O Voo Do Passarinho
24 Capítulo 24 - Sobre Cães e Passarinhos

Pedra do Dragão era mágico apenas nos livros, com as pedras negras esculpidas em forma de dragão remetentes à época em que os Targaryen ainda governavam os Sete Reinos. Atualmente, nas mãos de Stannis, o lugar não passava de cinzas da glória de outrora; a única magia presente ali vinha de Lady Melisandre, a sacerdotisa de R'hllor. Em uma ilha cinzenta, a mulher vermelha era a única que trazia vida — e morte — consigo.
Ainda estava no primeiro dia da chegada de Sansa à ilha e para a garota estava sendo muito custoso se acostumar com a construção local sem ter um guia para auxiliá-la em suas explorações. O máximo que ouvia de orientação vinham dos soldados lhe dizendo coisas como: O salão é por aqui e Você não deve entrar aí. Para melhorar a situação, Lorde Stannis, ou Rei Stannis como era chamado por todos ali que adotaram a sua causa para tomar o Trono de Ferro, era tão rude em seu silêncio apático que fez com que a garota sentisse falta das grosserias de seu antigo protetor. A noite, Sansa imaginava o que teria acontecido com Sandor Clegane. O vazio que trazia dentro de si desde a separação de ambos a sufocava.
Logo na primeira vez em que se encontrou com o seu novo protetor, o Rei Stannis fora de longe o que se podia chamar de agradável, assim como a sua Corte também não o fora. O monarca ignorava completamente sua existência e todas as perguntas que tinha sobre ela eram feitas para as pessoas que estavam ao redor deles, nunca diretamente para aquela que melhor poderia responder sobre si mesma. De certa forma era confortante que aquele a capturá-la fosse Stannis, pois nenhuma vez ele lhe lançou um olhar mais demorado como Sandor e Yros fizeram e como o garoto Gendry, que fora revelado como sobrinho dele fazia.
Na primeira vez em que viu Gendry Waters, um dos muitos bastardos do Rei Robert Baratheon, foi no dia em que deixaram o Black Betha. Sansa podia tê-lo visto antes se não tivesse sido trancafiada em seus aposentos no navio por ser considerada uma ameaça para a própria vida. Não que essa acusação fosse verdadeira. No dia em que Sandor foi levado por Lady Melisandre e alguns homens de sua escolta ela se aproximou da proa do navio e um soldado infeliz pensou que ela estivesse tentando se jogar ao mar para ir atrás do Cão de Caça. Sansa tentou se defender, mas foi em vão. Na ausência de Lady Melisandre coube a um cavaleiro qualquer julgar o seu destino e como sempre é bom evitar do que remediar, ela foi trancada em seus aposentos e acreditou que seria liberta com o retorno da mulher vermelha, o que não passou de mera ilusão, a única diferença é que ela passou a ter companhia para dividir as suas refeições, o que não era um grande consolo.
Já em Pedra do Dragão as suas refeições seriam feitas no grande salão de jantar com o Rei do local que se sentava em uma das pontas da mesa, pouco parecendo se importar com o fato de Sansa ser uma mulher, tratando-a com total e completa indiferença. Sentada ao lado direito de Stannis estava a sacerdotisa vermelha trajando as suas habituais vestes da mesma cor que o seu apelido. Completando a cabeceira da mesa, sentada ao lado esquerdo do Rei estava a sua Rainha, Selyse, a mulher que possuía um buço escuro tamanha era a quantidade de pelos que se encontrava ali. Sansa não achava a mulher de forma alguma atraente, ela nem se quer tinha o porte de uma rainha. A Rainha de Pedra do Dragão jamais teve ou teria o mesmo esplendor real que Cersei exibia por toda a capital de Westeros. Ainda dentro do circulo íntimo do Rei Baratheon se encontrava Sor Davos Seaworth, recentemente nomeado a Mão do Rei. Davos não deveria ter mais do que cinquenta anos de idade, era um homem de sorrisos fáceis e a única pessoa capaz de desequilibrar Lady Melisandre com a sua postura rígida e a sua fé nos Sete Deuses. Estranhamente, a Mão do Rei foi colocada ao lado da mulher vermelha e parecia extremamente confiante em sua posição, ainda que um evitasse trocar olhares e palavras com o outro. Estando na mesa, mas não sendo digno da confiança de Stannis pelo o que Sansa pôde perceber, se posicionava Gendry Waters, sentado ao lado da Rainha Selyse, com uma cadeira vazia os separando. Aparentemente era uma ofensa para a Rainha sentar-se na mesma mesa com um bastardo, ainda mais se o local deste sujeito fosse ao seu lado, mesmo que o bastardo em questão fosse o que aparentava ser o único filho legítimo de Robert Baratheon, o que de certo modo só intensificava a repulsa da mulher. Quanto a própria Sansa, ela se sentava ao lado de Sor Davos, que hora ou outra lhe fazia comentários sobre a comida e a vida na Pedra do Dragão. Imediatamente Sansa se apegou ao cavaleiro. Havia algo na Mão de Stannis que a fazia se lembrar de Meistre Luwin, embora este cavaleiro não fosse tão culto quanto o Meistre que tivera em Winterfell.
– Ned Stark foi um grande homem — Lhe confidenciou Sor Davos no jantar em que estavam compartilhando por pedido do Rei — Se a história tivesse seguido outro rumo ele teria unido as suas tropas à Stannis, como ele mesmo disse que faria na carta que enviou ao legítimo rei de Westeros pouco antes de ter sido aprisionado e infelizmente morto pelo Usurpador Joffrey Lannister – O sobrenome de Joffrey fora alterado no discurso da Mão do Rei, revelando a certeza que todos ali possuíam sobre a verdade do nascimento do Rei sentado no Trono de Ferro.
Sansa não tinha certeza e preferia não entrar no assunto sobre as circunstâncias do nascimento de Joffrey. Toda vez em que vira a Rainha Cersei e o seu irmão, Sor Jaime Lannister, a garota nunca presenciara nenhuma cena entre eles digna de rumores, nem também ouviu um mencionar o nome do outro em conversas informais. Era normal eles serem mais próximos um do outro e muitas vezes ignorarem o Tyrion, Sansa também era assim com o seu irmão Robb e apesar de Arya ser uma garota, muitas vezes a existência da irmã mais nova era ignorada por ela.
– Tenho certeza que o Rei Robert teria gostado de ver a justiça sendo feita — Sansa comentou, tentando encontrar algo sábio para dizer.
– Você tem? — Stannis lhe direcionou a pergunta, rangendo os dentes como sempre fazia quando se via vítima de suas emoções — Diga-me, você realmente acredita que Robert gostaria que a justiça fosse feita? Quão bem você conheceu o meu irmão?
Sansa sentiu o seu rosto queimar. Em Porto Real essa resposta a teria colocado em uma boa posição com a Corte, dando a eles o que eles querem ouvir, mas não com Stannis e nesse aspecto ele lembrava o Cão de Caça. Não importa o quão bonito ela cantasse, nunca será o que eles querem ouvir, nunca seria o suficiente. A atitude mais correta era ficar calada, se Sandor apreciava o silêncio dela, talvez Stannis também o fizesse. Sansa teria que se lembrar disso da próxima vez que sentisse a necessidade de abrir a boca.
– S-só o vi governando uma vez, Senhor... — Gaguejou.
– Vossa Alteza, não Senhor– Selyse a corrigiu.
– E ele agiu com justiça? — Stannis insistiu.
Não, Sansa pensou de imediato. Na ocasião, o Rei condenou a sua loba, Lady, a ser morta por ter mordido o braço de Joffrey, ainda que tivesse sido a loba da Arya quem o tivesse atacado. Mas eu menti e esse foi o meu castigo. Se diante do monarca vigente tivesse dito a verdade, que foi o Príncipe Joff quem começou tudo aquilo, os lobos das duas garotas ainda estariam com elas e o filho do açougueiro também teria continuado vivo.
– ...Ele fez o seu melhor — Respondeu por fim.
– Robert nunca fez o seu melhor, não depois da morte da sua tia — Acusou — Meu irmão sempre fez o que foi mais fácil. Ele deu Ponta Tempestade para Renly, o mais novo entre nós três, mesmo que a propriedade fosse minha de direito. Não, Robert disse que eu ficaria melhor com Pedra do Dragão, com este amontoado de pedras cinzentas! — Fechou os punhos, prendendo os talheres que comia em suas mãos.
– Ele... — Pensou em algo para dizer.
– Fez o seu melhor? Foi justo? — Stannis completou — Me poupe de suas tagarelices.
– Meu Rei, tenho certeza que o que Lady Sansa disse não foi por mal — Interveio Lady Melisandre, acariciando a mão de Stannis mais próxima a ela.
Stannis a rejeitou. Seus olhos azuis profundos permaneceram fixos em Sansa, condenando a garota a cada segundo. Em outro tempo essa ação teria feito Sansa chorar, entretanto agora a garota só desviou a atenção para o seu prato. Ainda restava algumas batatas e quase todo o peixe para ser comido. Seu estômago estava enjoado e acreditava que a sua comida poderia estar amaldiçoada, e se esse fosse o caso, a refeição lhe daria uma séria dor no estômago mais tarde.
– Peço licença para me retirar — Se pôs em pé, voltando-se para o Rei novamente.
O homem sentado na cabeceira da mesa a analisou friamente e permaneceu em silêncio durante quase um minuto. Seus punhos já não estavam mais cerrados, porém o barulho de seu ranger de dentes ecoava pelo aposento.
– Não, sente-se e coma a sua refeição — Ordenou.
– Não tenho fome — Confessou, na esperança de que pudesse se retirar da presença deles.
– Coma– A resposta veio entredentes. Não era uma opção. Stannis agia como um verdadeiro Rei e cada vez que sua ordem era desobedecida ou quando ele era questionado a sua autoridade aumentava. Se fosse Joffrey no lugar dele, Sansa sabia que teria apanhado de algum cavaleiro da guarda-real pela sua ousadia. O tempo na estrada a estava fazendo se esquecer de como é viver em sociedade e que cada ação trás consigo uma reação ainda mais severa.
Sansa acatou o comando que recebeu. Sentou-se novamente em seu lugar e com o garfo cortou um pedaço da batata e o inseriu na boca. Eu odeio peixe, sentiu vontade de exclamar. Seja como fosse, ela enrolaria com a sua refeição, esperando que não fosse obrigada a ingerir o animal.
– Eu conheci o seu pai enquanto estava em Porto Real, Lady Sansa — Gendry contou no tom mais baixo que podia, porém como o lugar estava silencioso todos os presentes foram capaz de o ouvir.
– Você conheceu Lorde Eddard? — Sor Davos perguntou, surpreso com o fato.
Selyse enrugou o nariz e não deu atenção ao garoto. A mulher estava descontente e ofendida com o fato do bastardo estar falando com pessoas de uma hierarquia social superior à ele.
– Sim, logo quando ele chegou, por assim dizer, ele veio até a forja onde eu trabalhava e me questionou sobre a relação que eu tinha com Jon Arryn — Sorriu, contente por estar podendo compartilhar a sua história.
– Meu pai nunca me contou nada sobre isso — Disse Sansa.
– E qual era a sua relação com o Lorde Arryn? — Sor Davos continuou.
Gendry deu de ombros antes de responder.
– Ele fez perguntas sobre a minha origem e se eu gostava de trabalhar na forja. Já Lorde Eddard disse ao Mestre Mott que se eu quisesse segurar uma espada ao invés de forjar uma eu deveria procurá-lo.
– Quem é Mestre Mott? — Sansa perguntou.
– Um dos ferreiros de Porto Real — Foi Stannis quem respondeu.
– O melhor, se me permite dizer, Vossa Alteza — Gendry corrigiu, deixando Stannis irritado novamente.
– O melhor em conseguir dinheiro. Não foi ele quem te vendeu para os Lannisters? — Perguntou o Rei.
Pela reação do rapaz, Sansa percebeu que esta era a verdade. O antigo mestre de Gendry o havia vendido para os Lannisters para que ele fosse morto como aconteceu com todos os bastardos de Robert Baratheon depois que a acusação dos filhos de Cersei serem filhos de Jaime Lannister e não do falecido Rei. Todos os filhos não reconhecidos de Robert foram mortos para que não houvesse ninguém para tomar o trono de Joffrey, foi o que as más línguas espalharam por toda a Capital, claro que elas tomaram o cuidado necessário para que não perdessem o seu instrumento de fofoca.
– Mestre Mott me disse que teria de contar a verdade aos Lannisters caso viessem perguntar por mim, mas ele me orientou a me alistar para a Patrulha da Noite e antes que os soldados viessem eu deixei Porto Real e foi assim que eu conheci... — Os olhos de Gendry encontraram os de Sansa e ele hesitou — ... A Irmandade Sem Estandartes — Voltou os olhos para Melisandre — Foi com eles que Lady Melisandre me encontrou.
– E como foi que você deixou a Patrulha da Noite e foi parar com a Irmandade Sem Estandartes? — Sor Davos questionou, interessado na aventura.
– Yoren, o patrulheiro que nos recrutou em Porto Real foi morto pelos soldados Lannisters que vieram a minha procura, mas eu consegui escapar deles junto com outras pessoas que também foram escolhidas para vestir o negro. Sem saber muito bem onde estávamos continuamos o caminho sem necessariamente estarmos na estrada e foi dessa forma que nos deparamos com os homens do Montanha e fomos levados para Harrenhal, porém quando descobriram que eu era ferreiro eu fui salvo do questionamento que um cara chamado Cócegas fazia, para descobrir todas as informações possíveis sobre a Irmandade Sem Estandartes. Eu trabalhei durante um tempo para esses homens, mas um dia uns amigos resolveram fugir e tivemos sucesso, estávamos próximos do Tridente quando fomos descobertos pela Irmandade e nos alistamos nela. Bem, eu fui o único que me alistei, o Torta-Quente ficou trabalhando em uma pousada e... — Novamente Gendry hesitou e os seus olhos encontraram os da Sansa — ... o Arry também foi levado pela Irmandade, mas ele não quis se alistar.
– Se ele não quis entrar para a Irmandade, então por que ele foi levado pela mesma? — Sansa perguntou.
Gotas de suor começavam a aparecer na testa do rapaz e escorriam por suas costeletas.
– E-ele queria aprender a usar a espada, assim como eu — Disse, secando o suor e tomando uma taça de vinho em um único gole — Está quente aqui, não está?
– Não deveria beber tanto assim, Gendry — Lady Melisandre o aconselhou.
– Herança do pai. O sangue fala mais alto — Stannis complementou a observação da sacerdotisa vermelha.
A conversa novamente voltou a girar em torno de Robert e quando ela finalmente acabou, a refeição também havia chego ao fim. Sansa ficou contente com isso, pois como esperava não precisou tocar no resto do peixe que estava em seu prato, ainda que todas as batatas tenham descido goela abaixo com duas generosas taças de vinho tinto. O Rei Stannis foi o primeiro a se levantar seguido por sua Rainha. Sansa saiu logo em seguida e agradeceu por não ter nenhuma escolta em seu caminho, talvez por mero deslize ou discordância dos turnos. Gendry permaneceu na sala de jantar, aparentemente Lady Melisandre e Sor Davos tinham assuntos a tratar com o rapaz.
Por ser o seu primeiro dia na ilha, a garota estava com dificuldades para se lembrar do caminho até os seus aposentos. Por mais que detestasse admitir, Sansa sempre fora péssima com direções. Depois de ter passado pelo hall de entrada duas vezes, Sansa decidiu apelar e pedir para que alguém a guiasse até o seu quarto, contudo nenhuma vivalma era vista onde quer que fosse e quando finalmente pensou ter ouvido barulhos vindo do andar superior correu até ele, indo parar em um corredor escuro encontrado no quarto ou no quinto andar do castelo. O corredor de onde o som vinha parecia ser bem amplo, pois os seus passos ecoavam pelo espaço que não tinha nenhum archote, tendo como iluminação apenas a claridade que vinha do outro lado da porta do quarto. Quão mais próxima estava melhor conseguia ouvir o que se era dito e pelo tom, era uma canção que a nortenha nunca havia ouvido antes.
Numa noite de verão,
um passarinho e um cão,
Fugiram dos olhos do leão.
Turim-Turim-Turão.
Pela floresta eles seguiram,
Novos amigos conseguiram,
Despertando a traição.
Turim-Turim-Turão
Vermelho no algodão,
Corpos no porão
E no peito um coração.
Turim-Turim-Turão.
Em um mar de pedra,
Com paredes espelhadas,
O fogo crepitava, cantando esta canção.
Turim-Turim-Turão.
O bobo sabe, o bobo viu,
Na primavera da neve emergiu,
Do passarinho e do cão,
Três lobos e um botão,
Turim-Turim-Turão.
A cada palavra da canção sinos eram ouvidos e era uma voz masculina que cantarolava. Havia algo sombrio na forma em que as frases eram cantadas e as palavras simplesmente prenderam no cérebro da garota. Essa canção..., não, não podia ser. Seja quem for que estivesse cantando não teria como saber sobre tudo o que aconteceu com ela, então essa música jamais poderia ter sido feita para ela e sobre ela, ainda que muita coisa tivesse forte relação com a sua história desde que estivera na companhia de Sandor.
– É uma canção muito bonita, Cara-Malhada — Uma voz feminina de criança veio do outro lada do porta, seguida de risinhos e de bater de palmas.
Sansa se sentiu ainda mais inclinada em abrir a porta. Não esperava que houvesse crianças em Pedra do Dragão e muito menos bobos da corte. Sua mão estava a meio caminho da maçaneta quando uma voz familiar ecoou pelo corredor.
– Lady Stark! — O Rei Stannis a chamou em tom de repreensão.
No mesmo instante Sansa saltou para trás, com o coração na boca como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
– O que estava fazendo!? — Indagou, aproximando-se de onde ela se encontrava com o semblante ainda mais carregado do que de costume.
Stannis é um homem alto e magro, com porte de Senhor, mas não de Rei. Seus passos são largos e precisos, podendo ser forte quando necessário, mesmo Sansa nunca tendo o visto em ação. Sua voz é ríspida e seu humor ácido. A garota não conseguia encontrar nada de interessante nele além do fato do mesmo se considerar Rei legítimo de Westeros. Entretanto, com toda a certeza a pior característica dele era a mania insuportável de ranger os dentes.
– E-eu não consegui encontrar o meu quarto e-e não havia ninguém q-que podia me mostrar o c-caminho, então eu ouvi vozes e-e v-vim perguntar s-se eles sabiam como eu faço p-para chegar até l-lá e então o S-Senhor apareceu... — Explicou, como uma criança prestaria satisfações ao pai.
Stannis encarou a porta que permanecia fechada. Sansa o imitou. O quarto se encontrava quieto agora, apenas a luz indicava que tinha gente lá dentro.
– Eu a levarei para o seu quarto — Stannis se prontificou, estendendo o braço para que Sansa o tomasse.
Sansa com relutância aceitou o convite, que no fundo sabia ser uma ordem. Foi quando a sua mão encontrou o antebraço do Rei Stannis que a garota percebeu o quanto tremia. Era fato, o homem realmente a assustava, talvez até mais do que Sandor, mesmo que Stannis não tivesse nenhuma cicatriz aparente.
– Quem estava lá dentro? Daquele quarto? — Sansa perguntou após atingirem o final do corredor, se sentindo um pouco mais corajosa — Eu ouvi uma voz de criança...
Stannis depositou um olhar demorado sobre ela.
– A minha filha — Anunciou de forma rude.
Teria sido sábio se a conversa tivesse terminado por aí, mas Sansa estava curiosa com o fato de Stannis ter uma filha e acima de tudo por não tê-la apresentado no jantar. Sansa teria gostado de conversar com uma garota, principalmente sendo ela mais nova do que si. Lady Melisandre era uma mulher muito intimidadora e a Rainha Selyse parecia tão interessada em conversar quanto a porta de seu quarto.
– Por que ela não foi jantar conosco?
– Shireen é uma criança, não há motivos para ela fazer as refeições na mesma mesa em que nós fazemos — Disse.
– Em Winterfell eu me sentava com os meus pais, e até mesmo Rickon, o meu irmão mais novo, se sentava conosco — Rebateu, fazendo Stannis voltar a ranger os dentes.
– Isso foi uma falha na educação de vocês, Starks — Stannis comentou — Assim como o fato da senhorita debater com um Rei, fazer questões que não condizem a vossa pessoa e contar mentiras baseada no que as pessoas querem ouvir.
Sansa sentiu as bochechas queimarem. Queria poder se defender, Arya o teria feito, Stannis estava atacando a sua formação pessoal, o que estava diretamente relacionada com a forma em que foi criada, isso é, na educação que os seus pais, a sua Septã e o seu Meistre lhe deram. Todavia Sansa não era Arya e por esta razão optou por se conformar com as palavras do Rei.
– Sinto muito — Se desculpou.
– Não me peça desculpas! — O homem exclamou — Apenas ordinários pedem desculpas. Você é ordinária? — Sansa se queimou ainda mais com a pergunta que lhe foi direcionada. Não importava o que dissesse, o Rei sempre arranjava um meio de fazer com que ela se sentisse mal por isso. Sem obter resposta, ou mesmo esperar por uma, Stannis continuou — Da próxima vez pense antes de falar ou fazer algo. Posso encontrar alguém para lhe ensinar os costumes locais e lhe dar uma educação apropriada caso ache difícil fazer isto sozinha.
– Eu tenho quase dezessete anos, não preciso de um Meistre, muito menos de uma Septã.
– Mesmo que precise, não encontrará nenhum deles em Pedra do Dragão — A alertou — Quando a fé em R'hllor se fez oficial, tudo relacionado aos Deuses Antigos e aos Novos precisou ser aniquilado.
Sansa estava com o pensamento tão perdido enquanto caminhava até o castelo que não reparara na ausência de um templo e do Bosque Sagrado. Se tivesse sido um pouco mais atenta ao seu redor teria percebido as cinzas de uma grande fogueira e os espigões do último sacrifício oferecido ao Senhor da Luz na praia.
– Então todos aqui acreditam no mesmo Deus? — Para Sansa isso era indiferente. Ela havia chego na decisão de que nenhum Deus atenderia ao seu pedido de devolvê-la a sua família para que voltasse a viver da mesma forma que vivia antes desta guerra começar.
– Nem todos — Confessou — Contudo a prática de qualquer outra fé que não seja em R'hllor é proibida.
Sansa podia ter encontrado mais perguntas para fazer sobre a fé no Deus Vermelho, mas eles já haviam chego na porta do quarto em que ela estava hospedada. Os seus aposentos se encontravam dois andares acima do quarto da Princesa Shireen e diferente do corredor da menina, o seu era iluminado por vários archotes.
– Irei garantir que soldados meus a escoltem e atendam as suas necessidades — Dito isso, Stannis afastou-se de Sansa — Tenha uma boa noite, Lady Stark — Inclinando o rosto em uma pequena reverência cordial, o Rei girou sobre os calcanhares e deixou-a sozinha.
Não importava aonde quer que fosse, depois de ter se perdido enquanto voltava para os seus aposentos na primeira noite em que chegara a Pedra do Dragão sempre havia um homem da rainha vigiando os seus passos, era apenas dentro das paredes de pedra do quarto que lhe deram que a garota podia finalmente se ver em paz, sozinha. Claro que estes momentos de solidão eram raros e diminuíram ainda mais depois de uma quinzena desde a sua chegada na ilha, pois a Rainha Selyse junto com um grande número de soldados Florent deixaram Pedra do Dragão durante a madrugada sem nenhuma explicação plausível, ficando para trás o marido e a filha que Sansa ainda não tivera o prazer de conhecer. Quando questionou alguns soldados remanescentes sobre o ocorrido nenhuma novidade foi inserida aos fatos, contudo Sor Davos lhe garantiu que em breve ela entenderia sobre o que tudo aquilo se tratava.
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