O Violinista
1 Começo e Fim
Notas iniciais
Era uma vez, um Viajante que vagava por uma estrada cercada por vastos campos verdes, cobertos por relva fofa, que se alaranjavam ao fim da tarde, e lindas plantações de trigo, prontos para a colheita. O Viajante não tinha rumo, pelo menos, não lembrava de ter um, apenas seguia em frente, nunca voltando atrás. Ele caminhava sem pressa, em passadas calmas e curtas, como se o tempo não existisse para ele. Naquela estrada, todos os dias eram os mesmos, frios, nublados, com um leve vento vindo do leste.
Dentre as diversas coisas que ele levava consigo, o Viajante tinha um violino, novinho, uma das poucas coisas de valor que ele tinha além de sua mochila de coisas, ele não se lembrava como tinha ganhado aquele violino e mal sabia toca-lo, mas ele estava sempre com ele, o acompanhando em sua viagem solitária.
Houve uma noite em viajante parou para descansar debaixo de uma grande árvore no campo, fez uma fogueira e por ali ficou pensando, observando a lua e os vagalumes que voavam na plantação de trigo. Nessa noite, ele pegou o violino e tentou toca-lo, pela primeira vez em muito tempo de viagem, desafinado e desajeitado, acabou desistindo depois de pouco tempo. Ele não sabia por que tinha feito aquilo, apenas fez.
— Por que moves este arco com tanta incerteza e tristeza sobre minhas cordas? — Disse uma voz que parecia vir de sua cabeça.
O Viajante olhou em volta, depois olhou para o violino. Achou que estava ficando maluco depois de ficar tanto tempo sem ver uma outra pessoa.
— Quem disse isso? — Perguntou o Viajante, esperando que aquilo fosse coisa da sua cabeça.—
Quem tu achas? Estou bem na sua frente — Disse a voz.
O Viajante ficou em silêncio por um momento, olhou para o céu estrelado, se perguntando se estava maluco. Estava tão solitário que sua sanidade já estava em um ponto tênue entre a loucura e o vazio. Mesmo assim, ele continuou:
— Por que sua voz é triste desse jeito? — Foi a primeira coisa que veio em sua mente naquele momento, as palavras vieram sem nem mesmo que ele notasse.
— Pois a música que tu tocastes com esse arco, vieram de mãos tristes e incertas....
— Música...? — Disse o homem sem entender.
— Todo o som que sai das minhas cordas são música, minha música depende da pessoa que as toca — Dizia o violino com uma voz triste e falha — Um reflexo de quem tu és... Tu és um tanto peculiar... Não entende nem a si mesmo, não sabes nem mesmo porque vagas por estas estradas, todos os dias sem olhar para trás, parece ter medo do passado, ou tentas ir atrás de um futuro inalcançável. Vazio, nada, incompleto.
Enquanto escutava aquelas palavras, o Viajante segurava as cordas daquele violino com bastante força, como se estivesse tentando enforca-lo, como se não quisesse ouvir aquelas palavras. Ele encarava o violino com tristeza nos olhos. A verdade dói, é uma pancada que chega sem aviso e te derruba de uma forma horrível, mas na maioria das vezes é uma dor necessária.
— O que eu devo fazer a respeito? — Perguntou o homem com palavras calmas, mas por dentro, ele estava desesperado, desesperado com a verdade que apenas alguém ou algo para fazê-lo acreditar que é real.
— Isso, tu deves descobrir sozinho — Houve um breve silêncio — Quando descobrir, me preocure, tu saberás o que fazer...
Então o violino se calou, não falou mais nada. Naquela noite o homem não dormiu, ficou pensando naquelas palavras enquanto observava a lua, tão solitária quanto ele. Sua cabeça virou uma bagunça, de pensamentos e incertezas, mais do que ele já tinha.
De manhã, caminhando pela estrada que caminhava a tempos, tanto que quase não lembrava de como havia chegado ali, parou com os pensamentos, acalmou a tempestade em sua cabeça. Ele não estava chegando em lugar nenhum com aquela bagunça. Olhou em volta como se quisesse que alguém aparecesse naquela estrada deserta, mas não havia ninguém, apenas aquele vasto campo sem fim, e uma infinita plantação de trigo que ia até o horizonte. O homem respirou fundo e perguntou para si mesmo em voz alta:
— Por que sou tão triste e incerto? O que eu busco?
Por um bom tempo, ele escutava apenas o som do vento forte. Sua resposta quase, quase não veio, mas uma voz fraca veio do nada:
— Pois em tua caminhada, tu não encontra motivo para seguir em frente, mas você segue mesmo assim... — A voz parecia estar sem ar, se sufocando.
— Quem é você? — Perguntou o Viajante
— Tua Alma — A voz respondeu
— E por que sua voz é tão fraca e sufocada? — Havia um tom de tristeza nas palavras do Viajante
— Pois estou se esvaindo, se apagando. Fico mais fraca a cada passo tu dá... Se continuar assim, irei sumir... te deixar...
Todo o ser que vive possui uma alma, que é seu próprio reflexo. Sua alma é você e você é sua Alma. Mas alguém vivo que não possui alma está realmente vivo? Alguém pode ser o reflexo do vazio?
— Teus passos pregam o caixão da tua sepultura, se continuares assim, sem motivo para caminhar irei morrer, mas tu continuarás vivo, e nada te fará sentido. Seu nome, quem tu é, seu passado, o tempo, tudo se tornará nada.
Está realmente vivo? As palavras de sua alma sufocada diziam que não. O nada, apesar de simples, é algo difícil de se definir corretamente. Para alguns, pouco pode ser nada. Algumas coisas quando são muitas, se tornam nada. Pessoas brilhantes acham que não significam nada. Um lugar pode ser o nada. Um sentimento pode ser considerado nada. O nada as vezes não faz sentido, mas tudo em nossa realidade também não faz. A Alma se calou, precisava poupar esforço. Nada. Nesse momento, o nada foi tudo, a falta de resposta clareou a resposta, ele havia se esquecido dela, a muito tempo, para fugir de tudo. Nós somos nosso tudo e não podemos fugir de nós mesmo.
Motivo. As vezes as coisas não precisam necessariamente de um motivo. Coloque sua alma naquilo que faz e o resultado será o mais belo de todos. As coisas não precisam de motivos, mas nós precisamos, os motivos nos moldam, nos dão razão, fazem você buscar um futuro. Nosso sustento vem dos nossos motivos. Sem motivo somos um tudo sem nada.
Você sabe o que fazer, o Violino disse. O Viajante sabia o que fazer. Não parecia fazer sentido, mas ali, no meio da estrada eterna que ele andava todos os dias, ele tirou o violino e o arco, o posicionou em seu ombro e queixo e respirou fundo. Nada precisava ser dito. Ele segurou aquele arco com calma e firmeza. Sua alma estava naquilo, dependia daquilo. Começou desafinada, mas se tornou bela em pouco tempo. Música, música linda, suave, lenta, mudando e renovando cada traço de sua alma.
Tocando aquele violino, O Viajante começou a andar e aquela estrada deixou de ser a mesma e as coisas passaram a fazer sentido em uma melodia melancólica e intensa, feita por um violino. Os passos do Viajante agora possuíam um motivo, espalhar sua música, transformando sua alma, seu reflexo. Corpo, Alma, Motivo. O Violinista agora exibia sua alma em sua música em uma maestria surreal, que o mundo jamais vira antes. E ele fez isso, até o fim de sua vida, o seu Motivo.
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