O Voo Do Passarinho
22 Capítulo 22 - Pedra do Dragão

O que ele de fato sabia sobre irmãos? Sobre ter uma família? Aparentemente nada era a resposta. Estivera tão animado por lhe ter sido dada a chance de ser membro da Irmandade Sem Estandartes que de prontidão aceitou o convite que Lorde Beric lhe fizera e ofereceu os seus serviços de ferreiro para os foras da lei em troca de um lugar para ficar e treinos com espada e arco. Gendry finalmente se sentira importante, parte de alguma coisa e protagonista de sua própria vida, mas esses sentimentos não duraram muito tempo.
Quando deixaram o Septo de Pedra, Limo Manto Limão lhe dissera que a missão de seus irmãos dessa vez era encontrar na estrada leões e lobos que estavam ameaçando as redondezas, além de procurar suprimentos para a população que ficara no covil. Thoros de Myr, o sacerdote vermelho que lutava com uma espada incandescente fora quem mais se aproximou da verdade ao lhe dizer que a real missão dessa expedição era encontrar com uma velha amiga sua, por essa razão, Gendry não estranhou terem ido para a estalagem da Sharna depois de dias de viagem, acreditando veementemente que a velha amiga que Thoros mencionou era a estalajadeira.
Sua surpresa fora grande quando próximo a hora do almoço do dia seguinte ao qual chegaram no lugar ouviu o grito de Barba Verde de tem soldados se aproximando que ecoou pelo salão principal onde os homens da Irmandade estavam comendo cebola frita e torta de lampreia, seguido por pão de frutas, sendo o último alimento preparado por Torta Quente, que se dera bem com os proprietários e aumentara o nível da comida servida.
– Não há razão para entrar em pânico — Thoros disse calmamente, dando uma grande mordida em uma cebola.
– Eles não parecem ser dos nossos! — Barba Verde rebateu, alarmado com a tranquilidade do outro.
– E de fato não o são — Respondeu o primeiro.
– Senhor? — Gendry arriscou — Você os está esperando?
Thoros olhou diretamente para Gendry e um sorriso amarelo surgiu em seu rosto. Sem dizer nada se levantou da mesa chupando os dedos gordurosos, deixando para trás o prato de refeição inacabado. Caçador Louco também se levantou, ele era o único que estava sentado na mesma mesa que o sacerdote. Thoros caminhou até onde o mais novo integrante da irmandade estava e depositou uma mão pesada no ombro do rapaz, pedindo silenciosamente para que se levantasse e o rapaz obedeceu o comando, se pondo em pé no mesmo instante em que a mão deixou o seu ombro.
– É uma mulher quem está na frente deles... — Barba Verde exclamou, parado à porta observando o movimento do lado de fora do estabelecimento sem deixar os seus irmãos — ...Por que ela é toda vermelha? Ela é sua irmã, Thoros? — Gendry compreendeu que o irmã que ele se referia era a respeito da crença no mesmo Deus.
– Melisandre de Asshai... — Thoros a chamou e fez uma pequena reverência com a cabeça assim que a mulher trajando uma pesada capa vermelha com capuz passou por Barba Verde.
Gendry Waters aprendera como se portar na frente de uma lady com o antigo mestre e dobrou um joelho para cumprimentá-la. Ele fora o único a se portar dessa forma e vendo que ninguém mais o fazia, tratou de voltar a sua posição anterior, sentindo o rosto queimar de vergonha.
– Thoros — A voz da mulher era suave como pêssego, aveludada e quente, ainda que houvesse desprezo na fala.
– Não vemos muitos sacerdotes de R'hllor por esses lados, minha senhora — Comentou.
Melisandre retirou o capuz e Gendry pôde perceber que não era apenas a roupa da mulher que era vermelha, mas também o seu cabelo e estranhamente os seus olhos. Por instinto sua mão encontrou o cabo da espada que ele próprio forjara em seu cinto. A mulher já não parecia mais tão agradável quanto a primeira vista.
– A Alta Sacerdotisa lhe deu uma missão, Thoros, afastar o Rei Robert de seus falsos ídolos e levá-lo em direção ao único e verdadeiro Deus: o Senhor da Luz — Melisandre falava com tanta autoridade que Gendry se questionou se ela não estaria falando em nome da Alta Sacerdotisa ou quem sabe, do próprio Deus — O que aconteceu?
O sacerdote riu pelo nariz e ergueu ambas as mãos na altura dos ombros, virando as palmas para cima.
– Eu falhei.
Em Porto Real, Gendry servia como assistente de ferreiro para o mestre Tobho Mott, o melhor da profissão em toda a capital e diversas vezes teve de reparar ou forjar uma nova espada para Thoros. O pouco que o aprendiz de ferreiro sabia sobre o sacerdote é que ele vivia na Corte, tinha a fé em um Deus diferente dos Sete e lutava com uma espada incandescente; sobre a missão do homem de Myr em Westeros, Gendry não fazia a mínima ideia de qual seria, nem ao menos pensava que existisse uma.
– Você desistiu — A mulher acusou — O verdadeiro inimigo vem em nossa direção e o que você faz é comer e beber — A repreensão soou como a bronca de uma mãe. Todos os seus irmãos ficaram em silêncio e por um momento prenderam a respiração.
Thoros escondeu o sorriso que formara em sua face limpando o dente com a língua.
– Você O venera da sua forma e eu da minha.
Melisandre crispou os lábios. Era óbvio que essa conversa não levaria à lugar algum.
– O Senhor da Luz ainda fala com você? — Thoros assentiu — É um verdadeiro milagre que ainda o faça — Comentou mais para si mesma do que para os demais ouvintes — Você trouxe o garoto?
– Touro — O sacerdote o chamou, virando-se para Gendry.
Pela primeira vez a mulher vermelha posicionou os olhos sobre ele. Gendry segurou com força o cabo da espada. Havia algo naquele olhar que o deixou em alerta, como se ele fosse a caça e ela a caçadora. A mão de Thoros encontrou a dele e o obrigou a largar o botão de sua arma. Melisandre caminhou em sua direção e esticando as duas mãos, prendeu o rosto dele entre elas.
– Seus olhos, seus cabelos... Você é igualzinho à ele — A ternura aparecera na voz da mulher — Diga-me, Thoros, você sabia quem ele era no momento em que o encontrou ou somente depois que o Senhor da Luz lhe enviou a mensagem?
– Isso não interessa — Respondeu com desprezo. Já estava ficando cansado de ser humilhado pela mulher na frente de seus irmãos. Fez o máximo que pôde para disfarçar a fúria com o sarcasmo, mas agora já não aguentava mais.
– Sou igual a quem, senhora? — Gendry questionou.
– Seu tio — Melisandre sorriu.
Um torpor de sentimentos o atingiu, retardando todos os seus movimentos e a sua capacidade de formar frases e pronunciar palavras.
– Meu... Você conhece o meu pai? — Tinha medo da resposta e ao mesmo tempo uma curiosidade latente.
– Nunca tive o prazer, mas Thoros o fez — Os olhos de ambos foram postos em cima do sacerdote.
– Como você pretende pagar pela troca? — Thoros desviou o assunto, evitando perguntas e respostas que pudessem comprometer algo que na hora Gendry não soube dizer o que era, mas que mais tarde compreendeu como sendo sua consciência.
– Troca? — O rapaz questionou, sendo ignorado por todos os presentes — Você conheceu o meu pai, Thoros? — A pergunta saiu abafada pelas emoções — Quem é o meu tio!? — Voltou-se para Melisandre.
– Tudo ao seu tempo, querido — A mulher foi a única que pareceu escutá-lo — Sor Godry Farring, Sor Clayton Suggs — Melisandre se afastou de Gendry. Atrás dela, dois cavaleiros trajando armadura com o auroque coroado sobre um coração em chamas de Lorde Stannis Baratheon cravado no peito e que mais pareciam dois troncos de árvores de tão fortes que eram se moveram, indo até a mulher vermelha e entregando cada um deles para sua senhoria um saco pesado que tilintou na ação, indicando que o seu conteúdo eram moedas, e muitas por sinal.
Thoros prontamente pegou um saco. Gendry fez menção de pegar o outro, mas Limo fora mais rápido. O sacerdote examinou o conteúdo. Retirou um dragão de ouro e o mordeu, verificando assim a veracidade do que lhe estava sendo dado. Ele riu quando a moeda não se dobrou.
– Pensei que Stannis estava com problemas em arranjar ouro! — Exclamou, dando o saco que tinha em mãos para Limo.
Gendry arqueou as duas sobrancelhas em sinal de surpresa. Sabia que Lorde Stannis, ou Rei Stannis, como ele se auto proclamava, havia perdido a Batalha de Blackwater, contudo não sabia de que os seus problemas haviam se estendido para outro nível. Minha família, tornou a inquietar-se. Poucas foram as vezes que parara para pensar sobre os seus verdadeiros pais. Conhecera a mãe, mas a perdera cedo demais para desenvolver qualquer laço afetivo para com a mesma. Ela era apenas uma prostituta, se recordava de ter aprendido o significado dessa palavra mais tarde, quando já estava trabalhando para o velho Mott. Sobre o pai nunca se incomodara em descobrir quem fora. Gendry era um bastardo e com muito custo aceitara a sua condição social. Se o seu progenitor fosse um ladrão ou um nobre era indiferente as duas coisas, pois nada mudaria a vida que levava... A não ser que o pai viesse junto com um papel de legitimação de seu nascimento assinado pelo próprio rei, o que jamais seria o caso. Entretanto, estando agora de frente para duas pessoas que poderiam sanar a sua curiosidade paterna encontrava-se atormentado pela curiosidade, percebendo que no fundo ele se importava de quem era filho.
– Me dirão agora? — Exigiu saber, julgando que a negociação deles havia chego ao fim.
Melisandre sorriu.
– Você não sabe de nada, Thoros. Esse ouro foi obtido de um fugitivo. Trouxe-o comigo, ele também fará parte do acordo. O Senhor da Luz quer que os crimes dele sejam julgados.
– E o seu Rei não pode fazer isso? — Limo perguntou.
– O meu Rei é um homem justo, mas a justiça dele não corresponde à de R'hllor.
– Stannis abriu mão de um de seus prisioneiros dessa forma? — A resposta veio no silêncio da mulher. Stannis não sabe – Nós não somos misericordiosos como o seu rei, Melisandre de Asshai — Thoros lhe disse — Quando um homem é julgado culpado, ele é enforcado pelos seus crimes.
– E quando ele não o é — A sacerdotisa vermelha completou — Os crimes pelos quais ele é julgado são absolvidos e ele se torna livre para ir embora. O prisioneiro que estou lhe dando é acusado de diversas coisas horríveis. Julgue-o por combate. Ele deverá sair livre no fim, o Senhor da Luz me mostrou em minhas chamas, mas quando isso acontecer, ele será um novo homem, livre de seus pecados. É assim que ele deve estar quando a hora chegar.
Thoros hesitou. Gendry percebeu que o sacerdote estudava cada palavra de sua irmã em fé. Se o prisioneiro que ela trazia fosse julgado por combate e a sua vitória fosse certa, então o seu combatente morreria. Era isso o que a mulher vermelha trazia? Ouro e morte? Em troca de quê?
– E quem seria esse homem? — A voz de Thoros era cautelosa.
– Diga que temos um acordo — Melisandre estendeu a mão.
– Pelo Senhor da Luz, nós temos um acordo — Thoros apertou a mão que lhe fora dada e a levou aos lábios, depositando nos nós dos dedos de sua irmã de fé um beijo que selava o compromisso.
– Se você fizer a gentileza de me seguir — O sorriso no rosto da mulher aumentou. Era um sorriso cruel de quem consegue o que almeja. Gendry sentiu os cabelos de sua nuca arrepiarem e já nem se lembrava mais de que assunto os dois recusavam a entrar quando ele fizera a mesma pergunta algumas vezes, só sabia que era importante.
– Vamos, garoto — Thoros indicou o caminho para Gendry para que ele seguisse os passos de Melisandre. O rapaz o obedeceu e as suas costas o sacerdote o seguia. Anguy e Barba Verde os imitaram, apenas Limo ficara para trás, provavelmente para dar um jeito na grande quantidade de ouro que estava sobre sua responsabilidade.
Com passos lentos como de quem vai para guerra, todos eles se direcionaram aos estábulos. Lá, mais dois homens vestindo as roupas dos soldados de Lorde Stannis estavam tomando conta do segundo maior homem que Gendry já vira. O grandalhão estava debruçado sobre um enorme corcel negro de guerra, amarrado à sela. O cavalo agitou-se com a aproximação deles, acordando o seu cavaleiro. O homem tinha a cabeça oculta por um saco de estopa que abafava os seus xingamentos.
– Retire a venda — Melisandre ordenou. Fora sor Godry quem acatara a ordem.
Por de trás daquele saco que ocultava a visão do cavaleiro havia uma cabeleira castanha colada em seu rosto pelo suor. Gendry precisou dar uns passos para o lado para reconhecer o indivíduo montado. Sandor Clegane! Quando pôs os seus olhos sobre aquela face não teve comoestar enganado. Metade de seu rosto era uma ruína de carne consumida pelo fogo. Em Porto Real, fora o seu mestre quem forjara a última espada do Cão de Caça, um presente encomendado pelo então Príncipe Joffrey para ser estreada no Torneio da Mão. Meu mestre fez um bom trabalho, ela resistira bem aos impactos do Montanha. Recordava-se da luta final entre os dois irmãos depois do truque da égua no cio que Lorde Loras Tyrell usara. Gendry apesar de não ser da nobreza atendera ao evento, sentando-se na parte destinada aos plebeus como ele. Primeiro o irmão, depois ele. Em Harrenhal servira Sor Gregor e agora, pouco tempo depois se deparava com o irmão mais novo dos Clegane, que estava em uma situação pior do que a dele, propriamente dita. Talvez até os fins dos meus dias encontre mais Cleganes. O pensamento era engraçado, pois não havia mais nenhum Clegane além desses dois.
– Sandor Clegane — Thoros o chamara, com escárnio na voz.
O grande cavaleiro depositara os olhos cansados sobre o sacerdote e precisou de um tempo para reconhecê-lo.
– Mas que porra...? Thoros!? — Exclamou. Sua voz estava pastosa, resquício do estado de embriaguez ao qual se encontrava.
– Ouvi dizer que ele estava acompanhado quando deixou Porto Real — O sacerdote arriscou. Gendry não ouvira nada a respeito disso, nem imaginava que o grandalhão tivesse deixado a capital.
– Nós encontramos apenas ele — Sor Clayton contou no lugar de sua senhora. Melisandre sorriu para o seu cavaleiro, agradecendo pela informação.
– Essa é a verdade, Thoros — Acrescentou.
O sacerdote gargalhou.
– Como isso deve ser engraçado para você, Clegane! A mulher me oferece o seu couro e me paga com o seu próprio ouro para que fique em minhas mãos e seja julgado por Lorde Beric!
– Lorde Beric? — O cavaleiro estranhou a menção do nome e cuspiu próximo aos pés dos homens — Dizem que o homem está morto!
– Poderá confirmar o fato com os seus próprios olhos quando retornarmos. Sor Farring, pode voltar a cobrir essa cara horrível do Cão, não desejo ter pesadelos — O sacerdote voltara-se para a sua irmã na fé, não sem antes depositar o olhar sobre Gendry por um instante — Temos um acordo, minha senhora. O seu homem e o ouro dele pelo meu ferreiro.
Ferreiro, era sobre ele quem os dois estavam negociando! Gendry recuou e os dois homens que estavam tomando conta de Sandor Clegane avançaram até ele. Seus dedos encontraram o cabo da espada, conseguiu desembainhá-la apenas para perdê-la de uma forma vergonhosa. Sor Clayton que estava as suas costas dera um tapa tão forte em seu ouvido que caíra de um lado enquanto sua arma fora arremessada do outro. A palha do estábulo amaciou o tombo, mas agora o seu rosto estava coberto com fezes fresca de cavalo. Os soldados riram, aqueles que acreditara ser os seus irmãos rirão, apenas Melisandre permanecia com o semblante rígido. Um dos dois cavaleiros que não sabia o nome o pôs em pé. O touro que havia dentro dele resistiu a ação, lutando contra a placa de alumínio do inimigo, se machucando a cada soco e pontapé. Estava lutando como uma criança. Nenhum ensinamento que aprendera com Anguy e Thoros estava sendo usado. Do saco de estopa vinha a risada mais cruel que Gendry escutara. O Cão de Caça não o via, entretanto sabia o quão ridícula eram suas ações. O rapaz da Baixada das Pulgas sentiu-se ridicularizado o suficiente e desistiu de lutar por sua liberdade.
– Você disse que eu era o meu amigo! — Gritou para Thoros — Fez de mim o seu irmão e disse que éramos uma família! E agora me vende por algumas moedas e um novo cão para a matilha do Caçador Louco! — Acusou. Seus olhos estavam embaçados.
Arya tinha razão. Eu não sei nada sobre família. Sentiu mãos invisíveis fecharem em sua garganta, fazendo com que o choro doesse naquela região. Ele não teria a oportunidade de se despedir dela. De dizer a ela que ela estava certa. Se o seu destino era se tornar escravo ou ser morto, então que ele pelo menos pudesse aceitá-lo sem estar brigado com a única amiga que conhecera nessa vida. Se ela pelo menos soubesse... Mordeu o lábio inferior, como Arya costumava fazer quando estava nervosa ou escondia algo que não podia dizer.
– Sor Richard — O comando de Melisandre foi claro. O cavaleiro que o colocara em pé o arrastara até o cavalo e o fez montar, subindo atrás dele.
– Minha senhora — A voz pesada de Sor Clayton era difícil de se compreender.
– Não pretende comer conosco? — Thoros perguntou, evitando contato visual com o rapaz que chamava de Touro.
– Não tenho tempo a perder na causa do Senhor da Luz — A mulher vermelha respondeu.
– Ela não quer ser vista com foras da lei, Thoros — Caçador Louco caçoou e havia razão em sua sentença — Que importa? Sobra mais comida para nós e já teremos com o que nos divertir — Não era pra menos a felicidade do Caçador, seus irmãos acabara de negociar um dos cães de caça mais perigosos dos sete reinos em troca de um mero touro.
– Lady Melisandre — O último cavaleiro que Gendry não sabia de quem se tratava ajudou sua senhoria a montar.
– Obrigada, Sor Justin — Melisandre agradeceu, fazendo conhecida a identidade de todos de sua escolta, todavia nenhum nome teve qualquer significado para o ferreiro.
– O cavalo — Anguy os interrompeu na saída do estábulo — O corcel negro, irá ficar?
– Este animal tem um gênio ruim, como o dono — Sor Richard respondeu — Sugiro não se aproximarem muito e sempre os deixem amarrados.
– Maldita seja, sua puta! — Cão de Caça gritou o xingamento — Eu irei encontrá-la e arrancarei a sua língua pelo cu!
A sacerdotisa riu. O senso de humor da mulher conseguiu perturbar Gendry mais do que as palavras do Cão.
– Iremos nos encontrar novamente, Sandor, mas você não fará o que diz — Dito isso, a mulher trotou com o seu animal para fora do estábulo e seus homens a seguiram. Enquanto Gendry partia ele pôde ouvir a voz de Anguy perguntando para Thoros o que eles deveriam dizer para a garota quando retornassem. Teria também ouvido a resposta se o soco que o Caçador Louco dera no Cão de Caça não tivesse feito um barulho horrível com o grandalhão caindo de seu corcel de guerra.
Desde os acontecimentos na estalagem da Sharna já haviam passado onze dias. No primeiro momento pensou que fosse ser morto pelas pessoas que negociaram a sua vida, mas depois de doze horas na estrada percebeu que se esse fosse o caso ele já não estaria mais vivo, ainda que a opção de ter a sua existência extinguida por Lorde Stannis fosse uma possibilidade que não deveria ser ignorada, mesmo agora depois de todo esse tempo. Gendry também cogitou a ideia de que a sua habilidade como ferreiro poderia ter sido a razão por trás do negócio, contudo se o plano dos homens do último pretendente Baratheon — desde que se acreditasse no rumor de que Joffrey e seus irmãos eram filhos de uma relação incestuosa da Rainha Cersei com o seu irmão da Guarda Real, Jaime Lannister — ao trono dos Sete Reinos fosse fazê-lo trabalhar, então ele deveria ter ganho logo no primeiro dia um martelo de forja. Sempre que questionava Lady Melisandre a respeito de onde estava indo e porque estava indo a mulher vermelha lhe dizia que logo saberia. Essa resposta também era obtida quando questionava sobre a sua descendência. Não podia se esquecer de que a sacerdotisa sabia quem era o seu tio e que Thoros conhecera o seu pai.
– Em breve, Gendry Waters, você terá as suas perguntas respondidas — A mulher lhe disse.
Gendry não se recordava de ter dito o seu verdadeiro nome à ela ou qualquer um além de Arya Stark. As pessoas que chamara de irmãos o conhecia apenas como Touro, o ferreiro da Baixada das Pulgas, e a menos que Melisandre tivesse ido até lá não tinha como conhecê-lo. Se ela tivesse colocado os pés na Baixada eu me lembraria dela, o rapaz estava decidido sobre isso. A mulher não tinha um rosto fácil de se esquecer com todos aqueles traços carregados com as características além do Mar de Essos e da Fé no Senhor da Luz.
Do encontro com os soldados Baratheon até o navio que esperava pelo retorno de seus homens demorara cinco longos dias, resultando até o presente momento mais seis dias sofríveis a bordo do Black Betha, o navio mercante improvisado para ser de guerra. Dentro dessa embarcação o rapaz acabou por conhecer todos os homens da Rainha, como os cavaleiros se auto-denominavam. Esses soldados eram os únicos dentro das tropas de Lorde Stannis que adotara a estranha fé do Senhor da Luz e embora dissessem que a Rainha a qual serviam era a Senhora Selyse, não era questionável a devoção pela sacerdotisa vermelha. Eles até dizem que Melisandre é a verdadeira senhora de seu rei, pelo menos era o que Sor Dorden comentara com Sor Justin alguns minutos mais cedo durante a vigília na porta da única cabine que o rapaz fora proibido de entrar e por coincidência era do lado da sua. Gendry algumas vezes ficou imaginando que espécie de criatura estaria oculta lá dentro. Durante a maior parte do tempo nenhum barulho podia ser ouvido e quando algum som saia de lá era o arrastar de móveis e passos apressados.
Gendry se considerou de muita sorte quando percebeu que não seria tratado como cativo e sim como apenas um tripulante a mais do Black Betha. Tendo liberdade de ir e vir, não se viu tentado a saltar para fora do navio, mesmo porque não sabia nadar e também não tinha um lugar para onde voltar. A Irmandade se livrara dele; seu mestre, Tobho Mott o expulsou de Porto Real para salvar sua vida; a estalajadeira Sharna não ficaria feliz em ter o rapaz novamente sob o seu teto, mesmo que ele fosse amigo do Torta Quente; e, Arya... Bem, do jeito que ela sempre conseguia o que queria, era capaz de já ter deixado o Septo de Pedra e se tivesse sorte, talvez até tivesse reencontrado a família. Gendry teria realmente gostado que isso tivesse acontecido, mesmo que ele não estivesse lá. Quando se separara da garota-lobo eles estavam brigados, mas não era por isso que lhe desejava o mal. Eu não tenho direito de lhe desejar nada, concluiu. Arya era uma Stark, sua Casa era uma das mais antigas se não a mais antiga de Westeros enquanto ele era apenas um bastardo qualquer sem nenhuma pretensão e isso era o melhor que conseguia pensar sobre si mesmo.
Tendo a liberdade para se locomover pela embarcação, o rapaz pôde contemplar a cerimônia habitual de acender a grande fogueira localizada no convés do navio todo dia ao por do sol. Na primeira vez ficara maravilhado com o fogo, que parecia ser mais vivo do que todas as chamas que já vira em sua vida, mas no segundo dia o esplendor fora embora e a razão de assistir o ritual era para se aquecer ou simplesmente se distrair com algo que não era o mar. Gendry mesmo que não confessasse sentia-se horrivelmente nauseado a bordo e vomitava no mínimo uma vez por dia, geralmente quando comia algo gorduroso. O movimento sobre as águas não lhe fazia bem.
Diversas vezes o rapaz procurou se enturmar com os outros guardas, atitude que se mostrou vã quase sempre quando realizada. Os soldados da rainha não gostavam de conversar, não lhe contavam novidades e muito menos respondiam as questões de porquê estava ali, sendo levado para Pedra do Dragão. O seu destino fora a única informação que obtivera, isso é, uma das informações, as outras eram a respeito do que teriam para almoço e jantar no determinado dia.
Tendo de se contentar com as poucas coisas que conseguia ouvir com os seus próprios ouvidos enquanto fazia a exploração solitária pelo lugar, acabou por descobrir que Sandor Clegane não estava sozinho quando fora capturado e também não diziam onde estava ou quem era essa companhia de viagem do Cão de Caça. Quando o assunto era Lady Melisandre um par de soldados questionavam o propósito da viagem e a fé em R'hllor, já que a sacerdotisa não discutia os seus planos com os seus homens, dando-lhes apenas instruções de onde ir e o que fazer. De todos os soldados o pior era Sor Clayton, um homem grande e com tendência a violência com as mulheres pelos seus diálogos, sendo sempre uma mistura de que mulher ele comeu, quem ele teve de matar para consegui-la e qual o maior atributo de sua vítima. A sacerdotisa era a única que ele demonstrou respeitar.
Sobre a mulher vermelha, Gendry fora convidado para jantar com ela durante todos os dias. Quanto mais próximos estavam de chegar em Pedra do Dragão, mais silenciosa ela ficava, sendo comum nos últimos tempos não dividirem mais do que meia dúzia de palavras, todas a respeito do tempo ou da comida servida. A sacerdotisa também tinha o hábito de atender ao ritual da fogueira, em realidade, era ela quem acendia a primeira brasa enquanto os seus homens rezavam ao Senhor da Luz. Por mais que o rapaz tentasse aprender a oração, ele só conseguia se lembrar de frases como Senhor da Luz, ilumine a noite, porque ela é escura e cheia de terrores, ou algo do tipo, nem mesmo agora tinha certeza sobre a precisão da frase, só se lembrava mesmo da intenção do pedido.
– O que acha do veado, Gendry? — Lady Melisandre perguntou, enquanto levava uma generosa garfada da carne pingando sangue à boca.
Crua, podia ter respondido. No seu prato o sangue do animal havia formado uma espécie de sopa com um forte sabor de sal, alho, cebola e pimenta. Não conseguia entender como que aquela carne havia aguentado permanecer fresca até aquele momento. É o sal, acreditava ter ouvido a respeito disso quando ainda estava viajando para a Muralha com Yoren. Mas se fosse o sal, então não haveria tanto sangue quanto agora. Talvez eles mantenham os animais vivos no andar de baixo... Não havia explorado os últimos andares da embarcação. O mistério sobre o alimento era o que mais chamava sua atenção naquela noite.
– Está delicioso, madame — Mentiu, se distraindo em cortar a carne em pequenas porções que podiam ser engolidas em uma única mordida.
A mulher se permitiu abrir um sorriso como se tivesse lido os pensamentos do rapaz.
– Posso pedir para lhe servirem outra coisa — Sugeriu Melisandre.
Gendry podia e deveria ter pedido outra coisa para comer, mas não o fez. Levou o garfo com um pedaço de carne na boca e prendendo a respiração engoliu com poucas mastigadas. Quando finalmente voltou a respirar, o gosto do sangue continuava em sua boca. Sentiu ânsia e a disfarçou tomando um generoso gole de vinho. O rapaz era orgulhoso demais e já conhecera a dor no estômago de não ter nada com que preenchê-lo. Não era porque estava sendo bem alimentado ao lado de Lady Melisandre que se daria o luxo de ser seletivo com o que comia.
– Não é necessário — Respondeu, tornando a apoiar o cálice na mesa.
Melisandre o estudou, Gendry podia sentir os penetrantes olhos vermelhos da sacerdotisa analisando cada centímetro de seu rosto. O rapaz sentiu-se desconfortável pois além do calor habitual que ela exalava estava algo que podia ser confundido com ternura.
– No amanhecer atracaremos em Pedra do Dragão, como já deve ter percebido — Comentou.
De fato Gendry já havia percebido isso. Há dois dias atrás conseguiu avistar uma grande rocha no meio do mar e acabou por descobrir que se tratava de Pedra do Dragão. Tirando o fato de que Stannis era o Senhor daquele aglomerado de rochas que formava um castelo rudimentar, nada mais sabia. O rapaz sentia-se profundamente envergonhado por sua falta de conhecimento sobre as coisas com as quais estava se envolvendo.
– Eu percebi, senhora — Concordou, apreensivo com o que poderia encontrar ao atracar na costa.
– Ainda quer saber sobre a sua família, Gendry? — Perguntou por fim.
– Perdão? — Não compreendeu o que ela havia sugerido. Várias vezes lhe fizera essa pergunta e o que ouvia era sempre depois, agora não e em breve. Teria agora finalmente chego o momento?
Melisandre sorriu e bebericou de seu próprio cálice.
– Eu não posso falar muita coisa sobre o seu pai, além de seus feitos e alguns traços de seu caráter. Não o conheci tão bem quanto conheço o seu tio, porém já te adianto que a sua teimosia é uma característica que foi herdada de sua paternidade.
– Conheci... Isso significa que ele já... — Não conseguiu terminar a frase, sendo interrompido por Melisandre.
– Sim, Gendry. Você não terá a chance de conhecê-lo nessa vida — A mulher esticou a mão para segurar a do rapaz na tentativa de lhe dar conforto. Ele não a evitou.
– Quem ele era? — Exigiu saber.
– Você está preparado para saber? — A sacerdotisa perguntou, passando os seus dedos carinhosamente no dorso da mão dele.
– Quem ele era? — Tornou a perguntar.
– Você nunca desconfiou da razão pela qual a guarda da cidade foi atrás de você enquanto estava em Porto Real? Por que os Lannister o desejava morto? — A frase ficou no ar. Gendry havia pensado sobre isso, porém nunca chegou à conclusão alguma. Simplesmente não conseguia justificar o interesse que nobres como os Lannister, Lorde Arryn e Lorde Stark tiveram para com ele. No conceito do rapaz, ele não passava de um reles aprendiz de ferreiro, filho de uma prostituta, um bastardo qualquer da Baixada das Pulgas.
– Não gostavam dos meus serviços? — Deu de ombros.
Lady Melisandre não demonstrou satisfação com a resposta que obteve, cessando o contato físico que tinha com Gendry e franzindo o cenho.
– Pobre rapaz — O penalizou — Diga-me: você acreditaria no que estou prestes a lhe revelar?
Gendry optou pelo silêncio da sabedoria antes de respondê-la. Não sabia se podia ou não confiar na sacerdotisa, afinal de contas, ela tinha a sua vida em suas mãos e tudo o que fazia ou deixava de fazer era em prol de seu Deus e de seu Rei. Não havia lugar para um bastardo em sua lista de fidelidade e assim como Sandor Clegane, ele despertara a ira dos Lannister e não havia garantia de que não teria o mesmo fim que o Cão de Caça.
– Talvez — Respondeu, rompendo o silêncio que se formara entre eles. Que escolha eu tenho?, era o que gostaria de ter dito.
– Eu não tenho razão para mentir para você — A mulher vermelha se defendeu. Apesar de concordar em partes com isso, algo dentro de si impedia de confiar plenamente nela.
– Então por que fica evitando me dizer quem é o meu pai? Ou o meu tio mesmo, que seja? — A desafiou.
Melisandre sorriu.
– Se eu lhe dissesse a qual família você pertence logo no momento em que nos encontramos, jamais você confiaria em mim ou acreditaria nas minhas palavras. Naquele momento em que nos vimos com a Irmandade Sem Estandartes eu era a sacerdotisa de R'hllor a serviço do Rei Stannis, aquela que estava negociando um prisioneiro por... outro, conforme você se viu na situação — Havia sinceridade em suas palavras. Lady Melisandre com grande sucesso lera os pensamentos de Gendry e o rapaz se questionou se era realmente tão aberto assim que conseguia deixar transparecer os seus sentimentos sem dizer nada.
– E o que você é agora? — Bufou.
– Sua amiga, Gendry — A mulher vermelha tornou a esticar a mão para pegar na do rapaz, porém este a recusou, retirando-a de cima da mesa e a apoiando em seu próprio colo.
– Então me diga, quem é o meu pai? — Mais uma vez fez a pergunta.
– Rei Robert Baratheon — Lady Melisandre não hesitou em responder dessa vez.
O silêncio tornou a reaparecer e antes que ficasse marcado, o rompeu com uma gargalhada alta e descompassada que logo se tornou uma tossida. Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Era tão ridícula essa possibilidade que Lady Melisandre estava certa quando desconfiou que ele não fosse acreditar no que ela tinha para dizer. Rei Robert Baratheon... Ele era filho de um lorde, ou melhor, do Rei de Westeros, do Usurpador. Gostaria de saber o que Arya pensaria disso quando soubesse.
– É sério isso? — Precisou de um tempo para conseguir dizer algo, a tosse persistia. A garganta doía devido a gargalhada, todavia sabia que no fundo tinha um nó de choro encrustado ali.
– Gendry, como todos os Baratheon você tem os olhos azuis, a pele alva e os cabelos negros.
– E daí? Quer dizer que todas as pessoas de cabelos negros, olhos azuis e pele branca são Baratheon? — Rebateu — Além do mais, isso o que diz não é verdade, o Rei Joffrey e os seus irmãos são loiros — Também poderia ter dito a cor dos olhos deles, se alguma vez tivesse ficado perto o suficiente dos mesmos.
– Os filhos da Cersei são bastardos, crias de uma relação incestuosa com o irmão — Lady Melisandre respondeu, a voz tão cortante quanto uma lâmina recém afiada.
– E essa acusação é baseada em quê? Na cor do cabelo deles? — Zombou.
Os olhos rubros da mulher cintilaram e o rubi que estava preso em seu colar pareceu ter escurecido. A lareira acesa no canto do quarto não emitia mais calor para ele. Sentiu um frio súbito, medo, talvez. Não deveria tê-la desafiado dessa forma. Ele não era ninguém, estava ali de favor. Não, ela me quis aqui, eu não pedi para vir, e se ela diz que eu sou realmente filho do Rei Robert, então... Engoliu em seco. Tudo de repente lhe fez sentido, ocorre que mesmo o Rei Robert sendo o seu pai, isso não mudava o fato de ser um bastardo e não possuir nenhum direito de sucessão, mas só saber quem era o seu progenitor era o suficiente para acalentá-lo e conhecer mais a respeito de si mesmo.
– Há outras evidências sobre a paternidade dos filhos da Cersei, assim como há sobre a sua — Disse a sacerdotisa.
– Os guardas da cidade, os soldados Lannisters... — Gendry começou, sentindo-se impotente — ...As visitas de Lorde Arryn e de Lorde Stark na forja onde eu trabalhava... Se o que diz for verdade, então agora eu compreendo a razão deles... — Sentia-se tonto. O que ele entendeu como sendo uma brincadeira ganhava as cores da realidade.
– E compreenderá a razão de seu tio por querer trazê-lo para perto — Lady Melisandre disse.
– Eu sou apenas um bastardo — Revelou o seu ponto de vista, ainda abalado pelos últimos acontecimentos.
– O bastardo de um Rei — Explicou a mulher vermelha — O seu sangue tem poder, Gendry.
Poder para me meter em apuros, pensou. Arya era filha da antiga Mão do Rei e mesmo assim fora obrigada a deixar Porto Real pela própria segurança e apesar de os Stark terem aliados ela correu e ainda corria sério risco de vida. Por menos do que isso os Lannister já tramaram contra a minha vida e com tantos lordes se auto-proclamando rei... Sabia que os Lannister não seriam os únicos que desejariam ver a sua cabeça separada do corpo se a sua descendência fosse revelada e nada garantia que Lorde Stannis não desejaria o mesmo que os demais.
– O que Lorde Stannis deseja de mim? — Perguntou. Internamente sentia vontade de se tornar um nobre, viver rodeado do luxo que lhe era negado na Baixada das Pulgas. Arya seria contra isso, tinha certeza absoluta sobre o que ela lhe diria, que os lordes e ladys não são aquilo que ele pensa que são e que é exatamente por isso que ela se recusa a ser intitulada de Lady, ainda que não negue a realeza de sua família.
– Rei Stannis — O corrigiu — Ele deseja tê-lo perto, fazer de você parte de sua família, como deveria ter sido feito em seu nascimento.
Algo na voz da sacerdotisa revelava que o que dizia não era tudo o que o Rei Stannis queria para com ele. Não havia nenhuma palavra que lhe transmitisse segurança e ele passara por muitas situações perigosas para saber no que podia ou não confiar, mas ele não era como Arya que desconfiava de tudo, ele queria acreditar que havia um lugar seguro onde pudesse estar. Pedra do Dragão podia ser esse lugar, afinal de contas.
– Mas eu sou um bastardo... — Apontou a falha no plano da mulher.
– Infelizmente não podemos escolher as circunstâncias nas quais nascemos — Lamentou Lady Melisandre — Contudo o verdadeiro Rei dos Sete Reinos consegue ver além das limitações sociais das pessoas, o que em alguns casos pode ser ruim para o próprio bem dele — Gendry deve ter feito uma careta de espanto com a última frase da mulher vermelha, porque ela riu docemente em seguida — Não se preocupe, querido, isso não se aplica a você. Agora, termine o seu jantar e vá descansar, pois amanhã você finalmente conhecerá o seu tio.
Gendry fez o que lhe foi ordenado. A carne crua já não foi mais repulsiva ao seu paladar, ela tinha gosto de casa, uma casa que ele nunca havia tido antes, uma família, não uma família como a Irmandade fora para com ele, não... Essa família era de sangue e de acordo com Lady Melisandre desejava acolhê-lo, mesmo com a sua condição social. E se eu nunca ganhar um sobrenome, o que me importa? , disse para si mesmo, quando se deitou para dormir na cama de palha da sua cabine, eu ainda terei uma família, três refeições fartas ao dia e quem sabe poderei me tornar um cavaleiro? não havia nada na política de Westeros que impedia um bastardo de se tornar um cavaleiro desde que tivesse um veterano na profissão para fazer as honras e sendo ele protegido de Lorde, ou melhor, do Rei Stannis, ninguém lhe negaria o título. E quem sabe não terei um bom casamento, o pensamento lhe causou ansiedade. Quando chegasse a hora talvez pudesse escolher entre as filhas donzelas de Casas menores ou as mais longes da linha de sucessão de Casas médias, quem sabe até viúvas entrasse na lista, mas não Arya, a frase saltou em sua mente. Arya pertencia à uma das sete principais Casas do reino, a não ser que ele fosse reconhecido como herdeiro do Rei Robert suas pretensões para desposá-la seriam vãs. E quem disse que eu quero me casar com ela? Ela é baixa, se comporta como um garoto e quase não tem peitos, até o Torta Quente tem mais curvas do que ela!, esbravejou para consigo mesmo e se recusou a desperdiçar mais um pensamento sequer a respeito disso. Naquela noite sonhou com um futuro que ele próprio havia idealizado, no qual ele estava vivendo em Porto Real e assistindo um torneio na arena da cidade, entretanto dessa vez ele não estava do lado da multidão, ele estava sentado na arquibancada real trajando uma armadura cintilante que mandara fazer, aguardando a vez em que entraria em campo. No seu sonho Arya também estava presente, vestida propriamente como uma lady, mas ela não estava feliz, em seu rosto tinha a expressão de repreensão que Gendry conhecia muito bem. O que você sabe sobre família? Arya lhe perguntou no sonho da mesma forma que ela perguntara no Septo de Pedra.
Na manhã seguinte quando finalmente acordou, a sua atenção não ficou presa no teto da cabine ou na fraca luz do sol que adentrava o aposento, dessa vez estava concentrado no alvoroço por todo o navio. Gendry havia se sentado e colocado os pés para fora da cama quando ouviu uma batida na porta.
– Entre! — Gritou, coçando os olhos para afastar o sono.
Sor Justin adentrara a cabine e trazia um enorme sorriso de felicidade no rosto.
– Recolha as suas coisas, senhor, Lady Melisandre o espera no convés para atracarem em Pedra do Dragão — Disse-lhe e sem esperar resposta o deixou só novamente.
Senhor, ele podia se acostumar com isso. Gendry não tinha muitas coisas, em fato, não tinha nada o que recolher. A espada que havia ganho da Irmandade lhe fora tomada pelos Homens da Rainha, lhe restando apenas o gibão de couro de segunda mão manchado, a camisa de lã marrom que trajava e a calça de algodão da mesma cor, mas não da mesma tonalidade da camisa. Rapidamente o rapaz vestiu o gibão e calçou as botas negras que tinha e foi para o convés.
Não foi necessário demasiado esforço para reconhecer a silhueta vermelha de Lady Melisandre, contudo, ao lado dela havia uma figura nova que ele não se lembrava de ter visto à bordo. Era uma mulher, tinha certeza disso, trajando uma capa com capuz marrom que ocultava o rosto e boa parte do corpo. Foi apenas quando a sua presença foi notada que a figura estranha se virou para ele e o rapaz pôde perceber o par de olhos azuis claros lhe olhando de volta com mexas de cabelo negro escorrendo pelos seus ombros. Se não era a mais, então era uma das mais belas mulheres que já vira em toda a vida e não deveria ter uma diferença de idade gritante com a sua, talvez fosse uns dois ou três anos mais nova, visto que ele tinha os seus dezenove anos completos. Ela pode ser a minha irmã bastarda, pensou. Lady Melisandre lhe disse que os Baratheon tem pele alva, olhos azuis e cabelos negros, se bem que os olhos daquela garota eram bem mais claros do que os seus.
– Era dele quem eu estava falando, Lady – A sacerdotisa comentou com a garota — Era a cabine dele que ficava do lado da sua.
O habitante misterioso do aposento que dividia parede com o seu fora conhecido e o silêncio que predominava lá ele atribuiu ao fato dela ser uma lady. Se ela é uma lady, então não tem como ela ser uma bastarda... A não ser que ela tenha sido reconhecida ou se a sua mãe for uma nobre, constatou. Aquela estranha tinha um ar diferente dos bastardos que conhecera, não seria estranho que a última alternativa tivesse de fato sido a verdadeira razão por ser chamada de Lady. Porém Sor Justin me chamou de senhor... E Gendry sabia que ele não tinha nada de elegante em si, até mesmo as poucas cortesias que aprendera com o mestre Tobho eram falhas.
– Bom dia — Cumprimentou, com uma certa timidez. A garota desconhecida lhe virou o rosto, voltando a encarar o mar como estava fazendo antes de reparar que o rapaz havia chego.
– Devemos nos apressarmos se desejarmos chegar em Pedra do Dragão antes do meio dia — Sor Godry disse já estando com o bote preparado para a descida deles na costa.
– Por que não podemos ir com o navio até a costa? — A garota que ele não sabia o nome perguntou.
– O navio está carregado com mercadorias, o que o deixa mais pesado, logo a nossa chegada demorará mais se dependermos do capitão — Lady Melisandre respondeu.
Os três, mais Sor Godry e Sor Justin entraram em um bote e com os dois cavaleiros remando o que restou para os demais foi esperar pela chegada à praia de Pedra do Dragão. Nenhuma palavra foi trocada entre eles. Os remadores estavam ocupados com sua tarefa e as duas mulheres entretidas em seus próprios pensamentos. Gendry reparou no olhar triste que a garota que podia ser sua irmã bastarda tinha. Talvez pudesse puxar assunto com ela e distraí-la do que quer que fosse que a deixasse dessa forma, contudo o seu bom senso dizia para não fazê-lo, não tinha intimidade suficiente com ela para isso.
Não foi necessário que ninguém lhe dissesse que estavam próximos. Diante de seus olhos jazia a ilha onde o Rei Stannis era o suserano e pouco distante da costa já era possível visualizar a muralha da grande construção valiriana feita em pedra negra. Pedra do Dragão! exclamou, estando maravilhado com o castelo erguido em forma de dragão. Conforme iam ficando cada vez mais próximos, Gendry percebeu que as torres, as ameias e até mesmo os portões tinham a forma de dragões, podendo ser a escultura de um ou de diversos para formar a mesma parte do castelo. Era uma arte extremamente bonita na mesma medida em que era tenebrosa, principalmente durante o período da manhã quando o sol ainda estava se levantando para ocupar lugar no ponto mais alto do céu, antes de descer no período da tarde, dando espaço para a lua que faria o mesmo trajeto no anoitecer. Quando Gendry olhou para o céu na direção do castelo ele comparou o sol com uma grande bola de fogo que estava sendo segurada pelo dragão que formava o corpo principal do lugar. A garota ao seu lado demonstrou ter percebido a mesma coisa, pois soltou um gemido baixo de admiração.
– Pedra do Dragão foi construída sobre um vulcão — Lady Melisandre contou — Então o castelo é muito quente e úmido ao mesmo tempo, sendo o responsável pelo segundo fator a maresia.
Gendry se perguntou se um dia o vulcão tornasse a entrar em erupção tudo aquilo viraria cinzas. O rapaz decidiu depois de mais algumas análises na estrutura de pedra negra que apenas as pessoas virariam cinzas, todo aquele trabalho dos valirianos definitivamente permaneceria intacto e viria a pertencer à outro senhor. O rapaz desejou com um certo desespero estar bem longe dali quando isso acontecesse.
Eles atracaram na praia e estranhamente não havia ninguém ali para recebê-los como pensou que aconteceria. O portão de entrada do castelo para quem chegava do mar era o principal e o seu caminho era feito de areia. Cada lado do pesado portão de pedra tinha um dragão de três cabeças esculpido e tingido de cor vermelho, sendo uma referência à Casa Targaryen, o que poderia até ter sido uma ofensa para o Rei Stannis, Teria sido para o Rei Robert, mas que era impossível de ser removido e se não fosse por um dispositivo aprimorado criado pelos construtores do lugar seria impossível abrir e fechar o portão. Lady Melisandre precisou falar com o intermediário do outro lado dela para que a passagem fosse liberada para eles.
– Sor Godry, Sor Justin, voltem para a praia e ajude com o descarregamento do navio — Lady Melisandre ordenou.
Sor Godry hesitou por um instante, entretanto acabou cedendo a relutância e abaixou a cabeça como um cavaleiro leal e fez o que lhe foi dito. O resultado da Batalha de Blackwater deixou o Rei Stannis com um escasso número de homens e já não havia funções pré-definidas para cada homem, elas eram criadas no calor do momento e de acordo com a necessidade.
Quando o portão fechou às suas costas o barulho do mar ficara para trás. Dentro da construção do castelo poucas almas eram vistas se locomovendo e apenas o som de metal arrastado em pedras podia ser escutado, junto com o crepitar do fogo. Esse lugar é pior do que Harrenhal... constatou. Ouvira falar diversas vezes que Lorde Stannis era um homem ranzinza que nunca sorria e que media cada palavra, apesar disso, Gendry pensou que seus homens tivessem sido poupados em dividir a mesma personalidade do rei que serviam.
– Por aqui — Lady Melisandre os conduziu através da cidadela. Assim como em Septo de Pedra e em Porto Real, havia diversas casas construídas com o mesmo material em que o castelo e a muralha que isolava a vila era feito. Pelo cheiro de comida o rapaz pôde perceber que um grande número delas eram habitadas, provavelmente por mulheres e crianças que tiveram que se separar de seus pais, filhos e esposos quando partiram para a guerra e nunca mais voltaram.
O caminho até o castelo era uma subida íngreme e o aglomerado de rochas que criavam o pavimento inferior do Tambor de Pedra, como Gendry descobriu que se chamava o Forte de Pedra do Dragão atribuía à cidadela a aparência de uma montanha, sendo bem destoante o rompimento entre a parte da fortaleza criada em pedra rústica e a parte em pedra polida em forma de dragão. O rapaz da Baixada das Pulgas não pôde deixar de perceber a abundância de água natural que jorravam de diversas cabeças de dragão esculpidas nas partes mais baixas do Forte e que desaguavam em uma espécie de córrego que se espalhava por todo o vilarejo.
– Lady Melisandre de Asshai — Os dois guardiões da entrada do forte cumprimentaram a sacerdotisa com animação e apreensão.
– Acabo de retornar da missão que o seu Rei me enviou. Desejo vê-lo imediatamente — Disse-lhes com a autoridade que só caberia à Mão do Rei, à Rainha ou ao Senhor Comandante da Guarda Real. Talvez no reinado de Stannis há mais poderes atribuídos ao representante de sua religião oficial do que o seu irmão Robert atribuiu em Porto Real, pensou, Também pode ser como os Homens da Rainha dizem, talvez Lady Melisandre seja a verdadeira Rainha do Rei Stannis.
– Lady Melisandre, não acredito que seja uma boa ideia... — Mais quatro soldados apareceram quando a porta se abriram e o mais senhoril dessa nova leva foi quem lhe dirigiu a palavra.
Os lábios da mulher vermelha crisparam.
– Onde está o seu Rei? — Questionou sem perder a pose e pela atitude que os cavaleiros tiveram o rapaz percebeu que a sacerdotisa costumava ter tudo o que queria na hora em que queria.
– Na Câmara da Mesa Pintada, senhora — O mesmo cavaleiro respondeu.
Sem esperar nada mais a sacerdotisa apressou-se pelo caminho que levava até onde o Rei Stannis estava. Lady Melisandre não se preocupou em ordenar que Gendry e a garota que chamara de Lady a acompanhasse e isso não se mostrou necessário, pois assim que ela se pôs em movimento eles a imitaram e atrás deles os cavaleiros seguiram, conversando entre si se deveriam ou não impedi-la. O medo deles falou mais alto, optando por segui-la de longe como se fosse sua escolta pessoal.
Gendry já estava cansado de tanto que tivera que andar. Os dias que passara a bordo do Black Betha e montado à cavalo fizeram com que se desacostumasse a se exercitar com as próprias pernas e subir lugares íngremes o fatigara, porém não tanto quanto fizera com a garota que arfava ao seu lado, mas que se recusava a parar para recuperar o fôlego. As bochechas coradas que ela trazia pelo exercício serviam apenas para deixá-la ainda mais bonita. Era difícil para o bastardo pousar os seus olhos sobre ela por mais tempo do que o necessário e temia que ela percebesse isso.
Os novos hóspedes do Rei Stannis descobriram que a Câmara da Mesa Pintada ficava no andar mais alto do Forte do Tambor de Pedra e que recebia esse nome devido a grande mesa de madeira de quinze metros por sete metros na parte mais larga e um metro e meio na mais estreita, esculpida e pintada a mão com o mapa de todo o território de Westeros; de Dorne até a Muralha. Gendry percebeu a presença de três pessoas na sala, cada um sentado em um canto diferente da câmara que era iluminada por apenas quatro janelas, cada uma localizada em um ponto cardeal.
A primeira dessas pessoas que viu foi uma mulher muito magra e alta, com o rosto longilíneo semelhante ao de um cavalo e ela ainda possuía uma sombra sobre os lábios que indicava ser um bigode. Gendry com muito custo precisou segurar a risada. A segunda pessoa que viu foi um senhor, já por volta da casa dos cinquenta anos com a cabeça salpicada de fios grisalhos de cabelo. Pelos da mesma tonalidade se espalhavam por seu rosto, formando uma barba e um bigode muito bem aparados. Ao lado dele estava o mais altivo entre os três, era um homem uns dez anos mais novo do que seu companheiro, tendo aproximadamente a mesma idade da mulher de bigode. Seu rosto era carregado de traços de cansaço e os seus penetrantes olhos azuis era o que mais tinha de bonito, visto que no topo de sua cabeça começava a ficar calvo. Stannis, Gendry o reconheceu de imediato. Já o havia visto diversas vezes em Porto Real.
– Precisamos de navios, comida e homens dispostos à lutar na causa de Vossa Graça — O senhor grisalho falou, analisando o mapa esculpido diante deles.
– Para isso precisaremos de dinheiro — A mulher de bigode comentou.
– Eu não contratarei mercenários! — O senhor altivo exclamou.
Nenhum deles pareceu ter percebido a chegada do grupo que Gendry estava.
– Meu Rei — Lady Melisandre o cumprimentou, chamando a atenção para si, embora os olhos vermelhos da mulher estivem o tempo todo acompanhando o senhor de cabelos grisalhos.
– Melisandre! — A mulher de bigode se adiantou, perdendo toda a compostura que seria própria de uma lady. Com passos rápidos atravessou a câmara e prendeu as mãos da sacerdotisa entre as suas, demonstrando seus sentimentos com o retorno de sua amiga.
– Minha Rainha... — A mulher vermelha a cumprimentou de volta com afeto em sua voz, mas os seus olhos continuavam presos naquele senhor grisalho.
– Senhora — Aquele que estava recebendo toda a atenção da sacerdotisa se manifestou — Espero que não tenha destruído o meu navio.
– Sor Davos — Havia desprezo na voz dela — Da última vez em que nos vimos o Rei o tinha como prisioneiro — Acusou — As coisas mudaram muito, pelo o que vejo — No fim da frase ela voltou-se para o Rei Stannis, exigindo uma explicação para as modificações ocorridas em sua ausência.
– Fiz de Sor Davos a minha Mão, Melisandre — Stannis rebateu, com o semblante carregado. Era óbvio que não gostava de dar justificativas sobre suas ações.
– Eu lhe disse que estava sendo imprudente! — A voz da Rainha estava esganiçada.
– Silêncio, mulher! Eu não permitirei que questione as minhas decisões — Na frente de estranhos, Gendry concluiu a frase em sua cabeça — É ele o bastardo? — Os frios olhos do Rei Stannis o estudava. Com uma velocidade semelhante a da esposa aproximou-se de Gendry e com uma única mão prendeu o rosto do rapaz entre seus dedos chegando a beliscar a sua pele devido a força desnecessária — O que me garante que este é o verdadeiro filho de Robert? — Questionou, voltando-se para Lady Melisandre.
A sacerdotisa tinha um sorriso simples no rosto.
– O Senhor da Luz o mostrou nas chamas para mim, meu Rei — Respondeu — Olhe o rosto dele, é possível enxergar Robert mais jovem nele.
O Rei Stannis continuava encarando aquele que alegavam ser o seu sobrinho, mas ele não estava tão impressionado quanto se imaginava que ele ficaria. Gendry estava com as pernas bambas. Era amedrontador ter aqueles olhos azuis da mesma intensidade que os seus fixos em si. Talvez estando convencido sobre o laço que dividiam, o Senhor de Pedra do Dragão o soltou e por um triz não desabou com a distância súbita que tomou do homem. Agora a atenção do Rei estava posta sobre a garota e Gendry se viu inclinado em fazer o mesmo.
– E quem é ela? — Perguntou à Melisandre — Não me lembro de tê-la mencionado quando deixou Pedra do Dragão.
– Ela é um presente, meu Rei – Com a menção de estar sendo oferecida à alguém a garota cambaleou para trás, sendo contida por um dos guardas que estavam atrás dela. As mãos do cavaleiro a segurara pelos ombros.
– Por um acaso me trouxe uma outra bastarda de Robert? — O Rei rangia os dentes fazendo um som horrível de se ouvir. As mechas negras da garota que podia ser a sua irmã estavam visíveis, assim como os seus olhos, embora tivesse o capuz marrom sobre a cabeça.
– Ela não é filha de Robert, meu Rei, muito menos uma bastarda. Olhe bem para ela — Lady Melisandre sugeriu.
– Retire o capuz, garota — Ordenou o Rei.
A moça obedeceu e quando o fez, as raízes de seu cabelo ficaram amostra e ali se via fios acobreados nascendo, não tendo mais do que um dedo de comprimento. Stannis ficou em silêncio durante um significativo tempo e então, ele demonstrou conhecê-la e ficou atordoado pelo fato. Seus olhos estavam esbugalhados.
– A filha de Eddard... Não é possível — Stannis estava claramente atormentado com a imagem que via. Elevou a mão direita a testa, massageando-a — A última vez que soube da senhorita estava Porto Real, noiva do usurpador Joffrey Lannister – O Rei finalmente se direcionou a garota, talvez por julgar que o nível social dela era alto o suficiente para se relacionar.
Eddard... Gendry estudou melhor a garota em questão. De fato ela não era sua irmã bastarda, não com aqueles cabelos ruivos que estavam pintados de negros. Ela é filha de Eddard... Arya era filha de um Lorde Eddard, poderia esta garota que estava ao seu lado e que dormia na cabine do lado da sua no Black Betha ser a irmã de Arya? Arya disse que tinha uma única irmã, que se chamava Sansa e que era ruiva como a mãe e os outros irmãos. Só tinha um jeito de saber isso:
– Stark — Disse — Você é Sansa Stark!? — Perguntou e sua voz saiu esbaforida. O rapaz não podia acreditar na incrível coincidência das coisas. Ele havia deixado uma Stark para ir até outra.
A garota o olhou com os olhos arregalados. Parecia um passarinho assustado de asa quebrada. Gendry apiedou-se dela de uma forma que nunca havia se apiedado da irmã mais nova da garota.
– E-eu s-sou... — Sansa Stark gaguejou a resposta, olhando de Gendry para o Rei Stannis e por fim para a mulher vermelha.
– Ela deixou Porto Real com o Cão de Caça dos Lannister — Contou Melisandre e antes que o senhor que ela servia pudesse perguntar onde estava o Cão, ela já respondeu: — Eu o troquei junto com uma parte do ouro que ele tinha consigo pelo seu bastardo, com o restante eu tomei a liberdade de mandar alguns dos homens que levei nessa missão para comprar suprimentos para abastecer Pedra do Dragão.
– Isso é um acontecimento muito oportuno, Vossa Graça — O senhor de cabelos grisalhos que era a Mão de Stannis se manifestou — Podemos traçar um plano a partir disso agora que temos a irmã de Robb Stark conosco — Sor Davos estava esbaforido com a mudança de acontecimentos. O Rei Stannis que estava perdendo a guerra de repente estava dando a volta por cima.
– Eu já pensei sobre isso, meu Rei — Lady Melisandre acrescentou de imediato — Acredito que gostará de ouvir a minha proposta.
O Rei a analisou sem parar de ranger os dentes. As coisas estavam se tornando favoráveis para ele, tinha sob sua proteção o filho bastardo do último rei e a filha da última Mão, dependendo apenas da criação de um plano bom para utilizá-los.
– Os novos hóspedes precisam de um banho — Direcionou o comando aos quatro cavaleiros que estavam atrás deles — Leve-os cada um para um aposento e certifique-se de que tenham tudo o que é necessário. Quero-os prontos para a hora do jantar.
Eles já haviam quase atingido a porta, cada um escoltado por dois cavaleiros, quando Melisandre acrescentou que a Rainha Selyse deveria acompanhar Lady Stark. Gendry não era o rapaz mais inteligente do mundo, mas sabia que qualquer que fosse o plano da sacerdotisa, a Rainha não deveria ouvi-lo e sendo ela tonta o suficiente não percebeu as reais intenções da mulher vermelha. Por outro lado, Gendry não conseguia parar de pensar se deveria ou não contar para Sansa que havia encontrado a irmã dela que para todo o reino havia sido considerada morta. Arya disse que a irmã tem língua solta e se o Rei Stannis souber que a filha mais nova de Lorde Eddard está viva e com a Irmandade Sem Estandartes, Arya estará em apuros... A dúvida o consumia e não conseguia pensar em outra coisa que não envolvesse as duas.
Fale com o autor