O Valor Do Amor
11 Duquesa
Sem dúvida que ser duquesa tem as suas vantagens. Ou só tem vantagens, como diz Esme com um sorriso ao irmão.
Carlisle não poupa esforços para a fazer feliz. Manda vir costureiras francesas, as melhores de Paris, para lhe trazerem os melhores tecidos e fazerem os vestidos que estão na moda. Cabeleireiros franceses para lhe fazerem os penteados mais bonitos. Músicos franceses e italianos para tocarem para ela. Os melhores joalheiros para lhe fazerem todo o tipo de jóias. Os sapateiros para lhe fazerem os melhores sapatos. Manda remodelar o quarto dela ao seu pedido. Oferece-lhe jóias, bombons e flores quase todos os dias. Dá-lhe um cão de colo branco com o pêlo todo aos caracóis. Leva-a à ópera e ao teatro onde ela faz sensação com as melhores roupas. Leva-a a bailes em todas as casas da nobreza, a bailes de máscaras na corte, a salões de jogos onde ela aposta sempre uma pequena fortuna e ele limita-se a vê-la e a felicita-la quando ganha. Manda fazer um coche aberto para ela passear nas ruas de Londres. Organiza festas em sua casa a pedido dela. Manda vir um pintor para lhes pintar o retrato e o pôr no topo das escadas para toda a gente que entre o ver bem.
Esme também não se pode queixar que ele a deixe muito tempo sozinha. Todas as tardes passeiam juntos no parque e à noite jantam os dois para depois dormirem juntos. Carlisle deu-lhe o poder e o respeito que ela não tinha e cada vez menos as pessoas a chamam prostituta. As únicas que não mudam a sua opinião são Irina e Alice. Mas isso não incomoda Esme, tem tudo o que sempre quis. E é feliz.
- Um dia levo-te a Sheffield. – diz Carlisle uma tarde em que estão os dois na sua biblioteca, pois chove e não puderam ir passear.
- Sheffield? – pergunta com uma sobrancelha franzida.
- Tenho lá uma casa maravilhosa. Gostaria muito que a visses e me desses uma opinião. Podíamos decora-la de novo se fosse do teu agrado.
- Podemos lá ir. – concorda. – Mas, por favor, mais no verão. Não gosto nada de estar no meio do campo com tudo coberto de neve.
Carlisle sorri.
- Por acaso tenho saudades de viver lá permanentemente. Passei lá toda a minha infância, mas agora só vou lá de vez em quando. Também tens uma casa no campo, certo?
- Em Winchester. Não é nada de especial. Casa de burgueses. Mas gostaria muito de ver a tua. – diz para mudar de assunto.
- No verão podemos lá ir.
- Gostava ainda mais de ir a Paris. – diz. – Conhecer os monarcas franceses.
Carlisle sorri.
- Não será muito boa ideia nesta altura. O povo passa fome e está descontente. Mas posso levar-te à Alemanha, tenho uns amigos lá que gostariam de te conhecer.
Esme sorri.
- Não sei falar alemão.
Ele ri.
- Inglês está perfeitamente bem. Mas posso ensinar-te o alemão.
Esme entusiasmasse.
- A sério? Sabes falar?
- Fluentemente.
- Ensina-me. – pede. – Só sei francês e inglês e isso não fica bem numa duquesa.
Ele sorri.
- Chega perfeitamente.
- Começamos amanhã? Até porque agora no inverno não temos muito mais que fazer.
Ele sorri.
- Realmente não. Começamos amanhã.
Esme dá-lhe um beijo na bochecha.
- Vou ser uma aluna exemplar.
...
Esme entretém-se a tocar piano, coisa que adora fazer, enquanto Carlisle não chega. Foi à corte para uma reunião dos ministros e ainda não voltou.
Carlisle chega a casa e ouve o som do piano vindo da sala de música. Deixa-se ficar à porta a ouvi-la tocar. Nada mais poderia anima-lo. Encontrou a Alice na corte e desde que casou que os encontros dos dois não são nada agradáveis.
Quando a música acaba bate palmas.
Esme vira-se.
- Já chegaste.
Levanta-se para o receber com um beijo. Apesar de corresponder ela sente-o distante.
- Está tudo bem? – pergunta meigamente passando a mão no rosto dele.
- Não te preocupes.
- Preocupo-me, porque estás preocupado.
A verdade é que cada vez que o vê com um rosto mais preocupado ou um ar mais pensativo começa a preocupar-se também. No início pensou que era por ele poder estar a pensar que não devia ter casado com ela, mas agora percebe que se preocupa apenas por o ver preocupado. Acha isso um pouco estranho, mas a verdade é que ele merece, trata-a como uma rainha, melhor do que uma rainha talvez, pelo menos não tem amantes e quando a ama fá-lo com tanto amor que Esme se derrete com os beijos e os carinhos dele. De há uns tempos para cá até fala sem pensar naquilo que vai dizer.
- Encontrei a minha irmã na corte. – diz.
Esme percebe imediatamente. Sente qualquer coisa e percebe que é culpa. Sente-se culpada por ele se ter zangado com a irmã por causa dela.
- Porque é que não fazem as pazes? – pergunta.
- Enquanto ela não te tratar como mereces não há maneira de fazer as pazes.
Esme abraça-o tentando reconforta-lo.
- Vamos jantar? – pergunta. – E depois dormir?
Ele sorri.
- Desde que o faça contigo. Deixas-me tão feliz.
Esme sorri.
- Também me fazes muito feliz.
Dá-se conta que é a primeira vez que o diz com sinceridade.
...
- Eu não acredito! – exclama Esme. – Não acredito naquilo que vi.
- Tem calma. – pede Carlisle já desesperado pelas cenas de ciúmes da mulher.
- Disseste que ias encontrar-te com Eleazar, não com a Irina.
- Encontrámo-nos por acaso, amor.
- Por acaso? Achas que sou alguma criança para acreditar nessas desculpas?
- Esme, nós somos amigos.
- Amigos? Sabes que eu a odeio. Como podes ser amigo de alguém que odeio?
- Esme, querida…
- Não. Escusas de vir com as tuas lamechices. Mentiste-me.
- Foi por acaso.
- Por acaso? Pára de arranjar desculpas. Estás farto de mim, é? Fartaste-te de mim e por isso procuras a companhia de outras mulheres. E estás a faze-lo descaradamente.
- Eu amo-te.
- Então porque raio te vi a conversar com ela no parque?
- Já te disse que nos encontramos por acaso.
- Sou-te fiel, Carlisle. Sou a melhor esposa que podias ter e andas a trair-me com…
- Eu não traí ninguém. Eu amo-te, Esme.
- Pára de dizer isso. Como pudeste fazer-me isto?
Sobe as escadas em passos rápidos e fecha-se no quarto.
Carlisle suspira e senta-se no sofá.
Ela faz sempre estas fitas quando o vê com Irina. Será que não percebe que Irina é uma amiga?
Esme dorme sozinha nessa noite. Não gosta que Carlisle se encontre com Irina, mesmo que seja por acaso. Simula sempre uma cena de ciúmes quando os vê juntos. Mas esta noite está preocupada com outra coisa, preocupa-a que ele se apaixone por Irina e por mais estranho que pareça preocupa-a não por perder tudo o que tem agora, mas por o perder a ele.
De madrugada levanta-se e vai ao quarto dele. Costuma faze-lo apenas de manhã, pede-lhe desculpas e chora dizendo que o ama. Desta vez não aguenta até de manhã.
Abre a porta devagar e senta-se na cama junto dele.
Carlisle, que dormia, acorda sentindo a mão dela no seu cabelo. Vira-se e vê a sua Esme, a mulher que mais ama.
- Esme? Que fazes aí? Está frio para andares a pé só de camisa a esta hora. – murmura sonolento.
- Desculpa. – murmura Esme. – Fui uma estúpida. Uma estúpida por ter dito aquelas coisas ontem. Amo-te, tanto.
Carlisle sorri.
- Já nem me lembrava disso. Vem para aqui, ainda te constipas.
Esme mete-se dentro dos cobertores e sente os braços dele em volta do seu corpo e sente também as lágrimas nos olhos.
- Desculpa. – sem saber porquê começa a soluçar e não é a fingir. Chora com a perspectiva de o perder. – Amo-te. Desculpa.
- Então, amor. Também te amo. Amo-te tanto.
- Eu não mereço. – murmura. – Não mereço o amor que me dás. Não mereço o teu amor.
- Que disparate.
- E se eu não for quem tu achas que sou? – olha para ele com os olhos cheios de lágrimas.
- Dorme, amor. Não estás a dizer coisa com coisa.
- Promete que me amarás sempre. Independentemente daquilo que descobrires sobre mim.
- Claro que te amarei sempre. – Carlisle está cada vez mais confuso.
- Promete.
- Prometo.
Encosta os lábios aos dela num beijo apaixonado.
Esme adormece nos braços dele. Carlisle fica mais um tempo acordado. “Do que será que ela estava falar?” É a pergunta que paira na sua cabeça.
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