O Vingador Infernal
5 De malas prontas e um mapa em mãos
Notas iniciais
Alguns meses depois...
Depois do ano-novo, a primeira grande coisa que aconteceu na Academia foi uma grande reunião de todos os membros em uma sala. Estava lotada. Depois de achar um lugar para sentar, fiquei imaginando o que seria.
— Atenção, por favor! – A voz feminina bradou, vinda de Marta. A multidão falava sem parar, até que um assobio alto e longo cessou o barulho. Bento estava ao lado dela. – Obrigado.
“Estamos aqui para anunciar quem vencerá o sorteio de ingresso na escola Mystique Campus. É um colégio para pessoas como nós, mágicas. É uma ótima oportunidade de futuro, bem melhor do que batalhar por dinheiro e arriscar suas vidas. No entanto, os estudos lá são caros.
O dono deste clube de luta teve a generosidade de conceder duas bolsas por ano para futuros alunos do campus. E já eu irei anunciar os sortudos. ”
Os burburinhos recomeçaram, a animação estava nítida em todos, mas em mim não. Eu não sabia onde ficava essa escola, nem sabia que existia há pouco, e se era tão cara deveria ser cheia de riquinhos mimados.
Bento trocou olhares com Jinrei, entre a multidão, e sorriu. Os dois deviam esperar por isso há tempos. Marta discursou por alguns minutos, e enfim declarou os vencedores:
— Sei que esperam por esse resultado por um bom tempo, então não irei prolongar mais ainda. O primeiro vencedor é... – A enfermeira buscou por um bilhete entre um monte de papéis em uma bacia, mais uma vez lembrei de Jogos Vorazes, e mais uma vez eu parecia a Katniss. – Bento! Parabéns!
O rapaz foi até a mesma e a abraçou, sorrindo, enquanto trocava olhares sorridentes com Jinrei, Marta erguia o braço do vencedor para cima.
— O próximo a ser sorteado poderá ser um novato ou um veterano. O primeiro sorteio só os veteranos estavam concorrendo. Vocês só terão uma chance, mas será única. O outro vencedor é... – A morena levou a mão até outro recipiente, trazido por um ajudante, desta vez um baú, e escolheu um bilhete. – Gary Tablo!
Quando o meu nome foi gritado, eu não podia acreditar.
~
A expressão no rosto do Jinrei não poderia ser pior. Ele estava frustrado por não ter ganho, e o seu amigo, embora contente por ser um dos vencedores, esperava que o oriental fosse com ele para a Academia.
Meia hora depois, seu olhar me fulminava. Os dois tinham me levado até outra sala, depois da reunião ter terminado, onde parecia um escritório, e a dupla me cercava como se eu fosse a presa.
A cerimônia havia se estendido demais, e eu precisei participar e fingir estar feliz por ter vencido ao lado do Bento.
— Como conseguiu ser sorteado? – O rapaz branco começou.
— Eu não sei...eu não queria. Eu nem sabia que ia ter sorteio.
— Está blefando! Fale a verdade! – Jinrei já estava gritando e se exaltando.
— Se quiser, eu digo que recuso a bolsa e ela fica com você! – Respondi.
— Não tem como fazer isso. Além do mais, teria que ser feito outro sorteio, e a bolsa já foi concedida. Eu sei que tem alguma coisa nisso!
A habitual dor de cabeça voltou a me perturbar.
— Jinrei! – Bento advertiu o amigo.
— Não sabemos nada sobre ele. É cada dia mais estranho para mim.
“Ele tem razão. Um estranho. ”
Pela primeira vez, a voz que ecoou era feminina. Novamente, só eu a ouvi.
“Eu já conheci muita gente recalcada, mas nunca como esse jovem. ”
A voz zombava e meu crânio zunia de dor.
“Ele não tem medo de você, Gary, tem inveja. Ele queria ser como você. Ele quer ter o que você tem. ”
Não era hora para pensar em como ela sabe o meu nome, igual ao Coringa sabia.
“Inveja é pecado, e eu sou uma moça religiosa. Este rapaz não pode viver querendo ter o que não pode. Ele precisa ser ensinado. Uma boa surra vai fazer ele entender. Faça isso, Gary! ”
Ao falar isso, as palavras percorriam a minha mente me fazendo tremer, e a imagem da autora da frase surgiu na minha frente.
Assim como o Coringa, eu conseguia definir as cores na sua figura, ela usava um vestido cheio de cores. Sua pele era branca, e uma coroa brilhante ornada em joias pousava em seus cabelos.
Seu sorriso era sarcástico, e o semblante familiar. A rainha do meu baralho de cartas.
“Você deve saber quem eu sou. Agora faça! ”
— Não. – Falei.
— O quê?
— Não! – Gritei.
— Com quem está falando? – Jinrei questionou.
Saí do cômodo com pressa, ouvindo a voz feminina dizer “irá se arrepender de ter falhado em mais um teste, garoto. ”
*
No outro dia...
— Deixei uma mala no seu quarto. Ela tem roupas que irão servir em você para os próximos dias. – Bento avisou, chegando até mim no refeitório, interrompendo o café da manhã de alguns. Muitos curiosos pararam para ouvir nossa conversa.
Quando fui até meu quarto, dei uma olhada na mala e a carreguei para fora. Marta se despediu de mim e de Bento, quando entramos em um carro, o mesmo que me trouxe até o clube de luta. O motorista era um dos guardas da arena, Sansão. Não vi mais o rosto de Jinrei. Ele agora guardava mágoa de mim.
A primeira e única parada, uns 15 minutos depois, foi em um terreno baldio, amplo, repleto de gente, onde desembarcamos e nos despedimos do motorista, que partiu de volta.
— Tem muita gente aqui.
— É, escuta isso. Os alunos são divididos em bruxos, centauros, fadas, sereias, elfos e bárbaros. Já sabe com qual deles eu irei ficar?
Assenti com a cabeça. O Bento é um sereio.
— Iremos para o campus em grupos separados.
— Eu vou em qual? No dos cães...
— Não diga essa palavra! – O rapaz me interrompeu – Lembra que você foi o primeiro que vimos no clube de luta? Talvez seja o primeiro que o campus verá. Não conte a ninguém o que você é. Você irá com os bárbaros e agora é um deles.
Não estava gostando nada da ideia. E se eles descobrissem?
— Vão acabar descobrindo!
— Isso não importa agora. Vá! E leve isso. – O sereio estendeu um papel enrolado em forma de pergaminho para mim. – Se precisar de mim, estarei na Ala Água, o setor das sereias. Te vejo no colégio. – O mesmo se aproximou muito rápido e me abraçou de surpresa, se despedindo, eu retribuo meio sem jeito e vi ele partir.
Desenrolei a folha e vi um desenho, um círculo com carruagens nas pontas. Cada uma tinha ao lado o desenho de um personagem, os mesmos que Bento descreveu. Uma fada, uma bruxa, uma sereia, um centauro, um elfo e um cavaleiro. Imaginei que essas pessoas deveriam estar dispostas como neste mapa. Mas não havia nenhuma carroça.
Do outro lado da página, havia outro mapa. Um castelo, uma rosa dos ventos, e localizações dentro da ‘Mystique Campus’, para onde eu iria, e ‘Satterford Town’, como estava escrito.
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