O Verdadeiro Mundo Pokémon
6 Capítulo Bônus — Uma mãe preocupada
Notas iniciais

O PATINHO AZUL CORRE rápido. O que é extraordinário, considerando os seus pequenos pés. Mas não é problema para Lucy, pois suas pernas são longas, e sempre tem conseguido se sair bem em corridas.
Lucinda Gwinterland Swimmer. Esse é seu nome e ela não desiste de algo tão facilmente.
Ele ainda não percebeu que ela o seguia. Engraçado, sua impressionante rapidez não compensa sua falta de atenção. Os Pokémon são como os humanos: A maioria tem um ponto de grande notoriedade, mas também tem aquele que precisa desenvolver.
Este pato é um bom observador, mas também é um tremendo desengonçado. Tudo isso que ela sabe, se deve ao fato dele ser um "companheiro" de longa data.
Claro que Lucy se lembra deste Duckett. Como pode esquecer? Desde pequena, ele a perseguia. Aquele tempo em que sempre esteve escondido entre as árvores do bosque atrás da casa de Lucy, vigiando ela e seu irmão enquanto brincavam... Ou tentavam brincar. Seu irmão... Onde estaria neste exato momento?
De certa forma, Ducklett a faz lembrar de um tempo um tanto perturbador.
~×~
ALGUNS ANOS ATRÁS
NA PORTA, UMA PEQUENA placa dourada inscrevia o nome do pai: Santiago Gwinterland. A mansão era gigantesca e aquele escritório era o único que não gostava de chegar perto, mas precisava avisar seu pai. Girou a maçaneta e entrou. Ele estava sentado em sua poltrona gigantesca, atrás da escrivaninha. Quando notou a presença da filha, levantou os olhos do notebook. Juntou os dedos das mãos e apoiou o queixo neles, esperando que a garota dissesse logo o que queria.
— Pai, o Hud está tendo outra crise — murmurou Lucy, cabisbaixa. O olhar do pai era intimidador demais.
Santiago olhou para sua filha: Pequena, pele branca, os ondulados cabelos loiro-escuros e os grandes olhos — sempre vivos, mas agora tristes. Respirou fundo, mas a fúria o dominou mesmo assim.
— Eu não tenho um minuto de paz para organizar meus projetos, pois esse moleque endiabrado sempre tem que atormentar! E você, Lucinda, por que não pede ajuda para os empregados? Por que sempre eu? O que você quer que eu faça?!
— E-eu... Só... — mas ela não terminou. Seu pai já tinha se levantado e tirado ela do caminho com um empurrão. Seus olhos lacrimejaram, mas não derramaram uma lágrima. Foi atrás do pai.
Ao chegarem atrás da casa, onde os dois irmãos brincavam, Ducklett bateu suas asas e voou para além do bosque. Aquele Pokémon só sabia ficar olhando, mas nunca ajudava.
Lucy voltou sua atenção para o chão, onde Hud estava. Seu irmão ainda se debatia e urrava. Estava histérico, os olhos arregalados e se arranhava todo.
O desespero de Lucy alavancou e desta vez não teve como segurar: As lágrimas jorraram e embaçaram sua visão.
— Hud, pare! — gritou ela, mas o irmão menor continuava se estrebuchando.
— Ah, porcaria! — chingou o pai, levantando o menino e o sacudindo violentamente. — Hudson! Hey, moleque, pare com isso!
Não adiantou, ele continuou se debatendo. Num certo momento, arranhou o rosto do pai.
— Uh! Maldito! – amaldiçoou Santiago, jogando o menino de volta ao chão. — Vou acabar com essa história de uma vez por todas! — e saiu, indo em direção a casa.
Algo na cabeça da garota se iluminou e ela se lembrou. Ajoelhou na frente do irmão e depois de levar alguns golpes e arranhões, conseguiu pegar uma Pokébola no bolso da calça do irmão. Um Abra saiu.
— Abra, por favor! Aconteceu de novo! — suplicou ela, aos prantos.
Abra fez que sim com a cabeça e fechou os olhos. Depois dobrou os joelhos e começou a levitar. Uma aura rosada o envolveu. Ele estendeu suas mãos para o garoto e a aura seguiu a direção apontada. Ao tocá-lo, o corpo de Hudson começou a tremer e algo escuro que exalava uma aura sombria e gélida começou a expelir.
Quando saiu por completo, aquela sobra escura e disforme rodeou os três e voou para algum outro lugar. Assim que aquela coisa saiu de seu corpo, Hud parou de ser debater. Abra caiu, desacordado. Lucy o guardou na Pokébola. Levantou a cabeça do irmão que começava a voltar a si.
— Humm... — murmurou ele. — De novo... Lucy?
Ela assentiu, secando as lágrimas do rosto.
— Obrigado — continuou ele, agradecido. Com um suave sorriso no rosto, adormeceu.
SEMPRE FOI ASSIM. Pelo menos desde que se lembrava.
Não se recordava da mãe. Ela foi embora muito cedo. Nessa época Lucy tinha três anos e Hud alguns meses. Seu pai nunca falou mal de sua mãe, como ela vê em filmes, quando o pai humilha e faz da mãe a imagem do diabo para os filhos. Nem sequer o nome da mãe ele chegou a mencionar. Seu pai simplesmente não falava nada. Apenas que foi o certo ela ter ido.
Lucy sempre achou isso injusto. Por que ele não dizia logo que a mãe não conseguiu suportar a responsabilidade, e os abandonou porque não os amava? Era simples, era só dizer isso.
Quando completou uma idade maior, Hud começou a sentir muito a falta da mãe que não tinha por perto. Foi a partir daí que suas crises iniciaram.
Começaram com pesadelos, quando – dormindo — ele gritava e acordava todos na enorme casa. Ninguém achou aquilo anormal. Era só uma criança com maus sonhos. Hud ficou estranho e assim começou a perder o controle do corpo. Se debatia, se arranhava, se contorcia e urrava com uma frequência cada vez maior.
Puxado por Lucy para "viverem uma aventura no bosque", longe dos olhares de todos, Hud acabou tendo uma crise no meio da excursão. Alguns poucos Pokémon fugiram assustados. Mas um Abra se aproximou, cauteloso, e com profunda compaixão ao garoto, o livrou daquele tormento, pelo menos temporariamente.
Assim, Hud vendo a ajuda que o pequeno lhe oferecera, o capturou — com o consentimento de Abra -, para que ele o ajudasse a passar pelos momentos de crise. Abra sempre quis ajudar, mas nunca conseguiu acabar de vez com o problema. Os dois irmãos conversaram e concordaram em manter o Pokémon escondido do pai, pois Santiago era muito imprevisível e podia dar sumiço em Abra, assim como fez com vários outros Pokémon que os dois achavam e levavam para casa. O estranha era que sempre que o pai sumia com os Pokémon, um montinho de terra surgia no gramado atrás da cerca que delimitava o quintal do bosque. Lucy e Hud davam de ombros, devia ser algum Pokémon que sabia o Cavar e estava perambulando nas redondezas.
Aquele Ducklett que ficava entre as árvores do bosque, os vigiando, também era figura marcada. Os irmãos nunca entenderam qual era a sua verdadeira intenção. Já até tentaram o capturar, mas ele era rápido demais e sempre escapava. Todo dia de manhã ele vinha e voltava para seu misterioso lar à noite.
Assim se passaram os dias.
Mas uma coisa Lucy não esperava: Que seu irmão fugisse. No dia posterior à última crise, quando acordou, Lucy foi direto ao quarto do irmão para averiguar se estava tudo bem. A cama estava vazia, o quarto em total silêncio. Ele já levantou? Estranho... Ele sempre acorda bem tarde, pensou ela.
Algo brilhava suavemente na cama. Um brilho polido, que quase passou despercebido. Ao se aproximar, constatou que era a Pokébola de Abra. Na onde Hud estava com a cabeça? Se o pai achasse aquele Abra, Hud teria que suportar as crises por longos períodos, sem ninguém que pudesse realmente ajudar. Espere. Por que ele deixou Abra ali? Eles fizeram um acordo, Hud e Abra se amavam. Hud não pode ter largado o Pokémon ali, daquela forma, a não ser que algo tenha acontecido.
Lucy guardou no bolso a Pokébola e correu para fora do quarto. Subiu e desceu as escadas, gritando pelo nome do irmão. Quando questionou os empregados, eles apenas baixaram a cabeça e murmuraram que não sabiam de nada. Correu para fora e procurou pelo extenso jardim, e até no limite do bosque ela se arriscou. Trabalho em vão. Não teve jeito.
Entrou trêmula no escritório do pai. Com as botas sujas de barro, sujou o assoalho.
— Endoidou, Lucinda?! — esbravejou o pai. – Está querendo dar trabalho extra para os empregados? Depois de um tempo eles se rebelam e vão querer pedir demissão. E, ai de você se... — não terminou, notou o olhar mais que preocupado da filha. Já esperava aquilo. Suspirou. — Diga, Lucy. O que foi dessa vez?
— Foi... Foi o Hud, ele não está em casa!
Santiago se levantou e calmamente foi em direção à filha. Se agachou diante dela e olhou com compaixão para a sua herdeira. Hudson não poderia mais ser o herdeiro. Claro que preferia um homem para continuar seus negócios, mas devido às condições, Lucy era a única confiável para o cargo. Manteve os dois filhos consigo, exatamente por isso: se um falhasse, o outro serviria.
— Olha Lucy, é difícil, mas... — disse Santiago, com a voz embargada. As lágrimas rolaram. Era a primeira vez que Lucy via seu pai chorar. Ele não é do tipo que demonstra seus sentimentos, a não ser, é claro, a raiva. — Quando acordamos e não encontramos, o procuramos por todo canto. Chamei a polícia e ela disse que está trabalhando nisso. Só podemos torcer e esperar que eles voltem com boas notícias.
— Mas pedir para a Oficial Jenny cuidar disso é burrice! Ela nunca vai achá-lo! Vamos pai, vamos procurá-lo nós mesmos. Sei que vamos achar Hud!
— Não Lucy, você não entende?! – gritou, ríspido, entre as lágrimas. — Hud fugiu. Ele não quer que nós o encontremos... Preferi informar isso à polícia para que caso o encontrem, consigam melhor conversar com ele, do que nós conseguiríamos. É caso perdido achar por conta própria alguém que foge da própria família.
Aquilo atingiu Lucy, dando a entender que era trabalho infrutífero procurar não só Hud, mas assim como a própria mãe.
Lucy olhou para seu pai, incrédula, e lentamente deu as costas. Os passos pareceram se rastejar, o tempo se arrastar, a visão não servia para nada, não sabia para onde ia.
Acordou em sua cama, sentia no rosto um caminho seco de lágrimas. Tirou Abra da Pokébola e explicou tudo. No mesmo instante ele sumiu com o Teletransporte. Só voltou de noite, abatido. Foi procurar Hud, mas era evidente que não o encontrou.
Os dias passaram e diariamente Abra se empenhava na busca de seu dono Voltava de noite para Lucy, sem nem uma pista do paradeiro. Ideias começaram a invadir a mente de Lucy. Por que Hud fugiu? Por que preferiu passar os dias atormentado?, perguntava a si mesma. A inquietação se instalou aos poucos e se tornou incômoda. Precisava fazer algo.
Depois de anos, decidiu: Iria começar uma jornada em busca de seu irmão. Não era possível que ele tivesse escolhido fugir. Precisava investigar isso mais a fundo, e se por ventura ele realmente fugiu por vontade própria... bem, pelo menos ela poderia dizer que fizera algo para acabar com aquilo que oprimia e a inquietava tanto. Pelo menos teria uma resposta.
Comunicou seu pai da escolha, mas ele negou que ela saísse de casa.
— Você sabe que vai dar continuidade nos negócios da família, então eu não vou permitir que saia! Tem que ficar aqui para continuar aprendendo tudo que deve! — rechaçou Santiago. — E pra quê você vai mexer nisso? Para se machucar mais? Para nos machucar, ainda mais?!
Naquela mesma madrugada, Lucy se aprontou. Colocou tudo que precisaria dentro de sua mochila: Cobertor e doces. Vestiu um pulôver que ficou grande demais, mas era muito macio e quente, então bastava. E também escreveu um bilhete para o pai:
Por favor, eu preciso achar Hud, para ouvir da boca dele que não quer mais conviver conosco. Não me impeça, mandando pessoas para achar e me trazer de volta. Depois que encontrá-lo, prometo que independente da resposta que ele der, vou fazer o que você quiser. Prometo que darei continuidade no trabalho da família. Mas antes preciso saber o que acontece com Hud e como ele está. Te amo.
Lucy
E é verdade. Lucy ama seu pai, mesmo ele sendo tão explosivo com os filhos.
Pegou a Pokébola de Abra e saiu às escondidas do terreno da família. A mansão fica isolada no ponto mais distante de Granluz, e não tem vizinhos por perto, era apenas cercada por árvores e pela estradinha de terra batida. Depois de andar alguns minutos, chegou ao centro da Cidade, com seus postes de luz iluminando as ruas e suas árvores tomando grande parte da calçada.
Ao virar numa das ruas, deu um encontrão em alguém e os dois caíram. O capuz da blusa do garoto escorregou de sua cabeça e mostrou o rosto de alguém bochechudo.
— D-desculpe! — gaguejou ele, levantando Lucy.
— Tudo bem, eu estou bem — respondeu ela, sorridente. — Você é bem pesado, viu?
Ele riu. A amizade foi quase que momentânea. Foram a uma sorveteria 24 horas para conversarem. O nome do garoto era Benjamin, mas ele preferia que o chamasse de Ben. Amanheceu e já tinham conversado o bastante para saberem que os dois não tinham um rumo certo para a jornada, apenas errariam pela região Toran, em busca de seus individuais objetivos, que não tinham sido revelados. O acordo de caminharem juntos veio naturalmente e foi aceito de bom grado por ambas as partes.
Num certo momento, através da vidraça da sorveteria, Lucy viu um casal de Rocket caminhando rapidamente pela calçada. Jeremy. Não havia dúvidas que era ele. Algo naquilo chamou sua atenção.
— O dever chama. Me aguarde aqui na Cidade! — exclamou ela, se levantando e correndo para fora, atrás dos Rocket.
Viu-os machucando um Budew e um garoto salvando o pobre Pokémon. Também viu quando eles cercaram o garoto dentro do armazém abandonado. Teve que intervir, não deixaria que assassinassem uma vida apenas por "diversão".
Jeremy tinha mudado. Parecia nem ligar mais para ela, tanto que nem impediu sua parceira de machucá-la. Mas ouviu-o brigando, repreendendo a parceira por ter a jogado contra a prateleira. A visão escureceu. Desmaiou.
Ben a acordou e levaram o desconhecido para o Centro Pokémon. O garoto se chama Bernardo, mas disse para tratá-lo pelo sobrenome: Baker. Lucy teve que dar seu toque "lucynático" e comentou mais tarde que “Bake” era melhor.
Depois foram para a casa da Professora Petalia. À tarde saíram para a rota. De noite se aconchegaram na cabana de Ben. Os dois novos amigos eram legais. Lucy realmente adorou cada instante da presença deles, pois faziam ela esquecer as suas preocupações. Mas a noite sempre guardava surpresas e era conhecida por trazer as lembranças dolorosas da vida.
Lucy prometeu para si mesma, pela milionésima vez, que encontraria seu irmão, custasse o que custasse.
~×~
HOJE
AQUI ESTÁ ELA. Correndo atrás de Ducklett. Quem sabe aquele Pokémon não era a resposta de uma das milhões de perguntas que acumulam e perturbam Lucy?
Não sabe dizer quando foi que a areia tomou conta da grama. O barulho do mar reverbera à sua dianteira. Abruptamente as árvores sumiram, e o litoral se expandiu à sua frente. O sol cegou os olhos. O ar quente a atingiu, e ela esqueceu por um breve instante o ato de respirar. Ao longe, para a direita, algumas casas se elevam. Já ouvira falar delas. São propriedade de uma família de nadadores. Diziam que moravam ali há muitos anos e desde então os integrantes da família só tem aumentado.
Lucy despertou de seus pensamentos e voltou a correr atrás do patinho.
— Hey! Espere aí! — gritou Lucy. Ducklett virou o pescoço e soltou um grasnido de pânico ao finalmente notar que a garota o tinha seguido até ali.
Ducklett foi na direção do mar, onde um Milotic submergiu das águas. Olhando mais atentamente, Lucy pôde ver que uma mulher está montada às suas costas, com os braços envoltos no pescoço de Milotic. A mulher é esplendorosa. Usa um biquíni vermelho em seu corpo magro, mas com curvas que daria inveja em qualquer outra pessoa. Os longos fios de seu cabelo loiro estão molhados. Sua pele bronzeada mostra a típica coloração de alguém que mora no litoral. Também usa um cinto, onde algumas Pokébolas estavam presas.
Ducklett voou entre as ondas e chegou até onde a mulher e Milotic estavam. Grasnou em desespero para sua possível líder, apontando para Lucy. A mulher assentiu e guardou Ducklett na Pokébola.
Lucy por sua vez, parou ao notar o olhar penetrante da desconhecida. A mulher murmurou algo e Milotic a levou até a orla do mar. Desceu de suas costas, ainda olhando atentamente para Lucy e a chamou para se achegar.
Cautelosamente, em dúvida se confiava ou não, Lucy caminhou até onde a mulher se encontrava. Só agora percebeu que ela usava óculos transparente, próprios para natação, que impedia a água entrar em contato com os olhos.
Milotic a observava e ele era... lindo. Sua beleza era tão impressionante que era impossível não notar. A mulher sorriu e passou a mão espalmada na pele do Pokémon.
— Venha, pode acariciá-lo — disse ela.
Com cuidado, mas com uma grande admiração, Lucy acariciou a pele de Milotic. Estava gelada e refrescou o palmo de sua mão.
— Que tal uma pequena viagem? — perguntou a mulher. — Suba em suas costas. Milotic adora levar as pessoas numa aventura pelo mar!
Lucy olhou assustada para a mulher. Não a conhecia, e como podia se assegurar que não era uma psicopata?
— Mas antes, coloque isto — disse ela, tirando os óculos e entregando a Lucy. — Ora, vamos! Tenho certeza que você vai gostar!
Lucy pegou os óculos, ainda em dúvida. A voz da mulher transmitia segurança. Ao olhar para Milotic, as dúvidas se esvaíram por completo. Rapidamente colocou os óculos, montou nas costas do Pokémon e se agarrou ao seu pescoço, antes que mudasse de ideia.
Milotic deu meia volta, e depois de nadar na superfície por um tempo, Lucy olhou para trás. A areia estava longe e a mulher acenava para ela; também fez um movimento de mergulho com as mãos. Lucy não entendeu e quando voltou a olhar pra frente, Milotic grunhiu e deu um impulso para o alto. Antes que engolisse água, Lucy trancou a respiração e o Pokémon mergulhou com agilidade na água fria, mas refrescante. O corpo de Lucy começou a se afastar do de Milotic, mas ela se agarrou com ainda mais firmeza em seu pescoço.
Olhou ao redor e na profundeza em que se encontravam, não tinha muito do que se ver. A água ainda era transparente, e na areia se via várias conchas. Assustado, um Mantine levantou de onde pousava, levantando uma camada de areia à qual estava coberto.
Milotic subiu e submergiu; Lucy pôde respirar. O Pokémon avançou cada vez mais para longe – tanto que quando olhou novamente para trás, Lucy não pode avistar e encontrar a desconhecida — e mergulhou novamente. Dessa vez a água ao redor estava com um tom azulado. Rente ao chão, vários corais e Corsolas se instalavam. Naquela parte havia tantos Pokémon aquáticos ao redor, que Lucy sequer conseguiu distinguir todos. Tudo era muito lindo. Lucy ficaria sem ar se já não o tivesse prendido.
A água se tornava mais escura, conforme Milotic ia cada vez mais fundo. Por fim, a pressão se transformou em algo insuportável. Lucy cutucou Milotic com o pé e ele entendeu. Subiu e submergiu rapidamente.
— Uau... Agora vamos... voltar. Minha respiração não aguenta mais — disse Lucy, ofegante.
Ao chegar à orla, desceu das costas do Pokémon.
— Eu sou Sue — se apresentou a mulher. — Posso dizer que é um prazer te conhecer.
Lucy espremeu os cabelos e sorriu.
— Sou Lucy Gwinterland. Também é um prazer — as duas apertaram as mãos.
— Estive fora por um tempo, mas voltei a morar aqui há alguns anos. Sou filha do líder Velho do Mar. Vamos entrar? Está quente demais aqui — convidou Sue. Lucy concordou e a seguiu.
A aldeia era composta apenas por duas fileiras de casas, mas estas eram bastante numerosas, criando um longo corredor de areia que as dividiam de cada lado. As casas eram todas iguais, térreas e preenchidas de azulejos por dentro e por fora. Sue cumprimentou alegremente cada uma das pessoas que viram. Entrou numa das casas e Lucy a seguiu. O incrível é que ali dentro é realmente fresco.
— Aqui todos somos uma só família de nadadores. Também pescamos para sobreviver, e vendemos muito bem, por sinal. Todos da região adoram carne de Pokémon peixe — continuou Sue, entregando uma toalha para Lucy. — Tome um banho de chuveiro, tenho roupas que servirão em você.
— Acho melhor não. Tenho que voltar para meus amigos. Eles devem estar mortos de preocupação.
— Ah, é? Amigos? Me conte mais um pouco sobre eles — Sue convidou Lucy para se sentar ao seu lado no sofá.
Lucy contou desde o começo. Algo em Sue transmitia — além da segurança -, um sentimento de cumplicidade e compaixão. Parecia que ela sofria junto, enquanto Lucy narrava. Seu semblante se preocupou quando Lucy contou sobre o irmão.
— Então era isso que Ducklett quis dizer quando voltou apavorado, alguns anos atrás. E eu pensei que não era nada demais. Hud havia sumido... – murmurou Sue.
— Como?
— Oh, nada querida. Continue.
Lucy voltou a narrar e a expressão de Sue continuou se modificando a cada história. Tornou-se impaciente quando o pai entrou no meio, e feliz quando Ben e Baker apareceram na história. A reprovação foi evidente quando Jeremy foi mencionado. Sue parecia compreender completamente Lucy, virou sua confidente, sua amiga momentânea.
— É, querida. A vida não é fácil pra ninguém. A minha não deixa de ser complicada. Tive que perder os filhos, pois minha família de nadadores foi ameaçada. O mais difícil é que ela foi ameaçada pelo próprio pai de minhas crianças.
Seguiu-se um silêncio, mas Sue o quebrou, continuando:
— Preferi largar meus filhos a perder um único membro da família, até porque não há nada mais doloroso do que dar para a terra alguém que ama. Decidi que era melhor me afastar dos filhos e continuar com a família inteira, do que não ter toda a família de nadadores e ainda por cima não ficar com os filhos...
— Você mora sozinha nesta casa? — perguntou Lucy.
— Não, eu moro com meu pai. Falando nisso, olha ele aí — respondeu Sue, apontando com a cabeça para a entrada da casa.
Um senhor, de corpo robusto, pele bronzeada e cabelos brancos, passou pelo umbral da porta de entrada. Sue apresentou a garota. Ele cumprimentou Lucy e se apresentou:
— Sou o Paul Swimmer, o atual líder desta família: A família Swimmer. Mas por uma brincadeira de mal gosto, me apelidaram de Velho do Mar — falou, passando as mãos nos cabelos brancos. — Espero que não, mas se você se assustou com a informação de que todas essas casas pertencem a somente uma família, fique sabendo que só eu, tenho treze filhos. E ainda tenho mais três irmãos com a sua renca de filhos. Pode parecer assustador, mas somos gente boa. Adoramos o mar, lagos, rios e cachoeiras, e rechaçamos as piscinas artificiais!
Lucy riu. A forma como Paul recitou aquele final, quase de forma poética, fez do seu discurso algo totalmente tosco. Sue também riu.
Lucy tomou um banho de chuveiro, vestiu as roupas limpas que Sue lhe dera e jantou com os dois novos conhecidos. Sue impediu que Lucy fosse embora tão tarde.
— Se eu permitisse que você fosse, tomaria sua vida como uma responsabilidade minha, afinal você passou a tarde comigo. Não toleraria que algo acontecesse com você, então trate de se aquietar e dormir aqui!
No dia seguinte, Lucy acordou junto com os donos da casa, tão cedo que nem o sol tinha nascido. Juntos, tomaram o café da manhã.
— Nunca tinha visto o mar... — disse Lucy. — E sabem de uma coisa? Não sei nadar.
— Não tem problema, hoje mesmo você aprende! — exclamou Sue.
— M-mas...
— E sabe pescar? — perguntou Paul, o Velho do Mar. Lucy negou. – Não tem problema, hoje mesmo você aprende.
— Então... acho que vou ficar aqui só mais este dia — falou Lucy, com um sorriso.
Acabou que ela ficou, além deste, mais um dia no litoral. Nesse tempo aprendeu mais que nadar e pescar. Aprendeu o quão bom era estar no meio de uma verdadeira família. Conversou com todos que esbarrou na única rua e compartilhou o mar com muitos Swimmer. Nesses dias se desligou do mundo e de suas responsabilidades.
Ao amanhecer o terceiro dia em que estava ali, ganhou de presente uma vara de pesca de Paul.
— Ela pode ser dobrada várias vezes e guardada até mesmo no bolso da calça! — avisou ele.
Lucy segurou o presente e agradecida, deu um abraço intenso no líder dos Swimmer.
— Obrigado, Velho.
— Não precisa agradecer. E não me chame assim, estou na melhor idade! Todos daqui me chamam de Vovô Swimmer, então o mesmo vale para você!
— O.k., Velho.
Paul riu e bagunçou o cabelo de Lucy.
— Uma recém-nadadora não pode viver sem um Pokémon tipo Água. Vem comigo! — disse Sue, puxando Lucy pela mão.
Levou-a para frente do mar. Deu uma Pokébola para Lucy.
— O que vou te ensinar é um ritual que somente integrantes da família Swimmer usam — começou Sue. — É algo que passa de geração em geração e por enquanto só integrantes que tem sangue Swimmer, conseguiram completar o ritual. Mas acho que vale a pena mostrar para você, nem que seja só uma tentativa. Com sorte, quem sabe você consegue usufruir dela.
— Olhe para o mar — ordenou Sue, enquanto ela mesma fazia para demonstrar. — Feche os olhos... Sinta o sol na pele... A leve brisa que vem do mar... Ouça as águas falando com você, enquanto rebentam...
Suspiraram, no silêncio acolhedor do momento.
— Agora ouça uma voz que te chama... — continuou Sue. — Ela vai te dizer onde se encontra.
Depois de alguns minutos de silêncio, surpreendentemente, uma voz pareceu sussurrar no ouvido de Lucy, a convidando. Abriu os olhos. A voz vinha da floresta. Girou nos calcanhares e correu para lá.
— Isso! — gritou Sue, correndo atrás dela. — Mas... Espere. O mar fica ali atrás.
— Eu sei. Mas a voz vem dali.
Entraram na floresta. Lucy ainda estava sem direção, não conseguia ter a certeza de que direção tomar. Pulou um tronco caído, desviou e rastejou no chão para não encostar e rasgar a pele em espinheiros. Abriu num emaranhado de árvores com cipós pendidos de seus galhos e seus pés pararam abruptamente. Seus olhos se encheram com a beleza do lugar.
— A Clareira da Paz? — indagou Sue, atrás de Lucy, boquiaberta. — Puxa, garota...
Uma clareira aberta e muito extensa se materializava ali. A grama era muito verde e brilhava. Partículas de pólen flutuavam sem direção certa. Flores de diversas cores coloriam com alegria algumas áreas aleatórias. Um rio límpido que refletia a luz do sol, cortava a clareira no ângulo superior direito, descia, ia levemente para a esquerda e subia novamente para o norte sumindo entre as árvores, formando um U e isolando apenas um pedaço de terra de toda a clareira. Vários Pokémon brincavam uns com os outros, enquanto outros voavam e alguns até se arriscavam no rio. Mas Lucy andou até um canto escondido, onde havia um lago que parecia ser bem fundo e de onde nenhum Pokémon se aproximava. As bordas eram barrentas e na parte rasa da água, algo se mexeu e saiu debaixo da camada de barro que estava escondido. Chacoalhou dentro da água para tirar o barro e se mostrou. Caminhou e parou na margem do lado. Virou a cabeça para o ombro, na tentativa de entender o que aquelas duas estavam fazendo ali.
— É este! — disse Lucy.
— Um... Wooper? — perguntou Sue, incrédula. — Bem... O.k., mas a chance é única. Só se ouve a voz de um Pokémon uma vez na vida. Então é agora ou nunca. Se não pegá-lo, infelizmente estará fadada a ser uma treinadora comum. Este será seu companheiro para o resto da vida, terão uma forte conexão, assim como eu tenho com o meu Milotic!
— Sim! Pokébola, vai!
Lucy lançou a Pokébola tão forte que bateu na cabeça de Wooper, desacordando o Pokémon sem precisar de um verdadeiro combate. A Pokébola recolheu o Pokémon, boiou ao bater na água, piscou algumas vezes e reteve o alvo. A garota pegou a Pokébola.
— É isso aí! – Lucy festejou, mas parou de repente, estava atenta, parecia ouvir algo. — Não, espere...
A água do lago começou a vibrar. Algo subia numa velocidade incrível. Um Pokémon enorme submergiu e a água cercava e caía de seu corpo. Em pouco mais de um segundo, as duas puderam perceber que era um Gyarados, que olhava para Lucy num misto de fúria e desafio.
Por sua vez, Lucy olhou para a Pokébola em sua mão e depois para Gyarados.
— Hey... Não era Wooper... Eu me enganei, a voz que ouvi era a do grandão aí — murmurou Lucy, decepcionada. — Vamos, Sue, me dê outra Pokébola.
— S-se enganou? — gritou Sue, com os olhos arregalados. — Eu não tenho mais Pokébolas!
— Como assim?
Vendo aquela discussão, Gyarados desistiu e soltou um jato de água com uma força que além de derrubar as duas no chão, as arrastou por alguns metros, sufocando e as fazendo engolir água. Lucy ralou seu cotovelo, joelhos e ombros que foram seguidos de uma ardência superimcômoda. Quando as duas levantaram, Gyarados já havia sumido na profundidade do lago.
— Ah, não! — gritou Lucy em desespero.
Correu e pulou no lago atrás de Gyarados. Quando ia mergulhar, o braço de Sue a agarrou e puxou de volta para a grama.
— Está louca? Existem muitas criaturas perigosas ali. Você seria puxada para o fundo do lago e despedaçada. E serviria de alimento para alguns Pokémon que sequer foram registrados pelos cientistas! Agora já era! Eu disse que a oportunidade era única. Pelo menos você não vai voltar de mãos vazias.
— Mas este Wooper desmaiou apenas com a "pokébolada" que dei nele! Isso mostra o quão é fraco!
— Deixe disso! Se você treiná-lo bem, ele poderá se tornar tão forte quanto qualquer Pokémon — disse Sue com um belo sorriso no rosto, tentando animar Lucy. — Agora vamos voltar. Não há mais nada para fazer aqui.
Emburrada, Lucy concordou e voltaram para a propriedade Swimmer. Depois de um banho e colocar de volta sua própria roupa, com boina e tudo, Lucy informou que tinha ficado tempo demais ali e que era tempo de ir embora. Comentou dos amigos que deviam estar preocupados, para dar ênfase ao que dizia. Despediu-se de todos os vários Swimmer.
Paul e Sue a levaram para frente da aldeia para se despedirem.
— Bem... Foi ótimo passar esses dias aqui. Foi uma experiência inesquecível. Só tenho a agradecer por terem me aturado — disse Lucy
— Imagina. Foi um prazer conhecer uma garotinha tão boa como você — declarou Paul.
— Obrigado, Velho — Lucy sorriu ao ouvir o elogio. — Bem, tenho que ir. Obrigado por tudo.
Paul e Sue assentiram e deram um tímido "adeus". Lucy deu as costas e andou na direção da floresta, pelo caminho de onde houvera chegado. Olhou para trás e num ímpeto, deu meia-volta e correu para os braços de Sue, dando um abraço apertado e sincero. Sue retribuiu.
— Prometo que voltarei e trarei meu irmão, para que vocês possam conhecê-lo.
Deu outra meia-volta e desta vez correu sem olhar para trás, e entrou na floresta.
— ENTÃO ESSA É A GAROTA... Uma pena que não percebeu nada — disse Paul, enquanto viam Lucy correndo e entrando na floresta. — Uma pena que não percebeu que somos sua família...
Sue conversou com seu pai e juntos, concordaram de não falarem isso diretamente para Lucy. Afinal, se Santiago descobrisse, poderia voltar a atormentar os Swimmer e de nada adiantaria terem se preservado esse tempo todo.
— É... — murmurou Sue, secando uma lágrima que desceu em sua bochecha. Só ela sabia a dor que sentia dentro do peito. — Uma pena.
LUCY SORRIA; SENTIA UMA alegria que há tempo não provava. Tirou Wooper e pediu para ele ficar de olho caso algum Pokémon selvagem os atacasse.
Chegou a Baboose e encontrou Baker e Ben. Este último estava com um inchaço tão grande na testa que foi impossível não zombar e rir dele.
A partir de agora, em uma cidade nova, começaria a perguntar aos moradores se por acaso tinham visto Hud em algum momento. Tinha uma foto do irmão guardada dentro da bolsa, se alguém o viu, seria fácil o identificar pela fotografia. Começaria a investigar o paradeiro do irmão.
Em relação ao tempo que ficou fora, Lucy não disse nada para os dois amigos. Preferia guardar aquilo para si mesma, pelo menos por enquanto.
Paul e Sue estavam enganados. Lucy não era tão tola a ponto de não ter percebido. Tudo se encaixava perfeitamente.
A primeira evidência: O sobrenome da família de nadadores, Swimmer.
Ainda não acreditava que seu pai ameaçou Sue e sua família, caso levasse Lucy e seu irmão. Mas também não desacreditava. O pai era conhecido por conseguir tudo que queria, mesmo que pra isso usasse meios errados. Mas no momento, Lucy não deixou ser levada por esses pensamentos. Estava feliz demais para que isso estragasse sua felicidade.
Decidiu ser “em partes” uma nadadora. De agora em diante, capturaria somente Pokemón tipo Água.
Lucy admite para si mesma que passou tempo demais no litoral. Mas foi tão bom, tão aconchegante, que não percebeu os dias passando. O contato com sua recém-família descoberta de nadadores foi algo impermutável.
Não trocaria a felicidade de passar os dias ao lado de Sue por outro qualquer. Não trocaria o momento de amor que passou com sua mãe, por nada.
Portanto, aquele Ducklett sempre esteve os observando para relatar depois tudo a Sue. Para que uma mãe inquieta e aflita, soubesse como que foi cada dia dos filhos. Uma mãe que nunca deixou de se preocupar, que sempre quis estar ao lado de Lucy e Hud.
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