O Valor de Uma Vida
1 Um Novo Dia?
Notas iniciais
A garota se encontrava em meio ao desastre, paralisada, mortificada. Lágrimas escorriam pelo rosto, seu corpo inteiro tremia. Mesmo que estivesse em risco ali, não era capaz de se mexer.
Não lembrava-se de como chegara ali, nem de como aquilo começara. Tudo era um borrão em sua mente, e tudo o que ela podia fazer era olhar as pessoas lutando entre si. Pensamentos incoerentes atravessavam sua mente, sem se agruparem de fato.
Por que todos estavam lutando? Não haviam zumbis. Por quê?
O sangue manchava a grama da campina, tornando-a escarlate. O sol estava a ponto de se pôr, criando sombras fantasmagóricas no local. E mesmo assim, a luta não parava.
Gritos. Tiros. Sangue. Baques. Seu mundo se resumira a isso. Fechou os olhos, caiu de joelhos no chão sujo. As mãos tapavam os ouvidos com força, as lágrimas escorriam. Gritos angustiados escapavam de seus lábios. E ninguém ouvia. Ninguém lhe dava atenção.
Ela abriu os olhos, varrendo o chão ao seu redor com eles. Por fim, achou o que procurava. Arrastou-se até o corpo que jazia no chão, e arrancou a arma das mãos frias. Ela apontou o objeto metálico para o céu cor de laranja, e atirou. Uma. Duas. Três vezes. E pouco a pouco, as pessoas pararam de lutar, e voltaram seus olhares para a fonte do barulho.
A garota, lentamente, ergueu-se, as pernas ainda trêmulas. Então, levantou a cabeça e encarou todos. Não havia como alguém não se comover com o desespero em seus olhos, mas aqueles não eram tempos comuns.
– Parem... Por favor, parem... Por quê? Por que vocês lutam entre si? Como podem desistir da humanidade assim, tão facilmente... Nós somos humanos, não... aqueles monstros! O que nos diferencia de um, é saber o valor de uma vida! É a compaixão! Se não a tivermos... Seremos iguais a eles!
As primeiras palavras foram pronunciadas fracamente, como um apelo, e aos poucos foram ganhando força, até se transformarem em gritos. Tudo o que sentia era transmitido ali. Não parava para pensar nas consequências, para ter medo, para sequer respirar. Ao final, tudo ficou em silêncio.
– Eu... eu não quero viver em um mundo assim. Se não existir união... se não existir bondade, do que adianta viver?! Eu não aguento... Eu não consigo. Prefiro morrer do que ver o meu mundo se transformar nessa sujeira.
A garota ergueu a arma e apontou-a para sua própria cabeça. Algumas pessoas, alarmadas, correram em sua direção, gritaram. Mas foi inútil.
Um tiro ecoou pela noite.
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O que poderia ter sido:
Um tiro ecoou pela noite. Uma arma caiu no chão. E a garota continuava de pé, com os olhos arregalados.
Do meio da multidão, um homem abaixou sua própria arma, que usara para acertar em cheio na da garota, derrubando-a antes que algo pior acontecesse. Diante dos olhares surpresos, ele se pronunciou:
– Você está certa. Eu também não quero viver num lugar assim. Por isso, que tal... tentar limpar a sujeira desse mundo? — O homem sorriu antes de continuar. — Aposto que outros também pensam assim. Alguém está com a gente?
Uma mão se ergueu timidamente. E então mais duas. E mais outras. Até que todas as mãos estavam erguidas no ar, sorrisos e olhares esperançosos tomando o lugar de gritos e sangue.
Os olhos da garota lacrimejaram novamente, mas dessa vez, de alegria. Não era o fim do mundo, afinal. Eles iriam reconstruí-lo, não importa o que acontecesse no caminho.
E enquanto um sorriso se alastrava por seu rosto, pela primeira vez desde que o apocalipse começou, o sol nascia novamente. E ela jurava que a luz nunca esteve tão brilhante.
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