missão agora era procurar um vilarejo e buscar informações e uma refeição quente. Alimentar-se de frutinhas e dos animais que conseguiam caçar com as próprias mãos era frustrante. Diversas vezes o seu estômago e o de Sansa roncaram pela fome que sentiam. No Vale poucos frutos eram germinados por ser uma região montanhosa e o animal mais comum era o coelho, sendo difícil a captura. Eles não ficavam muito tempo em um lugar, o que significa que a fabricação de armadilhas era desconsiderada por ambos.

Estamos chegando, essa perspectiva dava ânimo em Gendry. Cada passo adiante os aproximavam das Gêmeas. Ele tinha a necessidade de chegar lá o mais breve possível pela sua própria segurança. Se estivesse errado em relação a pretensão de Stannis em encontrá-los, não estaria sobre a proteção que Robb Stark poderia lhe proporcionar, principalmente por estar acompanhando a irmã do Rei do Norte.

Ter um teto sobre sua cabeça também não seria ruim. O tempo se fechava cada vez mais com o passar dos dias. Na região deserta por onde andavam eles tomaram chuva diversas vezes. A umidade atrasava o andar deles. Os sapatos que tinham não eram impermeáveis e lhes causavam ainda mais dores e bolhas. Ele era um homem rústico e podia se adaptar a situação, mas Sansa ficava cada vez mais lenta e ranzinza durante o dia. O humor dela só melhorava ao anoitecer e mesmo assim parecia sempre estar perturbada por terem parado para descansar. Era como se ela se martirizasse por não conseguir ser mais rápida.

— Sabe, você não deveria ter tanta pressa para chegar às Gêmeas, não é como se você tivesse um prazo para cumprir — Quando trabalhara na forja em Porto Real, ele agia da mesma forma que Sansa estava agindo mediante uma encomenda feita por um cavaleiro.

— Eu tenho um prazo — A moça o corrigiu, tendo dificuldades em escalar um pequeno morro.

Gendry a auxiliou, oferecendo sua mão para ela apoiar. Sansa a aceitou e Gendry sentiu a face esquentar pela vergonha do momento. Foi a primeira vez que eles tiveram um contato físico. As mãos da outra Stark eram mais macias do que as suas e mais delicadas do que as de Arya. Em silêncio ele se repreendeu por sempre compará-la com a irmã. De certa forma, essas comparações serviam para estreitar o laço que ele estava formando com a jovem, apesar de não ser a forma mais correta para fazê-lo. As irmãs eram tão diferentes quanto o dia era da noite. A mais velha de fato fora criada como uma Lady, enquanto a mais nova desenvolveu um espírito selvagem. Sem contar que se não fosse pelo sangue, elas se passariam por estranhas baseado apenas no físico de cada uma. Sansa no caso sendo mais esguia do que Arya, com cabelos e os olhos de tonalidades diferentes. Apesar da moça estar com as madeixas tingidas, as raízes rubras estavam visíveis, o que o recordou de que assim que encontrassem um local habitado deveriam comprar hena para tornar a colorir os fios de Sansa. Se ela tingira os cabelos é porque tinha um motivo forte para fazê-lo e Gendry a apoiaria desde que não lhe trouxesse maiores problemas. Os Baratheon não eram os únicos que a procuravam. Uma Stark valeria muito dinheiro, ainda mais se entregue aos Lannister. Gendry não podia se esquecer que ele também era procurado pela Casa dos Leões por seu parentesco com o finado Rei Robert.

— Quem estipulou o prazo? — Questionou, atingindo o ponto mais alto do morro.

Sansa mordeu o lábio inferior.

— Eu...

Pela resposta, deu para perceber que ela omitia uma informação importante. Se o rapaz não possuísse prudência, teria insistido em saber o que ela escondia com tanto custo. A garota era péssima em mentir, porém não mostraria à ela os erros cometidos. Independente da razão pela pressa, agora ele também se sentia pressionado.

Assim que Sansa se pôs ao seu lado, ambos perceberam a presença de uma estrada. O chão do caminho na frente deles era de terra batida, sem nenhuma vegetação crescendo ali. Indecisos, trocaram olhares entre si.

— Deveríamos seguir por aqui? — Sansa foi a primeira a falar.

— Se quisermos encontrar pessoas, eu digo que devemos — Gendry apontou, debatendo consigo mesmo os riscos que os aguardavam.

Sansa suspirou e entrou na estrada com determinação.

— Acredito que possamos passar despercebidos — A moça comentou, tentando fazer de suas palavras verdades apenas por dizê-las em voz alta.

— Com essas roupas, pode ser difícil — Gendry era incapaz de negar a verdade da situação. Suas belas roupas estavam imundas e levantaria curiosidade de quem os vissem. Se fossem pelo menos roupas de camponeses, poderiam passar despercebidos com facilidade.

— Precisamos inventar uma história, então — Sansa sugeriu — Poderíamos ser irmãos. Eu e você temos olhos azuis e nossos cabelos estão escuros. Poderíamos dizer que a nossa casa nas Terras Fluviais foi saqueada e que conseguimos fugir a tempo com a roupa do corpo.

A falsa história saiu com facilidade dos lábios da jovem, espantando Gendry com a criatividade que ela tinha. Tantos anos mergulhada nas belas canções deveriam ter resultado nessa incrível habilidade de criação de cenários imaginários. Se ela fosse capaz de atuar com veracidade nesse personagem que idealizara, então eles se sairiam bem, visto que as Terras Fluviais estavam sendo saqueadas por soldados aliados aos Rei do Norte, ao Rei Joffrey Baratheon e à Irmandade Sem Estandartes, embora ele não mencionaria a participação do irmão dela nesses saques.

— Parece bom para mim — Gendry deu de ombros, a acompanhando.

No percurso feito pelo caminho mais plano que traçaram juntos eles discutiram a respeito de suas novas identidades. Eles decidiram que seriam membros da Casa Fisher, com os nomes de Alys e Hugh. Sansa mencionou que o símbolo de sua nova Casa é um peixe-gato cinza sobre um fundo azul e que a sua morada fica localizada na Misty Isle. Gendry não argumentaria com ela a respeito disso e torcia para que o seu cérebro registrasse as informações recebidas. Seu nome é Hugh Fisher, isso era o fundamental que soubesse. O resto ele daria um jeito, desde que a moça estivesse ao seu lado para reforçar os pontos que esquecesse.

Na estrada, eles encontraram meia dúzia de camponeses carregando carroças de mantimentos consigo. Alguns iam e outros vinham de sua direção. Sansa perguntou para um deles onde estava o vilarejo mais próximo, recebendo como resposta duas horas de caminhada do ponto em estavam. Quando a informação veio, o sol estava quase se pondo. Não era uma opção montar um acampamento ali, por isso quando a noite caiu sobre eles, ambos ainda caminhavam com o estômago nas costas. Desde a noite anterior eles não ingeriram nenhuma comida e saciaram a sede no odre de um outro transeunte que pararam. Gendry pensou que Sansa se enojaria por ter de dividir o gargalo com um estranho, mas se surpreendeu com a voracidade que ela se hidratara. A necessidade fazia isso com as pessoas, ele deveria saber em primeira mão sobre isso.

Os dois companheiros só saíram do caminho quando viram à sua direita luzes do que parecia ser um amontoado de casas. Eles foram beneficiados pela pouca iluminação noturna. Com passos estudados, encontraram uma pousada que os receberam de braços abertos. Se passando por irmãos, mas sem precisar revelar suas identidades falsas logo de cara, foram conduzidos para um quarto.

O ambiente não era muito espaçoso nem cheio de requintes. Por mais simples que fosse a decoração de Pedra do Dragão, a Ilha de seu tio era superior aquela pousada feita de pedras retiradas do Vale.

No quarto havia apenas uma cama de casal e uma cômoda. Era o suficiente para um casal, porém resultou em sentimentos constrangedores entre os dois viajantes que se encararam para determinar quem ficaria com o leito. Não foi necessário muito esforço para concluir que Sansa vencera a disputa.

— Tem certeza? — Ela o questionou com toda a educação que possuía.

Gendry sabia que a resposta que gostaria de dar não era a esperada e por isso concordou com um menear de cabeça. Como uma criança que acaba de receber o direito de comer a sobremesa antes de terminar com os legumes do jantar, a moça se sentou na cama com uma atitude de pouca castidade, exibindo um sorriso de orelha a orelha em seu rosto pálido pelo nervosismo de ser descoberta.

— Vou pedir por um colchão de palha — Informou. A estalajadeira com toda a certeza o ofereceria um se pagasse bem pela hospitalidade.

— Não — Sansa foi contra a ideia — Se pedir, ela desconfiará de nós. Demos sorte por ela não nos encher de perguntas. Conheci uma mulher certa vez que se aproveitou da minha ingenuidade em uma situação parecida com esta.

A curiosidade o assolou mais uma vez. Gostaria de saber mais sobre a mulher que ela mencionara, mas não o fez.

— O que sugere, então? — Quis saber.

Sansa o estudou com o olhar e mordeu o lábio inferior ao fim de um longo período de silêncio, como se tivesse se dado por vencida. O frescor da juventude mais uma vez a abandonara.

— Acredito que terá de dividir a cama comigo, desde que não faça nenhuma gracinha.

Gendry se ofendeu com o comentário, entretanto nada disse ou fez. Ele não era o tipo de homem que se aproveitada da fragilidade de uma mulher, principalmente sendo a criatura em questão uma Lady. Seu lugar era ao chão ou ao relento. Mestre Mott lhe ensinara onde se posicionar diante da sociedade, mesmo que Arya tivesse desconstruído suas certezas.

— Não — Agora foi a vez dele de discordar — Reunirei algumas das cobertas e dormirei no chão — Não suportaria ter sido humilhado pela moça e ainda ter de dormir ao lado dela após lhe dar segurança que não a atacaria durante o sono, como um maldito predador primitivo.

Pelo tempo em que estavam juntos, Sansa já deveria saber a esta altura que tipo de pessoa ele era. Se desejasse alguma coisa com a outra Stark, o rapaz já teria conseguido. Por mais inseguro e desastrado que fosse, gostava de pensar diferente a respeito de suas habilidades de conquista.

— Como queira — A jovem deu de ombros. Era óbvio que ela estava satisfeita em ter o conforto só para si. A moça era cheia de astúcia e talvez aquele tivesse sido o plano dela desde o princípio: forçá-lo a abrir mão de um capricho em prol de si mesma.

Juntando o máximo de cobertas que conseguiu a modo de fazer um leito confortável para si, deixou para Sansa apenas um cobertor e um travesseiro, se apoderando de uma almofada de penas. Depois de semanas mal dormidas e em lugares remotos, Gendry finalmente sentira brevemente conforto, até que os cobertores abaixo de si se acomodassem ao seu corpo e lhe presentasse com a solidez do solo em que estava deitado. Teria sentido também frio se a lareira do aposento não estivesse acesa, dando a ele um calor bem vindo.

O vazio de seu estômago ainda lhe causava um grande desconforto, mas aguentaria pacientemente até o amanhecer. Sansa também parecia tranquila com aquela decisão. Naquela noite eles não tornaram a conversar. Cada um emergiram em seus próprios sonhos e fantasias enquanto eram assolados pelo cansaço do dia. Cada músculo de seu corpo reclamava de dor com fortes agulhadas. Sem que percebesse, havia dado mais de si do que era apropriado. Suas juntas estavam rígidas e suas roupas úmidas. Ele tremia de frio e sofria com espasmos musculares. Uma boa noite de sono e estarei inteiro amanhã. Decidiram que não ficariam mais do que um dia naquele lugar. Se tudo desse certo, partiriam após o almoço. Só precisavam adquirir novos suprimentos e descobrir precisamente onde estavam.

Com o planejamento do dia seguinte fixo em sua mente, ele adormeceu.

Quando acordou, o sol já estava alto no céu e Sansa não estava mais na sua presença. Como se tivesse levado um susto, pôs-se em pé no mesmo momento em que uma camareira adentrou o aposento.

A moça responsável pela organização dos quartos era mais nova do que a dona da pousada, entretanto possuía os mesmos traços físicos de sua patroa, que não era nem um pouco favoráveis ou dignos de beleza.

— Me desculpe, não pensei que estivesse aqui — A mulher comentou com certa timidez.

A vergonha de Gendry foi maior do que a da camareira. As cobertas que usara como cama ainda estavam no chão. Se pedir um colchão de palha passaria uma má impressão aos empregados daquele estabelecimento, com toda certeza aquela visão encheria a cabeça deles de rumores.

— Você viu a minha irmã? — Questionou.

A moça meneou a cabeça em sinal negativo. Era óbvio que ela não chegara a ver os dois viajantes que se hospedaram ali na noite anterior.

— Deseja comer algo, senhor? — A empregada perguntou. A mulher estava ali para servi-lo, afinal de contas.

— Não seria uma má ideia — Ponderou. Sansa provavelmente já havia descido para tomar o seu café da manhã e se tivesse sorte, a encontraria no salão.

— Hoje temos torta de coelho! — Aquela notícia saíra com tanto entusiasmo que Gendry se sentiu mal em dizer que preferia algo que não envolvesse frutos silvestres nem carne de coelho. No entanto, com a fome que tinha, qualquer coisa seria bem vinda em seu estômago, ainda que tivesse que pagar pelo o que estava farto de se alimentar de graça.

Ele não precisava que ninguém lhe mostrasse o caminho. Sabia como funcionava uma estalagem apesar de nunca ter se hospedado em uma por livre e espontânea vontade. Sendo um morador da Baixada das Pulgas e ferreiro do velho Mott, já entregara diversas encomendas para renomados cavaleiros que se alojaram em uma dessas casas na Capital dos Sete Reinos.

O salão onde as refeições eram servidas era o mesmo do de entrada. Qualquer indivíduo com dinheiro no bolso poderia entrar em uma pousada e saciar a fome e a sede sem que necessariamente precisasse arrumar um quarto para ficar. Para sua surpresa, assim como na noite anterior, o salão estava vazio exceto por uma outra mesa em que um casal de camponeses se alimentavam junto aos filhos. Aquelas pessoas tinham o semblante abatido pelo trabalho árduo que realizavam, contudo exibiam sorrisos simplórios da felicidade de estarem juntos à família. Família... Gendry nunca soubera o que era ter uma e provavelmente nunca saberia. Não sou Gendry, sou Hugh Fisher, não podia se esquecer deste fato. A camareira só o chamara de senhor porque pensava que ele fosse uma figura importante. De acordo com a identidade que assumira, ele assim o era.

Sem que pedisse por um prato, em sua frente foi depositado uma fatia generosa da especialidade do dia. O cheiro da torta de coelho quente fez com que seu estômago roncasse e o chamasse de volta para a realidade.

— Deseja algo para beber? — A estalajadeira que lhe arranjara o quarto perguntou no exato momento que colocava um pedaço do alimento na boca.

— Cerveja — Aquela era a bebida de um homem formado. Não faria mal tomar uma caneca no desjejum.

Em pouco tempo o copo em sua frente foi enchido com o líquido fermentado. O cheiro da cerveja invadiu suas narinas, indicando que a safra era de boa qualidade.

— Você viu minha irmã? — Tornou a questionar, agora para outra pessoa, enquanto virava um generoso gole da substância amarga em sua garganta.

— Ela saiu faz pouco tempo. Não sabia que eram irmãos — A mulher de meia idade comentou, pronta para iniciar suas especulações frutos da vontade de ter assunto para fofocar mais tarde.

— Somos os únicos sobreviventes de nossa Casa. Nossas terras foram atacadas por soldados. Tivemos de fugir apenas com a roupa do corpo — Comentou, sem dar descanso ao garfo que fazia o percurso da torta para a sua boca.

— E pelo jeito faz tempo que não come nada, heh! — Ela riu — Já sua irmã não teve tanta fome quanto você.

— Ela não fez o desjejum? — A dúvida o obrigou a parar o que estava fazendo. Seria aquele mais um plano de Sansa? Estaria ele fazendo algo errado? Teria veneno no que lhe fora oferecido? Não sentira nenhum gosto desconhecido que pudesse provar que fora enganado, mas mesmo assim teve de abrir mão da vontade de finalizar o que lhe fora servido.

— Fez, mas comeu como um passarinho — A mulher deu de ombros — Acho que não gostou da minha torta... — Havia pesar em sua frase — Ela é uma Lady muito estranha!

— Estranha...? — Repetiu.

— Sim. Me perguntou o quão longe estava das Gêmeas. Disse que procurava justiça pelo o que acontecera aos seus pais e tinha urgência em tratar com Edmure Tully. Eu lhe disse que as Gêmeas não era tão longe daqui, no máximo dez dias de cavalgada, porém eu a alertei que não conseguiria uma audiência com o Senhor Tully. Depois do casamento dele, ele foi feito refém pelos Frey. Eu nunca gostei daquele tipinho. Sempre que um deles passavam por aqui dava más gorjetas as minhas meninas e várias vezes saíram sem pagar. Eles são muito ruins, os membros daquela Casa das Torres... — Lamentou.

— Refém...? — Não sabia dizer se era o álcool, o sono, a fome ou o cansaço que o faziam escutar coisas sem nenhum sentido em sua mente.

— Isso mesmo. Por um acaso não ficou sabendo do que todos estão chamando de Casamento Vermelho? — Ela se animou com a fofoca — O velho Frey ofereceu hospitalidade ao Jovem Lobo e o massacrou junto com os vassalos no casamento do Peixe com uma Frey qualquer! Algo muito rude de se fazer, isso eu lhe digo. Esses nobres fazem coisas que reles mortais como eu são incapazes de fazer... Oh, me desculpe! Esqueci que também é um nobre! Com certeza você não é desse tipo... Não é mesmo? — A estalajadeira mostrou-se insegura com a afirmação e se tornou arredia. Não por medo de ter falado de mais e sim por medo de estar dialogando com uma ameaça em potencial.

Gendry se pôs em pé de imediato. Não era estranha a forma que Sansa reagira à essa notícia. Ela não era Alys Fisher e sim uma Stark que acabara de descobrir que o irmão fora assassinado.

— Minha irmã saiu faz pouco tempo, você disse — A recordou — Sabe pra onde ela foi?

— Ela tomou um banho e veio comer aqui, mas não sei pra onde foi não... Ela me pagou pelo quarto e por um cavalo e isso foi tudo.

O rapaz blasfemou em silêncio. Queria por um dia só ter uma vida tranquila, sem precisar se preocupar com o seu destino ou com o das outras pessoas que o cercavam. Se conhecera Sansa tão bem quanto achava que conhecia a irmã dela, era óbvio que ela pretendia ir para as Gêmeas saber se o boato era real. Com passos apressados, foi para fora da estalagem. No cocheiro ao lado da entrada estava uma bela égua se alimentando de um monte de feno. O animal já estava selado e tomado por um forte impulso, decidiu que a roubaria.

Em algum lugar adiante naquela estrada ele acabaria encontrando a Lady fugitiva se ninguém mais o tivesse feito. Vestido com o caráter de um escudo juramentado, ele pôs-se a galopar na direção que julgava ser a certa.

No solo de terra batida, várias pegadas de pessoas e animais estavam visíveis, sendo uma tarefa árdua determinar se estava na trilha correta. Dependendo apenas da sorte, acelerou o passo do cavalo que montava. A égua estava bem alimentada e descansada, o que foi um ponto positivo para sua missão. Se a estalajadeira estava correta, a moça saíra fazia pouco tempo. Ele poderia encontrá-la antes do meio-dia e bolar um novo plano junto à ela. Definitivamente confirmar se o Casamento Vermelho era algo real indo às Gêmeas era uma péssima ideia. Se o boato fosse verídico, eles entrariam na toca do inimigo e implorariam de joelhos para morrer. Teriam mais chances pedindo o perdão do Rei Stannis do que dos Frey. Agora, se fosse uma grande mentira, encontrariam as tropas do Rei do Norte dentre poucos dias se voltassem para aquela pousada. Todo o Reino sabia do plano do Jovem Lobo de marchar para Porto Real e vingar a morte do pai. As terras fluviais estavam infestadas de perigos que poderiam facilmente serem evitados se adentrasse o Vale. Os Senhores do Ninho das Águias se mantiveram fora dessas guerras e a paz imperava naquela região. Gendry ansiava em ser agraciado por ela e assim julgava que os nortenhos também. Nenhum vassalo seu seria detido no Vale, ainda mais quando a tia dele governava o Leste.

Em silêncio, amaldiçoou o fato de ter deixado Sansa responsável pelo saco de dinheiro. Se fosse ele o responsável, jamais realizaria uma atitude tão irresponsável quanto ela. Talvez voltar para a pousada não fosse uma opção tão sábia assim agora que havia roubado um cavalo. Se fosse honesto, admitiria que não havia sagacidade se continuasse na estrada por muito tempo depois de alcançar o seu objetivo. Alguém viria atrás dele. Parecia que em cada local criava um novo inimigo e ele apreciava demais sua cabeça para desejar vê-la fora de seu pescoço.

Não havia completado uma hora quando visualizou a silhueta de Sansa sobre um corcel alvo. A moça trotava como uma dama de alto nascimento, com postura projetada e grande elegância. Ela era péssima naquilo, Gendry determinou. Quando se está com pressa para chegar em algum lugar, deve-se deixar o instinto dominar, sem se preocupar com as aparências. É impossível tirar a realeza de um nobre da mesma forma que é impossível ensinar cordialidades a um ferreiro, riu do pensamento, aproximando sua égua do garanhão.

— Você não deveria ter saído sem falar comigo! — A repreendeu de imediato, fazendo com que Sansa se sobressaltasse na sela.

— Você me assustou! — Diminuiu o passo do próprio cavalo, não por vontade própria, mas porque Gendry lançou o animal que conduzia em sua frente, bloqueando o caminho — E eu não tinha nada o que falar com você! — Rebateu na defensiva.

— Combinamos de ir ao encontro de seu irmão juntos! — Retrucou com determinação.

— Talvez Robb nem esteja mais vivo! Eu preciso confirmar isso! — Lágrimas escorriam pelas maçãs do rosto da jovem. Era óbvio pela forma em que os olhos dela estavam vermelhos que chorara o tempo todo depois de receber a notícia.

— Há formas mais sábias de lidar com a realidade! — Informou — Você me disse para ter cuidado com mulheres como aquela! Quem garante que ela não está tentando te jogar em uma armadilha!?

Sansa secou as lágrimas com o dorso da mão direita, segurando a rédea do corcel com a esquerda. O rapaz percebeu que os dedos dela estavam rubros pela intensidade que segurava o arreio.

— Ela não me conhece para me levar para uma armadilha... — Sua voz suavizara. Já não estava brava. Procurava brechas para se confortar com a esperança de que tudo estava bem.

— Bom, você está vestida como uma mulher bem nascida. Isso é o suficiente para alguns — Deu de ombros com indiferença — E de qualquer forma, o seu irmão pode acabar vindo para esse lado com suas tropas.

— Por que ele viria por aqui? Ele quer chegar em Porto Real, não no Vale — Sansa o recordou.

— Ele pode chegar à Porto Real por aqui! — Gendry insistiu.

— Se ele tivesse navios, seu estúpido! — Sansa revirou os olhos — Não há terra ligando o Vale com a Capital! Há água!

Gendry não parara para pensar sobre isso. Sansa estava correta. Se esquecera que para chegar ali eles tiveram de remar por dias e que de um lado do rio se encontrava o Vale e do outro as terras fluviais. Foi frustrante perceber que sabia tão pouco da geografia de seu próprio país.

— Ele pode conseguir navios com sua tia... — Ponderou.

— Minha tia Lysa vive no Ninho das Águias. Em uma montanha. No topo dela. Não há água a cercando! — Puxou a rédea do cavalo.

Enquanto conversavam, os equinos se agitaram com algo que somente eles percebiam. Estava se tornando difícil contê-los no lugar. O garanhão de Sansa inclinava a cabeça para frente, bufando. Já o de Gendry arrastava o casco no chão, abaixando e levantando o longo pescoço.

— O que está acontecendo..? — O rapaz indagou.

Julgando que era a proximidade entre macho e fêmea que incitava aquilo, trotou com grande custo para o lado oposto do cavalo de Sansa. A atitude apenas irritou os animais. A moça agora lutava com a própria montaria, que cismava em sair da estrada contra sua vontade. O garanhão não desejava a égua e sim a segurança das matas.

Pensando que um perigo iminente poderia estar vindo pela estrada, fixou os seus olhos no longo caminho árido. Não havia vivalma vindo daquela direção. Foi quando voltou-se para Sansa para estudar o que estava acontecendo com ela que viu um vulto cinzento saltar do meio das moitas e se lançar contra o cavalo dela, levando-a a cair de costas no chão.

O grito da Lady se misturou com o rosnado da fera que se colocara aos pés da moça. Gendry tentou incitar a égua na defesa de Sansa. Foi uma atitude inútil. O cavalo de Sansa disparara para onde queria ir desde o princípio e o dele cismava em fazer o mesmo.

— Não, por favor... — Ela implorou ao enorme lobo.

A fera cheirou o ar ao redor da moça e então fez algo que assustou Gendry. O grande animal peludo se aproximou de Sansa e lambeu-lhe o rosto.

— Afaste-se dela! — Gendry gritou de cima do cavalo, acreditando que o tom de sua voz fosse o suficiente para assustar o lobo.

Sansa riu.

Aquilo foi ainda mais assombroso. Tinha um enorme ser sobre ela a lambendo e ela ria como uma criança de cinco anos.

— Vento Cinzento! — Uma voz familiar que soara familiar aos seus ouvidos veio da direção de onde o lobo surgira.

Dando uma volta completa no mesmo lugar devido a rebeldia de sua montaria, ele viu o vulto negro de uma garota de aproximadamente um metro e sessenta se aproximar deles. Tentou fixar o seu olhar sobre ela, achando que seus olhos lhe pregavam uma peça. Conforme o vulto saia das sombras das árvores ele a identificou como sendo Arya Stark. Aquilo só podia ser uma miragem, uma ilusão de ótica, um fruto de sua imaginação. Não havia sentido Arya Stark estar no Vale. Muito menos acompanhada de um lobo gigante.

A garota que durante muito tempo fora sua companheira não parecera notar sua presença, mas Gendry por sua vez percebeu que ela não estava sozinha. Atrás dela vinha um vulto negro enorme do que parecia ser um cavaleiro puxando pelas rédeas um cavalo de guerra. Aquilo definitivamente deveria ser uma ilusão, caso não fosse, nada mais em sua vida faria sentido.

Notas finais
Não demorei tanto tempo assim, rs. Espero que tenham gostado! Últimas 2000 palavras escritas a pressa para terminar! Comentários são bem-vindos! Se querem uma música como recomendação, sugiro ouvir Iris do Goo Goo Dools! Perfeita para esses dois shippers, hehe.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.