Notas iniciais
Apenas uma tentativa, quem sabe nao da em alguma coisa

Certos homens caminham pela luz, envoltos em rigorosos conceitos morais e mergulhados em generosas doses de positivismo, já outros espreitam na sombra, completamente livres de escrúpulos e atraídos por um mordaz caráter que em alguns chega a ser sádico.

Cresci entre membros dos dois lados, atingindo a maturidade como um homem de humor ácido e conduta duvidosa, mas que mesmo assim nutre um punhado de valores fortes como o aço das diversas próteses metálicas que se fundem ao meu corpo.

Faziam exatos vinte e dois dias desde que havia saído da ultima estação, embarquei em minha nave e tracei uma rota. Estava saindo do atribulado sistema de Hermes e viajaria direto até um esquecido planetinha chamado Musphinda, onde uma pequena milícia alienígena havia contratado meus serviços.

Que serviços seriam estes? Bom, considere-me um pau pra toda obra, e ao longo de 50 anos (de acordo com o calendário da tão endeusada Terra e seus devotos) havia conseguido compor um modesto leque de habilidades.

De volta ao recluso grupo rebelde, o bando lutava para que a abolição da escravatura fosse revogada em seu planeta. Haviam me contratado por meus serviços logísticos prometendo uma quantidade considerável de créditos e alguns itens de valor se os ajudasse a tomar um posto avançado do governo local. Fazendo as contas isso compensaria um mês ou dois de viagem pelo imenso vazio negro.

Os motores de mana ronronavam calmos, não era prudente gastar muito das baterias a esta altura. I.A.N (Inteligência Artificial de Navegação) administrava com perfeição estes aspectos técnicos, deixando para mim pouco a se fazer. Me encontrava na cabine de controle, sentado em uma cadeira de algo que um dia já fora veludo vermelho enquanto admirava o brilhar das estrelas ao longe. Minha moral estava alta, os suprimentos estavam cheios, a nave funcionava da maneira que deveria, e até meu corpo havia resolvido trabalhar apropriadamente para variar. Meu sorriso bobo foi interrompido pelo zumbido baixo dos alto-falantes, que anunciavam que Ian iria compartilhar algumas palavras.

— Porquê você esta sorrindo feito um rapaz que tirou a virgindade de uma moça burra?

Eu haviao havia programado para agir como um amigo de bar, já que viajava sozinho precisava de alguma companhia positiva, e já que era quase tão máquina quanto ele não vi razão para sermos meros colegas de viagem.

— Sorrio porque sei que no final da rota recebo meu dinheiro! — Exclamei com um brilho nos olhos — Isso não é razão o suficiente?

Silencio momentâneo, preenchido pelos constantes bipes e cliques da nave.

— Depende do ponto de vista Reed, você vai ajudar um bando de criminosos em sua nobre luta por uma Musphinda mais escravista. Sente-se orgulhoso disso?

Notei o falso moralismo, Ian era parecido comigo em muitos detalhes, então pude perceber o tom jocoso por detrás do discurso sério. Com isso em mente, comecei a rir antes de prosseguir, ele acabou por juntar-se a mim na gargalhada.

— Ora vamos Ian, fodam-se eles. Que briguem entre si até rachar aquele planeta no meio! Eu entro, digo pra onde apontar as armas, e dou um tapa na bunda de cada um para que comessem a correr. Depois disso pego meu dinheiro e saio! Não mato ninguém.

Ele continuou a rir por alguns instantes.

— Esta certo. Aquela raça mal tem colônias por ai, e são tão atrasados que até hoje seus habitantes permanecem no planeta natal, parece que a religião deles abomina a viagem interestelar. Não me admira cogitarem o retorno ao escravismo.

Resmunguei em concordância.

— Religião. — Disse com ironia — Depois que começaram a usar mana pra carregar as coisas todo mundo quer ter sua fé.

Mana, a energia vital produzida por todos os seres. Uma fonte limpa e renovável, amplamente utilizada. Foi isto que nos tirou da terra, embora pareça coisa de conto de fada foi descoberta cientificamente. Todo ser vivente a produz e pode aprender a usar (coisa que seduziu muitas pessoas e criou diversos conflitos) mas alguns, como eu, preferem não trabalhar muito com forças tão voláteis. Não me leve a mal, mana é útil horrores, é uma habilidade indispensável, mas dizem que quem se aprofunda demais nisso começa a ver coisas, e já estou bem contente com a visão infravermelho do olho protético, portanto minha relação com ela se limita a carregar minhas baterias e alguns poucos truques.

— Diz o homem que bate na lataria da nave para afastar a má sorte.

Tornei a grunhir em resposta, este era um método surpreendentemente eficaz de comunicação.

— Mudando de assunto Nate, não é por nada não — Prosseguiu Ian em um tom apreensivo — Mas fazem quarenta e oito horas que você não se banha.

Ao ouvir isto senti um misto de vergonha e revolta, passei a mão no rosto e cheirei minha camisa. Infelizmente as suspeitas se confirmaram, eu ressentia a suor.

— Porra, pior que é verdade, ao banho, procure não bater em nada.

Levantei-me da poltrona de controle e andei ate a porta da cabine, que deslizou alegremente para permitir minha passagem revelando os sinuosos corredores da nave, tomei a primeira a direita e me dirigi ao banheiro para um necessário banho.

A respeito da nave, ela não é nada de excepcional, um antigo modelo Nihilus negociado a muitos anos em troca de um pequeno favor, fiz questão de mantê-la atualizada com os recursos que costumavam cair no meu colo ao longo das viagens, então no final das contas ela parecia uma versão anêmica e metálica do ancestral monstro de Frankenstein. Também não era grande, constituída por um compartimento de carga nos fundos espaçoso o suficiente apenas para algumas mercadorias, uma ala "residencial" com dormitório, cozinha e banheiro. Por fim a cabine de comando. Desta ultima eu me orgulhava, bato muito nesta tecla mas é verdade ser um ciborgue tem suas vantagens, entre elas estão os conectores neurais. Com apenas um implante simples na minha nuca eu poderia controlar aparelhos eletrônicos através de fluxo variável de mana, isto era uma mão na roda já que excluía 95% da aparelhagem de uma cabine comum, portanto a minha apenas tinha a cadeira por onde eu me conectaria, e alguns itens simples de decoração. Isto define muito bem a cápsula de ar voadora que eu carinhosamente chamei de casa ao longo de décadas.

Caminhei pelos corredores em direção aos meus aposentos, vira e mexe olhava para as escotilhas admirando a imensidão negra que ameaçava engolir-me por puro ciúmes do meu namoro com as estrelas.

Cheguei ao banheiro que comodamente já encontrava-se com uma quantidade confortável de vapor e água, olhei-me no espelho correndo os olhos pelas faces, distantes do ar da jovialidade, três profundas linhas marcavam sua testa como os anéis de uma árvore, sua barba que um dia já fora negra como o a imensidão do espaço agora ostentava um pontilhado grisalho que dava ao conjunto um ar severo. Seu rosto gasto pelo tempo era coroado pelo arremedo mecânico usado como substituto para o olho esquerdo, que fazia companhia para seu braço e perna no lado direito, também impregnados pelo frio metal. Embora tentasse, a idade ainda não havia conseguido deixa-lo inválido, mesmo que tivesse tomado parte de seu fôlego e colocado no lugar uma barriga de respeito.

Satisfeito de esperar, despi-me e entrei na banheira fumegante, sorrindo com satisfação banhei-me e acabei por adormecer, reclinado confortavelmente na água que no momento estava morna. Foi um sono tão singular que mesmo na banheira pude sonhar, sonhei com dinheiro, sonhei com o que me aguardaria do outro lado do espaço, me permiti sonhar com o toque de uma fêmea. O sonho foi longo o sufciente pra tornar-se pesadelo, vi fantasmas e demônios a me perseguir.

Meu sonhar foi cortado com um impacto que fez a agua toda espirrar no chão do banheiro, acordei assustado e confuso levantando-me. Por detrás da porta pude ou vir a sirene da nave, indicando que algo não estava direito. Vesti-me com uma camisa e calça preta com um pé de bota (o outro não seria necessário não é mesmo) e sai cruzando meu quarto e dirigindo-me pelo caminho de volta à cabine, enquanto caminhava, esbravejava.

— Ian mas que porra é essa! Estamos no vazio do espaço no que diabos você conseguiu bater?!

Fui respondido com uma estática frenética, consegui distinguir umas poucas palavras entrecortadas.

— Cuidado Reed!

Não tive tempo de ponderar, senti mais um solavanco e entendi o que estava acontecendo, minha nave estava sendo abordada.

O solavanco seguiu-se de um silenciar da estática de Ian, que foi substituído por um grave zumbido, depois de alguns segundos uma voz soou nos alto falantes, grave e ríspida.

— Nathaniel Reed! Sua nave foi abordada pela patrulha do sistema Hermes, desative qualquer sistema de defesa e largue mão de armas, abra a porta de seu compartimento de carga e não apresente resistencia. Qualquer indicio do contrário será respondido com intervenção armada.

— Maldição! — Pensei comigo mesmo.

O meu ramo de negócios nem sempre faz de voce o homem mais querido entre as autoridades legais, e no meu caso eu tinha sim uma ou duas acusações por contrabando ou porte de arma ilegal, o que me renderia muita dor de cabeça. Mas eu não sou idiota, resistir a uma abordagem assim resultava na invasão de um batalhão inteiro cheio de soldados usuários de mana enfiados nas armaduras potentes que eles chamam de escudos-de-bruxo. Com uma tensão firme instalada em meu corpo, me dirigi correndo até o compartimento de carga, onde ordenei a abertura das comportas e apresentei-me de costas com as mãos esticadas acima da cabeça.

Ouvi um ressonar que obviamente vinha da outra nave, senti uma série de miras apontando para minha nuca e vi a sombra de um escudo-de-bruxo aproximando-se, cruzando o corredor que ligava as duas naves parando por fim na entrada da minha nave, a mesma voz que antes discursara disse:

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.