O Voo

1 Capítulo Único


O avião decolou com certo atraso. Os passageiros, em sua maioria turistas, apreciavam a vista da janela com sorrisos bobos e deleite.

Exceto o executivo negro. O homem alto se controlava para superar as náuseas e o constante sentimento de ansiedade incômoda que, ele não admitia, era medo.

Observando o corredor largo do local, sua mente criava terríveis narrativas. Imaginou a asa explodindo, um enorme buraco sugando todos os tripulantes, poucos antes de uma destruição completa da máquina voadora.

Espantou os pensamentos terríveis.

Pediu uma bebida, precisava se acalmar, pensar na reunião.

“Por favor” disse o executivo, erguendo a mão para a aeromoça mais próxima.

“Preciso de um uísque, o mais forte que tiver.”

A funcionária assentiu, ausentou-se por alguns momentos, voltou com um vinho.

“Perdoe, Senhor. A única bebida que possuímos hoje é vinho” falou constrangida.

O grisalho CEO aceitou sem reclamar. Melhor que nada.

Sorveu a bebida lentamente, e, por um segundo, teve um vislumbre realista:

Uma explosão, chuva de fogo, cadáveres ardendo até os ossos.

Piscou rápido, espantando a visão.

(Santo Deus, preciso dormir)

Sem terminar a bebida, se recostou no banco. Mesmo nervoso, levava sua concentração para o breu suave do sono.

Em poucos minutos, o descanso se tornou realidade, junto com ele mais sonhos realistas e macabros.

Os cadáveres queimavam em uma pilha negra que fedia a sangue e carne chamuscada. De dentro do amontoado, uma pessoa em capa ébano de pele derretida levantou o braço, clamava por ajuda.

O pesadelo ainda mostrava a capa de um jornal do dia, que anunciava: avião cai, centenas de mortos.

“Senhores passageiros, o voo durará mais tempo que o previsto. Temos um pequeno...” A voz do piloto, informando o acontecido, arrancou o homem de sua horrorosa soneca.

Aproximando-se da janela, viu um fenômeno curioso. O céu parecia imóvel. As nuvens de antes do cochilo eram as mesmas de agora.

Olhou para o corredor, observando os passageiros do fundo da aeronave. Os turistas, a maioria dos passageiros, observavam a janela com deleite e sorrisos bobos.

(O que está aconte…)

O pensamento foi interrompido. Olhou para a lateral do largo corredor e imaginou a asa explodindo.

“Por favor” falou erguendo o braço, cordial, para a aeromoça mais próxima. “Preciso de uísque.”

(Santo Deus, preciso dormir)

A tragédia ceifou mais de duzentas vidas. O bombeiro que observava a cena horrorosa da queda, com corpos queimando, alguns ainda vivos se esgueirando das brasas, clamando por ajuda, pensava alto:

“Dizem que as mortes trágicas não são assimiladas pelas almas. E alguns são condenados a repetir eternamente as mesmas atividades de pouco antes do terrível destino."

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