O Vampiro Vincent
4 Paris
Fomos à Paris. O amor e a curiosidade por aquela cidade cresciam cada vez mais em meu peito, fazendo meu coração acelerar toda vez que Joseph citava que estávamos chegando perto.
Joseph mostrava-se tão empolgado quanto eu. Perguntei-me se ele já havia visitado Paris alguma vez. Provavelmente sim. Certa vez que perguntei sua idade, ele respondeu que tinha algo entre um século e não era de ficar contando essas bobagens.
Quando finalmente chegamos, depois de 5 dias viajando de noite e se escondendo da luz do dia, Joseph começou a cantar uma música em inglês, como se estivesse declamando todo seu amor por aquela magnífica cidade. Não sei como, mas entendi perfeitamente seu inglês. Eu costumava ouvir várias palavras em inglês nos pensamentos de minhas vítimas... Talvez fosse isso.
— Vincent – ele gargalhou logo após de declamar meu nome – Bem vindo a Paris! – e continuou a rir – E, você não vai continuar usando essa capa negra nojenta aqui, não é? – perguntou ele, revirando os olhos – Temos de conseguir alguma roupa para você...
— Gosto de minha capa preta – disse, sem mudar o tom de minha voz.
— Mas não gosta mais! Pelo menos não vai gostar em Paris! – ele reclamou – Aqui é uma cidade onde as pessoas inovam! – ele chegou mais perto de mim, sussurrando num volume que nenhum mortal poderia ouvir – E, aqui, muitas pessoas reconhecem a existência dos vampiros... Você daria muito “na cara”.
Impressionantemente, Joseph conhecia até as lojas de roupas que abriam à noite em Paris. Questionei a ele porque não roubar de nossas vítimas, mas ele simplesmente respondeu que o enojava usar roupas velhas. E, se ele tinha tanto dinheiro, deveria gastar em alguma coisa.
Saímos da loja impecavelmente vestidos. Joseph me obrigara a comprar um terno. Disse que não se importava com que cor fosse desde que eu me vestisse bem. Escolhi um preto, obviamente. Ele suspirou de desgosto, mas jogou uma cartola na minha cabeça, dizendo que combinava.
Ele comprou uma daquelas blusas com mangas largas, colocou um colete dourado por cima e amarrou um laço negro na gola. Claro que ninguém se vestia assim por causa dos pais, eles certamente iriam reclamar da roupa, mas ele não tinha nenhum parente para se irritar, e, lendo a mente das mulheres, eu podia perceber que aquela roupa, sem dúvida, chamava a atenção delas. Deixou seus cabelos ruivos soltos e andava como se mandasse naquela rua. Arrancava suspiros de mulheres e ria toda vez que alguma delas pensava em algo a mais.
— Que tal um brinde? – perguntou ele, sorrindo. Levantou a garrafa de vinho que tinha pego em uma taberna qualquer – Um brinde... À Paris! – gargalhou ele, tomando grandes goles e estendendo a garrafa a mim. Peguei-a, bebendo um pouco. O vinho já não era tão gostoso. Não dava a mesma impressão que o sangue agora dava. Se bem que era quase a mesma coisa... Se você soubesse apreciá-lo, ele poderia se tornar agradável.
— Posso fazer uma pergunta? – disse, depois que devolvi a garrafa de vinho a ele. Ele parou de beber por alguns segundo, me encarando.
— O que é? – Joseph poderia parecer grosseiro quando falava dessa maneira, mas era apenas o seu jeito. Quando estava pensando em alguma coisa e eu o interrompia, ele agia daquela maneira.
— De onde você veio? – perguntei. Ele ficou me encarando por um bom tempo, perguntando-se porque eu tinha feito aquela pergunta. Talvez tenha ficado pensando numa boa resposta, pois a mesma foi um tanto poética.
— Não vim de lugar algum, nasci em todos ao mesmo tempo – ele sorria calmamente – Vim do sangue de várias pessoas, vim do amor de tantas mulheres... É impossível dizer de onde eu vim – ele olhava pensativamente para o céu, parecendo lembrar-se de cada uma daquelas cenas, de cada pessoa – Nasci da maldade de um homem, da pureza de uma moça... Realmente, essa é uma pergunta que não sei responder.
— Você não lembra onde nasceu? – perguntei, ignorando toda a poesia que ele tinha acabado de me dizer. Ele franziu o cenho.
— Claro que me lembro, Vincent! – revirou os olhos, ignorando-me e começando a andar com passos firmes, como se quisesse demonstrar que estava irritado.
Quis abrir a boca para perguntar de onde, mas não tive coragem. Segui-o e depois de alguns passos ele parou, virando-se para me olhar e soltou uma palavra:
— Londres.
Não falei mais nada, ele voltou a andar, como se aquele assunto o irritasse.
— Vou andar por aí, sozinho – eu disse, depois de alguns minutos. Ele olhou-me.
— Saberá onde vou estar – ele disse, apontando para um bordel. Pude ouvir as risadinhas das prostitutas que olhavam para ele, maravilhadas por sua beleza e por suas roupas que delineavam tão bem seu corpo.
— Está bem – concordei – Volto daqui uma hora, provavelmente. Não precisa se preocupar.
— Não ligo – ele disse – Só volte antes do amanhecer – e andou na direção das mulheres, acenando e sorrindo.
Pobrezinhas... Mal sabiam o que as aguardava.
Comecei a andar, balançando a bengala que Joseph havia comprado para mim inutilmente. Queria conhecer mais de Paris, mas sabia que o tempo era curto, então apenas dei algumas voltas por aquelas ruas de paralelepípedos, onde nenhuma carruagem se atrevia a passar. Ali era a zona mais pobre da cidade, vamos dizer assim. Os bordéis e as tabernas mais pobres ficavam por ali. Joseph gostava daqueles cantos, tinha as vítimas que ele desejava. As prostitutas tão bem arrumadas, os cavalheiros de classe média, os ladrões, os assassinos...
— O que faz por aqui, meu jovem? – perguntou uma mulher que usava um vestido vermelho que delineava bem seus seios e seu corpo jovem. Ela não parecia mais velha do que eu e era linda, talvez estivesse no auge de seus dezesseis anos. Seus cabelos eram negros e compridos, um tanto cacheados na ponta, seus lábios vermelhos, pareciam até um batom com mais brilho, ao mesmo tempo em que sequer parecia um batom.
Segurei-a firmemente, sem quase pensar. Ela era uma perfeita vítima.
Forcei sua cabeça para trás e quando meus caninos já estavam preparados para rasgar sua garganta, ela começou a gargalhar. Afastei-me por reflexo. Percebi, finalmente, que não podia ler sua mente.
— Oh, meu Deus! – sussurrei e ela permaneceu olhando-me.
— Vincent, não? – sorriu ela. Por acaso ela estivera me observando. Dei um passo para trás, ela aproximou-se ainda mais, encaixando uma de suas pernas no vão entre as minhas, sorrindo maliciosa. Beijou meus lábios e eu finalmente senti o que era aquele escarlate em seus lábios.
— Sangue – sussurrei, levando um de meus dedos aos meus lábios. Ela sorriu.
Uma vampira...
— Vincent – ela sussurrou meu nome como se pronunciasse uma súplica, era doce e cheia de esperança. Olhou-me com seus olhos azuis por segundos que pareceram horas. Colocou sua mão ao lado de meu rosto, passando a mão por ele, fechei meus olhos ao seu toque. Ela era delicada, perfeita.
— Qual o seu nome? – perguntei, ainda com os olhos fechados, enquanto ela delineava com seus dedos cada linha de meu rosto jovem.
— Charlotte – ela respondeu, sem prestar a atenção, ainda passando a mão em meu rosto. Afastou-se de repente, me fazendo abrir os olhos para olhar o que ela estava fazendo. Ela ficou olhando para o lado por um bom tempo.
— Há outro de nós aqui – ela me disse com os olhos arregalados. O jeito que ela agia comigo dava a entender que nós já nos conhecíamos há séculos, embora fosse exatamente o contrário.
— É apenas o... – eu comecei, mas ela me olhou em pânico, me fazendo parar de falar.
— Você o conhece? – ela estava com os olhos arregalados, se afastando um pouco.
— Acho que sim – disse – Deve ser apenas o Joseph, meu pai...
— Joseph...? Joseph? – ela questionou para si mesma – De onde conheço esse nome? – seus olhos se arregalaram por alguns segundos, mostrando-me a beleza e a delicadeza que eles possuíam – Aquele Joseph...? – pareceu assustada por longos segundos.
Aproximou-se de mim e colocou a mão em minha testa, fechando os olhos e entreabrindo os lábios. Minha mente pareceu abrir-se a ela. Me sentia mais leve, como se o enorme peso dos pensamentos estivesse sendo tirado de mim.
— Oh, meu Deus – sibilou, embora eu pudesse perceber pela sua expressão que ela não acreditava realmente nele.
— O quê? – perguntei, assim que ela afastou sua mão de minha testa, com suavidade.
— Joseph... É seu pai – parecia assustada – Meu bem, posso lhe fazer uma pergunta? – o jeito com que ela falava era o de uma mãe atenciosa.
— Claro – respondi. Não sabia negar quase nada, especialmente para uma mulher.
— Você começou a amar Paris do nada? Você começou a odiar sua irmã do nada também, não é? – o que ela dizia fazia sentido, apesar de não fazer. Oh, o que ela estava insinuando? – Vá até Joseph e peça para que ele conte sua história... Também peça a ele para lhe dar a resposta dessas duas perguntas que acabei de fazer.
— E... No que a história dele poderá ajudar? – perguntei, realmente confuso.
— Em muitas coisas, meu jovem... – suspirou ela – Agora vá e o encontre onde ele estiver. Ele não vai recusar se você pedir com jeito... – e ela de repente sumiu numa velocidade assustadora. Ela... Realmente era muito mais forte que eu.
Notas finais
Me desculpem por demorar a postar, estava ocupada... espero que gostem
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