O Viajante das Estrelas
2 Zem, a criança das estrelas.
O Viajante das estrelas (teste 3)
Sentado de pernas cruzadas em frente a sua criação, o olhar do Viajante se perdia enquanto seu coração pulsava, esse era o nascimento de seu tão sonhado filho, Zem.
Zem é uma forma de vida baseada em nano tecnologia, seu corpo é formado por um núcleo do tamanho de um grão de feijão capaz de produzir uma certa quantidade de energia por um tempo teoricamente ilimitado(através da singularidade) e conectar as trilhões de trilhões de nano partículas, que por sua vez, são capazes de guardar e transmitir informações, e de se combinarem para formar estruturas de uma complexidade assustadora. Zem era capaz até de melhorar a si mesmo.
O Viajante havia passado centenas de anos para criar todo o código eletrônico capaz de criar em Zem uma capacidade de perceber e responder o mundo ao seu redor através de intuições e sentidos que poderiam ser simulados pelas estruturas que seu corpo era capaz de criar, mas ele foi apenas capaz de criar algo muito básico, então o seu toque final foi dar a Zem a capacidade de evoluir por si mesmo e programar nele a curiosidade, ou melhor, a prazer da descoberta.
"Se você for curioso e estiver sempre tentando aprender, não há limites para onde você possa chegar!", era o pensamento do Viajante.
Então ele respirou com calma e iniciou a ignição do núcleo de Zem, no momento seguinte o núcleo começou a brilhar e aos poucos as partículas do corpo de Zem flutuavam pelos ares, apesar de pequenas, eram tantas que fluíam pelo ar como um líquido acinzentado, mas logo elas cintilaram em cores diversas formando uma espécie da mar de arco-íris, e então foram tomando a forma de um corpo.
A primeira forma que Zem tomou foi a forma do Viajante.
O Viajante havia programado algumas intuições básicas em Zem, uma delas era uma noção de paternidade, ao ver o Viajante, Zem logo percebeu que aquele era seu criador e o seu protetor.
Então Zem admirou o Viajante, e o Viajante admirava de volta, ambos com um olhar de fascínio e maravilhados pela existência um do outro.
Por mais que Zem tivesse a intuição, ele não sabia como se expressar em palavras, mas foi com essa descoberta que ele sorriu pela primeira vez.
Logo em seguida o Viajante pegou o material sobre todo o conhecimento que ele tinha e o mostrou para Zem através de projeções holográficas, então começou a ensiná-lo cada coisa.
Bem, nesse momento você pode estar se perguntando o porquê do Viajante não inserir todas aquelas informações em Zem como se ele fosse um computador recebendo dados ao invés de ensiná-lo como quem ensina uma criança. O motivo disso é porque cada sentido de Zem funciona como uma linguagem diferente e todos se ligam para criar o que chamamos de abstração.
Em outras palavras: visão, tato, olfato, audição e paladar te dão informações completamente diferentes sobre um gato, mas a forma como você entende um gato é uma mistura de todas essas informações, e bem, os sentidos de um corpo são muito mais que esses 5, até mesmo para Zem haviam muitos sentidos que ele era capaz de simular para conseguir as informações que formariam as abstrações que chamamos de conhecimento, então o trabalho não seria apenas copiar dados, seria necessário criar todas essas ligações, e isso também fugiria de uma premissa básica do conhecimento que o Viajante queria preservar, a de que todo o conhecimento que você tem sobre alguma coisa provavelmente não é o conhecimento todo, então a experiência de aprender é mais importante do que o conhecer.
O Viajante foi capaz de programar algumas intuições básicas para que os sentidos de Zem fossem capazes de entender algumas coisas simples e necessárias para o processo de aprendizado, mas aprender sobre as coisas existentes é algo que exige experiência, a visão de Zem precisava experimentar olhar para as estrelas, os sentidos de equilíbrio precisavam sentir as variações de gravidade, ele precisava fazer as ligações entre as experiências de cada sentido para ter um aprendizado genuíno.
Mas mesmo com esse esforço, ainda existia uma diferença grande entre ensinar Zem através de alguns hologramas e ensinar com as coisas reais, apesar dos hologramas serem bem detalhados, as informações que ele podiam oferecer a Zem eram muito inferiores.
Existem diferenças entre ouvir falar de um elefante, ver e ouvir um elefante e galopar nas costas de um elefante enfurecido enquanto se grita que é o rei do mundo, cada experiência te faz aprender coisas diferentes. O objetivo do Viajante era maximizar isso para Zem na medida do possível.
O Viajante passou séculos ensinando Zem, mas por mais que Zem fosse ensinado, ele ainda se parecia muito com uma criança, e muitos entendimentos de Zem eram vagos por conta da falta de experiência.
Como ensinar sobre a vida para uma criança que vive em uma nave isolada de qualquer vida além do Viajante?
É verdade que Zem aprendera muito com seu criador, mas haviam coisas que simplesmente não aconteciam dentro da nave e que não podiam ser observadas.
Zem viu até mesmo centenas de filmes, mas apesar deles tentarem mostrar aprendizados sobre a vida e sobre as pessoas, um filme jamais poderia ensinar sobre a vida mais do que a própria vida.
Apesar de toda essa dificuldade, ambos viveram juntos e se divertiram por milhares de anos, até que um dia o corpo do Viajante parou de funcionar, e Zem se tornaria o novo viajante das estrelas.
Para Zem, que provavelmente nunca houvera presenciado a morte, a morte do Viajante causou uma sensação que ele não era capaz de entender completamente.
Ele havia visto a morte em vários filmes, o Viajante mesmo já havia explicado sobre a morte diversas vezes, mas aquela havia sido a primeira experiência real de Zem.
Zem já sabia o que fazer nessa situação, o Viajante havia lhe instruído sobre isso, então Zem extraiu alguns minerais de um meteoro e fez uma estrutura oval de ferro e vidro onde guardou o corpo do Viajante, o próximo passo seria jogar o corpo em direção a estrela favorita do Viajante, uma grande estrela azul muito cintilante de sua galáxia natal.
Então Zem se dirigiu até a estrela e foi para o lado de fora da nave, seu corpo era capaz até de criar uma estrutura que poderia se proteger dos ventos solares daquela estrela, então ele resolveu por o caixão do Viajante em cima da nave e ficou ao lado, como se estivesse observando a estrela junto com o seu criador.
E assim ele ficou, o corpo do Viajante não iria se deteriorar e nem Zem iria parar de funcionar, então por que ele deveria jogar o caixão naquela estrela? Que sentido tinha aquela ação?
Zem se sentiu solitário pela primeira vez enquanto olhava para aquela estrela, ele já ouvira falar da solidão tantas vezes, mas foi apenas nesse momento, quando a solidão o fez perder a vontade de agir, que ele realmente pôde compreender o que era.
Então ele ficou ali por muito tempo, tanto tempo quanto poderia ser possível contar, e talvez ele nunca saísse dali se algo tão esplêndido não tivesse acontecido.
Em certo momento, uma super nova iluminou todo o vazio enorme do espaço, tão poderosa que assustou Zem, que entrou na nave com o caixão e fugiu apavorado, ele teve que gastar quase toda a reserva de energia para se proteger da enorme potência da estrela.
Ele já havia ouvido falar das supernovas, já havia visto alguns esquemas, mas nunca havia presenciado uma, afinal, era um evento raríssimo, a quantidade de informação que seus sentidos receberam foi imensa e isso o deixou muito empolgado.
Qual momento seria melhor para o funeral do que aquele?
Ele construiu foguetes e os acoplou a estrutura do caixão do Viajante, então se despediu e o dispensou, e assistiu a supernova de uma distância segura, até que ela se tornou um buraco negro e ele teve que finalmente se despedir.
— Então é verdade que até as estrelas morrem... — Falou para si mesmo.
— Mas eu não morri, eu estou vivo! Eu vou continuar a viver!
Depois disso, Zem partiu em direção às estrelas, para fazer o que foi criado para fazer: viver, aprender e se maravilhar.
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