O Voo Do Passarinho
13 Capítulo 13 - Confiança

O navio não colidira contra as rochas ao zarpar de Ponta Tempestade, o capitão navegara com tanta destreza que nem o momento em que estavam lutando contra as ondas fora sentido. Os deuses não ouviram o pedido da garota, eles nunca a ouviram de fato, nunca. Sempre que mais precisava de auxílio e recorria as divindades que sua mãe lhe ensinara a crer ela era abandonada com os seus infortúnios. Deuses, histórias e canções eram coisas que ela não deveria mais recorrer, não agora que conhecia os horrores do mundo.
A dor da primeira vez ainda podia ser sentida mesmo após três dias já terem se passado, mas não era o seu ventre que doía e sim os seus sentimentos; ela havia confiado a sua vida em Sandor acreditando que ele honraria a palavra de que nunca a machucaria, ela realmente havia acreditado nele e ele a traiu. Justamente agora... Martirizou-se aos prantos nos dois primeiros dias depois do ocorrido em sua cabine. Ao ter suas emoções explodidas durante o ápice da relação carnal, Sansa tomou consciência sobre seu afeto, porém agora era tarde demais para ela levá-los a frente e ficou grata por nunca tê-los mencionados em voz alta e nem confessado a si mesma. Eu sou grande o suficiente para ignorar estes sentimentos até que eles não mais me machuquem. A jovem já havia passado por uma experiência semelhante há algum tempo atrás e fora com o Rei Joffrey I. Ela confiara nele e lhe entregara o seu coração cegamente em paixão e assim como Sandor fizera, Joffrey traíra a sua confiança passando a sentença que arrancara a cabeça de Lorde Eddard Stark. Os dois fizeram coisas de magnitudes diferentes e infelizmente só consigo entender o vazio que estas ações me causaram. Colocando a mão no seio esquerdo logo após terminar o pensamento, Sansa se entregou as sensações que lhe completavam. Sentia-se invadida e desvalorizada, a ironia de que o navio era a única donzela a bordo agora, e mesmo assim apenas em nome, a incomodava. Eu ainda posso dizer que sou virgem. Pensou para consigo mesma tentando voltar a dar-lhe valor ou ao menos consolar a sua perda. No fundo sabia que ninguém compraria a suas palavras, não enquanto ela estivesse nessa viagem. Talvez ao reencontrar sua família, um bom casamento poderia lhe ser arranjado; não mais com reis, príncipes ou importantes nobres de Westeros. Um Senhor com uma pequena e amável propriedade, onde o passado não possa me assombrar e que não haja ninguém com interesse de retirar tudo o que eu tenho de mais valioso. Estes pensamentos não eram coerentes com quem ela era ainda que no momento fosse o que mais lhe fizesse sentido. Desde a morte de seu pai ela não podia ignorar completamente a responsabilidade que sentia pela desgraça que caíra em sua família; era a ambição de se casar com o príncipe que influenciou a decisão de Ned aceitar ser a Mão do Rei.
– Winterfell... — Murmurou o nome de seu local de nascimento. O mero nome do reino vinha do fundo de sua garganta e parecia ser um sonho distante. O seu retorno para casa estava inteiramente depositado na boa vontade de Clegane e Sansa já não confiava nas intenções dele. Se ao menos ela não fosse tão dependente ela poderia lutar por contra própria pelos seus ideais sem ter que envolver outras pessoas.
– Jonquil? — A voz de Aliria a trouxera para a realidade. Até o presente momento a vontade da garota fora respeitada e todos a deixaram ficar como quisesse e em nenhum desses dias Sandor voltara a procurá-la para qualquer coisa que fosse.
Era estranho ouvir o nome falso que inventara ao invés de o seu nome de batismo e, sem forças para contestar preferiu deixar que a chamassem como bem entendessem. Não é ele. Ele nem ao menos se dignou em saber como eu estou. Remoeu-se. Ainda que não estivesse preparada para se deparar com Sandor e acreditasse que ele não podia magoá-la ainda mais ela recebeu a prova do contrário.
– Você não pode ficar toda a viagem nesta cama! — A mulher lhe repreendeu, descobrindo-a.
– Sim, eu posso — Sansa respondeu virando-se para o canto em posição fetal. Não queria ver ninguém e o mero pensamento lhe causava terror — Me deixe em paz! — Exigiu com aspereza. Se Alíria não a tivesse ido lhe avisar que Sandor desejava ter com ela, ela não teria sido violentada e era bem capaz que a mulher soubesse desde o princípio quais eram as intenções dele para com ela e foi por isso que a dona da estalagem de Felwood não mencionara nada ao vê-la no primeiro dia largada nua em sua cama, conforme fora deixada.
– Deixe de ser mimada, sua ridícula! — Alíria protestou — Você não é a primeira jovem que conhece um homem sem compromisso! — Sansa optou pelo silêncio, não havia nada bom para dizer para a mulher em relação a esta afirmação, mas ela continuou falando — Foi até bom que isso acontecesse, a vida é muito curta pra uma mulher fazer sexo apenas com o marido.
A jovem se sobrepôs, sentando-se em um movimento rápido na cama e virando-se para Alíria para olhá-la nos olhos e encontrar bases para os seus fundamentos.
– Isto é algo que uma mulher vulgar como você entende muito bem — Seu rosto era sereno e sem emoção enquanto sua voz era carregada de ódio — Eu nunca descerei tão baixo para andar com homens do seu nível — Teria acrescentado mais palavras a sua ofensa se a mulher não houvesse lhe cortado.
– Tem certeza? — Alíria riu — Pois você pode ter descido e nem saiba.
– O.. O que quer dizer? — Sansa estava confusa, perdendo assim o seu ar de frieza.
– Apenas que você deveria estar agradecida por ter dado a sua donzelice para alguém bom de cama — Os olhos castanhos de mulher eram como brasas que queimaram a alma de Sansa.
Não conseguia formar nenhuma frase em resposta, o cérebro estava branco, sentia vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
– Por que você está fazendo isto comigo!? — Exclamou com fúria.
– Porque você merece. A sua arrogância e ingenuidade desperta a vontade de te destruir nas pessoas que conheceram mais a respeito da vida do que você. Para nós, a sua dor não significa nada a não ser caprichos de uma menina mimada — Alíria respondeu com simplicidade e afastou-se da cama — Está fazendo um lindo dia e Yros continua perguntando de seu paradeiro. Se decidir sair deste buraco estaremos no convés. — Dito estas palavras, Alíria tornou a deixá-la a sós.
Os dizeres da mulher a ofenderam mais do que se permitia ser ofendida por uma pessoa de uma posição social inferior a sua, mas não era o fato de ter sido chamada de mimada que a irritava e sim a frase de Alíria que insinuava que Clegane era "bom de cama".
Sansa voltou a se deitar e esticou o braço esquerdo sobre o rosto para ocultar a claridade que invadia o quarto pela escotilha. Mil teorias sobre o significado do que ouvira lhe vinham a cabeça e nenhuma lhe era agradável. Se Sandor havia se deitado com Alíria teria de ter sido antes de subirem na embarcação do Capitão Timothy, talvez tivesse sido durante a estadia em Felwood ou em um tempo anterior, ela tinha certeza que não fora nos últimos dias ali, a jovem estava dividindo o quarto com a estalajadeira e Sandor não retornou a entrar em seus aposentos, pelo menos não que tenha visto.
– Por que eu me dou o trabalho de me preocupar com isto? — Questionou-se em voz alta. Já havia tomado a decisão de não deixar-se afetar pelos sentimentos que outrora alimentara inconscientemente pelo seu protetor. Inúmeras ações de boa fé não mudam o mau feito. Tentou se auto convencer. Porém um mau feito não desfazem as ações boas. Debateu consigo mesma. Condenar Sandor seria algo mais fácil se ela não estivesse tão sozinha como estava no momento. Ela tinha a companhia de Yros, Alíria e Willem, ocorre que eles não lhe eram íntimos; a garota os conhecia, todavia não tão bem quanto conhecia ao seu protetor e mesmo assim, ele fora o único capaz de lhe causar o mal, diferente dos demais — Alíria tem razão — Entregou-se as palavras da mulher — Eu não posso passar o resto da viagem trancafiada neste calabouço– Tornou a sentar-se e olhou ao seu redor.
O aposento estava mais organizado do que esperava. A experiência de sua companheira de quarto em hospedagem lhe dava a habilidade de organização do lar, mesmo que o lar se referisse à um espaço em um navio. De todo o lugar, apenas a sua cama era a bagunçada, com a coberta caída ao chão. Sansa a puxou de volta para cima da cama e quando o fez ouviu um barulho de tecido e de algo oco cair ao chão. Ao se esticar para olhar o que havia caído se deparou com a boneca que seu pai lhe dera e tomando-a em suas mãos pode perceber que havia algo errado; o rosto da boneca estava quebrado, a queda o ferira e os pedaços de porcelana estavam atirados ao chão, tão pequenos que juntá-los de volta era uma missão que julgou ser impossível.
– Não, não, por favor! — Choramingou sem nenhuma lágrima lhe vir aos olhos. Era tarde de mais, a única lembrança que tinha de seu pai fora destruída pelo seu descuido com os infortúnios do momento. Seus dedos se fecharam com força ao redor do corpo da boneca que era feito de tecido, palha e porcelana. Nada estava dando certo para ela ultimamente, tudo o que mais lhe era precioso estava sendo tirado pelo destino e só conseguia ter más sensações a respeito do que seria lhe tomado em seguida. Em um salto a garota ajoelhou-se ao lado da cama e começou a juntar os cacos, talvez alguém pudesse restaurar o rosto da boneca, a opinião de impossível era apenas no conceito de uma leiga que só entendia de brincar e não de reparar, porém logo nos primeiros pedaços que recolhera sua mão fora ferida por um pedaço maior de porcelana que estava afiado em formato pontudo. A jovem por conta própria o removeu, só que ao fazê-lo desajeitadamente devido o sangue que começava a escorrer, a ponta do fragmento se quebrara em sua palma.
– Maldito! — Blasfemou pela primeira vez e se sentiu surpresa pelo fato de que conseguia dizer uma palavra tão horrível sem que alguém a repreendesse. Era incrível como amaldiçoar podia ser libertador. Um pequeno sorriso discreto rasgou os seus lábios, porém a dor do corte a preocupava — Talvez Alíria possa me ajudar — Pôs-se de pé e se virou para a porta e então percebeu que não havia roupa em seu corpo além da camisa rasgada que trajava. A vergonha lhe assombrou como uma velha amiga. Ela não podia sair do quarto dessa forma e instintivamente percorreu o quarto a procura de uma vestimenta, vendo dois vestidos próximos a sua cama, escolheu o de cor verde musgo para usar na ocasião, guardando o alaranjado para mais tarde caso fosse necessário. Alíria não se incomodará se eu o tomar emprestado, espero. Todavia conforme se vestiu percebeu que a peça cabia-lhe perfeitamente, ficando um pouco frouxa apenas na região dos seios. O vestido não era muito bonito, faltava-lhe detalhes e a cor não era a sua favorita, além de que o formato dele era o mais simples possível, sendo impossível distingui-la entre os camponeses. Era estranho perceber como a cor escura em suas madeixas conseguiram lhe transformar em outra pessoa fisicamente.
– Certo, Alíria! — Focou-se no que tinha que fazer no momento. Sua mão direita, a que fora ferida, continuava aberta para que o pedaço de porcelana não se alojasse ainda mais em seu interior, o que foi uma árdua batalha enquanto tentava se vestir sendo ela uma pessoa destra. Ela disse que estaria no convés. Recordou-se e foi para lá que se direcionou. O movimento no convés estava brando comparado com o momento do embarque. Boa parte dos tripulantes estavam ali, alguns pendurados no parapeito do navio pescando ou apenas observando o movimento das ondas, outros cantando, tocando ou jogando algum jogo de carta ou dados e no meio dos tripulantes que estavam bebendo e comendo se encontrava os visitantes com quem embarcara, entre eles Sandor que lhe lançou um breve olhar quando ela se aproximou deles.
– Veja quem resolveu se juntar a nós! — Gargalhou Willem ao reconhecê-la. Claramente ele estava tão bêbado quanto um marinheiro.
– Alíria... — Sansa a chamou com timidez, ignorando a recepção que tivera. Estava claramente encabulada ao reencontrar Clegane após a noite que dividiram juntos e ainda mais pelo modo que ele a estava tratando. Para a sua sorte as suas reações foram confundidas com timidez por estar na presença dos marujos os quais não conhecia — Você poderia me ajudar? — Mostrou a mão ferida para a conhecida que prontamente se pôs em pé.
– O que aconteceu? — Perguntou, examinando a ferida.
– Sem querer eu quebrei minha boneca de porcelana... — Confessou.
– Não acha que está velha de mais para ter estes tipos de brinquedo, garota? — Willem a questionou, engolindo um tanto de sua bebida. Sansa registrou a presença de Sandor ao lado do cozinheiro, não demonstrando interesse algum com o problema dela. Era como se Clegane fosse outra pessoa e os dois tivessem retornado ao período que passaram em Porto Real, talvez ainda pior, pois lá ele se importara com ela em diversas situações.
– Parece que tem algo preso aqui — Alíria comentou ao analisar a palma da mão de Sansa.
– Sim — Tornou a ignorar Willem — Um fragmento quebrou dentro da minha mão.
A mulher a repreendeu com o olhar e tomando-a pelo braço a conduziu para longe do convés até o quarto que os seus conhecidos e parceiros de viagem do sexo masculino estavam passando a noite. Foi ao adentrar o aposento que ela percebeu que Yros esteve o tempo todo ali, deitado sobre a cama na mesma posição que ela o vira pela última vez, exceto que agora os hematomas já haviam começado a desaparecer; menos arroxeados, mas ainda inchados. Estava com o coração tão eufórico quando se deparou com o grupo no andar superior que não notara a ausência do bardo.
– Jonquil! — Ele a chamou com o timbre mais terno que possuía — Você se sente melhor!? Alíria me confidenciou que você não estava saindo de seu quarto por estar com enjoo do mar, eu mesmo também tenho me sentido com náuseas, mas ver o seu rosto já faz todo o meu desconforto ir embora, você é a minha cura, Jonquil — Flertou e havia sinceridade em sua voz.
Mentalmente Sansa agradecera a mentira que a mulher inventara sobre a sua indisposição, a verdade era terrível demais em seu conceito para ser espalhada como uma fofoca. Era incrível que mesmo Alíria sendo uma pessoa simples, ela teve a sensibilidade de ocultar a razão da dor que estava sentindo e isto valeu a sua admiração.
– Agora não, Yros — Alíria o conteve — Jonquil não veio aqui para ver o seu Florian. — Disse a mulher, vasculhando no pequeno baú de madeira em cima da mesa entre as camas.
– Aconteceu alguma coisa? — O bardo sobressaltou-se e seus olhos percorreram Sansa dos pés a cabeça, hesitando na mão dela — O que houve!? — Exclamou ao perceber o sangue que escorria do ferimento e ameaçou saltar-se da cama, todavia a dor que ainda sentia no corpo o fez oscilar.
– Yros! — Chamou-o e correu para o seu lado. Era impossível ver alguém que demonstrasse preocupação com ela e que não tivesse a mesma atenção retribuída. Doía lhe pensar que quem estava lhe dando esta atenção era o bardo de Felwood e não Sandor. Alguns dias atrás ela teria adorado esta ordem, porém estando agora ciente de seus sentimentos, Sansa se perguntava se algum dia ela realmente teria gostado de Yros ou era apenas a jovialidade e a beleza dele que a atraíram — Você não deve se esforçar, por favor — Auxiliou-o para que voltasse a se deitar.
– O que houve com a sua mão? — Yros perguntou, recusando a obedecê-la até que sua pergunta tivesse uma resposta.
– Não foi nada, isto é apenas um ferimento bobo — Confessou, por fim, fazendo com que ele obedecesse o seu comando.
– Apenas porque foi desajeitada — Acrescentou Alíria, fazendo-a se sentar na cama ao lado do bardo. Em suas mãos a mulher trazia um pedaço de trapo, uma frasqueira escura e um punhal — Vai doer um pouco, querida, sugiro que não olhe e se segure em alguma coisa — Alertou-a.
No mesmo instante Yros segurou-lhe a mão esquerda para lhe dar apoio. Alíria então se ajoelhara de frente para Sansa para que tivesse apoio e não tremesse durante o processo, depositando os itens que carregava no chão, ao seu lado. Em uma de suas mãos segurava a mão direita da garota aberta e o primeiro dos itens que utilizara foi o conteúdo da frasqueira escura que ao tocar a pele de Sansa ardeu como se fosse fogo que tivesse sido ateado ali.
– O que é isso!? — Sansa exclamou, fazendo força contra a mão de Alíria em um movimento instintivo.
– Rum — Explicou a mulher — Para desinfetar o machucado deve-se utilizar uma bebida alcoólica — Continuando com o tratamento, a frasqueira fora trocada pelo punhal — Vire o rosto e não feche a mão. Irá doer, mas você vai sobreviver — Divertiu-se e delicadamente e com precisão encontrou com a ponta da arma o pedaço de porcelana que estava preso no ferimento e o cutucou até que saísse, tendo de fazer o seu melhor para que a inquietação da jovem não a atrapalhasse na extração — Prontinho, aqui está — Mostrou o pequeno fragmento de um pouco menos de meio centímetro de altura e de largura — Nem doeu, não é mesmo? — Ironizou.
– Incrível como uma coisa tão pequena pôde fazer tanto dano — Sansa admirou-se, olhando do fragmento para a sua mão. Agora sem ter nada no corte, a dor sumira com uma grande rapidez e só sentia o repuxo quando abria e fechava a mão.
– Sim, sim, deixe-me finalizar o curativo — Pediu Alíria sem que necessariamente soasse como um pedido. Fazendo novamente o uso d bebida, derramou um pouco mais de rum na palma ferida de Sansa, misturando o álcool com o sangue da jovem e deixando a região limpa para que, como se procedeu, fosse enfaixada pelo trapo que a mulher separara.
– Não deveria ter colocado alguma pomada antes? — Questionou Sansa, analisando a faixa em sua mão.
– Deveria se o corte tivesse sido grave. No seu caso foi só um pedaço de porcelana que ficou alojado, sem grandes estragos.
– Al, acredito que esteja na hora da minha medicação — Yros pediu a atenção dela. Aparentemente sua dor no corpo estava voltando com o fim do efeito do remédio que estava tomando.
Sem lhe dizer palavra, Alíria se pôs em pé e caminhou novamente até o seu baú com apetrechos medicinais. Barulho de vidro e folhas foram ouvidos até que se cessassem com a mulher retornando na direção do ferido com um pequeno vidro de aparência leitosa em mãos com o conteúdo cheio até a metade.
– Beba apenas um gole — ordenou — Ainda temos um longo caminho pela frente até que eu possa por as mãos em um novo vidro de leite de papoula.
Yros obedeceu a amiga e tirando a tampa do frasco, tomou um pequeno gole. Sansa já havia ouvido falar sobre essa medicina anteriormente, principalmente após a morte do Rei Robert Baratheon, aparentemente o uso frequente e em grande quantidade da essência misturada com o vinho fez com que ele perdesse a sanidade e desafiasse o javali que o matou despreparadamente.
– Leite de papoula pode matar... — Murmurou para si mesma.
– Dreamshade é mais eficaz — Alíria abriu um sorriso amarelo — Você conhece as ervas medicinais? — Questionou Sansa.
– Não, este conhecimento é só para os Meistres.
– Na capital, só se for — A mulher deu de ombros, tornando a ter posse do leite de papoula — Não tem meistres em todos os lugares, sabia? E quando há, muitas vezes eles não se rebaixam a atender camponeses por não lhes dar enriquecimento monetário ou prestígio, então temos que aprender a cuidar de pessoas como nós — Alíria caminhou até o criado e guardou o frasco que tinha em mãos e começou a esvaziar algumas coisas do baú e colocá-las sobre o móvel.
– Você aprendeu sozinha? — Sansa sentia-se intrigada com ela. Algumas vezes sentia que o desprezo que tinha por Alíria era recíproco enquanto outras vezes pensava que ninguém conseguia entendê-la tão bem quanto a mulher.
– Não, o conhecimento sobre as plantas é algo de família. Se você tiver interesse, pode começar aprendendo por aqui — Dito isto, virou-se para Sansa e atirou-lhe um livro com a capa feita de couro marrom cheio de remendos; o livro não possuía o tamanho convencional, tanto em largura quanto em espessura, era leve e pequeno, cabendo quase que perfeitamente em uma mão da jovem — Yros me deu — Apontou o bardo com o polegar — Mas ele é tão idiota que se esqueceu do fato de que eu não sei ler. Pode ficar pra você, não me serve de nada de qualquer forma.
Conforme Alíria se virou na direção de Sansa, a garota pode ver que sobre o criado mudo havia algumas folhas, um pedaço de trapo e uma cumbuca identificada como sendo um pilão. Quando Alíria lhe deu as costas e começou a amaçar as folhas no instrumento a atenção da jovem foi dada para o livro, folhando as páginas com atenção e cuidado. Em cada folha Sansa pode perceber, constava informações sobre mais de uma planta, embora houvesse apenas um desenho em cada página. Logo na primeira folha aberta encontrava-se os dados sobre a erva chamada de vernonia condensata, recomendada para problemas como azia, ressaca e de falta de apetite, devendo ser manuseada em forma de chá ou suco. Clegane deve conhecer muito bem essa medicina, mas ele vai dizer que é coisa de mulher. Riu com os seus pensamentos.
– Gosta do livro? — Yros lhe perguntou, pondo a sua mão sobre a da garota sentada ao seu lado — Há vários dizeres interessante aí, se eu soubesse que um livro iria lhe arrancar um sorriso, teria lhe dado uma biblioteca inteira! — Flertou galantemente como era habitual.
O sorriso de Sansa morrera em seus lábios, não podia dizer que o motivo de felicidade era o livro em si e nem negá-lo.
– Livros são entediantes! — Alíria interveio — Graças aos Sete nunca aprendi as palavras! Contudo, acredito que aprender as propriedades das plantas irá ajudá-la a passar o tempo e será menos enervante se eu não tiver que lhe explicar cada uma delas, então leia essa merda para que possa me auxiliar nos cuidados de Yros.
Agora foi a vez de Yros abrir um sorriso de orelha a orelha com a oportunidade que Alíria estava lhe dando com a sua Jonquil.
– Se tiver alguma dúvida, Jonquil, pode perguntar para mim — Ofereceu-se.
– Você entende de propriedades medicinais também, Yros? — Surpreendeu-se.
– Não, mas terei o maior prazer em passar um pouco mais de tempo com você — Confessou com falsa inocência.
– Garota, ponha essa água na lareira! — Alíria mais uma vez a retirou de uma situação constrangedora. Prontamente a moça se pôs em pé e pegando a chaleira com água caminhou até a lareira e depositou-a sobre o recipiente propício para a ação — Muito bem, vocês devem estar com o estômago nas costas, irei buscar algo para que possam comer. Oi, menina, fique de olho para quando a água começar a ferver! Tire ela do fogo e a despeje no pilão, misture com as folhas de confrei que eu já piquei e em seguida aplique nas regiões inchadas no corpo dele — A mulher se direcionou até a porta e hesitou um instante após abri-la — Yros, não tente nenhuma gracinha, estou lhe avisando — Ameaçou e então retirou-se do aposento, deixando para trás um desconfortável momento de silêncio que foi interrompido pela primeira vez pela defesa de Yros alegando que não tinha nenhum plano de fazer mal a moça e na segunda vez pelo chiar da chaleira alguns momentos depois. Depois do que Sandor lhe fizera, Sansa não tinha mais confiança em ficar sozinha em um lugar fechado com uma pessoa do sexo oposto.
– Você está ansiosa? — Yros rompeu o silêncio com a sua pergunta que a princípio não fez sentindo algum.
– Com o quê? — Sansa retrucou, seguindo as ordens de Alíria e despejando a água no pilão e misturando com as folhas ali, até que se tornasse um líquido transparente de tonalidade esverdeado.
– Com a possibilidade de rever sua família — A voz de Yros não estava mais jovial como outrora. A bem da verdade, este tom não parecia estar vindo da mesma pessoa que Sansa conhecia, soava como uma pessoa totalmente diferente, fria e calculista, contudo Sansa não considerou a opção dessa ser uma personalidade dele, ela culpou essa mudança na dor que ele deveria estar sentindo.
– Não acho que devíamos estarmos conversando sobre isso... — Sussurrou com insegurança. Tinha medo que alguém a ouvisse e ainda mais medo de que Yros não fosse de confiança, apesar de que tudo o que ele estava fazendo provasse o contrário — ... Quer dizer... — A gratidão que sentia por ele a forçou a confessar os seus sentimentos em relação a sua família — ... Estou, mas também tenho medo.
– Medo?
– Sim... — Sua voz ficava cada vez mais inaudível e Yros não a teria ouvido se ela não tivesse vindo em sua direção trazendo consigo o emplastro de confrei no trapo que Alíria separara — Mais de um ano se passou desde que eu vi a minha família pela última vez e muitos acontecimentos se sucederam... Tenho medo que eles não me reconheçam, o Bran era apenas um garotinho quando deixei Winterfell e o Rickon era praticamente um bebê e como minha mãe o meu irmão estão na guerra, temo não encontrá-los em casa...
– Winterfell? — Os olhos de Yros se arregalaram — Você está indo para Winterfell!? — Sua boca entreabriu-se em um perfeito O de incredulidade e a sua voz voltara a ser calorosa como sempre.
Sansa não compreendeu o que havia dito de tão horrível que pudesse fazê-lo reagir dessa forma. Talvez ele não soubesse quem eu sou realmente e eu acabei de confessá-lo... Oh, não! Por favor! Implorou para os deuses e os seus pedidos foram atendidos, de uma forma pior do que a que tinha em mente.
– Jonquil, você não soube? Tinha certeza de que o Cão sabia... Havia outros navios em Porto Real com destino ainda mais para o Norte e mesmo assim, vocês escolheram este que vai no máximo até o Tridente... — Yros levou a mão até a boca em espanto antes de levá-la até a testa e coçá-la em um movimento instintivo de quem procura meios de por em palavras delicadas a realidade — Winterfell, criança... — Pausou a frase — Sente-se, você gostará de ouvir o que eu tenho para dizer sentada — Gesticulou, batendo levemente ao seu lado no colchão.
A moça o obedeceu, segurando com mais força o emplastro em suas mãos. Ela não sabia o que viria a seguir, mas a angustia de que seria algo ruim a estava dominando, levando-a a tremer precipitadamente.
– Algum tempo atrás, antes da Batalha de Blackwater, foi espalhada a notícia de que Winterfell fora capturada e que muitas das pessoas que estavam lá foram mortas e outras tidas como prisioneiras... — Ele parou de falar, havia algo em sua atitude que deixava claro que tinha mais a ser dito.
– Meus irmãos...? — Sansa tentava buscar em sua mente os nomes e os rostos dos indivíduos que ficaram em Winterfell, porém poucos lhe vieram a lembrança. Muitas das pessoas juramentadas aos Starks deixaram Winterfell junto com Robb, seu irmão mais velho, após Ned ter sido acusado de traição e poucos foram os nomes enviados para Porto Real dos nortenhos envolvidos na guerra.
– Eles... — Yros a abraçou e gemeu com a ação. A dor em seu corpo ainda era uma realidade, mesmo com o leite de papoula; que como fora ingerido em pequena quantidade conseguia amenizar, mas não extinguir a dor — Sansa, eu sinto muito, mas eles estão mortos — Ele simplesmente não podia dizer a maneira a qual eles foram assassinados, seria crueldade demais para a jovem.
– Q-quem... Quem faria algo assim com eles!? Eles eram apenas crianças! — Choramingou, deixando-se ser abraçada por Yros, que o fazia da forma mais gentil possível, mas nenhuma lágrima lhe vinha aos olhos; chorara tanto nos últimos dias que acreditava ter secado toda a água de seu corpo. Os Lannisters... Pensou para consigo mesma. Foram os Lannisters! Tenho certeza disso! Bran ainda não havia feito os seus dez anos, ainda faltava um ano para isso, Rickon por outro lado tinha seis anos completos, apenas alguém com o sangue muito frio os assassinaria. Os Lannisters já fizeram isto antes, eles mandaram matar Elia Martell e os seus filhos, foi Gregor Clegane, a Montanha que Cavalga que os assassinou...
– A Montanha que Cavalga– Yros mentiu o nome do culpado sem uma falha na confissão de sua certeza.
Clegane... Sempre um Clegane estava envolvido em suas desgraças. Talvez chegasse um tempo em que nascer Clegane ou Lannister fosse considerado um crime, assim como era no reinado de Robert I nascer Targaryen. Sansa deixou-se sucumbir ao apoio que estava recebendo e o abraçou de volta. Yros não era um homem musculoso, seus ossos eram proeminentes e estando preso a cama por suas injúrias, estava ficando mais magro; sua forma física não inspirava proteção em combate, contudo o seu espírito lhe dava todo o conforto que precisava. O cheiro dele era tão bom, ele cheirava a corte, era um aroma de limpeza, perfeito para se perder, diferente do qual estava acostumada.
– O Cão... Você disse que ele sabia? — A fúria a consumiu. Se a resposta viesse de forma positiva, então pela terceira vez ele a teria traído.
– Não quero problemas, Jonquil, já tenho bastante com o que lidar ultimamente... — Disse com dor em sua voz — ...Todavia, eu arrisco a dizer que ele sabia — Yros não tinha como ter certeza sobre isso, Sandor não comentara com Yros a conversa que tivera com o velho enquanto procurava um lugar para vender as joias de Sansa.
A garota não conseguia entender como, depois de tudo que Clegane fizera contra ela, como ela podia sentir como se estivesse sendo traída pela primeira vez por ele. Em Porto Real ela não confiara em Sandor, foi apenas durante a Batalha de Blackwater que ela aceitou o fato dele ser uma pessoa de confiança, então por quê?, por que agora que ela havia lhe considerado digno de confiança ele a estava destruindo dessa forma? Não importava se era para protegê-la, ela tinha o direito de saber, eram os irmãos dela! Mesmo que o plano original mudasse, Sansa era a mais interessada nessa viagem, era ela quem tinha uma casa para voltar e agora? O que ela tinha além de falsas esperanças? ou melhor, esperança alguma?
– C-como você sabe que ele sabia? — Questionou. Por mais que estivesse inclinada ela não poderia cometer os seus erros infantis, ela precisava ter certeza da culpa de Clegane, mesmo se negando a sanar suas dúvidas com a própria pessoa que as causavam.
– Alíria me contou, todavia eu já possuía conhecimento do fato, um bardo consegue saber das coisas mais rápido que qualquer outro indivíduo, a não as aranhas e os pássaros – Yros ameaçou abrir um sorriso, tendo Sansa ainda em seus braços.
Mentira. A garota pensou. Eu sou um maldito passarinho e aparentemente fui a última a saber. Amaldiçoava o apelido que recebera de seu protetor que a protegeu de tudo, menos dele mesmo.
– O que diabos está acontecendo!? — Alíria esbravejou ao abrir a porta do quarto e ver os dois entrelaçados em um abraço. A cara da mulher era um misto de fúria e medo e deixando-se ser dominada pelo medo, tratou de entrar o mais rápido possível no quarto e fechar a porta atrás de si, tudo isto estando com as mãos ocupadas com uma larga bandeja de alimentos.
Sansa e Yros se separaram do abraço perante a presença de Alíria, ainda que a iniciativa tenha sido da garota, o bardo foi relutante em afastar-se dela até ceder a ação.
– Eu contei a ela, Al — Yros confessou — Sobre os irmão dela e Winterfell.
– Puta que pariu, Yros! Por que você fez isso, caralho!? — Alíria estava em fúria e a sua boca parecia ter sido trocada com a de Willem. Os olhos da mulher estavam em chamas e passavam de Sansa para o homem, avaliando ambos como se pudesse medir o quão ferrada estava pela maneira que estavam as expressões deles. Alíria apoiou a bandeja em cima da cômoda próxima a porta e em seguida levou a mão ao rosto, puxando toda a cabeleira castanha para trás, pensativa — Se ele souber estamos fodidos!
– Ele...? — Sansa repetiu.
– Sim, seu seu protetor! — Aliria exclamou, zangada e agitada.
A jovem já não tinha mais nenhuma dúvida de que ela fora a última a saber da novidade que lhe dizia respeito. Ela queria ir até onde Clegane estava e questionar a sua decisão de ocultar a realidade pra ela e, acima de tudo, saber pra onde eles estavam indo já que aparentemente ela não tinha mais nada o que fazer em Winterfell, a não que ela quisesse viver em uma vila fantasma, o que era óbvio que ela não gostaria nenhum pouco enquanto ainda tivesse parentes vivos.
– Você não dirá uma palavra do que Yros lhe disse, está entendendo? — Alíria apontou o dedo na face de Sansa — Não duvide um segundo sequer das boas intenções do cavaleiro, ele estava procurando um jeito sensível de lhe contar, apenas isso, ele queria o seu melhor! — Disparou a mulher.
Sansa a escutou com atenção, seu coração acreditava nela, mas o seu cérebro não e sua boca foi contraída e de lá só saíram as seguintes palavras:
– Ele não é nenhum cavaleiro – Não era uma promessa, ela não podia prometer que não o questionaria sobre o incidente, talvez em um momento propício, talvez ela nunca o questionasse de fato para que ele não soubesse de seus planos e assim que o navio atracasse no cais, qualquer que fosse o cais, ela saltaria dele e permitiria se perder, se ela não mais confiava nele e já não sentia liberdade nem pra ficar próxima a ele, então não havia porque os dois continuarem nessa viagem juntos e muito menos para que ela continuasse o percurso com esses estranhos de Felwood. Por mais que Yros a encantasse, ele não era íntimo dela, ela mal o conhecia e já não era tão inocente para acreditar que ele só queria o seu bem, como todos pareciam querer. Esta fora a decisão mais sábia que tomara desde que aceitara deixar Porto Real.
– E o emplastro? — Alíria mudou de assunto, acreditando que talvez assim o clima amenizasse como de fato o fez.
– Eu... — Sansa mostrou o pano intacto — ...Não deu tempo...
– Muito bem, vá comer alguma coisa, deixa que eu cuido dele agora — Yros não ficou satisfeito com a mudança de cuidadora, mas não ousou reclamar, porque Sansa ainda ficaria no quarto junto a ele.
A garota entregou o emplastro para a Alíria e se dirigiu até a bandeja com os alimentos e pôde constar uma grande quantidade de frutas, sem muita variedade, um pão duro e queijo, sem nada para beber. Sansa optou por uma maçã, a fruta ainda estava boa, mesmo tendo sido colhida já havia tempo, ela pode perceber pela cor que possuía e torceu para que até o fim da viagem ainda houvessem frutas boas assim para que ela pudesse esconder algumas em suas coisas e não morrer de fome depois de fugir da proteção dessas pessoas.
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