O Voo Do Passarinho

27 Capítulo 27 - O Inverno Está Chegando


Notas iniciais
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– Está tudo bem, Passarinho– Sandor suspirou a frase, enquanto o delicado polegar de Sansa deslizava pelos lábios dele onde pouco tempo atrás ela o havia mordido durante o beijo. Alguma coisa na ação da garota estava carregada de elementos sensuais que se confirmaram quando o homem inseriu o dedo em sua boca, sugando o polegar com uma intensidade moderada.

Os lábios de Sansa entreabriram-se de surpresa e um baixo gemido escapou dela. Para evitar que mais barulhos constrangedores escapassem, mordeu o lábio inferior, sem ousar retirar o seu polegar da boca de Sandor. Ela estava gostando da situação em que se encontrava embora não admitisse. O olhar de dor que Sandor deixou transparecer na ação apenas demonstrou que era ele quem estava em sua mercê naquele momento.

Como se Sandor tivesse recebido uma ordem, ele abriu a boca e liberou Sansa de sua carícia. Ele é apenas carente, como um grande cão doméstico... Disse para si mesma. Sansa sempre teve uma forte ligação com os cães e com os lobos, contudo nunca chegou a pensar que teria a versão humana de um cão ao seu dispor. A garota sorriu para si mesma, acariciando o lado queimado do rosto de seu protetor. A textura das cicatrizes era grosseira ao toque aveludado de sua mão, mas isso já não a incomodava tanto quanto da primeira vez que o tocara; seus olhos também não evitavam o contato; o que era tão grotesco se tornara uma banalidade mediante as circunstâncias. Ela já não o temia mais, ainda que uma parte de si dissesse que essa sua atitude de segurança era uma insensatez já que experimentara em primeira mão toda a violência que ele era capaz de fazer.

E no fim foi o lado fera do homem que falou mais alto, fazendo com que ele voltasse a exercer o controle sobre Sansa, trazendo-a mais para si em seu colo, fazendo-a deslizar por suas coxas.

– Beije-me, Passarinho – Ele ordenou em um sussurro, com sua típica voz rouca que arrancou arrepios da jovem.

Ela devia isto a ele. Um beijo. Foi o que ele pediu enquanto ainda estavam a bordo do Sufrágio da Donzela. Um beijo verdadeiro para um falso cavaleiro, pensou consigo mesma. Este era o favor que nobres donzelas davam como recompensa aos cavaleiros que vencem uma justa, algo que ela sempre sonhou em fazer. Por um momento em sua vida dar o seu favor a um príncipe havia se tornado mais apelativo do que a um cavaleiro, mas agora era um falso cavaleiro que ela tinha em mãos, dono de nenhuma terra, de nenhum título e nem de sua própria vida e não era isto que o fazia menos merecedor de seu prêmio. Ele a resgatara mais vezes do que podia contar. Sansa só esperava dar à ele uma recompensa que estivesse a altura do que o seu salvador merecia.

Seus lábios desajeitadamente procuraram os dele e quando se tocaram, foi Sandor quem a guiou, misturando a saliva quente que eles possuíam com o auxílio da língua. Naquele curto espaço em que a boca de ambos estava conectada, as línguas se encontravam e, pressionadas uma contra a outra, escorregavam e deslizavam de um lado para o outro, lubrificadas pela própria saliva que produziam. Era Sandor o condutor destes movimentos que Sansa pouco tinha experiência. Em suas costas, os dedos do homem subiam e desciam pela extensão de sua coluna, se arrastando lentamente toda vez que encontrava as fitas de seu vestido. Ele me livrará destas vestes, hora menos hora os dedos dele acabarão por desatar minhas amarras, tinha certeza disso, e borboletas surgiram e se debateram contra o seu estômago enquanto no vão de suas pernas o calor aumentava.

O beijo se arrastou por um longo período e só serviu para mostrar a ela que estava errada. Sandor não a despiu de seu vestido escarlate e a jovem se sentia estranhamente frustrada com a realidade. Claro que ela estava grata por ele ter respeitado a sua individualidade e caso o seu protetor não a tivesse tratado da forma que lhe convinha, o teria repreendido e solicitado para que não fizesse aquilo. Então por que me sinto assim? se questionou, com o rosto apoiado no ombro de Clegane. O calor no meio de suas pernas a estava incomodando e sentia um desconforto ainda maior em seu estômago, como se estivesse com ânsia de alguma coisa ou alguém.

– Sandor... — Murmurou o nome de quem era o causador de seu mal súbito e a sua voz revelou o quanto estava afetada.

– Uma palavra, Passarinho... — Foi a resposta que obteve. Ele prometera que não a tornaria a machucar, a não ser que ela pedisse por isso com todas as letras. Sem esperar pela resposta, talvez para instigá-la para obter as palavras que queria ouvir, os lábios de Sandor encontraram a pele da lateral do pescoço da jovem e pequenos beijos começaram a ser depositados ali. Inconscientemente um gemido de prazer escapou da garota, demonstrando ao homem que ele estava ganhando esta batalha — Me dê a sua permissão... — Tornou a pedir e Sansa soube que ele estava usando toda a sua força de vontade para se conter.

– E-eu... — Gaguejou, hesitando em dar a sua resposta final. O número de borboletas em seu estômago aumentou e elas estavam mais ferozes em busca de liberdade. Não sabia o que dizer; na verdade temia o que viria a acontecer.

Sansa recusava a admitir que nos últimos tempos aprendera a ver o homem por de trás do Cão de Caça e embora este homem lhe trouxesse medo, ele também despertava um sentimento semelhante ao que sentira por Joffrey quando o conhecera em Winterfell, mas naquela época ela não sabia do caráter doentio do rapaz que fora prometida em casamento, já Sandor ela o conhecia muito bem, sabia o que ele queria e o que ele era capaz de fazer para realizar o seu capricho. Eu não devo, tentou se convencer, buscando retornar a sanidade. Sandor a machucara por culpa do Yros e a quebrara tanto fisicamente quanto espiritualmente. A garota sentia que havia algo diferente dentro de si. Nunca antes daquela tarde fatídica sofrera de ondas de calor no seu baixo ventre e o mero toque de seu protetor a fazia estremecer, estando sensível as mãos ásperas dele. É medo o que você sente, raiva, frustração... Explicou para si mesma e havia lógica em sua conclusão. Depois de tê-la deflorado, Clegane a abandonara à própria sorte. Depois de ter derramado um líquido quente e pegajoso dentro dela tratou rapidamente de vestir as suas roupas e nem se deu ao trabalho de perguntar se ela estava bem, deixando-a estatelada em seu leito e aos prantos, com sangue escorrendo de suas pernas e manchando o lençol amarelado que lhe fora dado. Sansa ainda conseguia sentir o gosto de bebida que fora transferido para os seus lábios pelo beijo que ele lhe dera e o cheiro de mar misturado com o suor do corpo deles naquele momento que por mais que tentasse não conseguia esquecer.

Mas isto tudo era passado e mais uma vez ela se via presa entre os braços dele. Sandor a tinha sentada em seu colo e lentamente abaixou os joelhos, fazendo-a deslizar sobre o seu corpo. Distraída pelos beijos que recebia no pescoço, Sansa só percebeu a real intenção dele quando sentiu algo lhe cutucar no meio das pernas e imediatamente começou a se debater em busca de liberdade, se recordando de maneira viva dos acontecimentos do passado.

– Sansa, pare... — Seu protetor ordenou, com a voz entrecortada como se estivesse sentindo dor.

– Oh, não... Por favor... Não! — Pediu, tomada pelo terror -... Deixe-me ir, por favor!

Mesmo estando com os movimentos limitados pelo grilhão de ferro que prendia os seus pulsos, Sandor deslizou a sua mão pelas costas da jovem até chegar a sua cintura e então a deteve no local. Sansa podia sentir o pênis roçar-lhe a coxa, apenas com as finas roupas impedindo o contato direto.

– Pare Sansa! — Gemeu nervoso com a decisão dela — Eu disse que não ia voltar a tocá-la a não ser que me pedisse!

– Mentiroso! — O acusou.

– Diga, Passarinho, e diga a verdade... Você não sente nada? — A pergunta soou como se tivesse sido uma leitura de seus pensamentos mais secretos e nenhuma resposta lhe veio de imediato, entregando-se ao silêncio e aquela estranha sensação que tinha entre as pernas — O sexo não precisa ser dolorido — Ele a informou, mais uma vez demonstrando sua habilidade de telepatia.

– Mentiroso! — Tornou a acusá-lo.

– Eu não estou mentindo — Rosnou — Eu posso fazê-la se sentir bem. Posso usar meus dedos, minha língua, meu pau... Você se lembra de quando eu a fiz ter um orgasmo só com a língua? — Sandor sorriu com a recordação, enquanto Sansa estremecia em seu colo — Posso fazê-la ter de novo. Só preciso da sua permissão.

Sentir-se bem... Era isso que ela ansiava? Sentir-se bem nos braços dele? Foi inevitável que Sansa corasse mediante tais palavras. De fato ela se sentiu bem quando ele a tocara com os dedos e a língua, ainda que tivesse um turbilhão de fortes emoções a envolvendo enquanto ele invadia a sua individualidade. A realidade é que ela chegara a se sentir tão bem que chegara a ter um... orgasmo. As borboletas em seu estômago se revoltaram mais uma vez. Dar um nome a sensação de bem estar que ansiava era ainda mais vergonhoso do que desejar que ele lhe proporcionasse isso.

–... Se começar a doer... — Sussurrou a frase com a voz trêmula em um tom quase inaudível.

– Eu pararei imediatamente — Sandor completou, dando a ela a segurança que desejava — Eu prometo Passarinho.

As mãos acorrentadas de Clegane permaneciam em sua cintura e seus dedos já não exerciam pressão para mantê-la no lugar. Os penetrantes olhos acinzentados estavam fixos no rosto dela, analisando cada detalhe na expressão que a jovem tinha o que dificultava evitar o contato visual e não demonstrar os seus verdadeiros sentimentos em relação à proposta que recebia.

Realmente promete? — Questionou.

– Me dê sua permissão, Sansa — A voz rouca dele estava ríspida. O autocontrole que ele estava utilizando para dominar os seus desejos estava prestes a acabar.

A garota se arrepiou ao ouvir o seu nome que soou tão doce quanto uma canção vinda dos lábios dele. Sansa meneou a cabeça em sinal positivo com mais movimentos do que era necessário para que ele compreendesse que podia fazer o que desejava.

– Eu permito... — Murmurou, com a cabeça baixa e o rosto inteiramente rubro.

Sansa ouviu uma gargalhada suave escapar dele e o som de correntes se partindo. Não foi preciso pensar muito para perceber que Sandor já não tinha mais nenhum grilhão o detendo e quando ele projetou o seu corpo para cima do dela de modo a fazê-la se deitar, ela sentiu as suas costas atingirem a maciez de uma cama. Com uma mão o homem ergueu o rosto de sua protegida e os seus lábios tornaram a se encontrar com os dela. Sansa permitiu ser guiada, estando insegura com o seu papel para o que estava por vir.

– Você só tem que relaxar e deixar que eu faça o resto — Sandor a confortou, tornando a ocupar os lábios dela com os seus enquanto deslizava as suas mãos pelos braços da jovem até atingirem as laterais de suas coxas, usando pouca pressão e fazendo a ação em seu próprio tempo para que a garota pudesse se acostumar com o seu toque e não o evitasse quando as carícias intensificassem.

Com muito custo a jovem tentava se entregar aos beijos do homem que a tinha em seus braços. Toda a sua concentração estava nas pontas dos dedos dele que deslizavam pelas laterais de seu corpo. Qualquer que fosse a ação dele seria novidade para Sansa. A única certeza que a garota tinha é que ele desejava o que estava oculto pelo vestido, no vão de suas pernas, e era para lá que suas intenções encaminhavam.

Como acreditava, o caminho até a barra do vestido foi fácil de traçar. Sansa estava com os joelhos erguidos ao lado do corpo de Sandor e a sua vestimenta se encontrava enrolado na altura de sua coxa. Quando o seu protetor encontrou a entrada que levava ao contato direto com a sua roupa íntima ele não hesitou e enterrou os dedos no tecido da anágua, puxando-a para baixo. A jovem estremeceu ao toque em sua perna, rompendo o beijo e de prontidão suas mãos encontraram com as dele, em aflição.

– Espere..! — Pediu arfando, não sabendo exatamente o que pediria para ele esperar.

– Sansa... — A voz de seu amante soou áspera ao mesmo tempo em que demonstrava compreensão. Era um alerta para que ela relaxasse. A jovem conseguiu entender a mensagem apenas olhando para os olhos de seu protetor. Agindo a contragosto, mas sabendo que este era o melhor para ela, Sansa parou de exercer força sobre as mãos dele, deixando-o livre para continuar com o que estava fazendo. Sandor permaneceu com o olhar sobre ela um instante a mais e então se sentou sobre os seus joelhos, voltando novamente a atenção para o que estava fazendo, terminando de retirar aquela peça de roupa que ocultava o sexo dela — Você ficará bem, Passarinho — Lhe garantiu, erguendo a perna esquerda da jovem.

Nua da cintura para baixo, Sansa juntou suas coxas em instinto, ocultando a visão de sua flor mesmo tendo uma de suas pernas erguidas. Sandor abriu um pequeno sorriso com a ação, mas não a repreendeu. Em contrapartida, encostou os lábios na canela de Sansa, deixando que o calor e a umidade de seus lábios fossem sentidos pela garota. A jovem estremeceu e sentiu-se arrepiar conforme os beijos foram subindo sem deixar o contato com a sua pele. Agora o homem estava com a boca na parte superior de sua coxa esquerda que estava rígida tamanha era a força que ela utilizava para deixá-las coladas uma na outra. A jovem sabia que esta resistência não duraria muito tempo. Os músculos de suas pernas começavam a ceder mediante ao contato que tinha com os lábios dele e Sandor não facilitava em nada a sua decisão fazendo pequenos círculos com a ponta de sua língua e roçando os seus dentes na pele da região que sugava. As borboletas em seu estômago voltaram e sentiu uma súbita vontade de vomitar pelo incomodo que tinha na barriga.

Sansa levou a própria mão direita a boca, mordendo o dorso da mesma enquanto a esquerda amassava a barra de sua vestimenta misturada com o lençol em que estava deitada no instante em que os dedos ásperos e gélidos de Sandor buscaram abrir caminho entre suas pernas. A respiração da garota acelerou. Cabia a ela decidir se aquela carícia deveria continuar ou parar. Ele a estava tratando tão bem que a curiosidade para saber onde aquilo levaria a deixava excitada, enquanto do outro lado a insegurança de que a qualquer momento ele poderia vir a se tornar bruto a afligia. Por fim, inclinada mais a emoção do que a razão, abriu um pouco mais a passagem até sua flor. O sorriso que tornou a surgir no rosto de Sandor foi percebido pela coxa da jovem, pois os lábios do homem contraíram-se em sua pele. Muito bem, Passarinho, pensou ter ouvido o parabéns vindo dele, mesmo sabendo que no fundo era apenas ela se elogiando pela decisão tomada.

Um gemido de surpresa e prazer escapou de seus lábios. Os dedos de Sandor com voracidade encontraram o que almejavam na primeira oportunidade que surgiu. Escorregadios, gélidos e duros como serpentes de pedra, eles passaram pela sua virilha e foram ao seu clitóris e a entrada de seu canal vaginal em instantes, fazendo pequenos círculos sem nunca penetrá-la.

– Você está tão molhada, Passarinho– Sandor ergueu os olhos posicionando-os sobre sua amante — E é tão bonita internamente quanto é externamente — O homem zombou e Sansa podia sentir as maçãs de seu rosto arderem com a provocação. Sua face estava tão quente quanto a sua região inferior e sentia-se horrivelmente culpada por isto — Você gosta disso, não gosta? — Perguntou por diversão, continuando a massageá-la ali.

A resposta era óbvia e Sansa era ingênua demais. Evitando contato visual, simplesmente meneou a cabeça em sinal positivo.

– E disso, Passarinho, você gosta? — Sandor permitiu que dois de seus dedos escorregassem para dentro dela da forma mais gentil possível.

O gemido gutural ficou preso em sua garganta. Suas mãos agarraram a barra do vestido que estava em sua cintura e os torceu com tanta força que o nó de seus dedos se tornou branco. Sandor por sua vez apenas exibiu o seu genuíno sorriso de satisfação. Era a primeira vez que Sansa o via dessa forma, realmente entretido e feliz com a ocupação que encontrara.

– O Passarinho perdeu a voz, foi? Devo ajudá-lo a encontrá-la? — Riu pelo nariz, movendo os dois dedos dentro dela, tirando e tornando a enfiá-los em seu canal vaginal, aumentando a velocidade a cada estocada.

Assim que ele começou a se mexer o grito de prazer que estava preso em sua garganta se soltou e veio com mais intensidade do que esperava. Sansa sentiu vontade de desaparecer tamanha era a vergonha que sentia, mas estranhamente as borboletas em seu estômago se silenciaram. Talvez fosse o contato direto das mãos dele naquilo que lhe proporcionou este pequeno conforto.

– Aí está sua voz — Sandor gargalhou, continuando a penetrá-la com os seus dedos — Cantará uma canção como recompensa, Passarinho?

Sansa sentia os seus músculos vaginais se contraírem ao redor dos dedos dele e o seu clitóris pulsava de excitação. A garota não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo consigo, e de repente percebeu que sentia vontade de fazer xixi.

– Sandor... Por... Favor... — Pediu entre gemidos, se agarrando ao pouco de ar que circulava em seus pulmões para fazer a súplica.

– O que você quer Passarinho? — Sua voz era suave e afetada. Sansa tinha quase certeza de que ele podia sentir o mesmo que ela, a única diferença é que ele conseguia disfarçar.

Fazer xixi, queria dizer, entretanto não conseguiu e entregou-se ao silêncio interrompido somente por gemidos guturais. Sentia-se brutalmente acanhada com a realidade. A área em que ele tocava queimava e no fundo não sabia se realmente queria ir ao banheiro. O movimento de vai e vem que Sandor fazia enchia o quarto com um barulho estranho e embaraçoso semelhante ao de sucção ou o pular em poças d'água. Sansa soltou uma mão da barra de sua vestimenta e a levou até o rosto, cobrindo os olhos com o antebraço. Ele estava com o rosto tão próximo as regiões ocultas dela e ele podia vê-la claramente, tocá-la e...

– Oh! — Sansa gemeu mais alto desta vez e as suas pernas tremeram de fraqueza.

Algo quente e macio tocara em seu clitóris o empurrando para todos os lados. Sandor havia posto a sua boca em seu baixo ventre, ela reconheceu o toque da língua dele. Com a sensibilidade mais acentuada, Sansa entregou-se completamente as sensações e o coração que batia em sua orelha entrou em um silêncio abafado. Uma onda de calor seguida por uma onda fria percorreu por todo o seu corpo, da cabeça até os pés. A garota contraiu os dedos dos pés e das mãos antes de soltá-los e as panturrilhas que também sofreram do mesmo mal ameaçou uma câimbra que na mesma agilidade que apareceu desapareceu. Sansa sentiu a sua vagina vibrar, o clitóris enrijecer e um líquido quente escorrer do lugar onde os dedos dele estavam inseridos. Por instinto tentou juntar uma coxa na outra, sendo impedida pela presença de Sandor no vão de suas pernas.

A jovem sentiu-se fraca depois desta onda que julgou ser de euforia atravessar o seu corpo. Ela estava anestesiada agora e Sandor já não mais a tocava com os dedos, contudo os lábios dele percorriam cada centímetro de seu baixo ventre, lambendo e sugando, tomando o seu mel como um cão toma água. É isso o que ele é: um Cão... Sansa riu com o pensamento, com as bochechas persistindo em continuarem coradas. Como prometido ele não a machucara nem a forçara a nada e no fim ela realmente estava se sentindo bem.

Quando Sandor terminou de acariciá-la ele depositou pequenos beijos na virilha de Sansa e as suas mãos acariciaram as coxas da garota. Sansa permanecia com o antebraço estendido sobre o rosto. Recusava a fixar os seus olhos nele por medo do que veria ali, mas quando nenhuma voz ou gemido se fez presente no quarto, ela abriu mão de suas resoluções mais do que imediatamente e a primeira coisa que percebeu com o sentido da visão é que o teto não era o mesmo do navio; não, ela estava de volta em seu quarto em Pedra do Dragão com o teto de pedra iluminado por uma coloração vermelha. Há algo errado..., notou.

Do homem que a pouco estava acariciando-a veio o barulho de ranger de dentes, algo que não era típico de Sandor e quando ele pronunciou uma sentença, a garota tinha certeza que não era o seu protetor quem estava ali.

– Rameira! — O homem a sua frente a acusou.

A palavra dura carregava o emblema que Sansa mais temia depois que a sua flor fora colhida, mesmo que contra a sua vontade pelo homem que prometera protegê-la. O coração de Sansa parou de bater durante um segundo e não soube dizer se foi por ter sido chamada de rameira ou pelo tom ríspido daquela voz carregada de asco e severidade que a sobressaltou levando-a a se sentar na cama apoiando-se nos cotovelos. Definitivamente aquela pessoa não era Sandor e quando os seus olhos encontraram com os de seu acusador, o peito da garota encheu-se de terror. Olhos azuis, não cinzas a encaravam de volta.

– Não... — Gemeu, sentindo as lágrimas brotarem e rapidamente pôs-se a cobrir o seu sexo, puxando o vestido para baixo enquanto mordia o lábio inferior para abafar o grito que ameaçava soltar e impedir que lágrimas de constrangimento e ofensa rolassem por sua face. Stannis Baratheon estava ajoelhado a sua frente com as mãos descansadas nos joelhos dela. O Rei de Pedra do Dragão estava nu da cintura para cima e em sua cabeça trazia uma coroa dourada adornada com um coração vermelho e acompanhando a coroa havia dois grandes cornos do cervo nascendo no meio de seus grossos cabelos negros acinzentados pela idade. O rosto de Stannis também trazia mais rugas do que de fato o tinha. No canto da boca do homem havia um líquido espumante escorrendo e o maxilar dele movimentava de um lado para o outro emitindo o som insuportável do hábito de ranger os dentes.

Sansa escorregou para trás na tentativa de afastar-se do Rei de Pedra do Dragão, mas as mãos dele eram duras como aço e quentes como fogo e quanto mais ela se movia, mais as mãos dele esquentavam sobre os seus joelhos e o que primeiro era uma metáfora acabou por se tornar realidade. As mãos de Stannis estavam causando uma dor insuportável onde elas tocavam e da garganta da jovem explodiram gritos estridentes.

– Sandor! — Chamou em um de seus gritos no meio de soluços, lutando o máximo que podia para se ver livre de seu captor.

Ao seu lado, Sansa viu uma sombra deslizar em direção à porta e pelo tamanho da silhueta e o tão familiar elmo em formato de cabeça de cão, só podia ser aquela pessoa pela qual ela clamava. Por que ele não está vindo me ajudar?, choramingou, ainda mais aterrorizada. Aproveitando o momento de distração de Stannis, que também demonstrou perceber aquela presença, Sansa conseguiu finalmente escapar daquelas mãos e disparar em direção à porta, não sem antes ter uma parte do vestido rasgada pelas mãos do Rei que tentava mantê-la no lugar. Foi com acusações de Rameira, Puta, Traidora, Desgraçada e Selvagem vindas do soberano que Sansa deixou-o para trás.

Quando Sansa fechou a porta atrás de si, foi como se ela tivesse entrado em outro mundo. Este novo cômodo não era o corredor que dava ao seu quarto em Pedra do Dragão, também não era nenhum lugar que ela já estivera.

– Que cheiro horrível! — Sansa exclamou, erguendo a manga do vestido para tampar o nariz.

O quarto estava escuro, podiam-se ouvir murmúrios de pessoas rindo e conversando próximas a ela e o barulho infernal de guizos, mas Sansa não conseguia enxergar nada a um palmo diante de seu nariz. No ambiente prevalecia o cheiro de porco salgado, peixe apodrecido e vinho. Girando-se sobre os calcanhares, Sansa voltou a sua direção para a porta que acabara de atravessar, mas não havia nada mais em suas costas e os seus joelhos se repuxaram com a ação. Abaixando o olhar, Sansa percebeu que a pele em que Stannis tocara estava se tornando acinzentada e ao passar a mão naquela região sentiu a textura de pedras. Não, não, não... choramingou, vendo a mancha acinzentada se estender para outras regiões em sua perna que estava ficando pesada e dormente.

– Sandor! — Chamou em um soluço.

Ninguém respondeu. Ninguém parecia ouvi-la ou vê-la, da mesma forma em que ela não via nenhum dos presentes.

Às suas costas Sansa ouviu os murmúrios serem substituídos por gritos e o rufar de tambores e cornos, o tilintar dos guizos também se intensificaram. Com o coração batendo na boca, Sansa tornou novamente a girar sobre os calcanhares em um movimento lento sentindo uma forte dor que se estendia por toda a sua perna. Com os olhos mais acostumados com a escuridão, a jovem percebeu que a exata meia dúzia de passos à sua frente estava àquela sombra pertencente à Sandor Clegane. Com cada movimento requerendo três vezes a energia necessária para um passo, Sansa correu o mais rápido que pôde até aquela figura que estava de costas para ela.

– Sandor... — Tornou a chamá-lo, cravando as suas unhas na manga esquerda dele.

Foi só com a distância entre eles cortada que a garota percebeu que esta pessoa cuja qual estava agarrada não era o seu protetor. No afã de buscar proteção ela só visualizou a cabeça do homem que estava coberta com o que julgara ser um elmo em forma de cabeça de cão.

– M-me desculpe... — Gaguejou, soltando a manga do sujeito, incapaz de se mover com a massa cinza subindo pela sua cintura e a prendendo ao chão.

A figura diante de si se moveu no escuro, voltando-se para ela.

– Sansa... — A voz abafada pelo elmo pronunciou o seu nome. Havia elementos familiares naquela voz, sendo o mais marcante deles o forte sotaque nortenho.

Pai? A possibilidade quase a arrebatou de seu corpo. Foi apenas a lógica que evitou que ela se lançasse aos braços daquela criatura. Meu pai está morto, se recordou com amargor na garganta. Não tinha como ser Lorde Eddard Stark. Stark... Sansa cerrou os olhos e então, ela viu algo que não havia visto antes. Era isso, aquela pessoa era um Stark! Quase quatro anos distante de sua Casa não era o suficiente para que ela se esquecesse da voz de seu irmão mais querido e o último da linhagem masculina vivo. Era óbvio que a voz dele se agravara nestes anos, ele agora deveria estar beirando os vinte e um anos.

– Robb..!? — Suas mãos encontraram com as dele e elas eram ásperas como a de um cavaleiro. Era ele, ela sabia disso, tinha certeza. O seu corpo reagia a presença do sangue de seu sangue — Robb..! Essas são as mãos do meu irmão..! Oh, Robb, como eu senti saudades! — Choramingou com o calor voltando a incendiar o seu coração. Afinal de contas, havia esperança de eles voltarem a se reencontrar.

– Minha doce, doce irmã..! — Robb desvencilhou as suas mãos das de sua irmã e passou os seus braços ao redor dela, envolvendo-a em um abraço. Sansa desejou que pelo menos uma luz estivesse acesa para que ela pudesse enxergá-lo.

Com ou sem luz, Sansa buscou os olhos do irmão antes da massa cinzenta dominar o seu pescoço e enrijecer a sua articulação, mas aquele horrível elmo continuava a cobrir-lhe a face. Julgando ter visto algo se mover naquela parte da armadura, a jovem mais uma vez cerrou os olhos para ver melhor, justamente quando um clarão surgiu no fundo do aposento. Sansa não soube dizer de onde veio ou o que causou aquela iluminação, outra coisa dominou toda a sua atenção. O que ela acreditou ser um elmo que o seu irmão mais velho usava se revelou como uma cabeça de lobo, não de um lobo qualquer, de um lobo gigante e o que ela acreditou ter visto se mover eram os olhos dos animais, que apesar de ter tido a cabeça decepada movia suas pupilas e piscava sem parar. O Jovem Lobo, o apelido de seu irmão ecoou pela sua mente até se projetar em seus lábios em uma forma de negação através de um alto Não! que sobressaiu acima de todos os outros gritos do aposento. Usando tudo o que lhe restava de forças nos braços, Sansa empurrou o seu irmão. Agora definitivamente mobilizada, da ponta dos pés até o último fio de cabelo, a garota assistiu com pavor a cabeça de Vento Cinzento cair da cabeça de Robb, enquanto o corpo inanimado de seu irmão atingia o chão. Com a escuridão voltando a tomar conta do ambiente e o grito das pessoas se tornando cada vez mais abafado, era apenas aquela maldita campainha que tilintava de um lado para o outro próximo a ela e os tambores ecoando uma melodia que só mediante o silencio que se formava que ela identificou como sendo As Chuvas de Castamere.

E quem é você, disse o altivo senhor,

pra que a vênia seja profunda?

Só um gato com um manto diferente,

essa é a verdade fecunda.

Num manto de ouro ou num manto vermelho,

suas garras um leão mantém,

e as minhas são longas e afiadas, senhor,

como o senhor as tem também.

E assim falou, e assim falou,

o senhor de Castamere,

mas agora a chuva chora no seu salão,

e ninguém está lá para a ver.

Sim, agora a chuva chora no seu salão,

e ninguém está lá para a ver.

Quando Sansa acordou em sua cama, as campainhas e a música foram trazidas de seu sonho para a realidade. Arfando pela aventura que tivera no lugar aonde a alma vai quando o corpo dorme, a garota sentou-se na cama, tocando em seus braços e em suas pernas, garantindo que nenhuma mancha acinzentada a acompanhou. Aliviada por não ter encontrado nada anormal, Sansa voltou a se deitar, passando as mãos sobre o rosto como que para dispersar os temores dos recentes pensamentos.

Eu sonhei com o Sandor, se recordou, corando violentamente com as imagens da primeira lembrança que tivera, e então era Stannis quem estava no lugar dele, usando uma coroa dourada e galhos de cervo na cabeça, continuou. E então eu vi Robb e oh... Ele estava com a cabeça de Vento Cinzento sobre o pescoço! a cabeça de Sansa parecia prestes a estourar com esta última recordação e a maldita campainha e música que ecoava em seu quarto.

– Você poderia, por favor, calar a boca!? — Esbravejou e não demorou muito para que os pensamentos dela fossem o som mais alto do ambiente — Muito obrigada — Agradeceu ao nada, furiosa.

Essas malditas campainhas e canção deveriam ser proibidas e haver punição para quem as usam e cantam, como se só no sonho não fosse ruim o suficiente. Sansa tornou a se sentar na cama e pela rapidez com que fizera a ação, viu o quarto girar à pouca luz que emanava do fogo quase apagado da lareira. As sinetas e As Chuvas de Castamere eram elementos de sua fantasia, não tinha como ela ter se projetado em sua realidade.

No canto do quarto atrás de seu biombo a garota viu uma sombra se locomover e as campainhas tilintarem. Um chapéu de bobo, Sansa reconheceu o adorno que a sombra trajava na cabeça. Estivera familiarizada com este tipo de adereço. Em Porto Real ela tivera os seus encontros escondidos com o bobo de Joffrey, Sor Dontos, o ex-cavaleiro bêbado que se propusera a ajudá-la a deixar a capital. Estou em Pedra do Dragão, não tem como este bobo ser Sor Dontos, constantou, sentindo-se ser dominada pela curiosidade. Mordendo o lábio inferior pela imprudência que estava prestes a fazer, a jovem deslizou da cama e seguiu o caminho que vira a sombra fazer.

De seu leito até o biombo localizado entre a parede da janela e a parede da lareira, andando na ponta dos pés para evitar revelar as suas intenções, a garota chegou a tempo de ver uma das pedras se deslizar, fechando a passagem que o bobo utilizara para sair e possivelmente entrar em seu quarto. Ele não pode saber que eu o descobri, confidenciou a si mesma e disposta a continuar com esta investigação, agarrou o seu roupão que estava trespassado por cima do biombo e o vestiu enquanto contava mentalmente até vinte, de modo a dar tempo o suficiente daquela pessoa se afastar da passagem. Transcorrido o tempo, com os seus dedos pálidos e trêmulos ela tocou a pedra que fora aberta, mas nada aconteceu. Eu preciso de luz, compreendeu e correu até a penteadeira onde um lampião estava repousando. Usando o fogo já criado da lareira para acender o óleo, Sansa correu para a passagem mais uma vez, lutando contra o atraso na perseguição.

Na clara luz no dia, Sansa não percebeu nada de anormal na parede de pedra atrás do biombo, entretanto agora que sabia que havia uma passagem secreta ali, com o auxílio da fonte de iluminação que tinha em mãos começou a procurar qualquer anomalia na estrutura até que enfim encontrou no rodapé de onde fica a passagem um pedaço circular de pedra com frestas ao seu redor. Quando Sansa o tocou, a pedra mostrou resistência ao ser girada para o lado esquerdo, mas quando conduzida para o lado oposto, ela rolou facilmente de forma inaudível. A jovem só soube que o sistema secreto havia funcionado ao ouvir o ranger da pedra se abrindo. Usando a mão livre para abrir caminho para dentro do buraco na parede, Sansa adentrou o espaço, tomando cuidado no ambiente novo em que estava entrando.

A palavra breu deveria ter sido criada para descrever passagens secretas. Quando criança em Winterfell, Sansa se aventurou uma única vez em uma passagem que dava do canil até a cozinha, apenas porque Robb estava com ela. Teias de aranha, sons das patas de pequenos animais e bater de asas eram perturbadores no percurso dentro do caminho estreito que mal dava para andar duas pessoas magras lado a lado, mas o pior de tudo eram sem sombra de dúvidas a escuridão e a sensação de que se ela se perdesse acabaria morrendo sem que ninguém a encontrasse. Eu estou no sétimo andar, no segundo quarto do lado direito de quem chega ao corredor, se recordou a modo de fixar a informação em sua mente. Sabia que teria sido mais sensato fechar a porta pela qual passara, contudo não queria se arriscar sendo que além da luz do seu lampião a baixa claridade que vinha do seu quarto dava cores ao apertado corredor em que se encontrava.

Vindo a alguns metros abaixo dela e de qualidade abafada, Sansa pôde ouvir o som das irritantes campainhas. Então ele desceu. Mirando a sua lanterna de um lado para o outro ela reconheceu que de seu lado esquerdo não existia nada além de uma parede sólida a um passo de distância de onde ela saíra o que era compreensível, visto que ali era a parede de sua janela, enquanto do seu lado direito havia uma escuridão no rodapé da parede que não ficava a mais de uma dezena de distância de onde estava. Sansa caminhou até lá e quanto mais se aproximava ela pôde perceber que a escuridão se tratava de uma escada. Dando uma breve olhada para trás para fixar na memória onde ela deveria voltar, ela desceu, colocando os seus pés descalçados um na frente do outro tomando o máximo de cuidado possível, pois ali não existia corrimão e os degraus eram íngremes.

Cerca de vinte e três degraus depois, ela finalmente encontrou o solo e embora tivesse andado pouco, o suor escorria de sua testa. Neste novo andar o corredor não ficava às costas nem na frente de quem descia a escada, pelo contrário, ficava ao lado esquerdo de quem descia a escada e no fim de sua extensão havia duas escadas, uma que descia e outra que subia cada uma com espaço para por um único pé por degrau. Sansa engoliu em seco. A escada que descera já fora um suplício e ela pelo menos ocupava toda a extensão do corredor. Já estas novas... E eu nem sei para onde o bobo foi. Como que respondendo a questão, no andar de baixo a campainha ainda tilintava. Respirando profundamente para encher o peito de coragem, a garota seguiu com o plano e acabou descobrindo que exceto pelo sentido da direção dos corredores, o lugar era muito parecido com o anterior indicando que todos os lugares secretos seguintes eram a mesma coisa. Se um era horizontal, o seguinte era vertical e cada um apresentava três escadas. A que ela descera, mais uma para descer e mais uma para subir. Sansa supôs que a escada oposta pela qual descera e que também subia levava a um quarto diferente. Depois de ter decido mais um lance de escada a garota estava prestes a confirmar a sua teoria. Agora as sinetas ecoavam acima de sua cabeça. Para não perder a trilha que a pessoa que tinha toda a sua curiosidade estava fazendo, ela se acelerou, começando a se acostumar com os lances de escadas. Fazendo cada passo seu emitir um tamborilar abafado pelo contato de seu calcanhar com a pedra, Sansa seguiu as campainhas, subindo e descendo lances de escadas até que, depois de ter subido duas vezes e descido mais duas as sinetas pararam e quando ela chegou ao último degrau desse novo corredor ela chegou a tempo de ver a escuridão tornar a tomar conta do ambiente. O bobo finalmente chegara aonde queria.

Dentro de sua caixa torácica o seu coração estava acelerado e batia em seus ouvidos deixando-a surda à quase tudo. Um sorriso arteiro surgiu em seu rosto antes de seus lábios entreabrirem-se em preocupação. Hora alguma pensara que podia estar sendo guiada para uma armadilha. Ela nem ao mesmo sabia se o bobo das sinetas não era uma imaginação sua. Estúpida!, repreende-se. Ainda não era tarde demais para voltar, sabia disso. Podia dar meia volta e seguir pelo caminho que viera enquanto ele ainda estava fresco em sua mente. Entretanto, se eu abrir esta porta... a palma de sua mão livre coçava. Já havia ido longe demais para se arrepender. Com o auxílio da lamparina procurou no rodapé da parede até que encontrou a pedra arredondada que servia como gatilho de liberação da passagem. Sem gastar mais tempo com o seu bom senso, girou a manivela.

Assim que a pedra deslizou cerca de três centímetros os guizos voltaram a ecoar sincronizados com a música que o bobo cantava e além da música, Sansa reconheceu os risos de uma criança. Tudo indicava que o percurso que fizera a levara até o quarto onde a filha de Stannis estava trancafiada.

De onde eu vim, para onde eu vou,

Lá estava, cá estou.

Cada quadrado, um segredo,

Cada segredo bem guardado.

– Você não me vai dizer aonde foi? — A voz sorridente e ao mesmo tempo melancólica da criança questionou o bobo quando ele terminou de cantarolar.

Novamente, o bobo soltou os mesmos versos como resposta e Sansa compreendeu que aquilo era uma charada cantada e não uma música propriamente dita. Curiosa para ver o rosto dos locutores, a jovem arrastou-se para fora da passagem secreta. Diferente do seu quarto, neste novo local em que chegara havia uma enorme e pesada tapeçaria com o espaço de um pé da parede de onde ela saíra o que era algo bom, pois Sansa podia estar ali sem ser notada. Isso foi o que ela pensou. Na ação os seus olhos arderam com a tamanha quantidade de poeira presa na tapeçaria e os seus espirros revelaram a sua presença.

– Quem está aí? — A dona do quarto perguntou da forma mais assustada que uma criança podia deixar transparecer.

Sansa não se mexeu, não foi preciso. O bobo com toda a sua graciosidade ergueu uma parte da tapeçaria que cobria toda aquela parede, fazendo levantar vários flocos de poeira que se espalharam pelo ar. Tossindo e espirrando, a imagem de Sansa foi revelada.

– É uma garota... — A menina comentou em êxtase.

– Eu sinto muito... Não queria incomodá-la — Sansa deu três passos à frente com os olhos semicerrados e chorosos pela alergia — Mas o seu bobo foi até o meu quarto e eu... Oh! — Exclamou, cambaleando um passo para trás e as suas costas encontraram com a tapeçaria que o bobo baixara depois dela ter se afastado de seu esconderijo.

A menina diante de seus olhos não deveria ter mais do que dez anos e mesmo estando sentada no chão sobre um tapete de pele ela não era alta como os pais, sendo uma coisinha bem frágil, como a boneca que ela tinha em mãos, exceto que a princesa não tinha a beleza de uma boneca e fazia Sandor Clegane parecer o ser mais bonito e menos perigoso de todo Westeros. A Princesa tinha uma vasta cabeleira negra caindo em seus ombros e seus olhos eram de um azul bem claro como o céu na manhã de um típico dia de verão, enquanto a sua pele era branca como uma nuvem, havia uma tempestade se formando na pele do rosto dela. Do lado esquerdo começando no pescoço e terminando na lateral da têmpora da menina havia uma massa pedregosa crescendo, como aquela que Sansa sonhara que estava dominando suas pernas.

– Escamagris... — Deixou o nome da doença escapar em um sussurro.

Sansa sabia que a escamagris é obtida em lugares de muita umidade e pouca luz solar e que transforma a pele da pessoa infectada em uma grossa camada pedregosa acinzentada e tende a se espalhar por todo o corpo até que a pessoa morra vitimada pela doença. Como se isso não fosse ruim o bastante, o escamagris é altamente contagioso e deve ser evitado o contato com uma pessoa afetada e com qualquer coisa que ela tiver tocado; até mesmo ficar no mesmo ambiente que o doente é considerado um risco.

– Eu devo ir... M-me desculpe... — Disse, cruzando os braços na frente do peito em forma de proteção. Quando chegasse ao seu aposento ordenaria que preparassem um banho para ela e que suas roupas fossem queimadas e não se importava se tivesse que acordar todos os servos de Pedra do Dragão desde que tivesse seu pedido atendido. Agora Sansa compreendia porque a filha de Stannis era trancada em seu próprio quarto. Não era para a segurança dela, mas para todos ao seu redor.

Sansa parou com a grande tapeçaria posicionada às suas costas. No rosto da garotinha Sansa viu um grande pesar crescer. Shireen mordia o lábio inferior e suas mãos se agarravam na boneca de porcelana que segurava. Seus olhos amendoados olhavam para um ponto qualquer do tapete de pele que estava sentada.

–... Eu sinto muito... — A frase veio tão baixa que se o fogo da lareira tivesse crepitado naquele momento ninguém seria capaz de afirmar que a garotinha dissera alguma coisa.

– A lady foi rude, foi sim, foi sim — O bobo interveio, saltando de um pé para o outro até encontrar a sua mestra, fazendo suas campainhas tilintarem na ação. Com a atenção voltada para o bobo, Sansa percebeu que o rosto dele era coberto por quadrados vermelhos e verdes, a mesma cor de suas vestes. Uma pintura grotesca para uma pessoa grotesca, pensou — A princesa não tem culpa de ser assim, não tem, não tem — O bobo abaixou, ficando na altura de sua senhorinha.

– Você não deveria ficar tão perto, é contagioso! — Sansa exclamou, tentando evitar que o bobo fosse contaminado pelo escamagris. Não importava se estava sendo rude, quando a questão é doença todo o cuidado é pouco, mesmo que um relato de suas ações chegasse à Stannis e fosse punida por isto.

– O da princesa não é, não é, não é — Contestou o bobo com uma das mãos apoiada na cabeça da princesa em gesto de reconforto.

– O Meistre Cressen impediu que o escamagris se espalhasse quando eu ainda era um bebê... — A voz doce e trêmula da menina informou Sansa sobre sua condição. A convidada de Pedra do Dragão pôde perceber que havia lágrimas acompanhando a sentença.

Então por que um lado do seu rosto é acinzentado? formulou a questão em sua mente, mas não teve coragem de proferi-la. As lágrimas da criança a comoveram e apesar de significar um risco potencial à sua vida não havia motivos para magoá-la mais do que o necessário. Sansa sabia que o ponto fraco de Sandor era o seu rosto queimado, talvez não fosse muito diferente a fraqueza da princesa de Pedra do Dragão.

– Então por que Lorde Stannis a tranca aqui? — Indagou. Se o escamagris da garotinha não era contagioso, não conseguia encontrar uma razão plausível para a princesa ser escondida.

– Meu pai não me trancou aqui... — A menininha limpou as lágrimas que escorreram no dorso de suas mãos. Apesar de estar respondendo a todas as questões de Sansa, seus olhos não se encontraram nenhuma vez -... A porta está aberta — Completou.

Dois andares acima e estarei de volta em meu quarto. Sair pela porta de entrada era mais chamativo do que pela passagem secreta e há essas horas dificilmente encontraria alguém para questionar o seu paradeiro. Ali não era Porto Real e depois da partida dos Florent o número de guardas decaiu consideravelmente. Sor Davos lhe confidenciara que a ida da Rainha Selyse estava relacionada com a sua estadia em Pedra do Dragão. Sansa tinha esperança de que a Rainha fora a escolhida para levar palavras de negociação ao seu irmão, Robb, e que em breve ela poderia se reencontrar com a família.

Sansa deu meia dúzia de passos até a porta e então parou, faltando metade do percurso para atingir o seu objetivo de deixar o quarto da Princesa. Sansa conhecia o seu próprio gênio de julgar precipitadamente as coisas e talvez estivesse errada em fugir daquela menininha solitária confinada a companhia de um bobo e longe de sua mamãe. Em Porto Real ela fora tratada da mesma forma que esta princesa, condenada a companhia de Sor Dontos, o único que ela percebeu no período que demonstrava tentar ajudá-la.

– Qual... qual o seu nome? — Sansa perguntou, tentando soar amigável.

Os olhos da princesa piscaram duas longas vezes, como se ela não acreditasse que a intrusa ainda estivesse ali e lhe fazendo perguntas tão banais, sendo que há menos de alguns minutos atrás disparava aversões contra ela.

– Shireen... — Disse em um murmúrio.

– E... E o nome do bobo, qual é? — Perguntou plenamente consciente de sua inconstância, tentando o máximo que podia deixar a sua voz altiva e cordial.

O bobo se pôs em pé e com um movimento rápido de seus calcanhares virou-se na direção de Sansa e fez uma reverência teatral tirando o chapéu de sua cabeça enquanto se apresentava.

– Cara-Maralha, ao seu dispor, senhorita!

– Prazer em conhecê-los — Sansa fez uma reverência formal — Me chamo Sansa Stark.

– Eu sei — A princesa confessou — Gendry me contou — Havia um sorriso inocente no rosto da garotinha.

– Gendry?

– Sim, o meu primo — Falar sobre o rapaz trazia cor ao rosto de Shireen, Sansa percebeu — Ele veio no navio de Sor Davos, junto com você e Lady Melisandre.

O bastardo, filho do Rei Robert, Sansa se recordou. Não tivera oportunidade de conversar com ele, nem sentiu vontade de fazê-lo. Gendry fora um ferreiro em Porto Real e ela duvidava que um ferreiro tivesse qualquer história interessante para contar.

– Você conversa com ele? — Mostrou-se surpresa. Ele fala de mim? Sentiu-se curiosa em saber o teor da conversa que eles tinham.

– Ah, sim! Ele é o meu primo e vem me visitar todas as noites — O semblante de Shireen voltou a ficar melancólico — Exceto hoje. O Cara-Malhada foi tentar descobrir o motivo. Parece que ele foi trancado nas masmorras... — Os olhos da princesa pela segunda vez encontraram com os de Sansa — Ele disse que você era muito bonita; ele tinha razão — Deixou escapar um sorriso simples com amargura atrás.

– Por que ele foi trancado nas masmorras?

A princesa deu de ombros. Sabia que não podia esperar muita informação de Shireen, ela só tinha dez anos e preferia a solidão de seu quarto.

– Você gosta de bonecas? — A princesa perguntou de prontidão antes que um silêncio constrangedor formasse entre elas e levasse Sansa de volta ao seu caminho para fora do quarto.

– Eu... — Não completou a resposta. Os olhos de Sansa se perderam no quarto, a procura de todo o sinal de brinquedo que estava presente.

Nas mãos da Princesa Shireen havia uma boneca muito bonita feita de porcelana, trajando um vestido de cor roxa com muitos babados e bordados. Em cima do tapete em que a garotinha estava sentada havia um pequeno baú que Sansa identificou como sendo o lugar onde eram guardados os vestidos de suas bonecas que estavam expostas em uma pequena estante de duas prateleiras fixadas na parede às costas de onde a princesa estava, de frente para a porta de entrada e entre a cama e a cômoda. Sansa contou um total de oito bonecas, nove incluindo a qual Shireen brincava.

– Meu pai me dá uma de presente a cada aniversário — Shireen comentou, percebendo a atenção que Sansa dava as bonecas.

Então ela tem nove anos, constatou.

– A última boneca que ganhei do meu pai foi quando cheguei a Porto Real, como um pedido de desculpas — Se recordava da atitude de seu pai ao lhe dar a boneca como forma de distração pela perda de sua loba, Lady. Hoje Sansa sabia que havia sido injusta pela forma que o tratara dizendo que não brincava mais com bonecas, mesmo que o que tivesse dito fosse verdade. Se soubesse que aquele seria o último presente que ganharia do pai o teria recebido de uma forma mais conveniente. Teria de qualquer forma a levado consigo para fora de Porto Real e talvez agora não se sentisse tão mal pela boneca ter se quebrado durante a viagem que fizera ao lado de Sandor. Sinto como se não tivesse valorizado o que meu pai fez por mim quando em vida, concluiu após analisar os seus sentimentos e sentiu um peso sair de seus ombros — Mas eu sem querer a quebrei — Confessou.

– E ela era bonita? — Quis saber a menininha.

– Muito bonita. A minha foi feita pelo mesmo artesão que faz os brinquedos da Princesa Myrcella — Se vangloriou, não sabendo se deveria ou não se referir aos filhos de Cersei com os títulos em que eles são conhecidos em Porto Real — Mas ela parecia mais a representação de uma camponesa do que de uma princesa, o que torna as suas bonecas mais bonitas — Mentiu para agradar a menina. As bonecas da princesa estavam envelhecendo muito rápido devido a forte maresia, diferente da que tivera.

– O Cara-Malhada disse que você é uma princesa, assim como eu — Shireen comentou com timidez. A menina parecia gostar de mudar de assunto seguindo a linha de sua curiosidade momentânea, o que não era uma atitude muito educada, entretanto Sansa escolheu culpar a falta de relação social como causadora deste comportamento.

Sansa ponderou antes de decidir concordar ou discordar da princesa. Se concordasse com essa afirmação em Porto Real, Joffrey mandaria algum de seus cavaleiros da Guarda Real lhe tirar sangue; e faria o mesmo se eu negasse.

– Meu irmão se proclama Rei do Norte, mas eu não sou uma Princesa — Julgou esta resposta como a mais adequada e os seus olhos procuraram o rosto malhado do bobo. Não gostaria que esta história chegasse aos ouvidos do Rei de Pedra do Dragão. Sansa não o conhecia o suficiente, mas sabia que ele não gostaria de ser recordado das pretensões de Robb Stark — Mesmo porque se eu fosse uma princesa você não poderia ser princesa.

Assim que a última frase saiu de sua boca ela se arrependera amargamente do que dissera. O rosto de Shireen se contorceu em ofensa.

– Por que não? — Foi o bobo quem a questionou, colocando as mãos na cintura e batendo um dos pés no chão repetidas vezes.

Sansa sentia gotas de suor frio escorrer por sua face e as suas mãos transpiraram. A frase que dissera podia ser mal interpretada e temia que a sua tentativa de correção do que dissera só viria a piorar ainda mais a situação.

– P-por que... — Gaguejou — Por que o Rei Stannis e o meu irmão não tem um acordo; o meu irmão deseja separar o Norte do resto de Westeros e o Rei Stannis deseja governar do extremo sul até a Muralha.

– Como você sabe que eles não têm um acordo? — A princesa perguntou com a expressão um pouco mais suave, mas ainda desconfiada.

– S-se eles tivessem um acordo eles estariam lutando lado a lado, o que não é o caso. O meu irmão está lutando suas próprias batalhas nas terras fluviais e o Rei Stannis está com os seus homens aqui em Pedra do Dragão — Esperava profundamente que a sua explicação convencesse a princesa Shireen de que não havia malícia em sua frase anterior.

– Mas eles ainda podem se unir — Shireen a informou.

– Sim, eles podem — Concordou.

– E nós poderemos ser princesas ao mesmo tempo, então.

– Sim, poderemos.

– E poderemos comparecer a bailes e torneios juntas — O rosto da princesa se iluminou — E poderemos aprender sobre a História de Westeros juntas e também poderemos ler os romances e as poesias sobre cavaleiros e donzelas! — A menina estava claramente empolgada e o coração de Sansa se apertou ao ver a reação da garotinha com as fantasias que criava em sua mente.

Sansa era velha de mais para se ocupar em aprender a História de Westeros e conhecia o mundo para se iludir com contos de cavaleiros e belas donzelas. Caso viesse a ser declarada princesa e o reino voltasse a ficar em paz, a sua participação em bailes e torneios seria apenas para que pudesse encontrar um marido adequado à sua condição social. E quando ele descobrir que não sou mais donzela... Sansa engoliu em seco. Sua família jamais permitiria que ela se casasse com Sandor Clegane, o homem que a deflorara e nem ele desejaria se casar com ela, como já deixara bem claro. Sabia que qualquer outro homem que descobrisse que ela não era mais intacta tinha o direito de devolvê-la para a família e se caso ele desejasse ficar com ela seria por seu título e suas posses e não porque estava apaixonado por ela. Ninguém se casará comigo por amor, constatou.

– Eu já cresci e não tenho mais prazer em ler estas histórias — Respondeu com pesar.

– Por que não? — A menina perguntou, voltando a exibir o seu ar de melancolia. A princesa Shireen não seria uma garota bonita mesmo que seu rosto não houvesse sido afetado pelo escamagris. Sansa sabia que ela também só se casaria por ser filha de quem ela era e apenas se Lorde Stannis ganhasse a guerra. Decidiu que entre o seu destino e o de Shireen, era o da princesa o mais triste.

– Existem tantos cavaleiros verdadeiros quanto existe deuses — Repetiu a mesma frase que Clegane lhe dissera uma vez há muito tempo atrás.

Sansa achou que a princesa lhe lançaria um olhar de repreensão e medo, mas nada disso aconteceu. A menina mantinha os seus olhos fixos em Sansa e a observava com curiosidade. Durante meio segundo todos permaneceram em silêncio.

– Você não acredita em cavaleiros de verdade? — Shireen perguntou, dando fim naquela situação um tanto quanto hostil.

– Nem nos de mentira — Confessou.

– E nem nos deuses?

– Nem nos deuses.

– Em nenhum deles? — A menina insistiu.

Sansa hesitou. Não acreditava na Fé dos Sete, nenhuma das sete divindades fizera qualquer coisa para ajudá-la, nem os velhos deuses do Norte, mas quando ela combinara de se encontrar com Sor Dontos no antigo Bosque Sagrado de Porto Real ela sentiu que os deuses estavam ajudando-a ao dar-lhe a esperança de um futuro fora da toca dos leões. Talvez lá no fundo de seu coração ainda houvesse espaço para a fé de seus ancestrais.

– Não — Preferiu responder com negação. As dúvidas que tinha dentro de si era problema dela e de ninguém mais, sem contar que em seu ponto de vista era mais fácil substituir um não com um sim do que um sim pelo não.

– Nem no Senhor da Luz? — Shireen arregalou os olhos em expectativa.

Sabia que existiam outros, como o Deus Afogado, o Deus das Não-Sei-Quantas-Faces, o Grande Garanhão, entre outros, mas se esquecera completamente de considerar o deus que a mulher vermelha lhe apresentara. A maioria das pessoas de Pedra do Dragão adotara esta nova religião, contudo Sansa não tivera provas do poder desta divindade, então no momento a colocaria no mesmo lugar em que encontrava os Deuses Antigos e os outros que não tivera contato, mas a princesa Shireen não precisava saber disso.

– Não — Tornou a responder.

Novamente o silêncio tornou a jazer entre elas. A atenção da menina voltara-se para um ponto qualquer no tapete de pele. Sansa percebeu que a princesa estava pensando. Foi Shireen que novamente rompeu o silêncio constrangedor entre elas.

– Eu também não acredito... — Confessou em um sussurro, lançando um olhar furtivo para a fogueira de seu quarto, como se houvesse alguém escondido ali mesmo com o fogo alto a crepitar — E não gosto desse Senhor da Luz, ele me dá medo.

Sansa também sentira medo. A maneira de adoração ao Deus Vermelho era ofensiva. As grandes fogueiras acesas ao cair da noite conseguiam iluminar tanto quanto o sol no dia mais claro do verão e o calor que o fogo proporcionava em sua pele continuava a esquentá-la mesmo depois de ter se afastado para as sombras. A moça não gostava desta sensação, pois sentia que ela não era natural e a fazia acreditar que havia uma força mística ali, podendo ser magia ou o próprio Deus.

– Ele também me assusta — Concordou, abraçando a si mesma.

– Mas Lady Melisandre me assusta mais — A voz de Shireen abaixou ainda mais — Ela queimou o meu tio junto com as estátuas dos Sete e disse que era uma oferenda ao Senhor da Luz — As mãos da menina tremiam e o rosto dela estava pálido. Relembrar os horrores que caíram sobre sua família ainda assustava a princesa.

– Ela fez o quê? — Sansa não acreditou em seus próprios ouvidos e quando Shireen repetira o que acabara de confidenciar à ela, não soube o que fazer ou dizer. O certo seria consolá-la, falar palavras de apoio, entretanto ela não conseguia, havia uma questão em sua garganta queimando para ser feita.

– O Rei Stannis não se opôs? — Não conseguia acreditar que o justo Lorde Stannis tenha ficado parado apenas assistindo o cunhado arder em chamas.

Os olhos da princesa se tornaram opacos, embora não houvesse nenhum sinal de lágrimas se formando. Sansa a admirou por isso. Mesmo sendo uma criança de nove anos a princesa demonstrara neste caso uma maturidade emocional carregada de potencial que Sansa tinha certeza que quando a menina tivesse sua idade, então ela teria se educado ainda mais e as linhas de seu rosto conseguiriam ser tão impenetráveis quanto às do pai dela. Temo apenas que a melancolia não a deixará, nem mesmo a sua insegurança a respeito de sua doença, pensou. Se ficassem em Pedra do Dragão por mais tempo tentaria discretamente aprender um truque ou dois com a menina para conter suas lágrimas.

– Não havia muito que ele podia fazer... — A menininha respondeu.

Mentira. Lorde Stannis se considerava o Rei legítimo de Westeros e um rei pode fazer o que deseja, Joffrey fazia o que queria e não era punido por isso. Sem contar que o Rei que de fato estava sentado no Trono de Ferro era injusto, enquanto se Stannis fosse realmente o que o sei pai dizia, então era tão justo e nobre quanto um Stark.

Sansa segurou suas mãos para conter o nervosismo. Havia tanto que desejava dizer para a princesa Shireen, porém seria um erro que poderia custar a sua língua.

Por sorte — ou azar -, no corredor comum que levava ao quarto da princesa ecoou o barulho do salto do sapato contra a pedra.

– Alguém está vindo! — O rosto da menininha voltou a se colorir e rapidamente ela se pôs em pé. Sansa percebeu que a princesa deveria ter o mesmo tamanho de sua irmã, Arya, sendo mais baixa do que a média das outras garotas do reino.

– A senhorita não deveria estar aqui, não deveria, não deveria — O bobo correu até Sansa e segurou-a pelo braço, arrastando-a até a tapeçaria.

– Você deve ir — Shireen a informou em um sussurro ansioso, correndo para a cama para se embrulhar em suas cobertas e fingir que estava dormindo para quem quer que fosse que cruzaria aquela porta.

Cara-Malhada já havia erguido a tapeçaria e empurrava indelicadamente Sansa para de baixo dela quando a voz da princesa tornou a chamar sua atenção.

– Por favor... Volte quando puder — A menininha pediu com vergonha e insegurança.

– Voltarei — Respondeu de prontidão, dando um sorriso gentil para a Princesa antes de desaparecer atrás da tapeçaria, ouvindo antes da passagem que seguira até ali se fechar às suas costas a voz de Sor Davos avisando a menininha da chegada de um corvo branco algumas horas atrás vindo da Cidadela anunciando a mudança de estação.

Asas negras, palavras negras, este ditado fazia referência às mensagens recebidas por corvos comuns. Talvez o corvo branco pudesse ser interpretado como um bom presságio, algo como palavras brandas, asas brancas, mas tudo o que vinha em sua cabeça naquele momento era que o outono havia acabado.

O inverno está chegando, disse para si mesma o lema de sua Casa e por alguma razão isto revoltou o seu estômago.

Notas finais
N/A: Se a Sansa não tem mais a loba dela, por que ela não pode ter sonhos verdes então, não é mesmo? Principalmente com o Bran e o Rickon mortos nesta história. Espero que tenham gostado desta decisão. :) By the way, próximo capítulo ainda será da Sansa e será uma sequência imediata aos últimos acontecimentos deste capítulo (achei que estava ficando grande de mais e resolvi dividir) e se chamará: A Rainha de Pedra do Dragão. P.S.: Dedico este capítulo à Silvinha Hyuuga que me deu à história recomendação como presente de Ano Novo. Pois bem, Silvinha, este é o meu presente de Ano Novo para você!