O Verdadeiro Mundo Pokémon
7 Primeira Briga
Notas iniciais

AINDA EM BAMBOOSE, nos separamos. Ben murmurou que ia fazer alguma coisa que não compreendi; Lucy que ia resolver, com os moradores, um assunto seu.
Sozinho com Budew naquele emaranhado de bambus, resolvi por fim conversar com o máximo de moradores que pude. Sem resultado novamente, mas não vou desistir.
No começo da noite, voltamos a nos encontrar. No limite do vilarejo onde a próxima rota começava, vimos uma grande construção de bambu sem cobertura. Ouvimos os gritos de dois Pokémon exclamando seus próprios nomes e depois uns poucos sons de baques. Ben disse que ali era o ginásio da cidade; o líder um especialista do tipo Inseto. Perguntamos se Ben não iria querer batalhar e tentar ganhar uma insígnea, mas ele respondeu que não. Podíamos seguir caminho e foi o que fizemos. Na estreita estrada, fomos andando e conversando, quando menos percebemos, segundo Ben – nomeado oficialmente como nosso guia e apelidado carinhosamente como Guia Oficial -, já tínhamos andado mais que a metade do caminho para a próxima cidade. Como já estava muito tarde e o perigo espreitava ao nosso redor, montamos acampamento e dormimos por algumas poucas horas.
Levantamos bem cedo, tomamos um desjejum à base de saborosas e suculentas frutas – que já estou ficando enjoado de tanto comê-las. Percebi há alguns dias que Ben é o que come em menor quantidade. Voltamos a andar e chegamos a Cidade Rocgris em pouco tempo, sem grandes interrupções — tirando o fato de alguns poucos Pokémon selvagens que nos atacaram, mas o trio Bu-Woo-Cyn (é, os apelidamos com uma contração de seus nomes) fizeram bem seu trabalho os derrotando e abrindo nosso caminho. Wooper e Cyndaquil foram guardados e só Budew continuou fora da Pokébola. Eu o seguro nos braços.
Olhando a entrada da Cidade Rocgris, só tenho a dizer que é simplesmente espetacular. O gigante portal de pedras cinza, que marca a entrada da cidade, está coberto de lâmpadas coloridas, enfeites diversos e um pequeno cartaz que já tinha visto nas cidades que passamos, mas assim como antes, agora também não presto atenção ao que está escrito. Por dentro do portal, podemos ver o quão grande é a cidade, com seus impetuosos prédios de alvenaria cinza, também enfeitados com os mais diversos objetos, alguns com suas paredes pintadas de tinta, formando desenhos diversos. É isso que a cidade é: Um amontoado de construções cinzentas, onde moradores as enfeitaram e pintaram para dar um ar mais alegre à cidade. E olha... Realmente dá certo. A profusão de cores enche meus olhos e me dá vontade de sorrir, mesmo contra minha própria vontade. Depois do portal, uma feira comprida se estende com centenas de barracas vendendo tudo o que você imaginar. A mistura do cheiro de frutas, fritura e roupa nova trazia certo conforto que não sei explicar de onde vem.
— Então, meninos – começa Lucy, ajeitando a roupa e se preparando para tentar entrar o mais agradável que pode na cidade. – Eu preciso conversar com algumas pessoas daqui e...
Lucy é engolida pela multidão de pessoas que andam pra lá e pra cá dentro da feira.
— Lucy! — grita Ben, preocupado.
— Eu estou bem. — grita Lucy, tentando fazer a voz sobressair na barulheira do lugar. — Ai! Calma, senhor! Eu entendo... Mas eu também estou andando! Ei, não grite no meu ouvido... — a voz dela vai sumindo aos poucos até desaparecer por completo no meio daquele enxame de pessoas.
— Oh, não... De novo. — bufo.
Ben olha pra mim e reviro os olhos. Claro que ele quer ir atrás de Lucy.
— Mas ela disse que iria sozinha resolver os problemas dela e... — tento, mas Ben ignora e me puxa para dentro da multidão.
É enlouquecedor. A gritaria de vendedores expondo suas mercadorias mais os gritos dos clientes gritando uns com os outros é de assustar qualquer novato que nunca esteve em uma feira como essa, ou seja, eu. O calor é insuportável e em poucos minutos começo a derreter.
— Ben, você não deveria ter me trazido para cá. — grito. — Já pensou se...
Olho para o lado e percebo que estou falando sozinho. Em algum momento, acabei me distanciado de Ben.
Parece que vou vomitar. Minha garganta parece estar pronta para soltar tudo que tiver oportunidade. Da minha testa escorre um suor frio; acho que vou desmaiar. Olho ao redor, assustado, a multidão me empurra.
Não sei exatamente quando, só sei que em algum momento consegui sair e agora estou apoiado em uma árvore, soltando pela boca e nariz tudo que havia comido pela manhã.
Bu está do meu lado, com um olhar preocupado. Pelo menos eu não havia perdido ele para a multidão.
— Não acredito! — alguém esbraveja. — Essa é única árvore da cidade e você a está sujando!
Minha cabeça volta-se na direção da voz e vejo uma mulher de meia idade, debruçada sobre a janela de sua casa. Olho ao redor e a compreensão cai sobre mim com um peso: Estou dentro de um jardim de um quintal que — de acordo com o que a mulher disse — tem a única árvore da cidade. Peço desculpas e saio o mais rápido que posso, com receio do que ela possa fazer. Meu Pokémon me segue.
Depois de virar aleatoriamente algumas ruas, entro em uma que penso ser a principal, pois é bem movimentada. Agarro Budew para não perdê-lo. No fim dela há um Centro Pokémon e parado na sua frente, um garoto, que coça a nuca, parece procurar algo, preocupado. Estreito os olhos. Conheço aquela silhueta. Com mais alguns passos à frente, reconheço: Ben. Tento gritar seu nome, mas algo sobe pela minha garganta e engulo em seco, forçando aquilo voltar de onde veio. O melhor é eu caminhar calmamente até onde ele se encontra e é o que faço.
Ben suspira ao me ver, seus olhos parecem pedir desculpas por ter me arrastado daquela forma para o meio daquele muvulco.
— Quando notei que você não estava mais ao meu lado, vim para o Centro. Pensei que aqui seria um o primeiro lugar onde você procuraria... De qualquer forma, parece que deu certo — diz ele, com um sorriso que transparece a culpa que sente.
Eu nem tinha pensado no Centro Pokémon como o primeiro lugar... Na verdade só estava fugindo da dona do jardim que, no fim de tudo, não me perseguiu. Pelo menos nos encontramos.
— Tudo bem... Passei mal, quase desmaiei e corri o risco de ser pisoteado, mas tudo bem. Vomitei na única árvore da cidade e quase apanhei de uma moradora, mas tudo bem...
— Aaaaah, o.k! Desculpa! Foi o momento e...
— Tudo bem — interrompo. — Achou Lucy?
— Não, mas tive uma boa ideia — arrisca Benjamin, vendo que está tudo bem entre a gente. — Vamos nos separar e procurá-la. Ao crepúsculo, nos encontramos aqui na frente, de novo. Desta vez é mais fácil, porque ela não vai sair da cidade, e nos separando vamos fazer o trabalho na metade do tempo.
Concordo. Ben toma um caminho e eu o outro. Eu entendo o que isso quer dizer. Não vamos necessariamente procurar Lucy, vamos nos empenhar em nossos objetivos para os quais iniciamos a jornada e se, por um acaso, encontrarmos a garota, seria como tacar uma pedra e acertar dois Pidoves— que por sinal, há de monte em Rocgris — de uma vez.
Meu estômago parece estar colado; não estou com fome de nada, mas ainda assim tomo um pouco de água.
As horas passaram e quando olho o céu, ele está pintado em tons de laranja. Hora de voltar, sem sucesso nas duas ocasiões: Informações sobre a doença e Lucy.
Chegando na frente do Centro Pokémon, vejo Ben virando a esquina e vindo ao meu encontro. Está suado e claro: vem sem Lucy.
— Andou fugindo de alguém para estar derretendo como um Vanillish em um dia ensolarado?
— É, mais ou menos — responde, com um sorriso de lado.
Nossa atenção é desviada para uma garota que parece gritar, mas na verdade só está conversando com um senhor de idade. É o seu jeito de falar, alto e escandaloso. Lucy.
— Ei, Lucy! — grita Ben, repentinamente animado.
Lucy vira seu rosto para nós e seu semblante se ilumina. Ela volta a falar algumas coisas para o velho e se volta para Ben e eu, vindo em nossa direção, acenando. Enquanto ainda está longe, guarda um papel dentro da bolsa. Parece uma fotografia, mas não posso dar certeza.
— Oi, meninos! — exclama Lucy. É incrível que a forma como ela fala, faz tudo parecer normal, como se nada tivesse acontecido. É sempre assim: Ela não toca no assunto e funciona. Em pouquíssimo tempo já não lembramos do que aconteceu. — Estou com fome. E estou cheia de comer frutas. Que tal se jantarmos em um restaurante? — conclui, já certa de nossa resposta afirmativa, pois sai andando na frente.
— M-Mas... — gagueja Ben, tentando fazê-la mudar de ideia, mas ela não dá atenção.
Dou de ombros e sigo Lucy. Olho para trás e Ben ainda está lá, com os braços cruzados. Com a cabeça faço um gesto para ele vir. Ben revira os olhos, mas por fim decide nos seguir, mesmo à contragosto.
Durante a nossa caminhada em busca de um restaurante que caia no gosto de Lucy, os postes de luz se acendem um por um e a noite cai. Pequenas lâmpadas nos prédios, casas e construções também se acendem. O espetáculo é grandioso. Artificialmente belo. Parece que estamos em época de Grande Festejo (o dia em que acaba o ano e começa um novo — que por sinal, está bem próximo), onde penduramos luzinhas nos lugares e coisas para enfeitar e deixar qualquer coisa com um ar mais feliz.
Lucy para bruscamente na frente de uma loja com as portas e janelas fechadas.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunto.
— Não... É que esse lugar me guarda algumas lembranças — diz Lucy em resposta. Ela força a maçaneta de um jeito peculiar e com um clique a porta se abre. Lucy entra. Ben e eu a seguimos.
Fico um pouco sem ar quando vejo as várias prateleiras de madeira maciça coladas às paredes, repletas de Pokébolas separadas por grupo segundo seu nome.
Detrás de um umbral atrás do balcão, um homem de cabelos brancos aparece. Tira os óculos que usa e os limpa para pô-los de volta. Nos olha com curiosidade.
— Puxa vida. Olhe só se não é ela! — exclama ele, se referindo à Lucy. — A garotinha cresceu e muito!
Um sorriso ilumina o rosto de Lucy.
— Ainda escondendo e protegendo crianças que fogem de seus pais furiosos, Senhor Van?
— Depende... se você estiver fugindo do seu de novo... Quem sabe? — responde o suposto Van, rindo. — Vejo que trouxe mais companhias desta vez. Agora eles também sabem como abrir a porta de entrada, ainda que ela esteja trancada!
Rimos e Van continua:
— E qual deles é aquele que apareceu com você naquele dia? — pergunta, olhando Ben e eu, procurando semelhanças em nós que possa relacionar com aquele que ele mencionou, seja lá quem for essa pessoa.
— Nenhum dos dois. Aquele lá... Bom... ele... – complicou-se Lucy.
— Oh! Sinto muito. Meus pêsames. — diz o velho, com uma verdadeira expressão de compaixão no rosto.
— Não! Ele não morreu — respondeu Lucy, afobada. — Nós apenas não... É...
— O.k., entendo.
Ben olha para mim procurando respostas para o que está acontecendo. Faço um bico mostrando que também estou sem entender nada.
— Um Budew! — exclama Van, apontado para o Pokémon em meus braços. — Fora da Pokébola? Mas por que? Isso não vai ficar assim. Venha aqui.
Ele passa por nós e eu vou atrás. Van para na frente da prateleira que está com de Pokébolas comuns, pega uma das várias e a estende para mim. Fico indeciso se realmente devo pegar ou não, afinal, aprendi desde cedo que tudo tem seu preço.
— Desculpe, não posso pagar uma – digo, agradecido pela oferta.
— Vamos, pode pegar. É uma cortesia — incentiva ele. Pego o objeto e murmuro um agradecimento. — Sou eu quem fabrico as Pokébolas para Rocgris e outras poucas cidades. Só vendo acima de cinquenta, então não teria sentido cobrar você — ele dá um suspiro antes de continuar: — Enfim, apenas guarde esse pequenino. As coisas não estão muito boas por aí e sei o quanto é difícil perder um amigo. Acredite, você não vai querer perdê-lo.
— Ainda continua com um grande coração, Senhor Van — diz Lucy, abraçando o velho. Van retribui o abraço. — Estamos de saída. Obrigado, de novo.
— Deixe disso! Eu que agradeço por vocês terem trazido um momento de felicidade para esse pequeno lugar!
Saímos e do lado de fora, capturo com a Pokébola o já meu Budew. Não é surpresa quando o objeto para de piscar, indicando que o Pokémon foi capturado. Lucy volta o olhar para a loja de Van e murmura algo como: "Ainda existem pessoas boas em Toran". Concordo com ela, confirmando com a cabeça. Pego a Pokébola e a guardo no bolso da calça.
Voltamos a caminhar e em menos de três minutos, Lucy finalmente parece ter encontrado o restaurante que quer. Entramos e fazemos o pedido. Encho minha barriga de algo que não é fruta, doce e muito menos pão velho. A sensação de saciedade é ótima. Ben, como sempre, é o que come menos. Ele está começando a me deixar preocupado com isso de comer pouco.
Quando terminamos de comer, dou de ombros e jogo alguns trocados na mesa, para dividir a conta. Ben joga algumas notas — provavelmente tudo que tem. É obvio que aquilo não é suficiente para pagar toda a conta. Lucy nos arrastou até ali, agora ela que se vire para pagar o resto.
Ao invés de completar o dinheiro, ela pega tudo que está na mesa e guarda no bolso de seu short. Se levanta e fica olhando para nós dois, esperando que façamos alguma coisa que não entendemos.
— Vão ficar aí parados? Vamos embora.
— Mas, Lucy! — diz Ben com os olhos arregalados. — Não podemos sair sem pagar a conta!
Apenas concordo com a cabeça. Quero saber como ela vai se sair dessa. Não me responsabilizo por nada.
Nesse momento um garçom chega e entrega três tuppeware dentro de uma sacolinha. Lucy as guarda dentro de sua bolsa.
— Volte sempre, Senhorita Gwinterland — corteja ele.
Lucy nos olha nervosa e dá as costas, indo em direção à saída do restaurante. Ben se levanta e vai atrás. Sem escolha, também me levanto e os sigo, olhando para os lados, desconfiado, esperando que a qualquer momento alguém pule em cima de mim, obrigando que eu pague a conta. Balanço a cabeça para esvaziar a mente de tal bobeira. Lucy parece ser alguém importante, pelo menos aqui dentro. Não iriam fazer isso com ela e seus convidados.
— Você é uma Gwinterland? — pergunta Ben, quando já estamos do lado de fora.
— É... Sim. Olhem, ali — diz Lucy, sem olhar para trás, querendo mudar de assunto. Aponta para um terreno amontoado de luzes piscantes e hipnotizantes. — Peguei o dinheiro de vocês, para irmos ao Luz de Colossos! O maior parque de diversão da região!
— Gwinterland? O que é que tem esse sobrenome? — pondero, voltando para a pergunta de Ben, tentando entender o que ele queria dizer com aquilo.
— Nada — responde Lucy secamente.
— Nada? Gwinterland é só a família mais rica de Granluz e quem sabe até de Toran — Ben responde minha pergunta. — Você é o que do magnata?
— Filha. Mas isso não tem importância, vamos logo nos divertir um pouco!
— Não tem importância? Cara, só não passamos fome porque colhemos frutas das florestas. Isso é sem importância? — insistiu Ben. — Eu estive economizando meu dinheiro até hoje para caso de ocorrer uma emergência. Daí do nada você inventa que quer ir à um restaurante e eu coloco na mesa tudo que tenho, para ajudar a pagar a conta, com medo do que poderia acontecer se não a pagássemos. Agora descubro que é de uma família rica e você me diz que vai gastar todo o nosso dinheiro em um parque. E como é que eu fico? Guardei essa porcaria de dinheiro pra nada? Pra saber que a qualquer momento você poderia comprar qualquer coisa?! Pra saber que fui um idiota em estar pensando em todos nós, guardando o dinheiro?
Lucy se vira para nós pela primeira vez desde que saímos do restaurante. Sua cara não está nada boa. Parece estar furiosa e triste ao mesmo tempo.
— Hã... Então, chega de... — tento dizer algo para expulsar a tensão, mas não sei o que dizer.
— Eu não acredito que você falou isso! — esbraveja Lucy. — Diz que sou egoísta, mas você também não fica pra trás! Você não sabe nada minha vida, nem me conhece para estar dizendo uma coisa dessas! Isso também não é ser egoísta? Seu grande Snorlax, que só age quando é do seu interesse!
As mãos de Ben se fecham e seu maxilar se contrai.
Lucy continua, gritando irritada:
— Quer saber por quê? Nesta jornada não quero gastar uma mísera moeda do meu pai. Quero aprender a viver sem depender dele. Não quero usar nada que venha dele. Quis encontrar pessoas que não são movidas por dinheiro. A maioria das pessoas que conheci, só se aproximaram de mim por interesse — lágrimas caem de seus olhos. — Comecei uma amizade com os dois em um mesmo dia, pois vi que eram diferentes, não me olharam como todos sempre me olharam. Sabe por que? Porque pensei que vocês fossem desses que não acham que o mundo gira em torno do dinheiro, mas pelo jeito, com você, Ben, estou vendo que me enganei!
Ela dá meia-volta e corre, secando as lágrimas no rosto. Ben parece estar paralisado, mas depois de um forte suspiro, dá as costas, e sai pisando com força a cada passo pelo caminho oposto que Lucy tomou.
Eu ainda estou um pouco atônito. A primeira briga no grupo. E que briga mais sem sentido. Não entendi o motivo por ter começado e nem muito bem o de terem continuado a discussão, mas ainda assim preciso ir atrás deles.
Olho ao redor e vejo que Lucy entrou correndo dentro do parque. Espero que ela não saia dali, pois decido ir atrás de Ben.
— Ei, cara. O que foi isso? — pergunto, sem saber como começar.
— Me deixe em paz, Baker.
— Ben, por favor, ela te insultou e por mais que pra você não pareça, você a magoou também. No fim nenhum dos dois estão certos.
— Já disse para me deixar em paz! — grita ele, me empurrando para o lado e desatando a correr.
Caio no chão, sem grandes consequências. Me levanto e corro atrás de Ben, que vira a esquina. Quando a viro, vejo que ele vira outra mais à frente. Corro como posso, me desviando das pessoas e até derrubando as sacolas de compras de uma mulher. Peço desculpas, mas não paro a corrida. Quando viro outra esquina quase dou um encontrão no meu amigo, que está encostado na parede de uma casa, transpirando e respirando pesadamente.
Apoio minha mão em seu ombro.
— Olha, eu já te disse que antes de correr tão rápido assim, você tem que tomar fôlego. Reprovado em questão de ouvir os outros.
Ele olha para mim, como se suplicasse por alguma coisa que não não sei o que é. Talvez está pedindo para eu o deixar sozinho, mas não vou fazer isso. Agora que aceitei a presença dele e de Lucy ao meu lado, não vou perdê-los por bobeira.
Desço o zíper de sua blusa a tiro. A camisa por baixo está ensopada de suor. Tenho a impressão do torso dele ter diminuído um pouco, parece estar emagrecendo, mas deve ser só pelo fato da camisa estar grudada.
— Pronto. A noite está quente, você não precisa usar isso — digo, consolador, enquanto dobro sua blusa.
— É... Assim realmente está melhor — admite Ben, sorrindo, ainda com um pouco de dificuldade para respirar.
Caminhamos lentamente, aproveitando a fraca brisa refrescante que decidiu dar o ar da sua graça. Em poucos minutos chegamos ao parque. Devolvo a blusa a Ben e fico feliz que ele não a veste, pois assim parece que ele não está querendo esconder seu corpo. Entramos pelo arco piscante da entrada. Com o canto dos olhos, noto outro cartaz colado ali e o ignoro.
Achamos Lucy sentada em um banco de pedra, comendo, sem vontade, pipoca. Paramos na sua frente, com Ben está atrás de mim, olhando para os lados, incapaz de fitar Lucy.
— E aí? Que tal nos divertimos um pouco? — digo, tentando animar.
O silêncio toma conta e só não está tão assustador pelo barulho dos brinquedos, da música, da gritaria e conversa das pessoas ao nosso redor. Depois de um bom tempo, comecei a me sentir mal pela situação em que estávamos, até que Lucy finalmente respondeu:
— Tudo bem, a pipoca está sem graça, mesmo. Está murcha e sem sal.
Sorrio e ajudo ela a se levantar. Brincamos em tudo que tivemos direito: Da montanha-russa até o carrossel. Pode até parecer imaturo termos ido ao carrossel, mas se você nunca sentou em um cavalinho para crianças e viu seus pés arrastando o chão de metal enquanto o brinquedo gira, sinto muito, mas você não sabe o que é diversão. Até porque com Ben e Lucy do lado as risadas foram garantidas. Parecíamos três pequenas crianças que estavam experimentando o brinquedo pela primeira vez. Algumas mães com seus filhos nos olharam torto e perguntaram ao operador do brinquedo por que ele permitiu que entrássemos ali. Com desânimo, ele apenas respondia: “Eles pagaram, Senhora. A sessão já vai acabar.”
Aos poucos o gelo entre Lucy e Ben foi quebrando, até que chega a um estado quase igual ao de antes – eles até foram sozinhos na roda-gigante.
— Ai, minha barriga está roncando — reclama Lucy, quando paramos por um tempo para respirar. — Que tal comermos algo?
— Sim, vamos comer aquilo que o garçom te entregou — sugiro.
— Ah, não! Deixa aquilo para depois. Vamos aproveitar que estamos no parque e comer algum lanche na lanchonete principal.
Concordamos e fomos. Comemos tranquilo e pareceu estar tudo bem entre os dois.
— Sabe, Ben? – começa Lucy. – Eu até gosto do Snorlax – confirma, dando um abraço e um rápido beijo na bochecha de Ben.
As bochechas de nosso guia oficial enrubesce e ele fica um tanto sem graça. Rio da situação que ele se encontra e Lucy ri junto, por mais que não esteja entendendo qual é a graça.
Quando terminamos de comer, o dono da lanchonete grita para nós o valor total do gasto. Lucy olha para Ben e eu e dá aquele sorriso malicioso.
— O que foi desta vez? — sibila Ben.
— Acabou o dinheiro. Corremos em três, dois... — sussurra ela. Ben revira os olhos e toma fôlego.
— Um! — Ela e Ben se levantam de supetão e correm para fora da lanchonete.
Continuo por um segundo, sem entender. O segundo suficiente para ouvir o dono rugir e se precipitar para cima de mim. Levanto em um salto, por puro reflexo e corro atrás dos outros dois. Eles estão me esperando, rindo, no portal que dá para a saída do parque. Passo às pressas, sem parar para esperá-los, mas eles me alcançam. Dá pra ouvir o dono furioso, correndo atrás de nós.
— Vocês estão loucos? — grito, correndo e virando em várias ruas aleatórias.
Eles continuam gargalhando, quase se esquecendo de correr. A alegria me contagia e também começo a rir descontroladamente. O ar fica escasso em meus pulmões, mas não me importo, a felicidade é mais relevante. Ainda dá pra ouvir o homem berrando atrás de nós. Não escolhemos um caminho certo para a fuga, apenas corremos por onde tiver a oportunidade. Demoramos um pouco para perceber que os gritos do dono da lanchonete se cessaram. E reduzimos a corrida, ainda gargalhando.
— Não.. Não parem. Ele... Ele pode nos alcançar a qualquer momento — diz Lucy, sem muito fôlego.
Assim continuamos numa leve corrida até que nos esgotamos por completo e paramos um de frente pro outro, rindo feito bobos.
— Ha-ha... — Ben olhando para os lados, repentinamente consternado. — Opa... Gente? – sussurra.
— Ah, que foi Ben? De repente ficou preocupado com o que? Sério que você acha que irão nos prender por causa de três cachorros-quentes e três sucos? Até parece que... — Lucy para de falar de um momento a outro.
Também paro de rir quando percebo onde estamos. A luz é escassa, o que mais nos ajuda a enxergar o nosso arredor é a lua e as estrelas. O chão é uma mistura de terra muito molhada com a encharcada: um lamaçal infinito para onde quer que eu olhe. Um rio fedorento corta a rua um pouco mais abaixo, os Pokémon sapos coaxam e os Pokémon grilos cantam. O cheiro que o rio exala é quase que insuportável, faz queimar o nariz e os olhos. Casas feitas de uma mistura de madeira velha e quebrada, papelão e isopor se apertam uma entre as outras. A grande maioria está em fase de decadência, dá a impressão de que vão desmoronar a qualquer momento. Colados às paredes vários dos mesmos cartazes fazem o lugar parecer mais feio. O lugar é amedrontador.
— Onde estamos? — pergunto, assustado.
— Não sei, mas vamos tentar sair daqui o quanto antes — responde Ben, tentando apressar os pés.
Temos dificuldade em andar nesse tipo de solo. Ouvimos, ao longe, o barulho de pauladas e alguns gritos sufocados. Meu coração acelera e peço que os outros apertem o passo. Vejo que a próxima ruela à esquerda tem uma iluminação melhor e aponto para ela. Os dois entendem e me seguem.
Ao virar a ruela, dou um encontro súbito em alguém. É um homem alto e forte; seus cabelos são penteados ao estilo afro; sua pele negra tem um tom mais claro e veias saltam de seus braços supermusculosos.
Ele se vira para entender o que está acontecendo e estremeço com o olhar duro que dirige a mim.
— D-desculpe! — digo, com medo do que ele possa fazer comigo.
Seu semblante acalma e começa a se transformar no rosto de alguém muito gentil.
— Ah, olá crianças. Pensei que fosse alguém do... Bem, isso não importa — diz ele, levantando uma sobrancelha. — O que fazem aqui uma hora dessas?
Vendo que eu não conseguia responder, Ben respondeu pelo grupo:
— Estávamos correndo de um homem e quando menos percebemos, já tínhamos chegado aqui. Estamos procurando a saída.
— Hum, entendo. Não é bom estarem rondando na cidade essas horas, nem mesmo lá no centro de Rocgris. As coisas não estão ficando muito boas...
Essa é a segunda pessoa que me lembro de mencionar isso. Primeiro Van e agora este desconhecido.
— Onde estamos? — indaga Lucy.
— Em Rocgris — ele sorri, com um pouco de amargura. — Em sua parte mais pobre... De qualquer forma, sou Kevin, líder do ginásio de Rocgris, especialista em Pokémon tipo Pedra. E vocês quem são? — nos apresentamos.
— O que um líder de ginásio faz aqui, nesse lugar? — pergunta Ben, curioso.
Kevin ri, mas responde:
— Nasci aqui e tive a oportunidade de alavancar minha vida como líder do ginásio. Não joguei fora a oportunidade e desde então, sempre venho aqui visitar os moradores. O motivo de minha visita hoje é mais complicado de dizer e não vem ao caso falar, então prefiro dizer que hoje vim visitar o pessoal daqui.
— Tem gente que mora aqui? — pergunta Lucy, indignada.
— Infelizmente sim. Muitas pessoas não tem outra opção e vem pra cá, construir essas simples moradias. É a forma que encontram de não dormirem no chão da rua.
— Não sabia que um lugar assim existisse — murmuro, consternado.
— Normal. O governo faz de tudo para esconder isso de todos. E também a maioria daqueles que sabem de sua existência, a ignoram — ele faz uma pausa para olhar para o céu. — Enfim, na ocasião em que estamos, recomendo que encontrem, o quanto antes, um lugar para dormirem.
Kevin nos indicou como voltar para o centro da cidade e nos despedimos.
— A partir de hoje, cuidado por onde correm! — avisou Kevin.
Subimos uma ladeira pouco íngreme e viramos algumas ruelas, conforme o líder do ginásio nos recomendou até que conseguimos ver os prédios há poucos metros.
Ao alcançarmos as costas do primeiro prédio, percebo que quase colado à ele há um dos barracos. Um gemido angustiante vem da brecha entre a parede do prédio e da casa deteriorada. Lucy e Ben me olham, mostrando que também ouviram. Não tem como ignorar um chamado daquele e vamos para o local. Está bem escuro no curto corredor. Ben tira Cyndaquil para que as chamas de suas costas ilumine o dono do gemido e finalmente conseguimos ver o que acontece ali.
Um homem quase totalmente nu e muito magro está deitado no chão, tremendo. É tão magro que dá para ver claramente seus ossos se sobressaindo na pele. É uma imagem quase cadavérica. Parece estar definhando há muito tempo, sem que alguém o visse para poder ajudar.
Um Houndour está parado à sua frente. Resmunga baixinho enquanto empurra com o focinho o corpo caído, na tentativa de levantar o dono, sem sucesso. A cena é de cortar o coração.
Alerta, percebe nossa presença e vira para nos fitar. Mostra os dentes e rosna, na tentativa de nos intimidar e nos fazer fugir.
— Não vamos machucar seu dono, queremos ajudar — diz Lucy, se aproximando.
Houndour late com ferocidade e faz menção de avançar nela. Puxo Lucy antes que o Pokémon a ataque em defesa de seu líder.
— Não, Lucy. Ele pensa que vamos maltratar seu dono e está agindo conforme seus instintos. Se mexermos com ele, com certeza vai nos machucar sem se importar com a consequência.
Furioso, o Pokémon continua ladrando para nós e isso faz um nó em minha garganta. Olho para Lucy que começa a tremer e lágrimas escorrem de seu rosto.
— Mas, Bake, se não o ajudarmos, ele vai morrer! — grita ela, tentando se soltar de mim.
— Temo que seja tarde para isso... — murmura Ben. Seus lábios tremem.
O homem esganiça algo. Houndour volta para perto dele e lambe seu rosto.
— Bom... menino... — diz o homem, com a voz tão fraca que mal dá para ouvir.
Ele passa a mão na cabeça de seu Pokémon até que em certo ponto ela cai. Observo o peito do homem e noto que não se movimenta mais. Lucy também percebe e enterra seu rosto em meu peito, soluçando.
Houndour passa a patinha no rosto de seu dono. Vendo que não responde mais, começa a chorar. Alguns segundos depois se senta e uiva para o céu.
Olho para Ben e aponto para trás. Ele entende, dá meia-volta e retorna na nossa frente, com a luz de Cyndaquil iluminando o caminho. Ajudo Lucy a caminhar. Não foi desta vez que conseguimos salvar alguém. O desgosto e amargura é gigantesco, até porque segurei o choro e isso faz eu me sentir pior ainda.
O centro da cidade está em silêncio, todos parecem estar de luto pela morte de alguns minutos atrás, mas sei que só estão dormindo aconchegantes em seus colchões macios. Quanta ironia.
Ben guarda Cyn antes de entrarmos no posto policial e falarmos sobre o corpo para a Oficial Jenny. Imediatamente, ela e mais dois policiais vão buscar uma maca no Centro Pokémon. Pelo menos nisso ela pode ajudar, a tirar um morto do chão e quem sabe dar um enterro de dignidade.
O posto policial fica vazio. Falo que preciso ir ao banheiro e deixo Lucy com Ben. Na verdade só vou ao banheiro para chorar aquilo que segurei por tanto tempo. Choro pela minha mãe, por aqueles que moram na parte pobre de Rocgris e por aquele homem que definhou até falecer. Meu corpo treme, mas com o tempo vou me acalmando aos poucos. Lavo o rosto e ao me olhar no espelho, pergunto por que existe esse tipo de coisa. Por que o ser humano é tão egoísta e finge não ver e ignoram isso? Sinto a raiva queimar dentro de mim e amaldiçoo os culpados por deixarem que pessoas vivam uma vida tão precária. O governo gasta tanto com besteiras e por que até agora não ajudou aquele povo?
Agora que chorei, ao menos me sinto menos pesado. Saio do banheiro e vamos para a rua. Depois de sairmos, paramos alguns metros de distância quando percebemos vultos se precipitarem correndo na direção e entrando com pressa no posto policial. Não são os oficiais. Alguns minutos depois eles saem e param na frente da entrada. Vejo eles colocarem armas e munição dentro de um sacolão. São sete pessoas. Uma delas avista e aponta para nós.
— Testemunhas! — alerta ela, para os comparsas.
— Como assim ninguém viu eles? — ralha outro, de voz firme e que parece ser o líder, pela autoridade que impõe na voz.
Me viro quase que imediatamente. Ben e Lucy também são rápidos e já entenderam. Desatamos a correr para longe deles.
— Eles não podem fugir! — ouço o possível líder dizer, furioso.
Sinto algo firmar em torno de mim e apertar, ao mesmo tempo que faz eu ficar parado no lugar. Não consigo correr, aquilo me segura com uma força inacreditável. Caio quando aquilo começa a me puxar para trás e sou arrastado pelo chão. Consigo olhar para aquilo que parece ser um grosso fio verde que envolve minha barriga. Chicote de Cipó.
Ben e Lucy também estão sendo puxados por outros cipós.
— Vamos deixar o líder escolher o que vai fazer com eles. — diz o da voz autoritária. Então ele não é o líder, provavelmente só tomou o comando diante do pequeno grupo. — Não podemos deixar eles soltos, sabendo que nos viram entrando aqui dentro. Vamos levá-los, tomem a devida providência.
— Pó do Sono— ordena alguém.
Minha visão é tomada por um pó verde e brilhante. Minhas pálpebras pesam e não tem como não fechá-las.
~×~
ABRO OS OLHOS, mas parece que não o faço porque tudo continua escuro. Estou sentado no chão; minhas mãos estão para trás presas em uma corda. Gemo por estarem tão apertadas, me queixando com a dor nos pulsos.
— Acordou? — pergunta Ben, do meu lado. — E sim, estamos um de costas para o outro. Ei, Lucy, Baker acordou... – após um momento, vendo que ela não responde, ele repede: — Lucy?!
— Hã... Oi? — diz ela, bocejando.
— Você conseguiu dormir, mesmo na situação em que estamos?!
— Sim... sim... É que ainda restou um pouquinho do pó nos meus cabelos e acabei dor...
— Lucy!
— Oi! Estou acordada! — grita ela, alarmada, num pulo. Ouvimos ela dar alguns passos, parece estar de pé.
— Eles não te amarraram? — pergunto, tentando entender.
— Claro que sim! — ela exclama. Chega em cima de mim e começa a desatar os vários nós que amarram minhas mãos.
— E como você conseguiu se soltar? – indaga Ben, entre dentes. Começa a ficar nervoso. Empurro ele com o ombro, alertando para que pegasse mais leve.
— Bom, sou a sucessora de meu pai. Sendo assim, ele colocou pessoas que tanto ensinaram sobre negócios como me prepararam para qualquer tipo de situação perigosa que eu possa me meter. Desfazer nós foi uma das minhas primeiras aulas.
— E pensar que poderíamos ter saído daqui faz tempo... — resmunga Ben.
— Deixa de ser chato, Ben. Já disse que o pó acumulou em meus cabelos. E também de nada adiantaria. Notou um vazio nos bolsos?
— Minha Pokébola! — exclama Ben, surpreso.
— A minha também não está aqui — digo.
— Pois é... Pegaram nossos Pokémon. Mas esqueceram de um — diz ela. Do escuro um laser avermelhado dá forma a um Abra e se apaga. — Esqueceram Abra!
— Que ótimo – resmunga Bem baixinho.
Lucy consegue desfazer o ultimo nó que me prendia. Esfrego os pulsos.
— Prontinho. Agora você, Ben — diz Lucy.
Nesse momento, ouvimos passos vindo do lado de fora. A rapidez com que Lucy pega Abra, senta e coloca o Pokémon no meio do espaço que nossas costas formou, é impressionante.
— Se abaixe e fique quiet... — o sussurro de Lucy é interrompido pelo barulho estridente da porta se abrindo.
— Fala sério, por que guardariam aqui dentro, nessa escuridão? — queixa-se alguém de voz fina.
O dono da voz é uma criança que aparece e nos olha.
— Opa, sala errada — diz, se virando para sair, mas algo o impede e ele fica ali, parado. Como se estivesse pensando se iria embora ou ficaria ali um pouquinho com nós, desfrutando o quarto escuro.
— Pensei que tinham recolhido todos os seus Pokémon — ele se volta novamente para nós. Ele abre toda a porta e dá um passo em nossa direção. Estala os dedos e uma lâmpada se acende. – Ei, estou falando com vocês. Estão escondendo um Pokémon, não é? — ele pergunta de novo, com um sorriso sinistro no rosto.
Agora posso ver como é a minúscula sala que estamos. Não tem nada além de paredes e o teto com uma única lâmpada. O quarto é tão vazio que sequer vejo um interruptor que possa ser o da lâmpada. Me pergunto como ele a fez acender estalando os dedos. Nova tecnologia?
O menino parece não ter mais que dez anos. Seus cabelos pretos são bem curtos, cortados rentes à cabeça; seus olhos cinzentos um pouco separados demais. Usa um casaco de pelos acinzentados, a boca da manga é avermelhada e o capuz é a cabeça de um Zorua de olhos vidrados e sem vida. Um verdadeiro casaco de pele de Zorua.
— Hein? Me respondam, moleques bobões! — rosna ele. Não gosto do "moleques". Soa como se fôssemos os pirralhos na sala e não ele.
Ele se aproxima e nos empurra para o lado, se agacha e pega Abra.
— Hum... Sabia que você estava aqui dentro — ele diz para Abra. Nos olha e sorri. — E vocês podem ir embora. Não vão servir de nada para o líder. Aqueles bobões só perderam tempo trazendo vocês pra cá.
— Devolva Abra! — vocifera Lucy, se levantando.
— Se acalme... Acho que não vou machucá-lo.
Lucy avança e o garoto faz um movimento de baixo para cima com a mão. A Gwinterland é parada por algo que a impede de chegar perto do menino para pegar Abra de volta. É como se tivesse uma parede invisível que a impedisse de continuar.
Como uma assombração, Jane aparece na porta. Parece que o dia promete.
— Sério mesmo? Pensei que o dia de minha vingança tardaria um pouco — diz ela. — E é você mesmo quem sofrerá as consequências pela última vez que nos encontramos. O Pó Atordoante, daquele seu merdinha verde, trouxe sérias consequências para minha saúde.
— Lucy, saia de perto dela! — grito, me levantando e puxando Lucy. Por mais que a ameaça de Jane é direcionada especialmente para mim, não sei o que essa maníaca pode fazer com minha amiga.
— Lucy? — pergunta o menino com uma mistura de surpresa e satisfação no rosto. — Tá bom, chega disso. Jane, vá pegar os outros Pokémon deles.
— Cale a boca, Jorge. Você não manda em mim! — vocifera Jane. Ela dá um passo em nossa direção, mas é impedida pela parede invisível.
— Não, mas agora estou mandando. Você é apenas uma capanga e eu estou um cargo acima do seu. Se você não fazer o que estou te pedindo, vou conversar com os superiores e você estará encrencada — Jane olha furiosa para o tal Jorge. — Não fique olhando desse jeito porque não está me assustando nem um pouco. Anda, vai logo... — ele termina, segurando Abra em um braço e empurrando Jane com o outro.
Posso ver os punhos da mulher de cabelos cinza se fechando com força, mas ainda assim ela obedece e desaparece no corredor. Jorge insulta Jane pelas costas com um “bobona”.
— Vocês esqueceram soltar o outro bobão — diz Jorge, apontando para Ben.
Acho que esse Jorge não passa de uma criança querendo parecer um adulto. Ele diz os derivados de “bobo” muitas vezes o que talvez confirme minha hipótese. O menino faz um movimento com a mão, com o indicador levantado. A corda nos pulsos de Ben se soltam, como mágica. Meu amigo se levanta, com os olhos arregalados.
— O que você é? Um bruxo? — pergunta Ben. — Tem alguma relação com as trevas e os Noturnos? — indaga, apontando para o casaco de pele de Zorua.
— Um bruxo?! Quanto insulto! — caçoa Jorge, rindo. – Odeio os de tipo Noturno.
— E então por que usa esse casaco?
— Ah, isso? — diz, olhando para si mesmo. — Digamos que é apenas um troféu, mas nada que te interesse.
Jane retorna, entrega as Pokébolas na mão de Jorge e se vira rapidamente para sair, constrangida e incapaz de nos olhar. Antes que ela saia, Jorge larga as Pokébola no chão e segura o braço de Jane, com força.
— Escuta aqui. Infelizmente eu vou me juntar à vocês na equipe, então trate de começar a se portar do jeito certo! — sibila ele baixinho, mas ainda assim consigo ouvir. — Se quisermos que nossos futuros trabalhos deem certo, não é legal você ficar com esse tipo de atitude.
Jane olha para ele, parecendo querer estrangulá-lo, mas apenas solta seu braço e sai do quarto.
Que legal. Como se já não fosse o bastante existir a dupla Jeremy e Jane, agora mais um se juntaria ao grupo da bizarrice. O trio de jotas. Se sairmos daqui vivos, espero não encontrá-los.
— Por que está fazendo isso conosco? Digo... nos ajudar? — falo.
— Não estou ajudando vocês em nada e sim ao líder — responde Jorge. — Ele vai dispensar vocês de qualquer forma, então porque segurá-los aqui?
Depois de um momento de silêncio ele volta a falar, apontando para Lucy:
— Então quer dizer que você é a Lucy... – pondera Jorge.
— E o que é que tem? Deixe a gente ir embora! — berra Lucy. — Solte o Abra!
Jorge ri do desespero de Lucy.
— Não sei... Acho que vou levar esse Abra comigo... — Abra que até então estava quietinho, fica assustado e começa a se agitar, tentando fugir. — Ei, ei. Não precisa ficar tão nervoso.
Não adianta. Abra se agita cada vez mais, até se contorcer todo para escapar. Subitamente seu corpo é tomado por uma mistura radiante de luzes fluorescentes de tons azuis bem claros aos azuis médios que parecem dançar em sua volta. As partes de seu corpo crescem. Está evoluindo!
Jorge faz cara de maníaco, larga o Pokémon no chão e assiste, admirado, o espetáculo.
Enfim o corpo já evolucionado para de brilhar e dá lugar à um Kadabra. Seu focinho se alongou um pouco mais e bigodes caem. As orelhas cresceram moderadamente. Seus olhos se abriram; pequenas garras nasceram nas pontas de seus dedos. Sua carapaça marrom parece ter se tornado mais robusta e maior. Três marcas onduladas e rosas marcam a região de sua barriga e uma estrela — também rosa — marca sua testa. Seu rabo se tornou mais volumoso. Também segura uma colher que tirou não sei da onde.
— Ha-ha! Evoluiu! — exclama Jorge. Ele faz um movimento de cima para baixo com a mão e Kadabra corre para o nosso lado. A barreira invisível se desfez. Jorge vira para sair, mas olha para trás e continua: — Bom, Lucy, Hudson está te esperando! E não sei se agora ele vai reconhecer seu querido Abra. Boa sorte!
Depois de desfazer, de alguma maneira, a barreira invisível com o movimento da mão, Jorge parece estar mais cansado. Suor escorre de sua testa e ele respira com um pouco de dificuldade. Se conseguiu desfazer a barreira, provavelmente foi ele quem a criou. Mas... como fez isso? Parece que custa muito a ele fazer esse tipo de coisa, pois está muito esgotado.
Lucy parece estar arrasada, diante das palavras de Jorge. Suas mãos tremem e ela berra, desesperada, antes de Jorge sumir:
— O que você sabe sobre Hud?! — Jorge não responde. — Kadabra, não deixe ele fugir!
Os olhos de Kadabra brilharam, avermelhados. Jorge parou imediatamente. Então aquele ataque era o Confusão, capaz de mover o oponente!
Jorge vira o rosto e mostra um sorriso malicioso.
— Esse tipo de ataque não me atinge, bobões. Se eu fosse vocês, sairia daqui o quanto antes. O pessoal daqui é bem chato e quando souberem que alguém que não é o líder os liberou... — diz, e some no corredor. Ainda consigo ouvir quando ele diz cantarolando, já longe: — Espero que se deem bem com as ondas de energia mental de Kadabra! Desejo boas dores de cabeça! — após dizer isto, sua risada ecoa pelo corredor.
Olho para meus amigos (ainda é estranho chamá-los assim, mas estou tentando me acostumar) e pegamos nossas Pokébolas. Jorge tem razão, Ben diz que como ainda não aprendemos a ter um grande controle mental próprio, as ondas alfa* que Kadabra emite faz com que sintamos uma dor de cabeça irritante.
Concordamos que para sairmos daqui, Kadabra seria útil para despistar os que querem que fiquemos aqui, seja lá exatamente pra que, se o próprio Jorge afirmou que de nada serviríamos. E assim saímos para o corredor meio escuro. Apenas uma lâmpada é posta no início e no final de cada corredor. Quando vemos que alguém ou um grupinho de pessoas está próximo, Kadabra usa seu novo ataque, fazendo as vítimas ficarem confusas e voltarem de onde vieram; ou manda, com intensidade, suas ondas de energia mental para causar uma súbita dor de cabeça, forte o bastante para desmaiar a pessoa por um curto período de tempo.
Depois de desnortearmos algumas pessoas e passarmos por momentos tensos, conseguimos sair para o lado de fora, pela parte de trás do prédio, uma das saídas de emergência. Lucy guarda Kadabra na Pokébola, pois não estamos aguentando mais a dor de cabeça.
Fico boquiaberto ao notar onde estamos. O chão é coberto por grama, ao longe o solo muda drasticamente para o arenoso e a paisagem é tomada por infinitas dunas de areia. O deserto se estende na nossa frente. Olho para trás e na frente da fachada do prédio, colinas verdejantes escondem o que vem do outro lado. Um baixo rumor ultrapassa os picos da colina e chegam até onde estamos.
— O mar... — diz Lucy. — Esse barulho que vem depois das colinas só pode ser o mar.
— Sim.. Já ouvi falar desse deserto que esta à nossa frente. Ele se chama Deserto do Vale.
— Bom... Como não podemos continuar pelo mar, suponho que só nos resta enfrentar o deserto... — pondero, querendo sair de perto desse prédio o quanto antes. Não tenho certeza e não posso afirmar que este é um prédio em que os Rocket se instalam ou algo parecido, pois a forma como Jorge levou a conversa, sempre tratando "eles" ao invés de "nós da Equipe Rocket" me faz ficar um pouco confuso.
A única coisa que sei é que quanto mais tempo eu passo na jornada, mais vontade de voltar pra casa tenho. Aqui do lado de fora, sozinho sem o consolo da mãe, é aterrorizante. Sinto saudades da calmaria e do cheiro de pão assado todos os dias. Mas minha mãe precisa de mim, não posso deixá-la desacreditada. Essa é a única razão pela qual eu ainda não desisti de tudo: Querer ver minha mãe boa.
— É... Parece que sim — murmura Ben.
— Ainda não acredito que perdemos nossas bolsas para esses caras — resmunga Lucy.
Agora que ela falou, percebo que é verdade. Depois de terem nos feito reféns, sumiram com nossos pertences – claro, exceto as Pokébolas com os Pokémon.
— Também não, mas não podemos perder mais tempo aqui. Já enrolamos demais — diz Ben. — À caminho do Deserto do Vale!
Ben termina a frase com muita força de vontade, talvez para encorajar a si mesmo, mas, de alguma forma, essa convicção consegue ser passada para mim... Hunf! Quase acredito que vai ser fácil atravessar um deserto.
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