O Viajante
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
Hermione escovou os cabelos, com os olhos fixados em lugar nenhum. Estava preocupada, Ron podia ver a preocupação em seus ombros retesados e olhos desfocados, conhecia aquele olhar muito bem, anos em sua presença lhe deram a habilidade de desvendá-la mesmo em silêncio.
— Com o que está preocupada? — perguntou ele, fechando o livro que estava lendo sobre seu colo.
Hermione baixou as mãos, suspirando pesadamente. Olhou para o rosto cansado do marido através do espelho sem saber por onde começar. O que não a preocupava ultimamente? Havia tanto com o que se preocupar.
Idelin estava em uma situação diplomática complicada com os outros três reinos vizinhos. Estavam em débito com Ivory que — como fizeram questão de alegar — só não os atacou pois ainda consideravam Hermione uma cidadã de lá. Tindur era um reino pacífico, mas extremamente visado por Orthin que desejava explorar as regiões montanhosas de seu vizinho a fim de encontrar minério o suficiente para reforçar seu seu armamento bélico.
Para além de todas as preocupações diplomáticas que a tiravam o sono, as coisas dentro de casa também não estavam nada fáceis.
Ron passava dias em reuniões com seus conselheiros. O casamento de Rose era, acima de tudo, um acordo diplomático entre nações que poderia desencadear ou a paz entre os quatro ou a guerra total.
O fato de Rose se recusar a entender que um casamento, mesmo que arranjado, poderia fazê-la feliz também a preocupava. Ela sabia muito bem que Rose a estava evitando, mas não fazia ideia de para onde a filha ia. O castelo era grande, é claro, e Hermione sabia que sua ausência não necessariamente significava que ela estava perambulando pelo reino — ainda mais depois que Ron a proibiu de sair desacompanhada -, mas Rose era obstinada e teimosa, não era adepta as coleiras impostas pelo pai. Sua filha poderia muito bem estar vagando por entre os plebeus sem que ninguém de toda a corte soubesse.
Só de pensar nisso ela se arrepiou por inteiro.
E por fim, Hugo. Era um garoto extremamente gentil e fazia de tudo para agradar o pai… Mas parecia fora de si ultimamente, como se algo mais interessante e importante do que a vida na corte tivesse lhe fisgado a atenção.
Todas essas questões se emaranham no coração de Hermione. Seus pensamentos ficavam confusos e obscuros, não sabia o que fazer a não ser rezar e pedir bênçãos às curandeiras.
— Não estou preocupada com nada. — disse ela finalmente, de modo dócil e quieto como sempre fazia quando não queria colocar ainda mais problemas sobre os ombros do marido.
Ron franziu o cenho.
— Ela é só uma garota, todas as garotas eventualmente percebem que querem se casar. Não precisa se preocupar com Rose.
Hermione olhou para ele por um instante, estupefata.
Por um segundo se perguntou se todas as preocupações e questões que lhe passavam a mente o assolavam também. Era difícil saber o que Ron pensava na maior parte do tempo, já que ele não se preocupava o suficiente em lhe dar respostas concretas, tudo se resumia a ele dizer que Hermione não precisava se preocupar com nada.
— Sei disso. — respondeu ela a contra gosto. Ele realmente a achava burra dessa maneira? Que a rebeldia de Rose era o único dos problemas daquele lar?
Ron suspirou, deixando a cabeça pender levemente para o lado com um olhar e um sorriso igualmente condescendentes. Ele gentilmente bateu a mão no espaço vazio ao seu lado na cama.
— Venha cá. — pediu ele. Hermione se juntou a ele na cama, a contragosto. Não gostava de como Ron tentava reverter as coisas com toque físico, especialmente quando ele não achava que suas preocupações eram relevantes o suficiente. Ron envolveu seus braços ao redor da cintura da esposa e plantou um beijo sobre seu ombro. — Entendo suas preocupações, mas não quero que deixe-as te cegar. Tudo está sob controle.
Por um segundo, enquanto recebia um segundo beijo no ombro, Hermione se imaginou gritando com ele, esperneando e lhe dizendo tudo o que ele insistia em fazer errado ao ignorar suas frustrações e sugestões, mas como sempre fazia, permaneceu calada.
×
Rose teve de aprender, do pior jeito possível, a ser furtiva. Agora que Hugo sabia da existência de Scorpius, toda e qualquer troca de olhares que compartilhavam a mesa do jantar significavam a Hugo que deveriam ir juntos visitar Scorpius.
Era sufocante.
E como se não bastasse ter de desviar dos olhares cada vez mais atentos dos pais, precisava sempre evitar Hugo quando saía para vê-lo.
Rose saiu cedo dessa vez. O sol ainda demoraria algumas horas para nascer, mas ela galopou em direção a cabana o mais cautelosa que pôde. A escuridão ainda era um convite para os ladrões das estradas. Todo cuidado era pouco.
Estava quase se aproximando quando viu uma figura em frente a porta de entrada. A pessoa estava encapuzada e levemente curvada sobre a porta, como se tentasse enxergar algo pelo buraco da fechadura. A pele de Rose se arrepiou quando estendeu o braço para pegar as flechas no coldre.
Estendeu a flecha sobre o arco e atirou. Não em direção a pessoa, mas na porta, deliberadamente perto da cabeça do indivíduo que estava ali como se dando um aviso: eu poderia te matar agora se quisesse.
A figura virou-se em direção a Rose e os cabelos de sua nuca se arrepiaram.
A mão enrugada de Minerva puxou o gorro para trás.
— É adorável como a violência lhe cai bem. — zombou a velha.
Rose franziu o cenho, se aproximando dela em galopes rápidos.
— E a inocência não lhe cai nada bem, quantas vezes tenho que dizer que poderia machucá-la?
Minerva soltou uma risadinha, balançando a mão para ela como se tudo não passasse de uma mera casualidade e não de uma flechada que poderia tê-la cegado.
— Pessoas piores do que você já tentaram, minha cara.
Rose pulou do cavalo, aterrissando no chão para ficar frente a frente de Minerva.
— A senhora tem um senso de humor extremamente mórbido.
— E você se preocupa além do necessário — Minerva lhe lançou um olhar divertido — Onde está o bonitão? Dormindo sozinho? Achei que já tinham superado essa fase, estão indo mais devagar do que imaginei.
As bochechas de Rose enrubesceram, mas ela revirou os olhos para Minerva.
Bonitão.
Não é possível que estivesse se referindo a Scorpius de maneira tão indecente, ainda mais ao insinuar que Rose e ele… Ela balançou a cabeça antes que sua cabeça começasse a divagar.
— Está lá dentro, provavelmente dormindo, vim ver como ele está.
Minerva assentiu.
— Ele conheceu o seu irmão.
Rose piscou, estupefata.
— Eles… Sim, eles se conheceram, como sabe?
— Uma velha bruxa sempre sabe de tudo, não sabe? — brincou ela, e então apertou gentilmente o braço de Rose — Mas as árvores têm ouvidos, vamos conversar lá dentro enquanto tomamos um chá.
Rose não esperou nem mais um segundo. Destrancou a porta e deixou que Minerva entrasse primeiro, seguindo logo atrás, tendo a certeza de que trancou a porta. A cabana ainda estava escura, mesmo com o sol começando a surgir no horizonte.
Minerva estalou os dedos e duas velas sobre a mesa da cozinha se acenderam. Rose usou uma das velas para acender o fogão e colocar água no fogo. A cabana terrivelmente silenciosa e Minerva se pôs a sentar em uma das cadeiras de madeira disponíveis ao redor da pequena mesa de jantar.
— O garoto precisa voltar logo para casa. — disse Minerva, tirando os sapatos para poder esticar as pernas.
— Estamos trabalhando nisso, — retrucou Rose ao pegar um punhado de ervas para jogar na água.
— Estão, é? — Minerva riu — Não me parece que mudou muita coisa desde que a vi aquela última vez. Houve algum progresso?
Rose suspirou, virando-se para Minerva com os olhos semicerrados.
— Não encontrei nada sobre o lugar de onde ele vem e nem como ele veio parar aqui. Hugo tem me ajudado também, mas é difícil encontrar qualquer coisa sem nem saber por onde começar a procurar.
Minerva cruzou os braços enrugados por sobre a barriga e se reclinou na cadeira, observando o rosto de Rose. Não tinha mais o sorrisinho brincalhão nos lábios, mas seu olhar desnudava Rose de tal maneira que ela teve de desviar os olhos dos dela.
— Você não quer que ele vá embora.
Rose franziu o cenho, olhando de volta para Minerva com um olhar incrédulo.
— É claro que quero que ele vá embora, a permanência dele aqui é um risco para todos nós, sabe disso.
— Ah, sim. Não tenho dúvida disso.
— Além do mais, pouco importaria se eu quisesse que Scorpius ficasse aqui, não é? Eu não teria autoridade o suficiente para mantê-lo aqui caso fosse descoberto.
Minerva ergueu uma das sobrancelhas grisalhas.
— Talvez você tenha alguma autoridade quando se casar.
— Você vai se casar?
Rose se sobressaltou, olhando em direção a escada. Scorpius estava com os cabelos desgrenhados e um dos lados do rosto com marcas do travesseiro, os olhos acinzentados franzidos enquanto olhava para ela incrédulo — e parcialmente ofendido. Rose mal teve tempo de poder se incomodar com a falta de modéstia dele ao vestir somente calças para dormir.
— Não.
— Ela vai sim. — interrompeu Minerva — Já deveria ter se casado, mas seu pai tem enfrentado grande dificuldade em conseguir algum pretendente que aceitasse os dotes e condições impostas a ele.
Scorpius não deixou de olhar para Rose nem por um segundo, as sobrancelhas franzidas ao olhar para ela. O olhar de Scorpius revirou seu estômago de uma maneira que nada nunca antes tinha feito igual.
— É verdade?
Não fazia sentido mentir, ela sabia disso, e por mais que seus sonhos adolescentes mais malucos a fizessem ainda ter uma mínima migalha de esperança de que conseguiria encontrar uma solução consistente o suficiente para evitar um casamento, o único caminho que conseguia ver diante de si era o inevitável momento em que dividiria o altar com um homem que seu pai escolheu.
— É verdade. — murmurou ela, tão baixo que não teve a certeza de que ele a ouviu.
Mas ele ouviu.
Scorpius não a respondeu imediatamente, mas o modo como seus ombros tencionaram e ele finalmente desviou os olhos dos dela era resposta o suficiente. Ele correu uma das mãos sobre o rosto e suspirou pesadamente.
— Com quem? — Scorpius virou-se para olhar para ela novamente — Porque não me disse que… Porque escondeu de mim que estava noiva de alguém?
— Eu não estou!
Scorpius riu sem humor algum, incrédulo.
— Rose…
— Não estou noiva. Meu pai está escolhendo um pretendente para mim porque estamos em débito com outros reinos, tem uma guerra iminente, o ideal é que haja alianças entre reinos, mas não conheço nenhum deles. — Rose esclareceu, olhando para o chão — E não quero me casar com nenhum deles, independente de quem sejam.
Minerva pigarreou, flexionando os dedos para entreter-se.
— Todos nós temos papéis e obrigações das quais gostaríamos de nos isentar, é o caminho da vida, algumas coisas são inevitáveis. — disse ela.
Mas Scorpius não queria saber do bom humor de Minerva diante do desconforto deles dois, só tinha olhos para Rose — que se recusava a olhar para os olhos dele de volta —, não conseguia ser maduro o suficiente para não sentir raiva por ela ter guardado algo assim dele por tanto tempo.
Ele suspirou, virando o rosto levemente para o lado.
— Rose, olhe para mim.
Ela ergueu os olhos verdes em sua direção. Suas sobrancelhas não estavam franzidas como costumava fazer quando era contrariada, tinha um olhar melancólico e dolorido ao olhar para ele.
É claro que Scorpius não fazia ideia das coisas pelas quais ela estava passando. Rose mal falava de sua família ou sua vida no castelo, Scorpius só sabia que ela era uma princesa de fato porque Hugo havia dado com a língua nos dentes. Estar com Scorpius era uma das poucas oportunidades de poder esquecer, mesmo que por alguns minutos, que a vida real se tornara cada vez mais cruel com o passar do tempo para ela.
— Me desculpe — pediu ele, estendendo a mão para tocar seu cotovelo. Rose se deixou ser tocada, mais porque não sabia o que dizer em um momento como aquele do que por costume. Scorpius não a tocava com frequência, mas sentiu que aquele era o momento certo para tentar se aproximar dela. Ele a puxou gentilmente e envolveu os braços ao redor dela, encaixando o queixo sobre os cabelos dela, suas mãos acariciavam com cautela seus ombros e escápulas. — Me desculpe, eu não deveria ter falado com você dessa maneira.
Rose não respondeu, apenas se deixou ser abraçada e fechou os olhos por alguns poucos segundos. Recorreu a ela naquele momento que a muito tempo não era abraçada, que a muito tempo ninguém a aninhava no peito como Scorpius estava fazendo agora, e a sensação de estar nos braços de alguém e encaixar-se de forma tão natural no carinho de Scorpius lhe deu um arrepio que percorreu por todo o seu corpo.
Não deveria ser tão natural assim que ela e Scorpius se encaixassem tão facilmente.
Minerva pigarreou novamente e Scorpius desenlaçou os braços de Rose, deixando as pontas de seus dedos roçarem por seus braços até encontrarem um lugar em seus cotovelos que a mantivessem ali: perto o suficiente para o caso de ela precisar mais do contato dele.
— Você não veio aqui apenas para passear, presumo. — disse Scorpius, virando o rosto para olhar Minerva.
Minerva balançou a cabeça negativamente.
— Você é esperto. Consigo ver porque ela gosta de você. — brincou Minerva — Não, eu não vim por acaso… Vocês correm risco.
Rose ergueu os olhos para Minerva. Era uma das poucas pessoas que não duvidavam da capacidade dela de ler os sinais do futuro, se ela estava dizendo que corriam qualquer tipo de risco, não podia ignorá-la de forma alguma.
— Risco? Que risco?
A senhora suspirou pesadamente, entrelaçando os dedos enrugados.
— O Rei dará um baile em sua homenagem, será uma ótima oportunidade para encontrar um marido — diz ela, olhando para os dois com seus olhos que parecem estar carregados de tempo e sabedoria — Os eixos do destino estão se estreitando, logo será inevitável escondê-lo aqui.
Scorpius franziu o cenho, voltando-se para Rose.
— Um baile para escolher um marido?
— É só um jeito amigável de não desagradar nenhum dos reinos vizinhos, meu futuro marido será quem aceitar o dote e nos der as melhores rotas comerciais e de convivência.
Por um segundo, Scorpius sentiu que podia vomitar. Não conseguia conceber a ideia de que alguém como Rose — ou qualquer outra pessoa, sendo sincero, mas excepcionalmente Rose — tivesse de aceitar se casar com alguém por acordos comerciais que sequer a beneficiariam.
— Não posso deixar que isso aconteça, isso é...
— Não cabe a você decidir pelo destino de outra pessoa — Minerva interviu, capturando a atenção de ambos novamente.
Scorpius finalmente se afastou de Rose, virando-se completamente para Minerva. Não estava com vontade de ouvir Minerva dizer o que ele podia ou não podia, quem era ela para determinar alguma coisa?
— E a sugestão é ficar aqui e deixar que ela se case com um cara qualquer?
Minerva sorriu.
— Não, a minha sugestão é que você encontre o mais rápido possível uma maneira de ir embora e deixe que o destino desta menina se cumpra.
— Minerva! — Rose murmurou, colocando a mão sobre o ombro de Scorpius para que ele não a xingasse — Você já viu o que vai acontecer, não viu? Veio nos alertar porque teve uma de suas visões.
O silencio sepulcral que se instaurou após o questionamento de Rose fez a pele de Scorpius se arrepiar. É claro, tinha se esquecido de que Minerva tinha poderes muito mais avançados do que ele podia compreender.
— Se continuar aqui por tempo demais, o garoto vai morrer. — disse ela simplesmente.
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